EK II: AÇIK ALANLAR İÇİN ERİŞİLEBİLİRLİK İZLEME VE DENETLEME FORMU
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No que se refere à contribuição de negros e índios como elementos fundadores e constitutivos da nação brasileira, especialmente no Maranhão, o reconhecimento ainda é muito pequeno. Quando se referem a São Luís, os meios de comunicação e livros didáticos enfatizam que esta foi fundada por franceses, falam da presença dos holandeses, desconsiderando que estes permaneceram menos de dois anos no primeiro meio século da história da cidade. Ignoram viveres históricos de índios, negros e seus descendentes, que construíram o Maranhão e nele permanecem até os dias atuais.
Os negros que desembarcaram nestas terras, procedentes do continente africano, pertenciam a vários povos, chamados de mina, nagô, tapa, camundá, moçambique, bijagó, balanta, felupe, cacheu, cabo verde, mandinga, angico, angola, benguela, cambinda, congos e de inúmeras nações e etnias trazidos como escravos para o Brasil e para o Maranhão, em grande quantidade, sobretudo entre 1750 e 1850, o último século do tráfico de escravos. Eles desenvolviam nas comunidades em que viviam em terras africanas, diferentes atividades enquanto pescadores, agricultores, caçadores, trabalhadores urbanos, guerreiros, ferreiros, sacerdotes, príncipes, etc, portadores de conhecimentos que vieram com eles e se reinventaram no Maranhão, assim como em outras terras do restante do Brasil.
Conhecido como um dos Estados brasileiros de maior contingente populacional negro e principal centro de preservação da cultura jeje dahomeana no Brasil, o Maranhão possui em sua capital, São Luís, a Casa de Mina ou Tambor de Mina, que é a designação para o local e para o culto de origem africana desenvolvidos por antigos escravos e seus descendentes. É uma religião de possessão em que as entidades cultuadas são invocadas com cânticos em língua jeje, intercalados algumas vezes por alguma palavra em português e danças, executadas ao toque de alguns instrumentos, dentre os quais, três tambores, quatro ou cinco cabaças e um
ferro, que chamam os Voduns que incorporam em seus participantes, principalmente mulheres. Os tambores chamados de hum, o grande; gumpli, o médio e humpli, o pequeno são muito importantes e sagrados, daí estes cultos serem também designados pelo termo Tambor.
No que se referem aos negros escravizados, seus costumes e organizações de caráter religioso, Dom Frei Francisco de Nossa Senhora dos Prazeres, em 1818, diz que a Irmandade de São Benedito dos Pretos era a mais numerosa existente em São Luís, fazendo referência ao tambor:
[...] para suavizar a sua triste condição fazem, nos dias de guarda e suas vésperas, uma dansa denominada batuque, porque n‟ella uzam de uma espécie de tambor, que tem esse nome. Esta dansa é acompanhada de uma desconcertada cantoria, que se ouve muito longe.75
As considerações deste religioso, para alguns, são as mais antigas referências que se conhece acerca dos tambores no Maranhão. No entanto, na literatura afro-brasileira, o Tambor de Mina só se tornou conhecido no final dos anos 40 e início dos anos 50 do século XX, com a divulgação de trabalhos e obras de pesquisadores que se tornaram referências obrigatórias, como o livro de Nunes Pereira acerca da Casa das Minas, em 1947; do relatório da Missão de Pesquisa Folclórica, criada por Mario de Andrade, publicada em livro por Oneida Alvarenga em 1948; da tese “O Negro no Nordeste do Brasil”, de Octávio da Costa Eduardo que estudou a Casa das Minas, a Casa de Nagô e o povoado de Santo Antônio dos Pretos, em Codó, publicando-a em Nova York em 1948; do artigo de Pierre Verger, que esteve em 1948 nas Casas das Minas e na Casa Nagô, publicando-o em 1952; comentários de Roger Bastide em obras como “As religiões africanas no Brasil – vol.2”, “As Américas Negras”, publicadas respectivamente em 1971 e 1974; e Sérgio Ferretti, em obras como “Querebentã de Zomadonu”, “Repensando o Sincretismo”, publicadas respectivamente em 1985 e 1995; dentre outros pesquisadores.
