Na França, a Psicologia do Trabalho do início do século XX deu os primeiros passos para a investigação do trabalho in situ, Suzanne Pacaud e Jean-Maurice Lahy32 foram os
31 As informações sobre a história da Psicologia do Trabalho e sua contribuição para as pesquisas em situação de
trabalho foram retiradas das nossas anotações a partir curso de Psicologia do Trabalho, ministrado pelo Prof. Yves Clot no Conservatoire National des arts et Métiers no ano letivo 2005/2006.
32 [...] l’analyse psychologique du travail qui pourrait éclairer le processus actuel. Ce cycle conduit la discipline –
entre les années 20 et les années 50 - de la découverte des nécessités de l’analyse du travail préalable à tout diagnostic jusqu’à sa subordination délétère à une psychotecnique de la sélection. Avec Jean-Maurice Lahy dont le rôle est rappelé dans plusieurs des texte publiés ici, Suzanne Pacaud a sans doute été une des principales protagonistes de ce cycle dont elle symbolise bien les contradictions. Elle participe d’une époque où l’approche du travail par l’observation et la mesure in situ s’inscrit dans un champ plus vaste de contacts avec l’expérience ouvrière (Clot,2002 :21-22).
primeiros a levar a investigação científica sobre as questões que envolviam o trabalho para o lugar onde era desenvolvido o trabalho. Essa proposta visava levar o laboratório científico ao local de investigação, pois, até então, as pesquisas eram realizadas nos laboratórios das universidades. Tanto Pacaud como Lahy sentiram a necessidade de se aproximar do campo de investigação, a fim de saberem como o trabalhador exercia sua atividade de trabalho. Para isso, foram desenvolver suas pesquisas integrando-se ao coletivo de trabalho.
Para estudar os aiguilleurs (trabalhador responsável pelo controle das mudanças de via férrea), (eles notam, por exemplo), ‘nós devemos aprender – o máximo possível – o mètier do aiguiller, não somente do ponto de vista da sucessão de gestos, mas, sobretudo, do ponto de vista das atitudes mentais que comandam esse trabalho (Lahy, 1933 apud Clot, 2002: 22). (tradução nossa)33
Contudo, nessa época, o trabalho do psicólogo estava centrado nas causas endógenas sobre a psicotécnica do trabalho. Existia uma idéia de racionalização do trabalho. A psicotécnica era uma ação que tinha por objetivo colocar ordem no trabalho, instalar a razão no trabalho. Evidenciava-se uma recusa a observar os mal-entendidos, as emoções, as paixões e os deficits presentes nos trabalhos. Privilegiava-se o dizer do expert, porque só ele poderia dizer o verdadeiro e propor o justo. Esse programa tinha um cunho positivista, que se aproximava muito do discurso taylorista34. A ciência era vista como princípio da organização social e tinha como norte a sua regulamentação. Imperava o catecismo positivista de Auguste Comte. A ação era vista como conhecimento. Era necessário saber para prever e, finalmente, agir. Para Taylor, o trabalho não era fonte do saber e, sim, um terreno de aplicação do saber. Para ele, o saber era exterior ao trabalho. Nessa perspectiva, o pensamento não devia existir dentro do trabalho.
A psicotécnica enfrentou muitas dificuldades para romper com esse pensamento positivista. A partir dos anos 60, transforma-se em um meio de medir o trabalho e a atitude,
33 Pour étudier les aiguillers, [noten-t-ils par exemple], nous avons dû apprendre – autant que possible – le mètier
d’aiguilleur, non seulement au point de vue de la succession des gestes, mais surtout au point de vue des attitudes mentales que commande de travail (Lahy, 1933 apud Clot, 2002 :22).
34 Taylor, engenheiro que no início do Século XX contribuiu para uma organização do trabalho centrada em um
perdendo a característica de análise de trabalho e passando a assumir uma característica individual e pessoal. Em virtude desse contra-senso, em 1954, Pacaud formula o seguinte diagnóstico: “a psicotécnica está morta”.
