Em novembro de 1969, em São José da Costa Rica, na Conferência Interamericana sobre Direitos Humanos, foi elaborada a Convenção Americana sobre Direitos Humanos, cuja vigência somente se daria com o depósito do décimo primeiro instrumento de ratificação por um Estado-membro da OEA, o que se deu em 18 de julho de 1978141.
140
Remete-se a CARDOSO, Evorah Lusci Costa. Harold Koh e a ideia de um processo normativo transnacional. op. cit., p. 261-272.
Cumpre notar que o Brasil, em 1965, apresentou projeto que serviu de base à Resolução XXIV da Conferência relativa ao Projeto de Convenção Americana sobre Direitos Humanos, e em 1967, votou pela necessidade de tal convenção na III Conferência Interamericana Extraordinária da OEA em Buenos Aires142.
Antônio Augusto Cançado Trindade, ao apontar as considerações elencadas pelo então Ministro das Relações Exteriores do Brasil, J. Magalhães Pinto, para justificar a participação do país na elaboração da Convenção junto à Presidência da República, destaca
[...] o fato de que o Brasil já era partícipe em outros tratados e instrumentos de proteção internacional dos direitos humanos e de ser a opinião pública internacional sensível a isso; segundo, a necessidade de evitar eventual isolamento do Brasil em relação ao sistema regional que uma posição de reticência ante o Projeto de Convenção acarretaria; terceiro, a opinião prevalecente entre os Governos da região favorável à particularização do sistema interamericano de proteção dos direitos humanos: quarto, a compatibilidade da coexistência entre as convenções globais (das Nações Unidas) e a interamericana (tidos os Pactos das Nações Unidas como não necessariamente suficientes); e quinto, o impulso que daria à própria integração latino-americana, desenvolvendo maior identidade continental e propiciando uma relativa uniformização de legislações nacionais no campo dos direitos humanos143.
Curiosamente, todavia, o Brasil somente aderiu à Convenção Americana sobre Direitos Humanos em 25 de setembro de 1992, depois de mais de seis anos de aguardo de aprovação parlamentar das mensagens presidenciais em seu favor, e apesar das disposições expressas da Constituição Federal de 1988 que proclama que o Brasil será regido em suas relações internacionais pelo princípio da prevalência dos direitos humanos144, tendo como fundamento a dignidade da pessoa humana145.
Com efeito, a Convenção Americana sobre Direitos Humanos é o principal instrumento normativo do sistema, tendo caráter objetivo, no sentido de que, como já reconhecido pela própria Corte Interamericana, foi concluída com a função única e exclusiva de proteção dos direitos fundamentais dos seres humanos, não cabendo falar-se em reciprocidade ou oportunidade e conveniência do Estado pactuante, sendo estes institutos típicos de tratados sinalagmáticos, que não se coadunam com o escopo dos tratados de direitos
142 Sobre o papel do Brasil no cenário internacional de proteção de direitos humanos veja-se TRINDADE,
Antônio Augusto Cançado, op. cit., passim.
143
Ibidem, p. 42-43.
144 Conforme artigo 4°, II, da Constituição Federal de 1988. 145 Conforme artigo 1°, III, da Constituição Federal de 1988.
humanos146. A Convenção Americana, assim como todos os tratados de direitos humanos, caracteriza-se pela unilateralidade, no sentido de que o Estado se obriga de forma absoluta em relação a todos.
Este tratado regional tem força cogente para os Estados que o ratificaram, sendo estabelecida a coexistência de dois órgãos executivos competentes para conhecer das violações de direitos: a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e a Corte Interamericana de Direitos Humanos. A primeira foi criada em 1959, tendo iniciado seus trabalhos no ano seguinte, após eleitos seus integrantes e aprovado seu Estatuto. Já o funcionamento da Corte vinculava-se à vigência da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, a qual somente se ultimou em 29 de junho de 1979, na sede da OEA, em Washington, Estados Unidos.
A Comissão Interamericana é o órgão que recebe ad initio as denúncias de violações, e em suas atribuições compreende-se a admissão e a investigação de reclamações de indivíduos ou organizações não-governamentais, inspeções e visitas nos territórios dos Estados- membros, solicitação e confecção de informes sobre a situação dos Direitos Humanos em qualquer país do sistema interamericano. Trata-se de órgão com função “quase judicial”, pois procura resolver possíveis conflitos de violações pelos Estados de forma preliminar à submissão do caso à jurisdição transnacional da Corte.
Não obstante todos os Estados-membros da Convenção Americana serem obrigatoriamente membros da OEA, nem todos os membros desta são partes na Convenção Americana. Do total de trinta e cinco Estados que pertencem à OEA, vinte e cinco147 aderiram à Convenção Interamericana de Direitos Humanos em momentos distintos, como se pode observar na Tabela 1 abaixo:
Tabela 1 - Data de adesão dos países do continente americano à Convenção Americana sobre Direitos Humanos.
146 Consulte-se em Corte interamericana de Direitos Humanos o Parecer Consultivo sobre o efeito das reservas
sobre a entrada em vigor da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Artigo 74 e 75), Parecer 2/82 de 24 de setembro de 1982, Série A n° 2, parágrafo 29, p. 44.
147 Os dez países que não ratificaram a Convenção Americana sobre Direitos Humanos são os seguintes: Canadá,
Estados Unidos, Antígua e Barbuda, Commonwealth das Bahamas, Belize, Guiana, Saint Kitts e Nevis, Santa Lucia, São Vicente e Granadinas e, por fim, Trinidad e Tobago, que denunciou a Convenção anos após a ratificação. Destes, apenas os Estados Unidos chegaram a firmar a Convenção, fato ocorrido em 01 de junho de 1977, mas não a ratificaram até o momento.
Países Data de adesão à Convenção Argentina 05/09/1984 Barbados 27/11/1982 Bolívia 19/07/1979 Brasil 25/09/1992 Chile 21/08/1990 Colômbia 31/07/1973 Costa Rica 08/04/1970 Dominica 11/06/1993 Equador 28/12/1977 El Salvador 23/06/1978 Granada 18/07/1978 Guatemala 25/05/1978 Haiti 27/09/1977 Honduras 08/09/1977 Jamaica 07/08/1978 México 24/03/1981 Nicarágua 25/09/1979 Panamá 22/06/1978 Paraguai 24/08/1989 Peru 28/07/1978 República Dominicana 19/04/1978 Suriname 12/11/1987 Uruguai 19/04/1985 Venezuela 09/08/1977 Trinidad e Tobago 28/05/1991
Fonte: Elaborada após consulta ao site http://www.corteidh.or.cr/. Acesso em 19 nov. 2011.
Deste total de vinte e cinco Estados, desde 26 de maio de 1999 Trinidad e Tobago não mais é país signatário da Convenção, visto que a denunciou um ano antes.
Por seu turno, em 06 de setembro de 2012 a Venezuela também denunciou a Convenção Americana, e caso seja mantida esta situação de denúncia, o país deixará de ser considerado signatário da Convenção a partir de 06 de setembro de 2013148.