O ponto de partida para analisarmos os pressupostos básicos da Pedagogia Histórico-Crítica, é compreender em que sentido tal perspectiva se coloca como superação da Pedagogia Tradicional e da Pedagogia Nova e como ela se diferencia das concepções crítico- reprodutivistas. Iniciamos esse percurso pela compreensão da denominação Pedagogia Histórico-Crítica e da reafirmação dos textos básicos que apresentam os pressupostos de tal corrente pedagógica, inseridos no contexto em que foram produzidos.
Logo de início é possível afirmar que, em verdade, pedagogia histórico-crítica pode ser considerada sinônimo de pedagogia dialética. No entanto, a partir de 1984, dei preferência à denominação pedagogia histórico-crítica, pois o outro termo – pedagogia dialética – vinha relevando-se um tanto genérico e passível de diferentes interpretações (SAVIANI, 2005b, p.87).
Entre as interpretações possíveis de serem atribuídas ao termo “dialética”, Saviani (2005b), aponta a interpretação idealista, que concebe a dialética descolada do desenvolvimento histórico, e a interpretação fenomenológica, que utiliza a palavra dialética como sinônimo de dialógico e não como um elemento do movimento histórico marcado por contradições. Vale ainda apontar que, quando Saviani publicou o texto “Escola e democracia II – para além da Teoria da Curvatura da Vara”, em 1982 (Revista da ANDE, número 3), que é considerado a primeira formulação sistematizada de sua proposta pedagógica, o termo utilizado é “Pedagogia Revolucionária”, tendo em vista fugir dos riscos que o termo “Pedagogia Dialética” trazia – tal termo se mantém na publicação do referido texto na obra
“Escola e Democracia”, publicada em 1983. Visando propor um termo que explicitasse de fato o que ele propunha em termos de uma tendência pedagógica, Saviani cunhou, em 1984, o termo “Pedagogia Histórico-Crítica”.
[...] o que eu quero traduzir com a expressão pedagogia histórico-crítica é o empenho em compreender a questão educacional com base no desenvolvimento histórico objetivo. Portanto, a concepção pressuposta nesta visão da pedagogia histórico-crítica é o materialismo histórico, ou seja, a compreensão da história a partir do desenvolvimento material, da determinação das condições materiais da existência humana (SAVIANI, 2005b, p.87,88).
Nesta discussão que Saviani faz acerca do termo pedagogia histórico-crítica, chama-nos atenção – primeiro: o rigor conceitual, algo que marca sua obra, a começar por sua tese de doutoramento; segundo: a preocupação em esclarecer de quais fontes se apropria para estabelecer a nomenclatura e os pressupostos da perspectiva pedagógica que está desenvolvendo, qual seja, o materialismo histórico; terceiro: a forma como ocorreu a trajetória do pensamento de Saviani, que, em poucos anos, partindo do Tomismo, passou pela Fenomenologia e chegou ao Materialismo Histórico, sendo esta última a referência teórico- metodológica que mantém desde o final da década de 1970, independentemente dos revezes políticos e ideológicos que a esquerda sofreu no Brasil e no mundo desde então. Esse processo da trajetória do pensamento de Saviani é assim explicado por ele:
Quanto à diferença de orientação – fenomenológica, no início, dialética ou materialista-histórica, depois –, a minha evolução se deu enquanto trajetória intelectual própria. Aliás, recuando ainda mais, minha base de formação na Filosofia era de orientação tomista. É claro que não era um tomismo passivo, uma vez que a gente já era crítico, mas o acesso à Filosofia era através dele. A fenomenologia aparece nesse quadro como tentativa mais atual, mais contemporânea que o tomismo. Entretanto, mesmo naquele momento, a própria fenomenologia já não satisfazia, como a própria denominação de método fenomenológico-dialético (SAVIANI, 1987, p. 20).
