Pela breve explanação dos tipos teóricos de organização da indústria, é possível observar que em apenas três casos os preços se aproximam dos custos unitários: concorrência perfeita, concorrência monopolística e oligopólio de Bertrand. Cumpre dizer que tais modelos correspondem a simplificações da realidade, para as quais escapam as inúmeras complexidades das formas de organização existentes. É possível, por exemplo, que a rivalidade potencial (não efetiva) exerça papel fundamental para inibir eventual exercício de poder de mercado de firmas oligopolistas ou monopolistas. Dessa forma, a facilidade de importação e as baixas barreiras à entrada no mercado seriam incentivos para as firmas atuantes não elevarem os preços para muito além do ótimo de mercado, com vistas a não atrair a atenção destes potenciais rivais.
Outro exemplo de complexidade não incorporada em tais modelos é o grau de substituição com produtos alternativos. Em geral, mudanças tecnológicas constituem um fator significativo para alterar o comportamento do mercado, na medida em que tornam um produto antes não substituto apto para competir em outro mercado.
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Por fim, há que se ressaltar o papel do poder compensatório. Gailbraith (1952) identificou uma situação em que o poder de mercado do elo à jusante ou à montante na cadeia pode contrapor um poder econômico pré-existente. A existência de umequilíbrio de forças deve ser entendida como um mecanismo “auto-regulador” da economia, alternativo à concorrência. Logo, em mercados entendidos como "não competitivos" se poderia identificar um conjunto de fatores limitadores do poder de mercado, tornando-os mais próximos de um mercado "concorrencial".
Como consequência, não apenas os três tipos teóricos mencionados acima deveriam comportar a aplicação de modelos de learning curves orientados a preços, mas seria preciso realizar a avaliação completa das condições de concorrência e rivalidade para se determinar o grau de competição do mercado, adotando-se componentes da análise antitruste. Contudo, é importante reconhecer que, no setor de energia, a depender do segmento da cadeia e da fonte energética considerada, podem-se verificar características mais ou menos concorrenciais. Em tese, os segmentos de transporte (transmissão e distribuição) são marcados por características de monopólio natural. No transporte, os altos custos fixos podem ser diluídos com um elevado nível de entrega do produto. Em seu turno, a geração de energia, foco do estudo em tela, necessita de menor escala/escopo para se viabilizar. Contudo, a depender do estágio de maturação da produção do energético (o qual envolve a curva de aprendizado, o desenvolvimento tecnológico e a escala) e das condições de infraestrutura para se entregar a energia, os altos custos médios podem inviabilizar a existência de muitos competidores no mercado.
Assim, para se inferir o grau de concorrência, será preciso mensurar em que medida as empresas concorrem entre si ou, ao menos, têm um eventual exercício de poder de mercado restringido. Para tanto, na próxima seção serão investigados instrumentos de mensuração que vêm sendo utilizados pelas principais autoridades antitrustes ao redor do mundo e as aplicações para o caso do setor de geração de energia.
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3.2 Instrumentos antitrustes para avaliar o grau de concorrência de um
mercado
Há três elementos principais utilizados pelas autoridades antitruste norte-americanas, europeias e brasileiras para avaliar o grau de concorrência de um mercado: a concentração de mercado, envolvendo a definição de mercado relevante (em suas dimensões produto e geográfica), as condições de entrada e a rivalidade existente. Os instrumentos para a verificação da concentração de mercado envolvem medidas objetivas, como a participação dos quatro maiores ofertantes (conhecido como C4) ou o Índice Herfindahl-Hirschman (HHI), ambos tratados adiante. Em seu turno, os instrumentos de entrada e rivalidade, embora possam ter medidas numéricas objetivas, se valem de elementos menos formais também, atrelados às condições observadas no mercado. A seguir são apresentadas as formas de se definir o mercado relevante e como as autoridades vêm interpretando a delimitação do mercado relevante de energia. Também são mostradas as fórmulas de cálculo das medidas de concentração frequentemente utilizadas e como devem ser as análises de entrada e rivalidade. 3.2.1Definição de mercado relevante
Para definir o mercado relevante, primeiramente é preciso avaliar a dimensão do produto, isto é, identificar o produto ou os produtos que devem compor tal mercado para fins de análise da concorrência. A dimensão geográfica é obtida tendo como ponto de partida o delineamento do mercado relevante do produto. A seguir detalham-se os aspectos que definem e devem ser levados em conta na delimitação do mercado relevante do produto e geográfica.
