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A discussão sobre a questão eleitoral entre os anarquistas não foi tão simples como procura demonstrar parte da historiografia sobre o tema. Não houve uma simples postura de negação da via eleitoral, por esta representar um caminho artificial de organização da sociedade, pelo fato de que os políticos eleitos representariam o interesse da classe economicamente dominante, ou ainda porque o poder corromperia os eleitos, mesmo que estes fossem proletários e/ou revolucionários,.

Sabemos que, em outros países, anarquistas optaram pela tática parlamentar. O próprio Bakunin defendeu a utilização da tática parlamentar em momentos específicos. Merlino foi outro anarquista que travou memorável debate com Errico Malatesta em relação a via parlamentar.

Vejamos o que Bakunin afirmava sobre o parlamento e o sufrágio universal. O Sufrágio universal na medida que seja exercido em uma sociedade em que o povo esteja economicamente dominado por uma minoria detentora do capital, por mais independente que seja do ponto de vista político, nunca poderá produzir mais que

eleições ilusórias, contrárias as necessidades, instintos e vontade real das populações.232

O povo tendo que viver do seu trabalho não tem tempo para se dedicar exclusivamente a política, na maioria das vezes são ignorantes quanto as questões econômicas e políticas. Se essas pessoas fossem eleitas para o parlamento, provavelmente não passariam de “trouxas” nas mãos dos advogados e políticos burgueses. Mas, mesmo se entrarem no governo, bastará que consigam isso para se tornarem “às vezes até mesmo mais detestáveis e mais desdenhosos do povo dos quais emanaram do que os próprios burgueses de nascimento.”233

A maioria das leis e negócios que tem relação direta com o bem-estar material das comunas, é feita sem que o povo perceba e se envolva. Ele não tem hábito nem tempo suficiente para estudar tudo isso e deixa seus eleitos fazerem as leis servindo a sua classe e não o povo. Os eleitos cultivam a arte de apresentar seus interesses como sendo o interesse mais popular. O sistema de representação popular representa a mentira e a hipocrisia perpétuas, “precisa da estupidez do povo, e funda seus triunfos sobre ela.”234

O povo, graças a situação econômica na qual se encontra, só conhece os problemas que o toca de perto, sendo ignorante ou indiferente em relação aos problemas mais gerais. Como possui “uma grande dose de instinto prático”, dificilmente se engana, segundo Bakunin, nas eleições comunais. Sabe escolher os homens mais capazes. Nas comunas o controle é possível visto que as coisas se fazem sob os olhos dos eleitores e tocam mais intimamente a vida cotidiana. Assim, as eleições comunais são as que mais proximidade tem dos anseios populares.235

Tudo isso quer dizer que os socialistas revolucionários não defendam o sufrágio universal e prefiram o voto restrito ou o despotismo de uma só pessoa?

“De ningún modo. Lo que afirmamos es que el sufragio universal, considerado en sí mismo y obrando en una sociedad sobre la desigualdad económica y social, no será

232 BAKUNIN, Mikhail, A . “El Imperio Knutogermánico y la Revolución Social – Primera Entrega (Locarno, mediados de noviembre de 1870 a mediados de marzo de 1871)” In: BAKUNIN, Mikhail, A.

Obras Completas- Tomo 2. Madri, La Piqueta, 1977, p. 68

233 BAKUNIN, Mikhail, A. O Princípio do Estado- Três conferências feitas aos operários do Vale de

Saint-Imier. Novos Tempos, Brasília-DF, 1989, p. 68

234 IDEM."Os Ursos de Berna e o Urso de São Petesburgo". In: Novos Tempos, 2, 15-44, São Paulo, Imaginário, 1998, p. 32

nunca para el pueblo más que una trampa; que de parte de los demócratas burgueses no será nada más que una odiosa mentira, el instrumento más seguro para consolidar, con una apariencia de liberalismo y de justicia, en detrimento de los intereses y de la libertad populares, la eterna dominación de las clases explotadoras y posesoras.