Assim, quando a perspectiva da Pedagogia Histórico-Crítica, se coloca no quadro e no debate das correntes e tendências da educação brasileira, Saviani já tinha o materialismo-histórico como referência, tendo superado tanto a fase tomista quanto a fase fenomenológica. Neste processo vale destacar quatro elementos importantes: 1. A convivência com o professor Casemiro dos Reis Filho, que, como já apontando neste trabalho, em um dado momento, disse a Saviani que para seguir o percurso teórico que pretendia, ele deveria caminhar para as leituras da obra de Karl Marx; 2. A história do tempo presente em que Saviani aprofundou seus estudos – a partir do final da década de 1960 – momento marcado por grande efervescência política, social e cultural no Brasil e no mundo; 3. O
interesse pessoal de buscar referências teóricas que pudessem ser inseridas no debate acadêmico-educacional, produzindo não somente críticas, mas propondo alternativas à sociedade e à educação do seu tempo; 4. A capacidade de trabalhar coletivamente, o que permitiu a Saviani aprofundar seus próprios estudos educacionais e pedagógicos na linha do materialismo histórico.
Quanto às obras de referência, para tratarmos dos pressupostos básicos da Pedagogia Histórico-Crítica, utilizamos duas obras de Dermeval Saviani: “Escola e Democracia”, cuja primeira edição data de 1983 e “Pedagogia Histórico Crítica: primeiras aproximações”, cuja primeira edição data de 1991. A obra “Escola e Democracia” está em sua 42ª edição, sendo considerada de grande relevância na educação brasileira, estando presente entre as leituras obrigatórias de cursos de Pedagogia e demais licenciaturas, bem como em concursos públicos da área educacional. Referindo-se a esta obra, eis o que afirma Libâneo (1994):
Este texto exerceu uma influência considerável no meio intelectual, especialmente nas Faculdades de Educação. [...] Sem descartar o papel da educação escolar no sistema de reprodução do capital, introduziu um entendimento de escola como lugar em que se reproduzem as contradições sociais, portanto, um lugar de luta hegemônica de classes, de resistência, de conquista da cultura e da ciência como meios de enfrentamento das desvantagens impostas pela organização capitalista da sociedade (p. 29).
Dada a relevância desta obra, que inclusive tem tradução para o espanhol, Saviani foi questionado em entrevista realizada por Diana Gonçalves Vidal, sobre as razões que o levaram a escrever este livro e a que ele atribui a atualidade do mesmo e/ou as sucessivas edições. Quanto às razões da escrita da referida obra, eis o que Saviani respondeu, contextualizando o processo de elaboração do texto que deu origem ao segundo capítulo do livro “Escola e Democracia”, intitulado “Escola e democracia I – a teoria da curvatura da vara”:
O ponto de partida do livro Escola e democracia foi minha fala no Simpósio “Abordagem política do funcionamento interno da escola de primeiro grau”, realizado no dia 31 de março de 1980, no âmbito da I Conferência Brasileira de Educação. Na verdade, para tratar do tema eu tinha umas três chaves temáticas, e a decisão pelo uso da metáfora “teoria da curvatura da vara” se deu no instante mesmo em que me vi diante da imensa plateia de mais de mil pessoas. (....) Olhando para a plateia ocorreu-me estar diante de cerca de mil cabeças escolanovistas. Isso porque aqueles professores, em sua maioria, tinham sido formados nas décadas de 1950 e 1960, auge da influência escolanovista no Brasil. Então formulei a estratégia de minha exposição centrada na metáfora da “curvatura da vara” (SAVIANI, 15 de maio de 2009 – entrevista a Diana Gonçalves Vidal. In: VIDAL, 2011, p.43). A exposição de Saviani na I Conferência Brasileira de Educação (I CBE), no simpósio “Abordagem política do funcionamento interno da escola de primeiro grau”, não foi
baseada em um texto escrito, e se propôs a contestar os educadores ali presentes, predominantemente escolanovistas, acerca de suas próprias concepções, elucidando que a Pedagogia Tradicional poderia não ser portadora de todos os vícios e nem a Pedagogia Nova portadora de todas as virtudes, daí a utilização da metáfora da “curvatura da vara”. Tal metáfora, Saviani tomou emprestada de Lênin, que, quando criticado por assumir posturas radicais teria dito que quando a vara está torta, ela fica curva para um lado, sendo necessário curvá-la para o lado oposto, tendo em vista endireitá-la (SAVIANI, 2007b; VIDAL, 2011). A transcrição da fala proferida por Saviani na I CBE foi publicada primeiramente na Revista da Associação Nacional de Educação (Revista da ANDE, número 1, 1981) e se tornou, posteriormente o segundo capítulo da obra “Escola e Democracia”, sob o título “Escola e Democracia I – a teoria da curvatura da vara”. O primeiro capítulo da referida obra tem como título “As teorias da educação e o problema da marginalidade”; o terceiro, intitula-se, “Escola e Democracia II – para além da teoria da curvatura da vara” e o quarto capítulo, tem com título “Onze teses sobre educação e política”. Vejamos como Saviani descreve o processo de elaboração destes textos, retomando novamente sua exposição na I CBE:
