• Sonuç bulunamadı

"Precário é falta de professor.

É muito difícil professores para substituir e, quando substituiem, a aula fica meio estranha, eles repõem do jeito que querem. Dá uma matéria diferente do que o outro estava dando e tem muito professor complicado demais. Eu já estudei com professor que falava assim com a gente “que não precisava dar aulas para viver, porque o marido dela sustentava ela”.

Mas independentemente do professor falar isso dentro da sala de aula não é legal, primeiro, quem faz a escola são professores e alunos. Professor que fala que, a escola não presta é porque ele não presta. Eu vejo desse ponto, sabe. A escola pública é ruim, mas quem faz a escola pública, são os professores – e os alunos. Mas quem está aprendendo? Os alunos aprendem com os professores. Se o professor falar isso, é porque está duvidando da capacidade dele também.

Precário porque o ensino tem pouca qualidade. Falta de professor, tipo assim, na oitava série a gente ficou sem professor de ciência, um tempão, durante dois anos.

Quando tem de correr com a matéria, temos que ver toda a matéria em um ano, quando volta e a mesma matéria, a gente não tem uma seqüência da matéria. Por falta de ciência na oitava serie estamos atrasados em biologia agora. Não, inglês desde a quinta série, vai e vem professor e sempre a mesma matéria, repete tudo... De certo, a gente vai perdendo o interesse. Mas a falta de correr atrás de lutar por um ensino melhor, às vezes, a culpa é nossa também. É muito cômodo, ficar de braços cruzados, esperar o professor chegar e ter paciência com a gente e a gente esperando que o ensino melhore. A gente tem que cobrar. Até um certo tempo, a gente fez isso muito, mas agora estamos relaxando".

(Depoimentos dos alunos no grupo focal – 19 de setembro 2002)

Vamos percebendo que os alunos têm uma avaliação complexa da escola, seja da ausência dos professores, seja da falta de qualidade da aula118- ensino precário, falta de professores, reposição de aula à revelia, falta de ética do professor para com o aluno, corre-corre com conteúdos. Por um lado, os alunos se mostram ativos e atuantes para modificar essa cena, por outro, estão desanimados para assumir uma posição de luta diante desse processo pedagógico, às vezes, deformador.

Percebemos que eles deixam transparecer que é preciso um esforço extenuante para que possam participar da vida escolar como sujeitos. É interessante observar que eles criam essas oportunidades. Observemos outro recorte:

A gente tem que cobrar. Até um certo tempo, a gente fez isso muito, mas agora estamos relaxando. Quando uma professora fala alguma coisa dessa dentro de sala, a gente questiona. A gente vai no coordenador, fala, briga com o professor...

Quantos professores aqui já foram para a diretoria por causa de turma. (Depoimentos da aluna Maria Elisa no grupo focal – 19 de set. 2002)

Nesses depoimentos, os alunos/as mostram um estado de consciência cidadã. Assumem-se como protagonistas do processo pedagógico e se orgulham por isso, mostrando-se bons críticos da escola. Percebermos que a falta de professores, de aulas significativas e dinâmicas, de respeito do professor para com o aluno e vice-versa, de orientações pedagógicas e outras questões que os alunos desabafaram no grupo focal, podem trazer conseqüências negativas para seu processo ensino-aprendizagem.

No contraponto, vimos que, quando os corpos discente e docente tiveram que conviver com essas faltas, acabaram transformando-as em sinais que despertavam possibilidade educativas – a mobilização político-pedagógica na escola, mostrada nas cenas 05/02 e 05/03. Por esse foco, os sujeitos aprenderam uma grande lição: a democracia. Esta não estava prevista

118 Vimos nas falas dos jovens que eles estão atentos às atitudes dos professores que parecem vivenciar a Síndrome

de Bournout. Esta Síndrome é considerada por especialista como uma das conseqüências mais marcantes do estresse profissional. É uma exaustão emocional, depressão, insensibilidade com relação a quase tudo e todos, até mesmo como defesa emocional.

pelo livro didático e nem no planejamento do professor, que obteve um resultado que também não foi visto e/ou considerado para avaliação escolar e nem para incorporação na prática pedagógicas dos professores na sala de aula. Certamente, essa cena marcará a formação dos alunos, que, ao dela participarem ativamente, aprenderam que um direito nem sempre se concretiza de forma natural, ou seja, não é um direito de fato ter educação para todos; torna-se necessário mostrar a sua necessidade, lutar por ele.

