Como visto anteriorm ente, entre os gr andes grupos sucroalcooleiros até aqui analisados, foram identificadas a presença de repr esentantes da indústria de capital de risco. No grupo COSAN, pa rticipa o grupo Gávea Investimentos, no grupo BRENCO o grupo TARPON investimentos, além de investidores internacionais. Foi d estacado também, a participação da BNDESPar nos grupos SÃO MARTINHO, BRENCO e LDC-SEV.
133 Durante a segunda metade da primeira década do século XXI, um conjunto expressivo de gestores de private equities anunciou ter interesses em investir em biocombustíveis, sobretudo no etanol. Os grupos com maior exposição na imprensa de negócios apareceram no período de negociação da fusão entre os grupos Vale do Rosário e S anta Elisa. Entre os grupos mais cotados na época estavam o Gove rnança & Gestão, liderado pelo ex-m inistro Antônio Kandir, e o grupo Gávea, controlado pe lo ex-presidente do B anco Central Armínio Fraga. Outro grupo de private equity que anunciou ter interesse em investir na industria sucroalcooleira é o grupo Rio Bravo, contro lado pelo, també m, ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco. De acordo com Franc o, “O Brasil tem um charm e especial do ponto de vista ambiental...”, “Estamos olhando oportunidades neste segmento” (SCARAMUZZO, 27/04/2007). Mas dos três grupos citados, apenas o Gávea ingressou no setor, investindo na COSAN Limited, conforme indicado acima.
Mas, além dos investimentos de private equities relacionados aos grandes grupos da indústria já indicados no trabalho (COSAN, LD C-SEV), a seguir serão apresentados outros importantes arranjos de private equities presentes na indústria sucroalcooleira.
O grupo ODEBRECHT, um dos principais grupos econômicos brasileiros, com inserção internacional, ingressou na indústria sucroalcooleira em 2007 por meio da subsidiária ETHbioenergia. A ETH adquiriu a Brazil Renewable Energy Company - BRENCO (Companhia Brasileira de Energia R enovável), um dos principais arranjos de private equities na indústria sucroalcooleira. A operação entre a ETH e o grupo BRENCO corrobora com a idéia de que um novo ator, em determinado campo, raramente é pequeno, m as, geralmente, fruto da associação de desafiadores e outro s atores, dom inantes em outros campos, que pretendem explorar oportunidades em um novo campo Bourdieu (2005).
134 O grupo BRENCO ha via se tornado um a das principais referências do modelo de empresa para a indústria, seja pela retórica da g overnança corporativa e da sustentabilid ade, seja pela experiência em finanças trazida pelos seus investidores (MUNDO NETO, 2008). O grupo BRENCO foi criado em 2007 a partir da reunião de um conjunto de investidores nacionais e internacionais que ingressaram nos negócios do etanol. Esse conjunto de atores se aglutinou em torno de Henri P hillipe Reichstul65 e não de grupos sucroalcooleiros
tradicionais. Os capitais de Reichstul, no sentido de Bourdieu, determ inam a sua posição no campo da empresa (BRENCO) bem como sua capacidade de interagir e interferir em negócios de campos correlatos (campo da indústria de ener gia, campo da indústria de capital de risco, esfera governamental). Enquanto profissional da indústria petrolífera, Reichstul tem projeção no mercado de capitais internacion al e legitimidade para ingressar nos negócios de energias alternativas ou complementares ao petróleo.
Reichstul foi o principal responsável pela estruturação da diretoria executiva do grupo BRENCO. Mesmo não sendo em presa de capital aberto, a BRENCO e struturou-se como tal. Antes de ser incorporada pela ETHbioenergia, seu conselho de administração era composto por profissionais com experiência no m ercado de capitais e representantes dos principais investidores (Amber Capital, Ashmore Energy International, The Yucaipa Companies, Tarpon investimentos, Vinod Khosla, Ron Bu rkle, Bill Clinton) (MUNDO NETO, 2008). A Governança Corporativa era exp licitada, mesmo antes da abertura do capital da empresa, diferentemente do que ocorre com as empresas sucroalcooleiras tradicionais. Mesmo antes de ser incorporado pela ETH, o grupo BRENCO já tinha representante no Conselho da UNICA. Este fato demonstra o reconhecimento dos seus pares.
