EK II: AÇIK ALANLAR İÇİN ERİŞİLEBİLİRLİK İZLEME VE DENETLEME FORMU
YAYA * GEÇİDİNDEKİ
Em campo permeado de denúncias e perseguições, as religiões afroindígenas sofreram nas “garras” da polícia, nos estados do Ceará, Maranhão e Pará, assim como em demais regiões brasileiras. Os curadores, pajés, pais e mães-de-santo, assim como as casas de culto e trabalhos de cura, de Catimbó, Jurema, Terecô, Pajelança, Macumba, Umbanda ou Candomblé, funcionavam, na maioria dos casos, de forma clandestina. O registro na polícia, com obtenção de alvará e licença nas Secretarias de Segurança Pública dos Estados, era tarefa árdua, dispendiosa e praticamente impossível para a maioria das “casas”.
Ao percorrermos a região urbana da Grande Fortaleza94, nos deparamos com mais de trezentos terreiros conhecidos, localizados, em sua maioria, em bairros da periferia, que
92 Sobre as dimensões de textos jurídico-doutrinários e sentenças elaboradas por juízes sobre práticas de curas
mágico-religiosas, no Brasil do século XX, Ver: SCHRITZMEYER, Ana Lúcia Pastore. Sortilégio de saberes: curandeiros e juízes nos tribunais brasileiros (1900-1990). São Paulo: IBCCRIM, 2004.
93 Para aprofundar tais questões, ver também: Código Nacional de Saúde, regulamentado pelo Decreto 49.974-A
em 21 de Janeiro de 1961 que previa no seu artigo 18, na alínea “a” o órgão federal de saúde, nos termos da lei, fiscalizar: o “exercício das profissões de médico, farmacêutico, dentista, veterinário, enfermeiro e outras afins, reprimindo o curandeirismo e o charlatanismo”.
94 Este conceito geográfico faz referência a Região metropolitana de Fortaleza (RMF), também conhecida como
Grande Fortaleza, que está localizado no estado brasileiro do Ceará. A RMF foi criada pela Lei Complementar Federal nº 14, de 8 de junho de 1973, que instituía também outras regiões metropolitanas no Brasil. Atualmente,compõem a Grande Fortaleza os municípios de: Fortaleza, Caucaia, Maranguape, Pacatuba, Aquiraz,
mantêm a “tradição viva” dos inquices, orixás, voduns, caboclos e encantados, compondo o panteão e a cosmovisão religiosa afroindígena cearense. Já a União Espírita Cearense de Umbanda (UECUM), estima em aproximadamente 14 mil o número de terreiros existentes em todo o estado do Ceará.
Esses espaços religiosos, que acolheram em seu interior mestres curadores do Catimbó, Jurema e Terecô, perseguidos pela polícia, também percorreram um longo caminho marcado por preconceitos, intolerâncias, perseguições e lutas, “trabalhando” em e no silêncio, de portas fechadas em diferentes bairros da capital, como Pirambu, centro, ou nas matas do Canindezinho, Barra do Ceará, e de vários municípios como Eusébio, Maracanaú, Maranguape, Caucaia, dentre outros em todo o Estado. Criando estratégias de resistência e procurando sempre cumprir as determinações e orientações das entidades que os guiavam, nunca esquecendo que se há um silêncio que apaga, há um silêncio que explode os limites do
significar95.
Exemplo das ações destes curandeiros dentro de suas “casas”, funcionando enquanto terreiros, que sempre se configuraram enquanto espaço social de cura, e das dificuldades enfrentadas com a perseguição policial e a imprensa, pode ser vislumbrada na reportagem jornalística intitulada: “Levanta-te, Mineiro”:
Foi em Pirambú, às 23 horas e 30 minutos de ontem.
A polícia teve conhecimento de que numa casa em que reside Augusto Altino de Sousa, se realizavam sessões de macumba com assistência numerosa.
Saiu da polícia ontem, àquela hora, uma “cana” com investigadores e foi bater no Pirambú.
Cercada a casa, os agentes nela entraram para verificar o que havia.
Já estava na sala, erguida a bandeira da macumba, em que se via a legenda: “Levanta-te, mineiro!”
Cerca de oitenta pessoas se comprimiam na casa da macumba.
A sessão era presidida pela “mãe-santa” Maria Altina, esposa de Augusto Altino de Sousa.
Sobre a mêsa da “cerimônia”, havia, além da bandeira, penas de urubú, ossos humanos, terra de cemitério, dois punhais, duas facas americanas, vinho, vinagre, cachaça, flores artificiais, charutos, cigarros, fumo e folhas de diversas plantas.