A Casa Grande das Minas é o nome pelo qual é conhecido o terreiro de tambor de mina considerado a casa de culto africano mais antiga do Maranhão e uma das mais antigas do Brasil. É também chamada de Casa das Minas Jeje, pelo fato de ter sido fundada por africanos jeje, trazidos para o Maranhão e para o Brasil em grande número no século XIX, pertencentes a grupos étnicos oriundos do sul do Benin, ex-Daomé. É o único terreiro de
75 PRAZERES, Frei Francisco de Nossa Senhora dos. Poranduba Maranhense. Revista do Instituto Histórico e
nação mina jeje que se tem conhecimento entre nós, sendo organizado por africanos de “contrabando”76, que trouxeram consigo o comé* para as terras maranhenses.
Também chamada de Querebentã de Zomadônu, seu nome africano, ou Terreiro de Zomadônu, nome da divindade protetora de seus fundadores, a Casa das Minas é da primeira metade do século XIX, em data desconhecida na cidade de São Luís. Funciona desde meados da década de 1840, no bairro Madre Deus, na Rua São Pantaleão nº 857, esquina com o Beco da Minas, onde as filhas-de-santo dançam e em estado de transe, recebem Voduns, que se manifestam para tratar diferentes problemas, inclusive doenças.
Muitas pessoas, de estados do Norte e Nordeste, assim como de diversas regiões do Brasil, recorriam, e ainda recorrem ao Terreiro de Zomadônu, à procura de tratamento, pois nele, assim como em outras casas de culto afro-brasileiras, aplicam-se preceitos de medicina tradicional no tratamento de enfermidades, compreendendo que algumas doenças advêm de invejas, feitiços, perseguições.
Segundo Ferretti (2009), Mãe Andresa, uma das grandes vodunsi-gonjaí da Casa Grande das Minas, que a dirigiu entre 1915 e 1954, tinha grande amizade com várias mães- de-santo antigas de São Luís, que freqüentavam o terreiro, indo em várias ocasiões assistir as festas em algumas casas. Possuía inúmeros amigos e afilhados, e como não costumava viajar para fora do estado, muitas pessoas vinham visitá-la do interior, principalmente das regiões da Baixada e do Litoral Norte ou do Vale do Itapecuru, onde o trabalho escravo foi mais intenso. Também pessoas de outros estados, principalmente do Pará e até de Manaus, como Dona Joana, de Belém e Dona Laura que dançava na Casa e ia muitas vezes a Manaus, enviando para Andresa, muitas coisas africanas.
Mãe Andresa, que quando jovem procurou tratamento na Casa da Minas Jeje, pertencia ao pessoal de Dambirá, que na Casa é encarregado dos remédios e plantas. Por esse motivo sempre foi procurada pelos que recorriam em busca de remédios para a cura dos mais variados males. Muitas das plantas medicinais eram cultivadas em canteiros no quintal do terreiro, outras eram compradas no mercado ou vinham de Belém ou Manaus, sem contar o intenso contato com o interior do estado, pois muitas das filhas-de-santo da Casa eram
76 Cf. Sérgio Ferretti, Mãe Andressa disse a Nunes Pereira (1979, p. 24) que quem assentou a Casa foi
“contrabando”, gente mina jeje vinda da África, que trouxeram o comé consigo. No Brasil eram chamados de “contrabando” os escravos desembarcados após 1831, ano da primeira lei que proibiu o tráfico negreiro, violada por cerca de vinte anos. In: FERRETTI, Sérgio. Querebentã de Zomadônu: etnografia da Casa das Minas do Maranhão. 3 ed. Rio de Janeiro: Pallas, 2009, p. 54 e 55.
* Comé é o quarto dos santos ou dos segredos chamados peji nos cultos nagôs. É o santuário onde se encontram os assentamentos das divindades e outros objetos de culto e nele entram apenas os iniciados. Também é o nome de uma cidade ao sul da República do Benin, próxima a Grande Popo, onde teria se originado o culto a Quevioçô e a Sobô (Sastre, 1972, p. 340-1).
naturais de cidades como Caxias, Codó, Cururupu, Rosário, Guimarães, dentre outras. Demonstrando ligações da Casa das Minas com inúmeras pessoas e terreiros localizados em terras maranhenses, com sua co-irmã, a Casa de Nagô, divide o mérito de ter iniciado o Tambor de Mina em São Luís, disseminando-o no interior e levando-o para outras cidades das regiões Norte e Nordeste.