65 Seu currículo ilustra como os executivos podem ser considerados recursos que concentram diferentes tipos de capitais para a empresa. Detalhes disponíveis no ANEXO – 1.
135 Os investimentos do grupo estiveram relacionados a projetos que partem do zero (greenfields) e lo calizados na p rincipal área de e xpansão das atividades sucroalcooleiras, região centro oeste do país. Para m inimizar as críticas relacionadas às q uestões trabalhistas, em particular aquelas da colh eita manual da cana-de-açú car, os projetos previam colheita 100% mecanizada. A dim ensão ambiental era tratada segundo a proposta derivada das discussões em fóruns am bientais, focada na idéia dos Mecanism os de Desenvolvim ento Limpo (projetos MDL).
Na sua apresentação institucional, o gru po BRENCO critica va o m odelo sucroalcooleiro tradicional e sugeria sua proposta para a indústria.
Para nós, a Sustentabilidade baseia-se em um novo modelo de gestão de negócios, onde a at uação nas dimensões social e amb iental, aliada a u ma rígida política de governança corporativa, interfere positivamente na dimensão econômica do negócio,
agregando valor à com panhia.
Entendemos que para uma atividade produtiva ser efetiv amente sustentável, é necessário alcançar um bom resultado financeiro sem comprometer as necessidades das pessoas e sem agredir os recursos naturais. Só assim é p ossível garantir as melhores condições de vida para as gerações futuras.BRENCO (2008)66
A BRENCO prescrev ia um modelo de su stentabilidade cujos pilares seriam a responsabilidade social (acompanhar o IDH nos municípios onde possui unidades produtivas, interagir com ONGs, valor izar mão-de-obra local, diálogo entre as partes interess adas), o meio ambiente (rastreabilidade do etanol e geotecnologias, program as de gestão ambienta l, inventário e m onitoramento de Gases de Ef eito Estufa, conservação e restauração da biodiversidade), a segurança e saúde ocupa cional e a governança sustentável (núcleo interdisciplinar para a susten tabilidade, sistema de g estão para saúde , segurança e m eio ambiente, manual de sustentabilidade para parceiros, relatório de sustentabilidade).
O grupo BRENCO seria um caso de private equity à “brasileira”, no sentido indicado por Grün (2009), dado a ênfase conferida à re tórica da governança cor porativa. Para os
136 criadores do grupo BRENCO, o desinvestim ento (saída do negócio) seria apenas após alguns anos e, preferencialmente, via abertura de capital. Mas, tanto os baixos preços do açúcar e do álcool como a crise financeira de 2008 fizeram os planos serem antecipados, resultando na transação com a ETHbioenergia.
Os grupos, COSAN e ETHbioenergia, estari am ampliando o uso da estratégia de terceirização das atividades de Corte, Carrega mento e Transporte (CCT) de can a-de-açúcar. Os altos investimentos exigidos em equipamentos para a colheita m ecanizada da cana levou estes grupos a considerarem a possibilidade de terceirizar estas operações. Desta forma, são liberados os capitais que estavam imobilizados nas atividades de CCT para se rem aplicados em negócios mais rentáveis e, ao m esmo tempo, contribui para minigar as críticas relativas à colheita manual. Recentemente, empresas de log ística, especializadas em atividades semelhantes, mas aplicada ao corte, carregamento e transporte de eucalipto para a indústria de papel e celulose, particularm ente os grupos JULIO SIMÕES e GAFOR, passaram a disponibilizar este serviço para a indústria sucroalcooleira (MANECHINI, 20/04/2009).