Velas acêsas circundavam a mêsa macabra.
A polícia não pode prender toda a assistência, pois era ela numerosa e a “cana” só conduziu quatro agentes.
Maracanaú, Eusébio, Guaiúba, Itaitinga, Chorozinho, Pacajús, Horizonte, São Gonçalo do Amarante, Pindoretama e Cascavel. O Conceito Grande Fortaleza é utilizado pelo IBGE.
95 ORLANDI, Eni Puccinelli. As formas do silêncio no movimento dos sentidos. Campinas, SP: Editora da
Efetuou-se a prisão do dono da casa, Altino, e da “mãe-santa”, Maria Altina, e outros comparsas da “liturgia”: Noêmia Pereira, Vicente Rodrigues, Cirino Rodrigues, Arsepino Cordeiro, Manuel Gomes e Maria Machado. “mãe-santa” alega que estava tratando um doente, que se encontrava no local.
Os detidos foram recambiados para a Delegacia de Investigações e Capturas, onde pernoitaram.
Durante o dia de hoje a polícia tomou por termo as declarações. (...)
O Sr. Jonas Sampaio, que nos deu notícia da prisão dos “macumbeiros”, fez jus a um prêmio no valor de 20$, á sua escolha, oferecido pela “Panificadora Estrela Ltda”.96
A reportagem, que se utiliza de linguajar policialesco, apresenta o ritual de cura desenvolvido na “casa” da “Mãe-Santa” Maria Altina como uma cerimônia demoníaca que possui dentre outros elementos uma “mesa macabra”, composta de objetos que indicam práticas maléficas. Apresenta o termo “macumba” de forma pejorativa e designa os auxiliares da mãe-de-santo de “comparsas”, passando a ideia de uma quadrilha de malfeitores.
No entanto, numa leitura com olhar atento, percebe-se que a Mãe-de-santo e curandeira Maria Altina é famosa e possuidora de um terreiro de grandes dimensões. Suas sessões de curas, realizadas em sua “casa” no Pirambú, bairro litorâneo de Fortaleza, costumam ser frequentadas por um grande número de pessoas. E as sessões de “macumba”, por ela ministradas, são acompanhadas por “assistência numerosa”, a ponto de não ser possível transportar todos para a delegacia de capturas.
Outro aspecto importante, que merece análise cuidadosa, são os componentes presentes na mesa da “cerimônia”, dentre os quais o “fumo e folhas de diversas plantas”. Essas denotam tratar-se de uma sessão de pajés ou curadores, também chamada de pajelança afroindígena, fato confirmado pela mãe-de-santo que afirmou à polícia “que estava tratando um doente, que se encontrava no local”.
Importa observar a bandeira com a inscrição “Levanta-te, mineiro!”. A expressão “mineiro”, é utilizada pelos chamados “mineiros”, ou seja, pelos adeptos dos terreiros de nação mina jeje, das chamadas Casas das Minas, como é mais conhecida a casa mais antiga de culto africano do Maranhão e uma das mais antigas do Brasil. Apontam para a emergência de práticas banto mais permeáveis a rearranjos em injunções com costumes e práticas indígenas que se desenvolveram em rotas que perpassam o Nordeste brasileiro em direção à Amazônia e vice-versa.
Outro fator a ser observado na matéria jornalística foi o fato e a queixa do jornalista de não poder fotografar os detidos na manhã seguinte à prisão. Queria registrar o momento em que eram inquiridos pelo delegado e prestavam depoimento, para que seus rostos pudessem ser expostos aos leitores. Percebe-se, também, a necessidade de criminalizar, mostrar os adeptos das religiões afroindígenas como prejudiciais à sociedade, que precisavam ser denunciados e detidos. Deste modo, o jornal, fomentando esta ideia, premia, em dinheiro, com a ajuda de um patrocinador, a “Panificadora Estrela Ltda”, as pessoas que os ajudam avisando de prisões e ações da polícia contra os “macumbeiros”, incentivando atitudes e práticas discriminatórias. Discriminação que, conforme Agnes Heller, torna visível [...] uma categoria
do pensamento e do comportamento cotidianos97.
Outro exemplo desse período de perseguições às religiões afroindígenas, em terras cearenses, pode ser visto na reportagem abaixo intitulada “Catimboseiros nas garras da polícia”:
Lá para as bandas da Praça S. Sebastião, na Rua Agapito dos Santos, uma velha conhecida pela alcunha de “Velha Baiana”, aleijada, chefiava um “Candomblé” que já estava criando fama.