A referida exposição não foi baseada em texto escrito. Uma vez gravada foi transcrita e publicada no número I da Revista da Associação Nacional de Educação, lançada em 1981, com o título “Escola e democracia ou a ‘teoria da curvatura da vara’”. Em 1982, redigi, para um número especial da revista Cadernos de Pesquisa, da Fundação Carlos Chagas, um artigo denominado “As teorias da educação e o problema da marginalidade na América Latina”. Aí sintetizei as principais teorias da educação. Em seguida, à vista da repercussão do artigo “Escola e democracia ou a teoria da curvatura da vara”, elaborei o texto “Escola e democracia: para além da teoria da curvatura da vara”, no qual adiantei os elementos básicos de uma nova proposta pedagógica que, a partir de 1984, passei a denominar de “pedagogia histórico-crítica”. Esse texto foi publicado, em 1982, no número 3 da Revista da
ANDE. Considerando a repercussão desses artigos, surgiu a ideia de reuni-los em livro, o que foi feito em 1983, momento em que redigi, especialmente para integrar o livro, o texto “Onze teses sobre educação e política” (SAVIANI, 15 de maio de 2009 – entrevista a Diana Gonçalves Vidal. In: VIDAL, 2011, p.43).
“Escola e Democracia” é, portanto, um marco tanto na trajetória pessoal de Dermeval Saviani como no debate educacional brasileiro, pois, coloca a público uma nova proposta pedagógica, a Pedagogia Histórico-Crítica e o nome do seu propositor ganha mais evidência no campo acadêmico. Quanto à atualidade da referida obra e/ou ao fato de ter tantas edições, Saviani, em entrevista75 a Diana Gonçalves Vidal, aponta duas hipóteses: 1ª. O fato de “Escola e Democracia” apresentar uma síntese das principais teorias da educação, por propor um debate sobre a Escola Nova e, finalmente por apresentar uma alternativa pedagógica superadora das que até então dominavam as discussões no campo da Educação,
particularmente, na área da Pedagogia, o que possibilitou que essa obra se tornasse uma referência nos cursos de Pedagogia e em outras licenciaturas, o que, contribuiu também para o lançamento das várias edições; 2ª. O fato de apresentar uma discussão e uma crítica às inovações em educação e isso de forma articulada com a busca da superação de seus limites, o que permite que tal obra se mantenha atual, desafiando os educadores e pesquisadores a este constante exercício, diante hoje, não apenas dos pressupostos da Escola Nova, mas, também frente à multiplicidade de recursos de que dispõem em termos tecnológicos.
Quanto à obra “Pedagogia Histórico-Crítica: primeiras aproximações”, vale apontar que a mesma teve sua primeira edição publicada em 1991, pela Editora Autores Associados, na série “Polêmicas do nosso tempo” – mesma série em que “Escola e Democracia” foi publicada. Atualmente, “Pedagogia Histórico-Crítica”, está em sua décima primeira edição e, assim como “Escola e Democracia”, também tem edição em espanhol. Enquanto foi publicada na série “Polêmicas do nosso tempo”, a obra “Pedagogia Histórico- Crítica: primeiras aproximações”, era composta por quatro capítulos, cujos textos foram produzidos em momentos anteriores à primeira edição (SAVIANI, 1991a), mais especificamente no contexto dos debates pedagógicos travados intensamente ao longo da década de 1980. Assim, os capítulos que compuseram a obra “Pedagogia Histórico-Crítica: primeiras aproximações”, da primeira à sétima edição, respectivamente, 1991 e 2000, são os seguintes, segundo Saviani (1991a):
- Capítulo 1: “Sobre a natureza e a especificidade da educação” – resultante da comunicação apresentada por Saviani em um seminário organizado pelo Instituto de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), realizado em Brasília em 1984. O texto da comunicação proferida em Brasília, incorporava o texto que Saviani apresentara em Olinda em 1983, que tivera como título “O papel da escola básica no processo de democratização da sociedade brasileira”.