O que queremos destacar com esse debate é a lição prática gerada a partir desse problema – a disposição dos jovens em lutar pela conquista de seus direitos, em participar e gritar por cidadania dentro e fora da escola, tendo como instrumento os próprios corpos e os registros que sinalizaram protestos e coragem.

As conseqüências das ações reivindicativas dentro da sala de aula e do ato público são os conhecimentos adquiridos, na luta por uma escola que seja de fato inclusiva. Assim sendo, flagrados nos atos já transcritos, abro aspas para comentários de Cury (1999, p.8). que diz “se a defesa do Direito passa a ser uma tribuna de resistência em favor da democracia, com mais força há de ser a defesa dos direitos humanos. Esta defesa incorpora, inclusive, uma função pedagógica.” Citando Chauí119, complementa:

a prática de declarar direitos significa, em primeiro lugar, que não é fato óbvio para todos os homens que eles são portadores de direitos e, por outro lado, significa que não é um fato óbvio que tais direitos devam ser reconhecidos por todos. A declaração de direitos inscreve os direitos no social e no político, afirma sua origem social e política e se apresenta como objeto que pede o reconhecimento de todos, exigindo o consentimento social e político (CURY, 1999, p. 8).

Os/as alunos/as, por intermédio de suas expressões juvenis – seja pelo traje, seja pela linguagem, pelos gritos de revolta, de insatisfação – mostravam a irreverência presente nessa etapa da vida e, com o auxílio de registros formais junto aos professores e à administração municipal, exigiram providências, pediam às autoridades responsáveis o reconhecimento prático

119CHAUÍ. Marilena. Direitos Humanos e medo. In:RIBEIRO Fester C.(Org.) Direitos Humanos e... São Paulo:

do direito ao conhecimento. As diferentes expressões juvenis e seus registros (as faixas, os cartazes, as fotos, a carta), são como ações simbólicas, representativas, carregadas de sentidos e significados, convidando ao adulto/a, ao intérprete mais próximo, à atitude de escuta e investigação, convidando aos órgãos competentes a atenderem o apelo dos jovens que almejam uma Escola Plural, com professores e com qualidade.

Os/as alunos/as deram na rua uma aula de cidadania. Suas ações foram legítimas e apontam as insatisfações com a falta de decisões rápidas na gestão dos problemas educacionais que a escola enfrentava. Eles partiram de um problema que os angustiava e que lhes era real e que carecia de soluções. Nesse sentido, mostraram-se dinâmicos, interativos, críticos e conscientes, inconformados e com capacidade política de mobilização e negociação. Como conseqüência dessa atitude, vão afirmar-se como seres humanos de necessidades e direitos, que precisam ser continuamente conquistados, como nos mostraram Jamil Cury e Marilena Chauí e que segundo John Dewey pode tornar a prática educativa um espaço privilegiado para que, conquistemos o ideal democrático. O ideal democrático para ele começa quando o aluno se torna sujeito de suas ações e que, a partir de uma situação real de experiência em que foi revelado um problema, possa ele mesmo investigar, buscar soluções e extrair delas reflexões. Dewey (1959, p. 213) implementa essa sua idéia dizendo.

para que a situação suscite reflexão ou pensamento é indispensável que seja de tal natureza que provoque fazer-se qualquer coisa que não seja nem rotineira, nem caprichosa; por outras palavras, alguma coisa que seja nova (e por essa razão incerta e problemática), mas, ainda sim suficiente relacionada aos hábitos já existentes para que possa ser encaminhada eficazmente nos seus desenvolvimento posteriores

Assim sendo, vamos constatando que a natureza do movimento desses/as alunos/as estaria apontando para um outro modelo escolar – em o que aprender passa a ser objeto de situações vivas, sendo a reflexão provocada não de maneira unilateral, mas instigada pelo problema gerado na experiência, como nos aponta Dewey (1959). No nosso caso, nas manifestações por melhor qualidade de ensino, que, como já dissemos, atuaram como sinais para despertar novas aprendizagens, novas possibilidades pedagógicas. Em conseqüência dessa

experiência, os alunos estariam aprendendo uma nova pedagogia – a democracia se constrói sob um campo de disputas, debates de idéias e luta por seus direitos – em que os sujeitos estabelecem conflitos de diferentes naturezas gerados pelo descuprimento das regras preestabelecidas, traçando caminhos alternativos, na intenção de concretizar um modelo educacional e/ou societário emancipador onde as diferentes vozes, apelos (às vezes gritos) sejam ouvidos e logicamente considerados pelos professores, gestores escolares e gestores municipais.

