6. İTÜ TASARIM PROJELERİNİN KAVRAMSAL ANALİZİ
7.3. Gelecek Çalışmalar İçin Öneriler
No entanto, é bem provável que em nosso texto as práticas denunciadas por Miqueias aconteciam na esfera pública, e seus agentes estavam ligados à administração estatal. O modelo teórico do modo de produção tributário norteia essa nossa afirmativa e nos ajudará a entender com mais clareza essa questão – e, consequentemente, o ambiente social no qual o profeta esteve inserido.
Como já esboçado anteriormente, não é nossa tarefa no momento explicar esse modelo teórico. Nesta etapa, faremos simplesmente alusão ao modelo a fim de apontarmos os supostos autores e vítimas do delito.
Em traços gerais, podemos indicar quem seriam os criminosos e as vítimas de suas ações. Os criminosos seriam um grupo poderoso e coeso que usava da fraude e da violência para defraudar um grupo de pessoas que vivia no campo. Miqueias falava a um mundo tributário. Campo e cidade não só eram distintos, como também viviam em conflito.
A rigor, sua denúncia era dirigida às instituições citadinas dominantes. Miqueias vê a cidade de modo isolado. Analisa-a como estrutura de dominação que funciona como um covil que extorque e empobrece os vitimados camponeses. A denúncia retrata a situação do campesinato sob o tributarismo.
A injustiça e a exploração aumentavam, seja mediante a tributação, seja mediante a relativa mercantilização das trocas, no âmbito das vilas interioranas no oitavo século. A violência e a espoliação eram constantes. Miqueias chega afirmar que as pessoas indefesas estão sendo “devoradas” (Mq 3,1-14).213
Entre as causas que provocaram essa situação, Haroldo Reimer destaca a política de expansão e conquista da Assíria. Seu interesse em controlar a rota comercial que passava pela planície litorânea da terra de Israel levou os dirigentes de Judá, por seu lado, a promover uma política de fortificação de suas cidades-fortalezas
e a desenvolver uma política de armazenamento de alimentos. Tudo isso à custa dos camponeses produtores.214
Além dos gastos administrativos e militares, Milton Schwantes destaca outras causas para a situação de exploração vigente no oitavo século em Israel. Entre elas, a ampliação das fronteiras comerciais, onde as trocas e o “comércio” eram realizados com produtos agrícolas tributados dos camponeses; e também os novos padrões de consumo internacionais adotados pela elite citadina. Requinte e luxo passaram a ditar a vida (Am 3,12; 6,4; Is 2,7). Os fornecedores de tal luxo seriam os pobres camponeses sobretaxados.215
Os denunciados integravam-se à administração estatal; no entanto, assumiam funções específicas no delito descrito pelo profeta. Como afirma Schwantes, a cidade não era uma grandeza fortuita, mas sim organizada e estruturada.216 O Estado tributário viabilizava e acelerava o empobrecimento dos camponeses. A denúncia de Miqueias tinha caráter social e visava atingir essa estrutura organizada que sustentava o interesse estatal. Tanto na denúncia quanto no castigo, Miqueias tinha em vista não somente pessoas. No caso de nossa unidade, preponderantemente trabalhou com categorias estruturais, nas quais não são listadas pessoas e sim delitos.
É bem provável que o primeiro grupo denunciado pelo profeta seria o dos líderes religiosos, porquanto, ao fazer uso de palavras eminentemente teológicas na abertura da denúncia genérica e a específica, o profeta procurava denunciar a corrupção religiosa vigente em seu tempo. Para Miqueias, tal corrupção na sociedade tinha sua raiz na corrupção dos líderes religiosos. Algumas perícopes subsequentes do profeta corroboram nossa afirmação.
Em 2,6-11, vemos um discurso de disputa entre Miqueias e os falsos profetas dos gananciosos, que avalizavam o roubo. Em 3,5-8, o foco se volta novamente aos falsos profetas, que pregavam por dinheiro. E, em 3,9-12, um oráculo de julgamento sumariza tudo que o profeta havia dito aos líderes civis e religiosos de Jerusalém, incluindo agora os sacerdotes.
Pelo uso de expressões de caráter teológico na denúncia dos malfeitores, o profeta provavelmente atribui, de forma indireta, o crime aos líderes religiosos por não exercerem sua função de modo digno, permitindo que os pecados dos poderosos
214 Haroldo Reimer, Ruína e reorganização. O conflito campo-cidade em Miqueias, p. 102.
215 Milton Schwantes, A terra não pode suportar suas palavras: reflexão e estudo sobre Amós, p. 23-
25.
se tornassem ações concretas e criminosas no meio da sociedade. Schwantes afirma que os líderes religiosos levaram o povo a perder a noção do caminho e do âmbito em que podia sobreviver.217
Em sua denúncia, Miqueias também se opõe a outros setores sociais que desempenhavam papel decisivo no delito. São setores sociais intracampesinos que diluíam a confrontação entre o Estado tributário e o campesinato tributado. A menção da expressão “na luz da manhã”, no v. 1, como já observado, provavelmente se refere ao momento do julgamento no portão da aldeia. O fato parece indicar a corrupção da justiça.