A Casa de Nagô ou Nagon Abioton, localizada na Rua Cândido Ribeiro (Rua das Crioulas) nº 799, no centro histórico de São Luís, fundada à época do Brasil Império, por “malungos” africanos de “Nação”, teve duas africanas, Dona Josefa nagô e Joana Cambinda ou Agrono, como suas primeiras lideranças, por volta do ano de 1792.
Esta Casa de Candomblé deu origem a outros terreiros de São Luís, em que são recebidas entidades africanas jeje-nagôs ou iorubas: Averequete, Ewá, Doçu, Acóssi, Aziri, Nana Buruku, Sakátá, Ogum, Xapanã, Oxalá, Badé, Xangô, Sogbô, Loco, Lissá, Tobóssis, Iemanjá (Abê), Oxum, Naeté, Avó Miss. Também gentis de origem européia e cabocla ou nativa: Dom Sebastião, Dom João, Dom Luís Rei de França, Rei da Turquia, Dom Floriano, Toy Zezinho de Amaramadã, Princesa D‟Ôro, Seu Ricardino, Dona Mariana, Seu Légua Boji, Rei Camundá, Seu Caboclo Velho, Coli Maneiro, Seu João da Mata, Lauro Boji, Dona Rosalina, Seu Guerreiro, Cabocla de Pena, Caboclo da Mata, Tabajaras, dentre outros pertencentes à encantaria maranhense.
Dentre os terreiros de São Luís merecem destaque dois terreiros antigos: o Ilê Axé Niamê ou Terreiro do Egito e o Ilê Nifé Olorum ou Terreiro da Turquia, já extintos. Estes originaram vários outros terreiros que se identificam com outras nações africanas, dentre os quais, a Casa Fanti Ashanti, de Pai Euclides Ferreira, fundada em 1954 e localizada no bairro do Cruzeiro do Anil. É uma Casa de Mina e Candomblé, tendo como regente Tabajara, coadjuvado pelos encantados Juracema e Jaguarema e pelo orixá Oxaguian. Euclides Menezes Ferreira, pioneiro em São Luís na prática do Candomblé, realiza rituais de Tambor de Mina, de Pajelança, o “Samba de Angola” para os boiadeiros, Tambor de Taboca, Espírito Santo e o boi de Corre Beirada.
Além deste, merece destaque o Ilê Axé Yemowá ou Casa de Iemanjá, também chamado de Centro de Tambor de Mina Iemanjá, Cambinda, fundado em 1956 por Pai Jorge de Itaci, localizado na Rua Ari Barroso (antiga Fé em Deus) nº 45, no bairro Monte Castelo. Esta casa dedicada às nações Jeje e Nagô é comandada por Xangô, representado por Dom Luís, rei de França, Iemanjá e Légua Boji Bua da Trindade, com ritual para preto-velho, toque para a linha de boto e tambor de crioula, dentre outras. E o Fulupa, Terreiro Fé em Deus, fundado em 1967 por Mãe Elzita, localizado na Rua N. Srª da Conceição, no bairro Sacavem.
Esta casa tem como chefe a entidade conhecida como Surrupirinha, e como guia Caboclo Velho, também chamado Índio Guerreiro e Índio Velho, realizando rituais e festejos ligados à Mina Nagô, à Pajelança (cura) e ao catolicismo popular, como a Festa do Espírito Santo, dentre outros.
Na análise desta realidade percebe-se que inúmeros pais e mães-de-santo de São Luís iniciaram suas atividades mediúnicas como “pajés”, sendo ainda hoje muitos conhecidos como “curadores”, possuindo muitos deles, linha de Mina e de Pajelança-Cura. São vários os que realizam rituais conhecidos como de “pena e maracá”, para dar passagem a entidades de Cura e retirar feitiços, assim como toques em homenagem a entidades indígenas conhecidas como Tambor de Índio e Canjerê ou Borá. Na capital e interior do estado, existem terreiros denominados cruzados, por sofrerem influências da Umbanda, da Mata ou Terecô, como os localizados em Codó e região do Mearim; e a Pajelança, como a presente em Cururupu, onde a Cura/Pajelança é uma presença muito forte, sendo os donos de salão ou terreiros ou zeladores conhecidos como curadores.