Outro importante arranjo de private equity na indústria sucroa lcooleira resultou no grupo INFINITY BIO ENERGY, c riado em 2006, a pa rtir da associação de um conjunto de investidores, entre os q uais merece destaque os grupos Merrill Lynch, Stark e Och-Ziff
Management, que somaram 10% de participação, e o fundo Kidd & Company, com
aproximadamente 25% de participação. (SCARAMUZZO, 12/12/2006). O grupo INIFINITY BIO ENERGY abriu seu capital na bolsa de Londres em maio de 2006 e, na BOVESPA, e m 2008. Assim com o o grupo BRENCO, o I NFINITY foi constituído com o um típico investimento de private equity. Mas um a das principais diferenças é a relevância dada à estratégia de abertura de capital.
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A principal aquisição do grupo foi a Usin avi, uma ex-cooperativa agropecuária (Coopernavi) de Naviraí, no estado do Mato Grosso do Sul. Mas o grupo tam bém realizou investimento nos estados de Minas Gerais, Espí rito Santo e São Paulo. Entre os investidores nacionais destaca-se a Worldinvest, consulto ria fundada por Sérgio Thom pson-Flores, que, além de conselheiro, foi também o presidente executivo do grupo desde a sua criação.
Entre os conselheiros, destaca-se a pres ença de Eduardo Bom Ângelo devido a sua forte ligação com fundos de pensão, particul armente a Br asilprev da qual foi presidente executivo67.
Mas com a crise financeira de 2008, o grupo passou a enfrentar dificuldades financeiras que acab aram culminando com a fo rmalização de seu pedido de recuperação judicial, junto a BOVE SPA. No inicio de 2010, o grupo BERTIN adquiriu os ativos da INIFITY BIO ENERGY. O grupo B ERTIN, renomado no ramo de frigoríficos, teria optado por redirecionar seus investim entos. Pouco antes de incorporar o grupo INFINITY, o grupo BERTIN havia vendido sua área de alimentos para o grupo JBS-FRIBOI. Além de investir no setor sucroalcooleiro, o BERTIN ta mbém ingressou no setor de infra estrutura. F oi um dos integrantes que venceu o leilão p ara a co nstrução da usina hidroelétrica de Belo Monte (GOULART; TEIXEIRA, 08/04/2010).
O grupo AGROERG é “ uma empresa de agroenergia gerida por um grupo de sócios com ampla experiência em agronegócios e no s etor financeiro”. (AGROERG, 2010). Já na apresentação da em presa fica explicitada a par ceria entre as força lig ados ao agronegócio , sobretudo na figura do ex-m inistro Roberto R odrigues, e as das finan ças, pela lógica do capital de risco. Roberto Rodrigues seria outro exemplo de profissional que acumulou capital
138 cultural, seja na acade mia seja como político, e, na inicia tiva privada, utiliza s eu prestígio para aglutinar investidores internacionais, em torno dos negócios sucroalcooleiros.
A proposta da AGROERG é produz ir apenas energia elétri ca e etanol. Sua vantagem competitiva viria da ex periência de Roberto R odrigues, considerado o criador do sistema COPLANA (Cooperativa dos Plantador es de Cana da Região de Guariba) de produção de cana de açú car que ado ta a rotação da cana de açúcar co m outras cu lturas, sobretudo o amendoim, visando os benefícios agronôm icos da técnica e a produção de alim entos. A técnica de rotação sugerida por Roberto Rodrigues à COPLANA se transformou num argumento em defesa a um a das principais crí ticas à p rodução de etanol, já que a cana de açúcar concorre por terras co m as cultu ras destinadas à produção de alim entos. Mesmo a COPLANA tendo se tornado uma das líderes brasileira no comércio de amendoim, o ciclo de produção da cana de açúcar 68, relativamente longo, i mpõe limites à produção de alim entos
pelo sistema de rotação indicado. Mas inde pendentemente da efetividade do sistema COPLANA no sentido de concil iar produção de cana de açúcar e culturas destinadas à produção de alimentos, o fato é que Roberto Rodrigues se apropriou desta idéia para ampliar a legitimidade de seus empreendim entos, conforme indicado na apresentação institucional da empresa na internet.