A jurisdição por anciãos e homens livres na porta dos povoados era a forma mais importante do direito estatal em Israel; Frank Crüsemann afirma que tal fo rma de jurisdição era uma expressão do sistema jurídico estatal na época da monarquia. Nesse período existia uma complementaridade e uma coexistência totalmente sem problemas entre os órgãos do poder estatal e a jurisdição dos anciãos e leigos (1Rs 21).
Ao lado dos chefes de determinados clãs estavam pessoas de influência e os poderosos da cidade que dominavam a justiça. Eles estavam igualmente conluiados com o rei e eram-lhe obedientes.
Miqueias chama-os de “os chefes de Jacó” e “os líderes da casa de Israel” (Mq 3,1.9). Os dois grupos constróem Jerusalém com sangue e decidem nos tribunais mediante subornos. Os chefes desempenham sua função nos grandes clãs, os líderes no Estado, e de modo algum existem separadamente.218
Por fim, os camponeses enfraquecidos eram também vitimados pela violência. As expressões “apoderam-se” e “levantam” (v. 2), analisadas anteriormente, provavelmente indicam uma realidade de violência militar. O exército viabilizava e dava cobertura aos que espoliavam e arrasavam os camponeses pauperizados.
Os militares não eram apenas um setor da sociedade, mas também um dos principais responsáveis pela manutenção da estrutura de dominação. Com violência, agrediam brutalmente os camponeses, apoderando-se de seus campos e saqueando suas casas. Enfim, arrancavam violentamente o possuidor da terra de sua posse,
217 Milton Schwantes, “Meu povo” em Miqueias, p. 14.
218 Frank Crüsemann, A Torá: teologia e história social da lei do Antigo Testamento, Petrópolis,
saqueando os pertences das famílias camponesas e levando as pessoas para trabalhos forçados.219
O exército não consistia em milícias populares, mas sim em guarnições de homens permanentemente treinados e equipados para a luta a serviço dos interesses do Estado. Seus integrantes até provinham de famílias camponesas ou grupos periféricos, mas, uma vez incorporados, seu sustento era provido por tributos em espécie arrecadados pelo Estado. Por isso, tal exército profissional estava pessoal e estruturalmente vinculado ao Estado.220
Por esses caminhos as famílias camponesas perdiam sua terra, seus pertences, sua liberdade, enfim, sua herança. A antiga estrutura na qual estava baseada a comunidade clânica estava ruindo diante da intervenção estatal.
Dessa forma, é possível admitir como evidente a inter-relação entre os supostos autores do delito. Com efeito, os criminosos não se encontravam apenas na cúpula do poder (elite, religiosos e militares), mas também, como afirma Schwantes, nos povoados e vilarejos camponeses (juízes, comerciantes e donos de escravos).221
Por isso, é possível afirmar com Hans Walter Wolff que os autores do crime seriam os funcionários e soldados das tropas reais que viviam nas cidades fortificadas durante os tempos de calmaria militar, como também certos possuidores de terra gananciosos da Sefelá, de quem Isaías também falou (5,8-10).222
A denúncia do profeta também destaca as vítimas do crime. Amós e Isaías usam três expressões para referir-se às vítimas da injustiça: “pobre”,
!Ayb.a,
(°ebyôn), “necessitado”,
lD;
(dal), “fraco”, “magro”,ynI['
(±¹nî), “oprimido”. Nenhuma dessas palavras são encontradas em Miqueias.Todavia, as pistas indicam que as prováveis vítimas seriam camponeses empobrecidos, “homens livres” com acesso à terra/herança, à jurisprudência local e com algum controle sobre sua própria produção. No entanto, acham-se num crescente processo de empobrecimento e endividamento que consequentemente
219 Noli Bernardo Hahn, Miqueias 2,1-5: profecia e luta pela terra – uma leitura da influência da
situação histórico-social nas últimas décadas do século VIII a.C., em Judá na vida da antiga ordem tribal, p. 69.
220 Haroldo Reimer, Agentes e mecanismos de opressão e exploração em Amós, em Revista de
Interpretação Bíblica Latino-Americana, Petrópolis, Vozes, n. 12, 1992, p. 54.
221 Milton Schwantes, A terra não pode suportar suas palavras: reflexão e estudo sobre Amós, p. 62. 222 Hans Walter Wolff, Micah: A Commentary, p. 78.
afastam-nos do portão, tornando-os presas fáceis dos vendedores, transformando-os em escravos e escravas e sujeitando-os a toda sorte de violência e massacre.223
Por isso, os pobres camponeses que ainda possuíam terra para trabalhar com o direito de posse viam esse direito se esvaindo à medida que os criminosos executavam seus planos maléficos.