Há autores cuja explicação para o emprego das formas plurais está alinhada ao modelo de Williamson (1991), de que diferentes mecanismos realmente governam transações que são diferentes em pelo menos um atributo. Para Minkler e Park (1994) os diferentes níveis de especificidade de ativos envolvidos nas transações estabelecidas pela firma é que justifica a presença simultânea de distintos mecanismos de governança. Como no caso das franquias o ativo mais específico envolvido na transação é a marca, uma firma pode decidir por uma proporção de lojas integradas para evitar o comportamento oportunista e o não cumprimento dos procedimentos que sustentam o valor da marca (obtendo quase-rendas com isso) por parte de alguns franqueados. Fan (1995) defende o uso de estruturas integradas ou híbridas em áreas onde a especificidade de ativos e a incerteza sobre o desempenho do negócio têm maior ou menor intensidade.
Portanto, embora as transações com diferentes agentes sejam similares, cada transação tem pelo menos um atributo diferente e, por isso, é coordenada por uma governança distinta, justificando a adoção de formas plurais. Para explicar a heterogeneidade contratual verificada em muitos casos empíricos, há uma adaptação do modelo de Williamson (1991), sendo essa heterogeneidade explicada pelos limites cognitivos nas ações dos agentes. Azevedo e Silva (2001) consideram que há custos ou inabilidades para mensurar as dimensões das transações e, consequentemente, dificuldades em encontrar uma solução ótima ou mais
eficiente em termos de coordenação, o que acaba resultando na escolha de diversas estruturas para governar transações que têm atributos similares.
3.2.2 Formas plurais como uma situação transitória
No segundo grupo de argumentos sobre a adoção de formas plurais estão autores que defendem a idéia de que transações similares podem implicar num mix contratual transitório, onde uma estrutura de governança singular irá prevalecer no longo prazo.
Para Cave e Murphy (1976), a coexistência de governanças distintas no segmento de franquias é uma situação transitória e um instrumento de controle utilizado pela firma, sendo explicada, em parte, pelas características do mercado e pela existência de ativos intangíveis. Desse modo, a tendência de manutenção de lojas integradas aumentaria na medida em que aumentam as dificuldades em cobrar dos franqueados os benefícios proporcionados por ativos intangíveis, e, também, na medida em que o sistema ganha maturidade e, consequentemente, diminui o custo do capital para o franqueador. Sob uma visão de direitos de propriedade, Windsperger (2002) destaca o papel dos ativos intangíveis na explicação das formas plurais. Para o autor, dada a distribuição de ativos intangíveis entre franqueado e franqueador (como a marca, know how etc.), esse último agente pode exercer controle gerencial para determinar o mix contratual e, consequentemente, a alocação dos direitos residuais de renda entre a partes. Essa estratégia melhoraria a eficiência organizacional da firma.
Também no segmento de franquias, Rubin (1978) e Gallini e Lutz (1992) explicam a existência de formas plurais como resultado da busca por uma situação de equilíbrio entre incentivo e controle, constituindo-se num mecanismo de proteção da firma. Os contratos de franquias (estrutura híbrida) apesar de estarem sujeitos a ações oportunistas, possuem elevado poder de incentivo. Já a governança integrada, num ambiente de assimetria de informações, permite maior controle e a redução dos custos de informação. A estratégia defendida pelos autores é a de que, no começo do negócio, manter uma elevada proporção de lojas integradas para sinalizar elevada qualidade para os potenciais franqueados, com o objetivo de proteger o valor da marca. Quando esse valor estiver estabelecido, essa sinalização seria menos requerida, resultando numa proporção menor de lojas próprias e uma proporção maior de franqueadas. Outra explicação do autor está relacionada à imperfeição do
mercado de capitais, onde a opção por contratos de franquias é uma saída para a limitação de recursos financeiros próprios e para a restrição de financiamento externo. Cave e Murphy (1976) já destacavam essa questão da escassez de recursos como justificativa para o emprego de formas plurais, assim com Minkler (1990) e Norton (1988), sendo que o primeiro enfatiza a escassez de informação local e o segundo a dificuldade no gerenciamento de talentos. Assim, por problemas de restrição de recursos, opta-se por estruturas híbridas e quando essas restrições externas desaparecem, a firma, progressivamente poderia voltar a integrar suas atividades, prevalecendo essa estrutura.
A explicação de Bai e Tao (2000) também segue a lógica das formas plurais como uma situação transitória. A argumentação dos autores é de que a multiplicidade de governanças é um caminho temporário para induzir esforços na busca do desenvolvimento da marca, o ativo específico mais relevante no caso das franquias. Na mesma linha de análise, Lewin e Solomon (1999) apontam a multiplicidade de governanças como um esquema de comprometimento usado pela firma para dar incentivos à outra da parte da transação inovar o produto e/ou o processo de produção.
No âmbito dos sistemas agroindustriais, a questão das formas plurais foi tratada por Zylbersztajn e Nogueira (2002), que pressupõem que o arranjo mais eficiente será gradativamente adotado pelos agentes, ou seja, formas de governança alternativas podem coexistir como pontos de desequilíbrio em um processo de ajuste. Para os autores, a pluralidade de arranjos pode ser explicada por: (a) situações de desequilíbrio, onde a presença de formas plurais pode representar uma situação de ajuste entre formas atuais e futuras, movidas por modificações nas características das transações; (b) barreiras para a adoção de uma governança nova e superior devido à existência de rotinas específicas intransferíveis; (c) efeitos do ambiente institucional no qual a governança ocorre como fato gerador de múltiplos alinhamentos, podendo representar uma situação temporária de desequilíbrio com agentes adotando a nova forma de governança. Com base nas críticas centradas no caráter estático da Economia dos Custos de Transação, os autores utilizam conceitos da Teoria das Competências Dinâmicas para explicar a pluralidade de estruturas de governança onde as características das transações são similares. O argumento central é de que as competências dinâmicas provenientes do conjunto de rotinas específicas e intransferíveis geradas dentro da firma, bem como as tecnologias adotadas e a aprendizagem tácita são indutoras da “dependência de rota”, ou seja, podem levar à permanência de formas de governança, mesmo
que segundo a argumentação de Williamson exista outro alinhamento mais eficiente13. Cabe ressaltar que, embora a Economia dos Custos de Transação não negligencie aspectos de dependência de rota, essa teoria privilegia o efeito do ambiente institucional como gerador de diferentes resultados de alinhamento, mesmo quando as características das transações são as mesmas. Quanto à questão da estabilidade das formas plurais ao longo do tempo, Zylbersztajn e Nogueira (2002) defendem que estas serão mais estáveis quanto maior a existência de ativos co-especializados, maior a presença de rotinas específicas (competências) desenvolvidas entre os agentes, menores as oportunidades fora da governança, e melhores mecanismos de solução interna de disputas.