Nos dias da “arrumação” era gente assim, para se “curar”.
A polícia soube da mandinga. Preparou o “ambiente”, e os inspetores Santana e Horácio fizeram o “serviço”.
Santana, protestando certa “dor de espinhela caída” eventurou-se a penetrar o antro, procurando ver o livro de S. Cipriano.
A velha não deu pela coisa, e foi logo pondo em cena toda a “medicina” dos pajés.
No melhor da função, quando os “espíritos maus” já davam o fora, entra o Horácio e tudo foi de águas abaixo.
Estavam ali, esperando a sua vez, nada menos de 15 pessoas, que foram arrebanhadas para o D.O.P. ..., inclusive a Velha Baiana, que deu trabalho para transportar.
Foi um “Deus nos acuda”. Inocência para todos os lados, juramento de “nunca mais ir a essas casas amaldiçoadas” de velhas rabugentas.
Mas o tenente Assis de nada quis saber, e tomando a peito a empreitada, foi com a malandragem de catimboseiros ao precipício da lei, que não foi graça. Aliás, um bom par de semanas nas construções seria remédio exemplar para essa gente, o que se aconselha como específico de efeitos maravilhosos.98
O jornalista, ao fazer referência ao universo religioso afroindígena apresenta concepções e linguagem preconceituosas, muitas das vezes utilizadas pela polícia em boletins de ocorrência, demonstrando práticas comuns entre a imprensa e a polícia. Ao se referir à yalorixá do terreiro de Candomblé, utiliza a palavra “alcunha” que é um cognome geralmente
97 HELLER. Agnes. O Cotidiano e a História. 2 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985, p. 43. 98 Jornal O Estado, Fortaleza, 17 de janeiro de 1941, p. 6. Grifos nossos.
depreciativo. A líder religiosa é chamada de “Velha”, “aleijada”, “rabugenta”; o terreiro, localizado na Rua Agapito dos Santos, no centro de Fortaleza, é identificado como “antro”, “casa amaldiçoada”.
Os rituais são apresentados enquanto “arrumação”, “função”, procurando associá-los a ritos satânicos do qual participam “maus espíritos”. Os participantes são identificados enquanto “malandros”, que é sinônimo de velhacos, preguiçosos, gatunos, ladrões, de indivíduos que não trabalham e vivem de expedientes não confiáveis. O jornalista recomenda, inclusive, o trabalho como remédio exemplar para esse tipo de “gente”. Percebe-se ainda, toda uma ação orquestrada pela polícia, através de seus inspetores, no sentido de falsear situações, recorrendo à expedientes de caráter duvidoso para que se cumpra o trabalho policial. Evidenciando um clima de discriminação e intolerância por parte da polícia, quanto da imprensa, a curadores e às religiões afroindígenas.
Não perdendo de vista que os textos ou documentos são dialógicos e polifônicos, trazendo em si vozes contraditórias, as matérias jornalísticas são portas de entrada que nos possibilitam compreender a presença das religiões afroindígenas em Fortaleza na década de 40. Essas já haviam se estabelecido e criado fama; assim como os rituais e práticas de curas para os mais diferentes tipos de males do corpo e do espírito. Isso pode ser percebido, através do grande número de pessoas, “gente assim para se curar”, que recorriam a “medicina dos pajés” no Ceará.
No Maranhão, nas últimas décadas do século XIX, negros cativos e libertos lutaram por sua sobrevivência em uma sociedade em que, contra eles, imperava o preconceito e a discriminação. Nesse contexto, bem antes da abolição, os negros maranhenses dedicavam-se a rituais religiosos tradicionais e práticas curativas denominadas “pajelança”, não podendo realizar os mesmos abertamente. Em novembro de 1876, foi presa, em São Luís, uma escrava, quando realizava em sua casa um ritual, como pode ser vista na reportagem jornalística intitulada “Pagés”:
Tendo chegado ao conhecimento do Sr. dr. Chefe de Polícia, que, ao Largo do Palácio nos baixos do sobrado nº 23, em dias especiaes reuniam-se diversas pessoas para consultarem as prophecias de uma mulher - pagé, - hontem às 2 horas da tarde para ali fez seguir uma escolta de guardas pedestres e feito um cerco, prendeu 12 mulheres e um homem que dansavam semi-nús, polvilhados de cinza.
Dada uma busca, foram encontrados: 1 lata de pimenta e alfazema, 3 pequenos canudos pintados, uma tigela com aguardente e diversos rozarios de contas brancas e pretas.
