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A fim de entender como o discurso “constrói” sua analise do futebol

contemporâneo utilizarei como material empírico as transmissões televisivas de futebol. Trata-se de perceber como essas narrativas relevam os valores estabelecidos no futebol brasileiro, especificamente o mundo do estrelato futebolístico.

Antes do jogo em si, inicio da transmissão, há a propaganda do jogo, em que, é evidenciado aquilo que deve produzir mais expectativas no publico, as estrelas: os mitos do espetáculo. O jogo entre Brasil e Portugal em 2008 estiveram em campo duas das maiores vedetes do Olimpo futebolístico: Kaká e Cristiano Ronaldo, nesse sentido, antes do jogo foi criada uma espécie de duelo de titãs, o combate entre os supostos dois maiores jogadores da atualidade.

No inicio da transmissão as câmeras invadem o túnel que dá acesso ao campo mostrando a expectativa dos jogadores, focalizando principalmente as expressões das grandes estrelas. A exaltação é sempre em duas dimensões; visual, da imagem em si, mostrando exaustivamente a vedete; discursiva, que é conduzida pelo narrador esportivo, em que, as hipérboles frequentemente acompanham os nomes dos jogadores. Os mínimos detalhes são documentados, como o sinal da cruz que Robinho fez ao entrar em campo. A política do detalhe, da pornografia, faz parte do ritual das transmissões televisivas.

A escalação dos times é mostrada por meio de um gráfico computadorizado, mostram-se os jogadores e o desenho tático de cada time: é uma espécie de apresentação

de quais “produtos futebolísticos” vão ser consumidos nesse dado jogo. Logo depois os

jogadores se posicionam para a execução do hino, nessa fase do ritual as câmeras procuram evidenciar a conexão entre jogadores e torcedores, buscando mostrar o que os conecta: a pátria. A câmera foca na expressão dos jogadores, mostrando a emoção que acompanha o canto do hino intercalando com imagens dos torcedores que demonstram a mesma emoção.

Enquanto os jogadores buscam aquecimento em campo as últimas “pitadas” de expectativas são colocadas pelos especialistas no assunto: geralmente ex-jogadores que se tornam comentaristas: é uma voz respaldada para falar sobre o que pode acontecer e o que acontece no jogo.

Começando a ver o Pelé ali, já estou entusiasmado, vai ser um grande jogo, ver o Kaká que foi o melhor do ano, o Cristiano Ronaldo, que deve ser escolhido, e o Pelé, o melhor de todos (Falcão).

Pelé é um mito a parte, até hoje é considerado o melhor jogador de todos os

tempos, isso se deve, penso, ao fato de não ter se “sacralizado” pela atual lógica do

consumo8 . O que se utiliza, o que se consome do Pelé é o próprio mito, o mito Pelé. O

Rei do futebol foi reutilizado como um “Jesus futebolístico”, em que, se espera que

novo Pelé?! “ O rei Pelé, o maior jogador de todos os tempos[...] Deus quis que ele nascesse em três corações, o maior atleta de todos os tempos”, diz o narrador.

O início do jogo caracteriza outra fase: duelo entre o jogador e seu duplo, este último construído sinteticamente pelos meios de comunicação. No decorrer do jogo nem Kaká nem Cristiano Ronaldo pareciam não ser os mesmos exaltados há pouco tempo, a disjunção entre a realidade e a estrela construída pela mídia salta os olhos. Luis Fabiano, o fabuloso, foi o destaque do jogo. Atribuiu-se uma suposta pancada levada por Cristiano Ronaldo no início do jogo sua má performance e Kaká a falta de ritmo de jogo.

O que me interessa perceber nas transmissões televisivas são esses ritos de exaltação dos jogadores que antecedem o início da partida, que buscam espetacularizar o acontecimento, exaltar as vedetes e entreter o telespectador para conquistar sua audiência.

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Enfocando nas representações construídas pela mídia especificamente

direcionadas a um pensamento futebolístico podemos notar uma espécie de “estica e puxa” na relação entre a “malandragem” e a “disciplina”. Nesta relação ora a

malandragem é vista como a essência do futebol brasileiro, ora é representada como

“atrasada” e gratuita. Nesta última, pode-se perceber uma violência simbólica no sentido

do sujeitado. Em 2009, o então técnico do Santos, Luxemburgo, deu uma declaração interessante para percebermos como se representa a malandragem nesta perspectiva. Segundo o treinador, o jogador Neymar teria que ter mais objetividade, este parece ter se adequado ao enunciado do treinador: “Ele tem que driblar para frente e fazer com que o adversário cometa a falta e seja expulso, como aconteceu hoje e não parar a bola e ficar

passando pezinho para lá e para cá”. Neymar, por sua vez, responde que suas jogadas são

objetivas. O que me interessa mostrar é o espaço “marginal” no qual a malandragem de outrora é decodificada ante a hierarquização valorativa contemporânea.

Por outro lado, quando um jogador faz uma “jogada malandra” pode-se ver “ressuscitar”

esta valoração. No jogo entre Brasil e Irlanda em 2010, Robinho faz suas “pedaladas” e o

narrador logo se empolga: “Esse é o futebol brasileiro, esse é o Robinho que conhecemos”. Antes dos jogos a fim de seduzir o torcedor, geralmente são utilizados grandes “dribles malandros” com efeitos de edição.

Este “estica e puxa” da malandragem pode ser entendido pela coexistência de

forças que direcionam os discursos9. Por um lado, geralmente a visão do técnico, por

assim dizer, o “símbolo” da disciplina faz reproduzir o discurso da objetividade ou de

uma malandragem com fins eminentemente objetivos. Por outro a mídia, ao mesmo tempo que reproduz os discursos dos técnicos em seu meio, propaga também a

“malandragem”, pois esta tem um efeito de “adorno” e que pode funcionar como

Partirei para tentar compreender como os rituais na sociedade contemporânea nos servem para compreender os significados que são atualizados na experiência futebolística neste contexto social.

5.7 Ritualidades e “devires” no futebol contemporâneo

Os rituais longe de se reduzirem a mera repetição tem a função de atualizar sentidos, valores e conflitos em uma dada sociedade. (DURKHEIM, 1996). Pode-se dizer que o desenvolvimento e a reprodução de uma lógica de pensamento também estão envolvidos com os ritos que os colocam em ação. Desta forma, algumas observações são válidas; a formação do pensamento está envolvido com ritualidades não só na sua reprodução como na produção de sentido e suas metamorfoses, como lembra Turner (2005): o ritual adapta e readapta sistematicamente o individuo as condições básicas e aos valores axiomáticos da vida social. As performances, portanto, estão imbricadas no bojo das construções dos saberes, estruturando e sendo estruturadas, nesse sentido, “A performatividade não é algo que o sujeito faz, mas um processo através do qual o sujeito

é construído” (ALMEIDA, 2004, p. 220). Farei uma aliança entre os rituais e os saberes.

Trata-se de pensar como o processo ritual está envolvido, na contemporaneidade, com o funcionamento desses saberes, a saber: malandragem, disciplina e sintéticos – midiáticos.

5.8 Entre o fascínio e o sentido: A semântica dos rituais futebolísticos na

Benzer Belgeler