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6.1.1 Meio Ambiente: enfoque para processos de transição na agricultura

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No sentido de ver o processo como um todo funcional e compreender, em conformidade com isso, as interdependências de suas partes (CAPRA, 1997).

Em processos de transição e/ou conversão na agricultura, o enfoque ambiental tende a ocupar um lugar central nos planejamentos e metodologias empregadas, tendo em vista que o intuito é o de promover mudanças na forma de se praticar as atividades produtivas, indo na direção oposta à lógica do modelo convencional de agricultura técnico-mecanizado e degradador do ambiente.

Mesmo que, por um lado, não se encontre um número tão expressivo de experiências ou iniciativas nas áreas analisadas, por outro lado, podemos considerar que existe um contexto favorável na região para o desenvolvimento de atividades agropecuárias mais sustentáveis, tendo em vista ainda o forte apelo social local e regional por iniciativas conservacionistas. Esses pontos serão mais bem abordados no subtópico seguinte.

Considerando que a maior parte dos agricultores alternativos e ecológicos que convertem seus sistemas de produção no Brasil são agricultores familiares (BRANDENBURG, 2003), em assentamentos rurais existe um enorme potencial para o desenvolvimento de projetos mais abrangentes de transição na agricultura.

O agricultor familiar consegue estabelecer uma lógica diferenciada quanto ao desenvolvimento de atividades produtivas mais amigáveis ao meio ambiente, pois estabelece relações de maior dependência dos recursos e processos biológicos naturais. Assim, o processo de transição agroecológica no contexto dos assentamentos analisados ainda poderá avançar muito, visto que ainda não foi trabalhado de maneira a expressar todo seu potencial, em virtude de variáveis que inviabilizam ou restringem as atividades.

De acordo com as constatações no estudo, verificou-se que, por se tratar de assentamentos localizados no interior de uma APA e no entorno de uma REBIO, cada vez mais a questão do desenvolvimento das atividades agropecuárias esteja atrelada à sensibilização para com as questões ambientais. E isso não só da parte dos agricultores, mas também de instituições, inclusive de uma atuação mais ativa e comprometida por parte do governo e suas esferas.

6.1.2 Os potenciais locais e regionais construídos

Na região de influência onde se procedeu este estudo, há um forte potencial e um movimento de contestação que direcionam esforços em prol de um desenvolvimento diferenciado para as zonas rurais, o qual está sendo capaz de promover algumas mudanças nas bases produtivas e sociais da agricultura familiar, inclusive em assentamentos de reforma agrária.

O aumento e a consolidação de experiências em agroecologia pelo estado e, consequentemente, a agregação de um número cada vez maior de pessoas interessadas em trabalhar os princípios da agroecologia, favorecem os potenciais local e regionalmente construídos, quando pensamos em propostas de transição para a agricultura. Também a agricultura urbana e periurbana são estimuladas pelos princípios de uma agricultura de base ecológica, com destaque para os trabalhos da AS-PTA pela região metropolitana do estado do Rio de Janeiro. Toda essa movimentação faz parte de um processo que está sendo trilhado na direção de atividades agropecuárias mais comprometidas com as questões ambientais, mas também pautando questões sociais, e que tem a agroecologia como ciência e proposta norteadora.

Apesar de suas limitações, o processo de transição agroecológica nos assentamentos localizados no entorno da REBIO de Poço das Antas se caracteriza como mais um forte núcleo irradiador de ideias e alternativas. Desde seu início pôde contar com elementos ou estratégias que foram sendo construídas também de forma espontânea pelos agricultores, se caracterizando como um potencial endógeno daquele local.

“Quando as respostas são adequadas à localidade (comunidade) e às suas condições concretas e específicas, se produz a geração de um potencial endógeno, evidenciando as próprias possibilidades e limitações” (SEVILLA GUZMÁN, 2001, p.41).

Podemos encontrar ainda muitas outras experiências em municípios próximos aos assentamentos estudados com possibilidade de articulação com agricultores e técnicos dos municípios, como Casimiro de Abreu, Araruama

(com destaque aos grupos que trabalham com a preservação de sementes crioulas), Rio das Ostras, Cabo Frio, Nova Friburgo e mediações, além de muitas experiências em Paraty, ao sul do estado. Também as experiências em agroecologia na região norte Fluminense que passam por um processo de intensificação das discussões e ações práticas, e contam com o apoio da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) e dos trabalhos das articulações de agroecologia, entidades de ATER e demais organizações e movimentos sociais pelo estado.

Esses potenciais endógenos de diferentes atores sociais voltados para o setor agropecuário tendem a ser expandidos, do momento em que vão de encontro uns com os outros, estabelecendo trocas entre experiências de distintas localidades, de acordo com seus objetivos, demandas e vocações/aptidões. Nas palavras de Carmo (2011), as ações sociais coletivas elevam o potencial transformador endógeno, pois são importantes na mobilização dos atores sociais, abrindo espaço para um maior protagonismo e participação na formulação de alternativas com base em suas necessidades, capacidades e limitações materiais, naturais e humanas.

Em uma perspectiva macro do processo de transição, essa integração e troca de vivências é vista como um dos principais mecanismos para o fortalecimento de iniciativas e projetos em andamento, ao mesmo tempo em que permite a construção de cenários mais favoráveis para mediar os conflitos de ordem socioambientais, econômicos e também culturais que permeiam a realidade desses grupos.