Cabe destacar que entre os sócios da AGROERG esta o sócio fundador da EMPRAL, fornecedor de instalações industriais sucroalcooleira, Carlos Tambellini. Dentre os executivos destacam-se os profissionais com formação e experiência em finanças, com o é o caso do diretor financeiro (CFO) do grupo, Nelson Tartuce Neto, co m experiência em m ercados financeiros internacional, atuando no banco W estLB, e nacional, no BNDES; e do Presidente
68 A cana de açúcar é considerada uma cultura semi-perene. Após o plantio a planta suporta, em média cinco cortes, ou se ja, somente após a quin ta colheita a área é reformada e o plantio com a cultura de rotação é realizado. Há casos em que a cana de açúcar suporta até dez cortes, como indicado por um produtor e cooperado da COPLANA em entrevista realizada durante a pesquisa de campo.
139 Executivo (CEO), Carlos Baptista Pereira de Almeida, ex-diretor do Banco Chase Manhattan (mais detalhes no ANEXO – 1).
O grupo CLEAN ENERGY BRAZIL (CEB) é frut o de outro típico investim ento de private equity na indústria sucroalcooleira. É resultado da parceria entre o banco de investimento Numis, com sede em Londres, a Czarnikow ( consultori a, líder mundial de serviços para o m ercado de açúcar) e da Ag ropecuária Orlando Prado Diniz Junqueira – AGROP (empresa de consultoria e serviços na área agrícola). Tanto o Banco Numis com o a AGROP tem como foco o potencial do setor sucroalcooleiro para o m ercado de carbono. Marcelo Junqueira que em 2008 ocupou a posição de Conselheiro e Presidente Executivo do CEB, concluiu sua pesquisa de m estrado sobre o m ercado de carbono e a indústria sucroalcooleira. Sua em presa, a AGROP, é especializada em consultoria para desenvolvimento de projeto MDL para os grupos sucroalcooleiros (CEB, 2010).
Outro recente investidor em negócios sucr oalcooleiros é o Fundo de Investim ento em Participações (FIP) “Te rra Viva”, gerido pe la DGF investim entos. O “Terra Viv a” é um arranjo de private equity diferenciado na indústria sucroa lcooleira, uma vez que reúne entre seus participantes, o Estado, por meio da BNDESPar e da Financiadora de Estudos e Projetos - FINEP, e um conjunto de gestores de f undos de pensão brasileiros, PREVI, PETROS ,
BANESPREV, o fundo de previdência do Santander, a FACHESF (Fundação Ches f Assistência e Seguridade Social) e a Fundação Itaipu (DGF (2011); (BATISTA, 11/03/2010)).
Os sócios da DGF são executivos com experiências em finanças e trajetória acad êmica em grandes escolas d e administração e enge nharia do país. Tam bém possuem trajetória profissional em empresas e bancos, nacionais e internacionais. Seu fundador, Sidney Chameh, é apresentado pela empresa como vice-presidente da Associação Brasileira de Private Equity & Venture Capital – A BVCAP (DGF, 2011). Um dos ges tores do fundo e sócio da DGF,
140 Humberto Casagrande, em entrevista ao jo rnal Valor Econôm ico, fez questão de frisar a preocupação com a Governança, não apenas dos negócios avaliados para potenciais investimentos, mas que uma das principais cont ribuições que a DGF pode oferecer aos seus parceiros é, justamente, a profissio nalização da gestão e desenvolv imento da Go vernança Corporativa. "Queremos parceiros que enxerguem além do nosso dinheiro. Que nos vejam
como oportunidade de profissionalismo e governança" BATISTA (11/03/2010). Esta
orientação estaria em sintonia com os interesses dos principais cotistas dos fundos TERRA VIVA: a BNDESPAR e os Fundos de Pensão.
A seguir serão analisadas, justamente, as recentes formas de participação do Estado na industria, notadamente por meio da subsidiária do BNDES a BNDESParticipações.
5.3.2 Estado Interventor e Estado Investidor: política dos biocombustíveis e os