Negamos por consiguiente que el sufragio universal sea un instrumento del cual pueda servirse el pueblo para conquistar la justicia o la igualdad económica y social; puesto que, como acabo de demostrarlo, el sufragio universal ejercido por el pueblo al margen de las condiciones de esa igualdad y de esa justicia, en medio de la desigualdad y de las injusticias que reinan en la sociedad actual, en medio de la dependencia y de la ignorancia populares que son sus resultados naturales y fatales, producirá necesariamente y siempre un voto contrario a los intereses del pueblo y favorable solamente a los intereses y a la dominación de los burgueses.”236

Mas temos que realizar uma ressalva , Bakunin, e neste ponto concordamos com Carlos Diaz, “jamás habló de ‘farsa electorera’ cual artículo de fe.”237 Certa vez censurou os socialista franceses por estes se absterem da política, que naquele momento Bakunin compreendia ser uma covardia política. É conhecida também a sua carta ao seu partidário Carlo Gambuzzi, na qual diz que Gambuzzi podia se surpreender que ele apaixonado abstencionista da política aconselhasse que os amigos da Aliança (organização política anarquista fundada por Bakunin) se tornassem deputados. Bakunin argumentava que sua mudança de posição se devia ao fato de que os tempos mudaram, todos os amigos da Aliança estavam tão inspirados nos princípios desta organização que não havia riscos de desvirtuamentos, além disso, os tempos eram tão críticos, o perigo que ameaçava a liberdade de todos os países tão formidável que todos os amigos da liberdade deveriam abrir uma brecha e em especial os aliados, que deveriam estar em condições de influenciar os acontecimentos.238

Desta forma podemos observar dois aspectos da questão. Por um lado, o parlamento é um órgão que não representa o povo, mas apenas a classe governamental, pois o povo, mesmo que fosse eleito, tem que viver de seu trabalho

236 BAKUNIN, Mikhail A. “Carta (Masella, primeira quincena de octubre de 1870)” In: BAKUNIN, Mikhail A. Obras Completas – Tomo I. Madri, La Piqueta, 1977, pp. 264 e 265

não tendo condições de se aprofundar nos assuntos políticos mais gerais, para além daqueles que dizem respeito a sua vida cotidiana mais imediata. Além disso, o parlamento da forma como é composta, mesmo levando-se em consideração o sufrágio universal, não consegue dar conta da vida real, que é muito mais complexa, do que o entendimento dos parlamentares. Apenas o federalismo garantiria mecanismos de representação que verdadeiramente representasse os anseios populares.

Por outro lado, os socialistas revolucionários convictos, aqueles que não vão cair na ilusão das transformações a partir do parlamento, em momentos específicos, podem se candidatar a cargos parlamentares de forma a influenciar os acontecimentos no sentido desejado pelos revolucionários. Lembremos que esta proposição se formulou no final do século XIX, quando o sufrágio universal ainda se consolidava na Europa.

Agora acompanhemos o debate entre Savério Merlino e Errico Malatesta que embora seja um pouco longo pode nos deixar claro a posição anti-eleitoral de Malatesta e os seus fundamentos, parte deles repetidos pelos anarquistas brasileiros, e a posição de Merlino, como exemplo de um importante militante que sem deixar de se considerar anarquista não propugnava a completa abstenção eleitoral.

Merlino argumentava que um povo economicamente escravo não poderia ser politicamente livre, mas este fato não significava que as liberdades políticas e constitucionais fossem inúteis. Estas liberdades não se restringiam ao direito do voto, mas avançavam no sentido dos direitos de reunião e associação, inviolabilidade pessoal e do domicílio, etc.

Todos estes direitos são garantidos também no parlamento e se os anarquistas não querem ter candidato próprio e com razão, argumentava Merlino, não poderiam se abster da discussão , na agitação eleitoral denunciando aqueles deputados que votam Estados de Sítio, leis de exceção, etc. Mesmo reafirmando a sua posição de que as transformações sociais não acontecem via parlamento.239

238Ibid., p. 78

239 MERLINO. Savério. “Anarquistas y socialistas frente a la lucha electoral” Del Messaggero, del 9 de enero de 1897. in MALATESTA, Errico e MERLINO, Saverio. Elecciones y anarquismo. Primera

Malatesta argumentava que a mudança de tática de Merlino se dava pela pequena organização do partido anarquista e pela crise prolongada que o atingia. Afirmava que entre o parlamento aceito e elogiado e o despotismo sofrido pela força era preferível o despotismo com o ânimo disposto a rebelião.240