Séria correção merecem estes indivíduos, principalmente a Pagé de nome Amelia, que dizem ser dona do Templo erguido junto, quasi ao Paço municipal ! !....99
Em leitura cuidadosa, percebe-se que a reportagem mostra como Amelia Rosa era procurada pela população e, em sua casa, funcionava um “templo”, onde em dias “especiais”, realizavam rituais. Nestes, práticas de “adivinhações” e iniciações, sendo a própria Amélia a sacerdotisa desta religião, em que aconteciam danças e corpos se movimentavam “semi-nús polvilhados de cinzas”. Era procurada enquanto curandeira, conhecida como “Pajé” e líder de um grupo eminentemente formado por mulheres.
Na busca realizada no templo foram encontrados “pimenta e alfazema” que comumente são utilizados em chás, defumadores e banhos. Os “pequenos canudos pintados” podem ser usados como cabos de cachimbos feitos de tauari, utilizados em rituais de pajelança e religiões afroindígenas. A “tigela com aguardente”, usualmente são utilizadas enquanto „banho‟ de descarrego, de limpeza espiritual do próprio pajé e dos participantes, como também de bebida a serem oferecida aos encantados incorporados em suas aves.
Os rosários de “contas brancas e pretas”, comuns em muitos cultos de matrizes africanas e indígenas, podem ser, dentre outros, uma espécie de guias, colares, dedicados a diferentes encantados, voduns, orixás, inquices, caboclos. São confeccionados de materiais diversificados como vidro, plástico, erva-de-santa-maria, lágrimas de Nossa Senhora, caroço de Tucumã, caroço de pupunha, etc.
O chefe de polícia mandou recolher os membros do grupo à cadeia, como também os objetos encontrados no interior do “templo” de pajelança. O jornalista conclui afirmando que a prisão do grupo à cadeia e, principalmente, da Pajé e “dona do templo” é justa, pois eles mereciam uma séria correção. Preconceito e intolerância, da parte do autor do texto para com a pajelança e as religiões afroindígenas, eram repassados para os leitores.
A prisão dessa mulher negra e de seu grupo, como a ocorrida com tantos outros pajés, curadores, em todo o Brasil, demonstra que os motivos que suscitaram tal perseguição e castigos, foram a religião professada e as atividades terapêuticas realizadas. Após a leitura das reportagens jornalísticas e o processo impetrado contra Amélia Rosa, ficam evidentes formas de reprimir essa “nova religião” denominada pajé, apresentando-a como feitiçaria. E que os
99 DIÁRIO DO MARANHÃO. Pagés. Anno VII. nº 957. Maranhão, Sabbado, 14 de Outubro de 1876, p. 4.
Matéria reproduzida no Jornal A Província de São Paulo: Uma Religião de que não gosta o governo. São Paulo, 11. Nov. 1876. Grifos nossos.
pajés, assim como os mineiros, terecozeiros, embora discriminados e perseguidos pela polícia e a imprensa, conquistaram espaço junto a diferentes segmentos da população maranhense.
Analisando reportagens de jornais que retratam Amélia, podemos perceber que no ritual de 1876, no qual foi presa pela primeira vez, a pajoa ainda era escrava. O grande número de rosários encontrados no “templo” indicam que ali existiu uma comunidade negra religiosa chefiada por uma mulher, e composta essencialmente por pessoas do sexo feminino. Grupo semelhante a irmandades de pajés que realizam toque de tambor dando passagem aos encantados para a realização de trabalhos de cura, em comunidade de terreiros existentes em inúmeros municípios maranhenses.
Em contato com o processo judicial que lhe foi imputado enquanto ré, percebemos que em 1877, já na condição de liberta, Amélia Rosa foi presa novamente, e no local encontraram fitas, flores secas, velas acesas e banho de ervas. E que em seus trabalhos de cura, eram utilizados defumação com chifre queimado, incenso, purgantes, vomitatórios, benzimentos, rezas, danças, cortes com navalhas, bálsamos, banho de ervas, etc. No desenvolvimento do ritual, tudo indica que trabalhava incorporada ou inspirada por entidades espirituais e realizando adivinhações. O relatório policial de sua segunda prisão indica que Amélia era cognominada Rainha da Pajelança, e conhecida, na pajelança, como Rainha de Toba.