3.2.1.1 Dimensão do Produto
Conforme a definição utilizada pela Comissão Europeia e disposta no Official Journal C 372, de 1997:
(...) Um mercado relevante do produto compreende todos aqueles produtos que são razoavelmente intercambiáveis ou substituíveis pelo consumidor em razão das características dos produtos, seus preços e suas utilidades. Um mercado relevante geográfico compreende a área em que as firmas ofertam produtos e nas quais as condições de concorrência são suficientemente homogêneas. (Comissão Europeia, 1997b). Tradução livre9.
9 Texto original: “A relevant product market comprises all those products and/or services which are regarded as
interchangeable or substitutable by the consumer by reason of the products' characteristics, their prices and their intended use; a relevant geographic market comprises the area in which the firms concerned are involved
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A partir dessa definição, pode-se dizer que o mercado relevante compreende um conjunto de produtos substitutos, comercializados em condições semelhantes. Já na definição americana, segundo o Horizontal Merger Guidelines, do U.S. Department of Justice e Federal Trade Commission (2010), o mercado relevante pode ser definido como um produto ou grupo de produtos e uma área geográfica na qual ele é produzido ou vendido tal que:
(...) uma hipotética firma maximizadora de lucros, não sujeita a regulação de preços, que seja o único produtor ou vendedor daqueles produtos naquela área, poderia provavelmente impor pelo menos um pequeno, mas significativo e não transitório aumento no preço. (U.S. Department of Justice and Federal Trade Commission, 2010). Tradução livre10.
Sob essa definição, o mercado relevante compreende um grupo de produtos e uma área geográfica onde é possível exercer poder de mercado. As autoridades brasileiras adotam esta definição no Guia de Concentração Horizontal, disposto na Portaria Conjunta SEAE/SDE no 50 (2001):
(...) o mercado relevante é definido como o menor grupo de produtos e a menor área geográfica necessários para que um suposto monopolista esteja em condições de impor um ‘pequeno, porém significativo e não transitório’ aumento de preços. (SEAE/SDE, p. 9)
Em suma, a definição de mercado relevante das três autoridades visa delimitar quais são os produtos que podem ser considerados substitutos. No caso do setor de energia, as fontes em análise neste estudo, a saber, carvão, petróleo, gás natural, nuclear, eólica, solar, etanol e hidráulica, podem ser consideradas substitutas no uso final, na medida em que são capazes de gerar eletricidade e/ou calor. Contudo, observa-se que a concorrência pode não ser efetiva entre todas as fontes, por diversos fatores, como: (i) limitação no acesso: as fontes podem não dispor de infraestrutura suficiente para ofertar energia a qualquer consumidor; (ii) custo: a competitividade/escala das fontes mais novas é inferior à das fontes já maduras ou em abundância em determinada localidade; e (iii) processos: muitas vezes duas fontes energéticas
in the supply of products or services and in which the conditions of competition are sufficiently homogeneous”. Disponível em http://europa.eu/legislation_summaries/competition/firms/l26073_en.htm, acesso em 11/10/2013.
10 Texto original: “The Agencies employ the hypothetical monopolist test to evaluate whether groups of products
in candidate markets are sufficiently broad to constitute relevant antitrust markets. The Agencies use the
hypothetical monopolist test to identify a set of products that are reasonably interchangeable with a product sold by one of the merging firms. The hypothetical monopolist test requires that a product market contain enough substitute products so that it could be subject to post-merger exercise of market power significantly exceeding that existing absent the merger. Specifically, the test requires a hypothetical profit-maximizing firm, not subject to price regulation, that was the only present and future seller of those products (‘hypothetical monopolist’) likely would impose at least a small but significant and non-transitory increase in price (‘SSNIP’) on at least one product in the market, including at least one product sold by one of the merging firms.”
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possuem processos diferenciados de gerar energia, interferindo na forma como o alimento é cozido, o material é produzido, etc., e, por consequência, tornando os mesmos produtos finais com pequenas variações na qualidade.