- Capítulo 2: “Competência política e compromisso técnico” – resultante da intervenção de Saviani frente à polêmica suscitada pela publicação do livro “Magistério de 1º grau: da competência técnica ao compromisso político”, de autoria de Guiomar Namo de Mello. A referida intervenção de Saviani, dialoga com o artigo “Compromisso político como horizonte da competência técnica”, de autoria de Paollo Nosella – ambos foram orientandos de Saviani da primeira turma do doutorado em Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Segundo José Misael Ferreira do Vale (1994, p. 239), “Competência política e compromisso político”, é um material privilegiado para a análise e exegese do pensamento político-pedagógico de Dermeval Saviani.
- Capítulo 3: “A pedagogia histórico-crítica no quadro das tendências críticas da educação brasileira” – resultante da exposição feita por Saviani em um seminário organizado pela Associação Nacional de Educação (ANDE), realizado em Niterói, em 1985.
- Capítulo 4: “A pedagogia histórico-crítica e a educação escolar” – resultante da conferência proferida por Saviani no I Simpósio de Educação Universitária, realizado em Araraquara, em 1988.
A partir da oitava edição (SAVIANI, 2003b), foram acrescidos mais dois capítulos e “Pedagogia Histórico-Crítica: primeiras aproximações” deixou de integrar a série “Polêmicas do nosso tempo”, passando a integrar a série “Educação Contemporânea”, o que permitiu que a mesma fosse revisada e ampliada – ambas as séries pertencem à Editora Autores Associados. Acerca destes dois novos capítulos, numerados como cinco e seis, Saviani (2003b) informa que:
- O Capítulo 5, intitulado “A materialidade da ação pedagógica e os desafios da Pedagogia Histórico-Crítica”- foi inspirado na conferência que proferiu por ocasião do encerramento do
“Simpósio Dermeval Saviani e a Educação Brasileira”, realizado no campus de Marília da
Universidade Estadual Paulista (UNESP), em 1994.
- O Capítulo 6, que tem como título “Contextualização histórica e teórica da Pedagogia Histórico-Crítica” – foi motivado por uma entrevista que concedeu aos professores Marcos Cordiolli, Pedro Elói Rech e Adriano Nogueira. Tal entrevista foi publicada como um texto corrido (não em forma de pergunta e resposta) no Caderno Pedagógico da APP-Sindicato76, em outubro de 1997.
Vale ainda um apontamento acerca da estrutura da obra “Pedagogia Histórico- Crítica: primeiras aproximações”: até à sétima edição (SAVIANI, 2000b), constava como apêndice o prefácio à vigésima edição de “Escola e Democracia”, sendo o mesmo retirado a partir da oitava edição, quando a obra foi revisada e ampliada. A retirada do referido apêndice, segundo Saviani (2000b), se deve ao fato do mesmo já ter cumprido a sua função, qual seja, elucidar a relação entre as duas obras. Tal relação é explicitada por Saviani na introdução da obra “Pedagogia Histórico-Crítica: primeiras aproximações”: “Ora, o presente livro começa por tratar exatamente do tema relativo à natureza e especificidade da educação. daí, pois, a continuidade à reflexão com a qual se conclui Escola e democracia” (SAVIANI, 2005b, p. 6).
Quanto ao momento da trajetória de Saviani quando foram publicados “Escola e Democracia” (SAVIANI, 1983) e “Pedagogia Histórico-Crítica: primeiras aproximações” (SAVIANI, 1991), destacamos que, no início da década de 1980, Saviani trabalhava na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), merecendo destaque a sua atuação junto ao Mestrado em Filosofia da Educação e ao Doutorado em Educação. Neste ínterim já se aproximava da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e participava ativamente do movimento pela redemocratização e a favor da escola pública, merecendo destaque a sua atuação nas Conferências Brasileiras de Educação (CBE). Em termos de contexto político nacional, a década de 1980 é de extrema importância e marcada por uma contradição, qual seja, a década perdida da economia e a década de muitos ganhos político-sociais:
Os anos 1980, na América Latina, ficaram conhecidos como “a década perdida”, no âmbito da economia. Das taxas de crescimento do PIB à aceleração da inflação, passando pela produção industrial, poder de compra dos salários, nível de emprego, balanço de pagamentos e inúmeros outros indicadores, o resultado do período é medíocre. No Brasil, a desaceleração representou uma queda vertiginosa nas médias históricas de crescimento dos cinquenta anos anteriores. Mas, sob o ponto de vista político, aquela foi literalmente uma década ganha. Não apenas se formaram e se firmaram inúmeras entidades e partidos populares – fruto das maiores mobilizações sociais de toda a história brasileira -, como se abriu uma nova fase histórica para o país, através do fim da ditadura e da promulgação da Constituição de 1988 (MARANGONI, 2012, s/n).