Para Merlino a tática abstencionista tinha isolado os anarquistas da parte militante e ativa do povo e debilitado-os frente ao governo. Para ele, era bonito falar que abstenção não queria dizer inação mas participação na agitação eleitoral com propaganda anti-parlamentar, mas era ineficaz. Segundo Merlino os anarquistas não deveriam se preocupar em fazer triunfar o seu programa via parlamento, mas conseguir o máximo de opositores ao governo. O que ele não admitia é o argumento de que a tática parlamentar longe de favorecer o desenvolvimento da consciência popular, tende a desabituar o povo a cuidar diretamente dos seus interesses. Segundo Merlino, isso seria puro doutrinarismo, pois a agitação eleitoral socialista tiraria a multidão da indiferença em relação aos assuntos públicos.

Além disto, Merlino considerava que o mínimo de governo haveria até nas sociedades menos organizadas, os anarquistas deveriam estudar os meios de transformá-lo em algo inócuo, impedindo que uma minoria se aproprie do poder contra a maioria, o resto seria sutilezas de palavras.241Dizia:

“escribe Malatesta: el despotismo es preferible al híbrido sistema actual.

Supongamos que el gobierno les tome la palabra y dé un golpe de Estado: suprima el parlamento, elimine la libertad de prensa y reduzca a Italia a la situación política de Rusia. Díganme sinceramente, amigos míos: ¿La causa del socialismo ganaría algo con ello? ¿O la lucha por el constitucionalismo absorbería e impediría por muchos años la lucha por el socialismo, como justamente sucede en Rusia?”242

edición cibernética, marzo del 2004, Captura y diseño, Chantal López y Omar Cortés, www. antorcha.net, acessado em 01/04/2006.

240 MALATESTA, Errico “Los anarquistas contra el parlamento” Del Messaggero, del 7 de febrero de 1897. in Ibid.

241MERLINO, Saverio. “Anarquistas y socialistas en las elecciones políticas” Del Messaggero, del 10 de febrero de 1897. MALATESTA, Errico e MERLINO, Saverio. Elecciones y anarquismo. Primera edición cibernética, marzo del 2004, Captura y diseño, Chantal López y Omar Cortés, www. antorcha.net, acessado em 01/04/2006.

Merlino ainda argumentava que se a participação dos anarquistas não tivesse outro resultado do que aproximá-los de outros partidos afins, aumentando o potencial de trabalho junto ao povo na interpretação das suas verdadeiras necessidades, sentimentos e aspirações, só por isso já valeria a pena a participação nas eleições.

Os abstencionistas seriam doutrinários sendo anti-parlamentaristas, pois os princípios anarquistas assim o quer, combatendo o parlamento com palavras, mesmo que as suas idéias não sejam realizáveis por falta de forças. Para Merlino o povo vê a coerência dos anarquistas não pelas palavras, mas pela prática dos anarquistas.

“¿ Qué dirán los anarquistas a quien argumentase así: la violencia es contraría a nuestros principios; por tanto, no debemos usar la fuerza ni siquiera para defender nuestra vida?

Responderían ciertamente que el uso de la fuerza nos es impuesto por las condiciones de la sociedad en que vivimos; así respondo yo a sus argumentos contra la lucha política parlamentaria.”243

Um partido revolucionário só o é quando sua ação é compreendida pelo povo sem que esteja exposto a demasiados perigos em tempos normais. A luta eleitoral responderia a estas condições, o partido socialista adotou esta tática e estava crescendo enquanto os anarquistas estavam debilitados e ninguém mais falava neles a não ser quando a polícia os perseguia.

No texto “Las candidaturas-protesta” Malatesta mostra-se intransigente ao afirmar que apresentar candidaturas de protesto é abrir as portas para transações e se inscrever para votar pode facilitar a tentação de se votar em um candidato qualquer quando não existam candidaturas de protesto.244

243 MERLINO, Saverio “Los anarquistas y las elecciones”De, Avanti!, del 9 de marzo de 1897. in MALATESTA, Errico e MERLINO, Saverio. Elecciones y anarquismo. Primera edición cibernética, marzo del 2004, Captura y diseño, Chantal López y Omar Cortés, www. antorcha.net, acessado em 01/04/2006.