Esses fatores chamam a atenção para o fato de que, mais do que concorrentes, na abordagem antitruste as diversas fontes podem ser consideradas rivais, por tornarem pouco provável um eventual exercício de poder de mercado. Com efeito, observada elevação significativa de preços em determinada fonte, as demais se tornariam mais competitivas e poderiam capturar o mercado.
O Federal Trade Comission (FTC) costuma definir o mercado relevante do produto por matriz de geração, em uma tendência de selecionar o menor mercado possível. Já a Comissão Europeia vem definindo mercados mais amplos (VERDE, 2008), como no caso da “energia elétrica” em geral. Isso pode ser visualizado no Quadro 2.
Quadro 2. Exemplos de casos julgados pelo FTC e Comissão Europeia segundo a definição do mercado relevante do produto
FTC Comissão Europeia
Definição por matriz de geração
Docket No. 9316/File No. 031-0191- Arch Coal/Triton Coal (2004)
Case No COMP/M.4839 - AREVA NP/MHI/ATMEA (2007)
Docket No. C-4173, Conoco/Phillips Petroleum Company (2002)
Case No COMP/M.5366 - IBERDROLA
RENOVABLES/GAMESA (2008) Docket No. C-3938, BP Almoco/Arco (2000)
Docket No. C-3868, BP/Almoco (1999)
Definição mais ampla
Case COMP/M.2947 -
Verbund/EnergieAllianz (2003) Case No COMP/M.5224 -
EDF/BRITISH ENERGY (2008)
Case No COMP/M.5249 -EDISON/ HELLENIC PETROLEUM/JV (2008) Fonte: elaboração própria a partir de informações publicadas em FTC (2013) e Comissão Europeia (2013).
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3.2.1.2 Dimensão Geográfica
No que diz respeito ao mercado relevante geográfico, se poderia aventar que a delimitação que melhor se adapta às características do mercado é a nacional. Para além da uniformização das regulamentações, dentro de um mesmo país costuma-se ter sistemas interligados, de forma a se otimizar o uso dos recursos energéticos nos locais de maior centro de carga. Há que se dizer, contudo, que na jurisprudência brasileira não há consenso a respeito do mercado geográfico, podendo ser por submercado, região, sistema interligado ou nacional. O Quadro 3 traz alguns exemplos de definições de mercado relevante em casos já julgados no Brasil.
Quadro 3. Exemplos de Atos de Concentração julgados no Brasil segundo a definição de mercado relevante do produto e geográfico
Caso Partes Mercado relevante
Produto Geográfico AC 08012.003958/2010-
13 Energimp e FI-FGTS Matriz eólica Nacional AC 08012.002410/2010-
48
Brenco Holding e ETH Bioenergia
Bagaço de cana Nacional Etanol Regiões AC 08012.000057/2010-
61
Nova Cibe Energia e FI-
FGTS UTE Nacional
AC 08012.002459/2009-
67 Cosan e Rezende Barbosa Bagaço de cana Nacional AC 08012.007526/2009-
30
Endesa e Eólica Fazenda Nova
Energia elétrica
(UHE, eólica) Nacional AC 08012.007774/2009-
81 CPFL e Araripe
Energia elétrica
(UHE, eólica) Nacional AC 08012.000109/2008- 85 Petrobras e Termoelétrica Potiguar Energia elétrica (eólica, UTE e UHE) Sistema interligado AC 08012.006458/2008- 19
Camargo Corrêa, CHESF, Eletrosul, Energia Sustentável do Brasil e Suez
UHE Subsistema Norte AC 08012.007391/2008- 21 Ecoenergy e Bidco Energia elétrica (UHE, eólica e carvão) Sistema interligado AC 08012.009123/2008- 44 InfraBrasil e Pioneiros Bioenergia Energia elétrica
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Caso Partes Mercado relevante
Produto Geográfico UTE)
AC 08012.007887/2008- 03
Gama Participações, Hidropower Energia e Tupan
Energia elétrica (UHE) Subsistema Sul, Sudeste e Centro- Oeste AC 08012.010042/2008- 97 GBF Participações e Vital
Renewable Energy Company Etanol Nacional AC 08012.002531/2007-
94 Brentech Energia e Petrobras UTE
Sistema interligado AC 08012.002534/2007-
28 Brasil PCH e Petrobras UHE
Sistema interligado AC 08012.002535/2007-
72 Arembepe e Petrobras UTE
Sistema interligado
Fonte: elaboração própria a partir das informações publicadas em CADE (2013).