Um consenso pode ser retirado nas situações acima analisadas – os estudantes mostraram que têm condições de serem co-partícipes na gestão escolar e, por isso, tentam romper o silêncio dos gestores municipais diante dos problemas que enfrentaram. E, ainda, deixam a lição de que é possível romper com a rigidez dos currículos escolares hegemônicos que os silenciam. Seus atos registrados marcaram o desejo de que sejam ouvidos e disputam a co- produção dos próprios conhecimentos que foram gerados em uma ação concreta: a luta pelo direito a uma educação pública e competente.

5.4 Cena 05/04

Figura 44 – Folder do projeto de iniciativa de uma vereadora de Belo Horizonte para provocar a discussão

com os alunos do ensino médio sobre violência/paz, emprego/lazer

Essa ação – manifestação dos jovens pela paz – também vai merecer nosso destaque por considerarmos que ela pode apontar outros elementos que mostram como os jovens vão ensinando a escola a importância da participação e dos posicionamentos dos sujeitos na definição democrática de problemas de ordem regional e global. Esse projeto120 é de iniciativa de uma vereadora de Belo Horizonte e se desenvolveu da seguinte forma: foi enviado um questionário para todas as escolas, onde alunos e professores debateriam suas perguntas. Eles deveriam responder a elas e o produto desse debate seria levado à Câmara Municipal para discussão dos alunos com as autoridades responsáveis. Após a concretização desse processo, os alunos tiveram em mãos o questionário respondido. O rascunho desse trabalho pode ser consultado no ANEXO G. A escola organizou o transporte escolar para que os alunos pudessem participar dessa plenária na Câmara. Veja nossos registros fotográficos nas figuras 45 e 46.

Figura 45 – Alunos no ônibus escolar se dirigindo a Câmara Municipal de BH

Figura 46 – Alunos no “ritual” de entrada

na Câmara Municipal de BH

120Não é nosso objetivo analisar o projeto em si, mas apontar os registros que dele surgiram e as oportunidade de

A seção da Câmara começou com o relatório da aluna Pryscilla da EM Paulo Mendes Campos (figura 47). Foi um relato interessante, onde, além de ler as respostas presentes no questionário, ampliou com reflexões importantes sobre violência social, violência militar, despreparo dos militares e importância de investimento em educação. Ilustrou essa problemática relatando a experiência da manifestação dos estudantes da E.M. Paulo Mendes Campos por nós já descrita nas páginas anteriores.

Figura 47 – A aluna Pryscilla relatando as conclusões sobre a temática em questão no plenário da Câmara Municipal/BH

Após seu relato, outros alunos, representando outras escolas, foram dando seus depoimentos. Alguns alunos da EMPMC participaram do evento com uma certa dispersão – agrupando-se no canto Câmara para conversar, brincar, deitar, enfim, ficar numa boa e passear. O aluno da foto (figura 48) mostra sua total irreverência na forma de se postar e no estilo funk no penteado do cabelo naquele dia, contrastando com toda a formalidade do evento.

Figura 48 – Fabrício numa postura de total descontração na cantina da Câmara Municipal de BH

Essa experiência vem corroborar a anterior, no sentido de vermos os estudantes em ação: pensando e registrando sobre assuntos diferentes dos impostos na sala de aula, debatendo e indo a outros espaços – uma plenária na Câmara para debater a situação da violência. Embora, nesse caso, a situação não seja uma questão criada por problemas emergentes do espaço escolar, é um tema que afeta a todos os cidadãos e que, por isso, requer a busca de soluções. Além disso, os alunos pensaram, eles próprios, sobre esse problema, até que, de posse de idéias articuladas, puderam ser expostas a outro grupo de pessoas para conclusões mais amplas. Essa experiência fica registrada como uma outra possibilidade de vivenciar situações regidos por princípios democráticos: envolvendo-se, discutindo, participando e deixando as marcas registradas como contribuição.

Benzer Belgeler