Malatesta por outro lado argumentava que se um país tinha partidos extra- constitucionais consolidados, os governos concederiam liberdades para evitar possíveis convulsões sociais.245

Em outro texto Malatesta afirma que em todas as coisas em que as diferenças de opinião não são tantas que vale a pena estar divididos e atuar cada fração a sua maneira, ou nas que o dever de solidariedade impõe a união, seria razoável que a minoria cedesse a maioria.

“Pero este ceder de la minoría debe ser efecto de la libre voluntad, determinada por la conciencia de la necesidad; no debe ser un principio, una ley, que se aplica en todos los casos, incluso cuando no hay realmente necesidad” 246

Portanto o parlamento seria contrário ao anarquismo por ser uma forma de governo pela qual os eleitos do povo promulgariam, por maioria dos votos, leis que acham melhor e as impõe ao povo com meios coercitivos. Desta maneira não se concretizaria a sociedade que os anarquistas defendem.

Merlino contra argumentava dizendo que não acreditava que a luta por melhorias se desse no âmbito do parlamento, a obra dos deputados socialistas só poderia ser útil como apoio a luta extra-parlamentar.247

“La segunda diferencia entre Malatesta y yo consiste en que no creo poder profetizar que en la sociedad futura la minoría, siempre y en todos los casos, se rendirá voluntariamente al parecer de la mayoría. Malatesta, en cambio, dice: Pero este ceder de la minoría debe ser efecto de la libre voluntad, determinada por la conciencia de la necesidad.

¿Y si esa voluntad no existe? ¿Si esta conciencia de la necesidad no existe en la minoría? ¿Si más bien la minoría resistiendo está convencida de cumplir con su deber? Evidentemente, la mayoría -no queriendo sufrir la voluntad de la minoría- hará la ley, dará a su propia deliberación (como dice Malatesta a propósito de los congresos), un valor ejecutivo.”248

245 MALATESTA, Errico “Anarquía y parlamentarismo” De, L'Agitazione, del 4 de marzo de 1897.in Ibid.

246 MALATESTA, Errico “Mayorías y minorías” De, L´Agitazione, del 14 de marzo de 1897..in Ibid.. 247 MERLINO, Saverio “De una cuestión de táctica a una cuestión de principios” De, L´Agitazione, del 28 de marzo de 1897. in MALATESTA, Errico e MERLINO, Saverio. Elecciones y anarquismo. Primera edición cibernética, marzo del 2004, Captura y diseño, Chantal López y Omar Cortés, www. antorcha.net, acessado em 01/04/2006.

248 MERLINO, Saverio “De una cuestión de táctica a una cuestión de principios” De, L´Agitazione, del 28 de marzo de 1897. Ibid.

Malatesta por sua vez dizia rechaçar, porque falsa, a idéia de harmonia providencial e ordem natural da sociedade, pois acreditava que tanto a sociedade como o homem social era produto de uma longa luta contra a natureza, e que se o homem cessasse de exercer a sua vontade consciente cairia logo na animalidade.

Afirmava ainda que defendia que as minorias cedessem quando assim obrigasse o sentimento de solidariedade e a necessidade. A sociedade anarquista deveria ser fundada sobre o acordo mútuo e não sobre a coação base de toda a sociedade autoritária, para isso seria necessário que os homens se esforçassem para eliminar os motivos de lutas intestinas, ou ao menos se se produzirem lutas estas não fossem importantes a ponto de obrigar a nascer um poder “moderador” que sob o pretexto de garantir a justiça reduzisse todos a escravidão. Afirmava ainda que se a minoria não quisesse ceder ao posicionamento da maioria, e esta fosse obrigar a minoria a força, o que se implantaria seria tudo menos a anarquia.

Neste ponto é clara a tendência de Malatesta de se acreditar na possibilidade do convencimento e dos acordos mútuos nas relações entre maiorias e minorias.249

Merlino voltava a questão e perguntava a Malatesta o que aconteceria caso a minoria não quisesse ceder a posição da maioria, neste caso não haveria anarquia para Malatesta, segundo Merlino, e concluía: “por tanto la voluntad de una pequeña minoría, incluso de un solo hombre, podrá hacer que la anarquía -como vosotros la entendéis- no se aplique en absoluto.”250

Malatesta argumentava que a questão havia mudado, agora a discussão era se o socialismo deveria ser autoritário ou anárquico, ou seja , se o acordo deveria ser imposto ou voluntário. Afirma:

“Nosotros creemos que la anarquía es posible, porque creemos que las condiciones necesarias para su existencia están ya en los instintos sociales de los hombres modernos, a pesar de la continua acción disolvente, antisocial, del gobierno y de la propiedad. Y creemos que como remedio contra las malas tendencias de algunos y contra los

249 MALATESTA, Errico “Sociedad autoritaria y sociedad anárquica” De, L'Agitazione, del 28 de marzo de 1897. in MALATESTA, Errico e MERLINO, Saverio. Elecciones y anarquismo. Primera edición cibernética, marzo del 2004, Captura y diseño, Chantal López y Omar Cortés, www. antorcha.net, acessado em 01/04/2006.

250 MERLINO, Saverio “Pocas palabras para cerrar una polémica” De, L'Agitazione, del 19 de abril de 1897. in Ibid.

intereses creados de otros no es un gobierno cualquiera, que al estar compuesto de hombres no puede sino hacer inclinar la balanza de la parte de los intereses y de los gustos de quien está en el gobierno, sino la libertad, que, cuando tiene por base la igualdad de condiciones, es la gran armonizadora de las relaciones humanas.”251

Neste tópico vemos um Malatesta contraditório, por um lado em algumas passagens demonstra a necessidade de acordos voluntários entre os homens, neste sentido a anarquia não derivaria de uma suposta tendência natural da sociedade a harmonia. Nesta passagem defende a possibilidade da anarquia pois crê nos instintos sociais dos homens modernos, ou seja, tirando-se as condições artificiais que impedem que os homens vivam harmoniosamente é possível que os mesmos desenvolvam a sua sociabilidade fazendo com que qualquer espécie de coerção da maioria sobre a minoria não seja praticada, assim Malatesta julga responder a argumentação de Merlino sobre a existência de formas de imposição quando as minorias não se submeterem .

Malatesta ainda afirmava que havia abstencionistas que votavam, mas faziam isso porque não tinham a completa consciência das opiniões que defendiam, a solução para o problema não era abandonar o programa, aumentando a confusão e a debilidade, senão aumentar a consciência dos indivíduos e reforçar a organização do partido.

Neste sentido, entende-se que os anarquistas abstencionistas que votam não tem consciência completa de suas opiniões ou não estão em um meio que permita desenvolver uma força suficiente para resistir a influências de fora do partido. Em todo caso, não é a questão da tática o que está colocado, é simplesmente a firmeza doutrinária dos anarquistas.

Malatesta, continuando a polêmica, afirmava que a mudança de Merlino havia se dado devido ao fato de que os anarquistas com seu exclusivismo teriam se reduzido a inação e impotência. Neste sentido, se os anarquistas soubessem ser um partido vivo, exercendo uma ação eficaz sobre o movimento social, não

251 MALATESTA, Errico “Concepción integral de la anarquía” De, L´Agitazione, del 19 de abril de 1897. Ibid.

precisariam temer defecções e poderiam estar que muitos camaradas voltariam as fileiras anarquistas.252

Merlino dizia ser indiferente em relação a constituição do partido anarquista ou não, desde que as idéias anarquistas estivessem em contato com a multidão e primeiramente entre aqueles que estão mais próximos dos anarquistas, os militantes socialistas. Além disso, os partidos não estariam destinados a durar eternamente, mas serviriam para afirmar e divulgar certas idéias que geralmente desaparecem ou se transformam antes que se façam realidade.

Dizia ainda sustentar que a liberdade não poderia ser nunca ilimitada, que a organização dos interesses coletivos é necessária e que está inserida sempre em algum grau de coação. Sustentava que os anarquistas deveriam fazer esta coação ser a menor possível e que alguns mecanismos que poderiam ser utilizados eram, o referendum, o mandato público, a revogabilidade dos administradores, etc.253

Malatesta respondia que não queria ter um partido separado por prazer ou para se distinguir dos demais, mas porque realmente os anarquistas tinham idéias diferentes.254

Merlino escreve um texto declarando sua separação do anarquismo, definindo- se socialista libertário. Para nós, na prática e na teoria, Merlino não se afastou do anarquismo neste momento, mas por causa das pressões do debate e do doutrinarismo de alguns anarquistas , ele teve que se posicionar mudando a definição que utilizava para se auto-qualificar dentre as forças políticas, mas sem

Benzer Belgeler