Na jurisprudência europeia, os mercados do setor de energia são frequentemente definidos como nacionais, enquanto na jurisprudência americana, costuma-se adotar mercados locais, com base na geração (conjunto de produtores que exploram os recursos em determinada região). Exemplos de casos podem ser vistos no Quadro 4.
Quadro 4. Exemplos de casos julgados pelo FTC e Comissão Europeia segundo a definição do mercado relevante do produto
FTC Comissão Europeia
Mercado mais amplo que o nacional
Case No COMP/M.4839 - AREVA NP/MHI/ATMEA (2004) Mercado nacional Case COMP/M.2947 - Verbund/EnergieAllianz (2003) Case No COMP/M.5224 - EDF/BRITISH ENERGY (2004)
Mercado menor do que o nacional
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FTC Comissão Europeia
Coal/Triton Coal (2004)
Docket No. C-4173, Conoco/Phillips Petroleum Company (2002)
Docket No. C-3938, BP Almoco/Arco (2000) Docket No. C-3868, BP/Almoco (1999)
EDISON/HELLENIC PETROLEUM/JV (2004)
Fonte: elaboração própria a partir de informações publicadas em FTC (2013) e Comissão Europeia (2013).
Nos anos 70 e 80, tornou-se comum a utilização de testes de preços para delinear os mercados relevantes dentro da análise de defesa da concorrência – como nas publicações de Shrieves (1978), Stigler e Sherwin (1985) e Engle e Granger (1987). A lógica por trás desses testes é que duas áreas geograficamente separadas constituem um único mercado em que os preços nas diferentes áreas são cointegrados, ou seja, ao longo do tempo seguem uma mesma tendência. Isto implica que, se os preços de dois mercados diferentes permanecerem ao longo do tempo persistentemente fora de sintonia com o outro, então os mercados não são integrados.
Os modelos de cointegração ganharam maior apoio às estimativas empíricas da integração do mercado em indústrias de energia desde a década de 1990, por exemplo, em De Vany e Walls (1993), Sauer (1994) e Asche, Osmundsen e Tveteras (2001). A técnica pode ser usada, especificamente, para examinar os movimentos dos preços dos energéticos localizados em diferentes regiões, a fim de testar a hipótese de um único mercado internacional de determinado energético.
Nos modelos de cointegração que contêm mecanismos de correção de erros, estima-se a presença de uma relação de longo prazo e de curto prazo entre dois preços, como por exemplo, o preço local/nacional do energético e o preço internacional. Na presença de cointegração entre os preços, pode-se dizer que há indícios de que o mercado é mais amplo do que o local. Embora haja custos envolvidos com a importação (transporte, frete, etc.), o fato de os preços andarem juntos em torno de um determinado nível no longo prazo indica que o produto importado deve, no mínimo, impor rivalidade ao produto nacional, limitando o poder de mercado das empresas que atuam localmente. Os desvios de preço da trajetória ocorrem apenas no curto prazo, logo voltando ao equilíbrio por meio da velocidade de ajuste estimada nos modelos de correção de erros. Devido a essa capacidade de investigar a relação de longo
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prazo entre duas variáveis, o teste de cointegração pode auxiliar na definição do mercado relevante geográfico.
Com vistas a identificar o mercado relevante geográfico de cada fonte energética, no próximo capítulo se investigam os indícios possíveis de serem coletados e/ou estimados para cada energético individualmente. Optou-se por utilizar dados de mercados mais maduros, nos quais é mais provável que o preço se aproxime do custo de produção. Isso, em tese, diminuiria o impacto da organização do mercado sobre os resultados dos modelos de learning curves. Neste sentido, foi escolhido o mercado norte-americano para boa parte das fontes energéticas: fotovoltaica, eólica, nuclear, carvão, petróleo e gás natural. Já no que diz respeito às energias provenientes de plantas hidrelétricas e etanol, foi adotado o mercado brasileiro, para o qual também se avaliou o mercado de energia eólica.