Se os indicadores econômicos não foram favoráveis na década de 1980, em contrapartida frações do povo brasileiro se colocaram, neste momento histórico, de fato como sujeitos históricos e se mobilizaram em vários setores e localidades, tendo em vista a redemocratização, merecendo destaque, em âmbito nacional, o movimento das “Diretas Já”, que, ganhou as ruas das principais cidades do Brasil, tendo em vista a defesa de que as eleições presidenciais de 1985 fossem realizadas por voto direto – algo que não ocorria no Brasil desde 1960, quando fora eleito Jânio da Silva Quadros pela União Democrática Nacional (UDN). Em 02 de março de 1983, o deputado Dante de Oliveira, representante do Partido do Movimento Democrático do Brasil (PMDB) pelo Estado do Mato Grosso, propôs que as próximas eleições presidenciais fossem diretas – nascia a “Emenda Dante” e o movimento “Diretas-Já”. Referindo-se às “Diretas –Já”, Comparato (2014), afirma que este movimento:
[...] de novembro de 1983 a abril de 1984, incendiou o país. Foram realizados cerca de 50 grandes comícios, iniciados pelo comício realizado no estádio do Pacaembu, em São Paulo, no dia 27 de novembro de 1983, e que reuniu 15 mil pessoas, e terminados de forma apoteótica com 1 milhão de manifestantes no comício da Candelária, no Rio de Janeiro, no dia 10 de abril de 1984, e 1 milhão e meio de pessoas no comício do Anhangabaú, em São Paulo, no dia 16 de abril de 1984. De acordo com a estimativa de Ulysses Guimarães, então presidente do principal
partido de oposição, o PMDB, e um dos maiores entusiastas da Campanha pelas Diretas, tanto que ficou conhecido como o Sr. Diretas, 80% dos municípios do país teriam presenciado manifestações em favor das Diretas, o que equivale a cerca de 4 mil comícios [...]. Os depoimentos e as análises sobre aquele período frequentemente ressaltam o clima de otimismo, quase de euforia, que tomava conta dos participantes dos comícios, como se o país tivesse passado por uma catarse política (p.159).
Apesar de toda essa mobilização, a “Emenda Dante” não foi aprovada no Congresso Nacional por uma diferença de 22 votos, levando a oposição a se articular em torno do nome de Tancredo Neves para concorrer às eleições presidenciais de 15 de janeiro de 1985 no Colégio Eleitoral (COMPARARTO, 2014). O representante do governo nestas eleições foi Paulo Maluf, derrotado por Tancredo Neves, que, porém, não tomou posse, vindo a falecer em 21 de abril de 1985, quando já havia sido empossado, interinamente, José de Ribamar Ferreira de Araújo Costa – José Sarney – que foi o primeiro presidente civil pós Ditadura Militar. Contraditoriamente, a democracia foi reimplantada no Brasil no governo de um político que havia apoiado, anteriormente, o regime militar. Apesar disso e dos percalços econômicos, a década de 1980 teve vários ganhos políticos e sociais, entre os quais mencionamos a volta da pluralidade partidária, com destaque para a fundação de um partido que se propunha a representar a classe trabalhadora – o Partido dos Trabalhadores (PT) –; a promulgação da Constituição de 1988, que ficou conhecida como “Constituição Cidadã”; a fundação e atuação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST); a atuação das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs); a mobilização dos educadores em defesa da escola pública e nas Conferências Brasileiras de Educação (CBEs). Foi neste contexto de efervescência política e social que foi publicada a obra “Escola e Democracia” – segundo Saviani (2007a, p.400), em termos educacionais, a “[...] a década de 1980 é uma das mais fecundas de nossa história”.
Se referindo a este momento em que foi publicada a primeira edição de “Escola