Assistimos hoje precisamente a esse fato inquietante que a progressão, extremamente rápida das aplicações psicotécnicas, conduz ao abandono de alguns psicotécnicos da análise do trabalho. [...] A maior parte dos aplicadores se libertam delas, trazendo, assim, prejuízo ao enriquecimento dos conhecimentos no domínio da psicologia do trabalho tanto quanto à eficácia das técnicas psicológicas para a indústria que as utiliza (Pacaud, 1954 apud Clot 2002:22). 35
Seu prognóstico vai ainda mais longe: “Se a experimentação em psicologia aplicada não pode ultrapassar a etapa do ‘teste’ automático, ela assinará o seu fim, por não continuar a evoluir” (Pacaud, 1954: 693 apud Clot, 2002:22). 36
Com o objetivo de aprofundar seu conhecimento sobre a experiência operária, Pacaud foi aprender o ofício de telefonista e de agente de estação, aplicando a “auto-observação e a introspecção”. Ela acreditava que dessa forma poderia procurar as causas de seus próprios erros, como psicóloga, e, ainda, poderia proceder a inúmeros redirecionamentos resultantes da auto-observação, conhecendo, assim, a fundo, a atividade realizada. Pacaud e Lahy partilhavam da convicção de que a análise dos meios de trabalho é longa e difícil e se opunham à tendência de a psicotécnica tornar-se uma prática de aplicação de um conjunto de receitas muito simples e fáceis na direção de propor o ajustamento das pessoas ao trabalho.
Embora reconhecendo como surpreendentemente modernas as observações de Lahy e Pacaud, Clot (2002) assinala que havia alguns problemas na psicotécnica adotada por Lahy, porque a prática parecia se preocupar somente com a sua coerência interna. Existia uma
35Nous assistons aujourd’hui précisément à ce fait inquietant que l’extension extrêmement rapide des
applications psychotechniques aboutit à l’abandon par certains ‘psychotechniciens’ de l’analyse du travail. [...] La plupart des applicateurs s’en affranchissent, en portant ainsi préjudice aussi bien à l’enrichissement des connaissances dans le domaine de la psychologie du travai qu’à l’efficacité des techniques psychologiques, pour l’industrie qui les utilise (Paucaud, 1954 :693 apud Clot, 2002 :22).
36Si l’expérimentation em psychologie appliquée ne peut dépasser l’étape de ‘testation’ automatique, elle signera
profilaxia social, que era compartilhada com outros psicotécnicos, de que os esforços dos cientistas deveriam garantir uma era de organização racional do trabalho. Seus conhecimentos deveriam ser empregados para selecionar os trabalhadores a partir do princípio de que é de interesse da sociedade que cada um esteja em seu lugar, “em seu verdadeiro lugar”. Dessa forma, surgiram programas de ensino cuja meta era advertir as crianças sobre as profissões para as quais seriam mais aptas, diminuindo, por meio dessa profilaxia profissional, o número de sujeitos mal adaptados ao trabalho.
Entretanto, Clot (2002) reconhece que, apesar da direção racional que deu ao trabalho, a psicotécnica continuou a agir para refazer seu direcionamento. Graças aos ensinamentos de Pacaud, fundamentados num estilo de análise do trabalho francófono, por volta dos anos 50 e, sobretudo, a partir dos anos 60, a tradição francesa de análise do trabalho reviveu e refez a sua história.
Para o desenvolvimento da nossa pesquisa, os estudos iniciais da Psicologia do Trabalho deixam-nos uma grande contribuição, que foi confirmada até os dias atuais: para compreender a atividade de trabalho não basta estudar as suas regras, é necessário que o pesquisador se desloque para a situação de trabalho e presencie junto com os sujeitos investigados como acontece na prática o que está previsto pelos prescritos. Essa experiência foi confirmada pela ergonomia situada, pelos estudos ergológicos e pela Equipe da Clínica da Atividade.
A ergonomia situada, para se diferenciar da outra acepção ergonômica, nasce preocupada com o estudo da ação em situação. A Psicologia passa37 a se preocupar com a questão da cognição do trabalho, a Ergonomia francófona vai se preocupar com a tarefa (trabalho prescrito) e o trabalho realizado e, ainda, com a psicopatologia que introduz a questão da subjetividade no trabalho.
A seguir, apresentaremos como surge a Ergonomia de orientação francesa a partir da Psicologia do Trabalho.
37Segundo Karnas (2004), a ‘psicologia do trabalho’ é geralmente definida como a ‘aplicação da psicologia ao
domínio do trabalho’. Tal definição é muito trivial. Se ela se refere a obras que tratam da psicologia do trabalho, somos surpreendidos pela diversidade de aproximações que descobrimos dentro desse campo. Essa diversidade é expressa pelo uso de diferentes expressões para falar de ‘psicologia do trabalho’. São expressões como: ‘psicologia industrial’, ‘psicotécnica’, ‘psicologia das empresas’, ‘psicologia cognitiva do trabalho’, ‘psicologia ergonômica’, ‘psicologia do trabalho e das organizações’, para não citar outras que recorrem a campos de intervenção que participam da psicologia do trabalho. Elas correspondem a opções particulares em matéria de finalidade, de objetos de pesquisa e de intervenção (Karnas, 2004:05).(tradução nossa)