Segundo Dunshee de Abranches, Amélia Rosa nascera no quilombo do negro Cosme, no fim da Balaiada, e recém-nascida ficou prisioneira em uma fazenda, sendo posteriormente levada, por sua ama de leite, para um quilombo nas matas do Pindaré. Nesse teria vivido até a adolescência, quando fugiu para o Pará, “onde se entregou à prática de sortilégios, e, mais tarde, passou-se para São Luís, ali se popularizando e sendo presa e processada sob o nome de Amelia Pagé”100. Na história de Amélia Rosa percebemos os trânsitos e transes religiosos em direção a Amazônia paraense, percorridos por muitos de ascendência africana e indígena.
Nesse universo de saberes e crenças em constantes entrelaçamentos, o que podemos perceber é que Amélia, negra alforriada, foi presa, surrada, processada, julgada e condenada em São Luís; mas não desistiu de lutar e de dançar, pois depois de quase três anos de sua prisão apareceu em notícias de jornais, “recebendo homenagens de diversas mulheres pelo
seu aniversário, cantando e dançando na cela com suas duas companheiras de prisão (...)”101. Também não desistiu de curar corpos enfermos sob a orientação de seus encantados,
100 DUNSHEE DE ABRANCHES. O Cativeiro: memórias. 2. Ed. São Luís: Academia Maranhense de Letras,
1992, p. 116. Apud: FERRETTI, Mundicarmo (org.). Pajelança do Maranhão no século XIX: o processo de Amelia Rosa. São Luís: CMF; FAPEMA, 2004.
101 Jornal O TEMPO. A cadeia da Capital. São Luís, 27 de Setembro de 1880. Apud; FERRETTI, Mundicarmo
pois quase dez anos depois de sua condenação, a seguinte noticia surgiu em Iguayba, no interior da Ilha de São Luís, comunicando que: “estava ali uma mulher de nome Amélia, que
se emprega de curar...”102.
Em meio a controles e perseguições policiais às religiões afroindígenas em terras maranhenses, a noticia mais antiga sobre essas práticas religiosas, em relatório policial, que se tem notícia no Maranhão, faz referência à destruição de um quilombo no Baixo-Mearim. Datado de abril de 1820, o relatório conta que foram encontrados em uma das casas daquele quilombo “vários chifres de boi, um ferro pesado e oco, cabaças cheias de ervas, um pote
contendo diversas pedras de rio, muitas coisas velhas que, nas palavras do delegado, pareciam coisas de feitiço”103.
Esses objetos encontrados em uma “casa de santo” no quilombo, são comumente encontrados em inúmeras terreiros, em todo o Brasil, em que são cultuados Encantados, Orixás, Voduns, Caboclos e outras entidades espirituais, indicando a presença de religiões afroindígenas nos quilombos maranhenses e a constante atitude de perseguição, invasão e acusação de feitiçaria a suas práticas religiosas.
As tentativas de controle e extermínio das sociedades religiosas compostas por negros, índios e pessoas das camadas mais pobres da população, denominadas no Maranhão de “pajelança”, em que vemos a ação conjunta do Estado, polícia e imprensa, são inúmeras. Nelas estão registros de invasão e prisão de curandeiros, como noticiado em junho de 1886, quando “A polícia invadiu a casa da curandeira Josefa e a levou presa, após fazer uma
grande fogueira com todos os pertences do Culto. Nem mesmo os gritos, evocando os deuses e o alarido da suplicante, impediram as chamas dos dogmas”104.
A repressão à casa de santo da curadora Josefa, na localidade de São José dos Índios, no interior da ilha de São Luís, capital do estado, exemplifica a repressão policial aos agentes de cura. Apresentados, como no caso da pajé Josefa, como politeístas, criminosos e anômalos, são classificados como ameaça à sociedade, justificando a invasão, prisão e destruição pelas “chamas”, - que nos remetem às da inquisição -, das imagens, objetos de culto e do próprio terreiro105. Realidade insurgente ao mergulharmos em jornais paraenses, em busca de registros acerca de intolerâncias sofridas por seus pajés e curadores.
102 DIÁRIO DO MARANHÃO. Curandeira. Anno XXIX, nº 7349. Maranhão, 2 de Março de 1898, p. 2. 103 SANTOS, Maria do Rosário C. e SANTOS NETO, Manoel dos. Boboromina: terreiros de São Luís, uma
interpretação sociocultural. São Luís: SECMA/SEOGE, 1989, p. 25.
104 Jornal O PUBLICADOR MARANHENSE. Maranhão, Junho de 1886. In: SANTOS, Maria do Rosário C. e
SANTOS NETO, Manoel dos. Op. Cit. p. 19.
105 Inúmeros terreiros, em diferentes tempos e regiões do Brasil foram perseguidos, invadidos e tiveram seus
Em Belém do Pará, a polícia local, constantemente realizava batida às casas de