Uma característica que aumenta com o envelhecimento é o declínio fisiológico e funcional do sistema musculoesquelético decorrente da sarcopenia (FRIED et al., 2001). Um
estudo de coorte realizado por Janssen et al. (2000) em idosos com idade média de 75 anos, destaca que a sarcopenia, nessa faixa etária, apresenta-se mais severa nos membros inferiores do que nos membros superiores, explicando em parte a diminuição de força nesse segmento corporal.
Fiatarone et al (1994) indicaram que a fraqueza muscular da extremidade inferior nos idosos é consistentemente relacionada com a mobilidade prejudicada e risco de queda. A flexibilidade de membros inferiores pode ser considerada um fator importante na determinação do risco de quedas, principalmente pela relação que tem com as modificações do padrão da marcha (ADAMS et al, 1999; GUIMARÃES E FARINATTI, 2005).
Estudos atuais reforçam essa afirmação, tais como o realizado por Kressig et al (2004) que procedeu a avaliação da velocidade da marcha, comprimento do passo, a postura e balanço em 50 idosos frágeis e pré-frágeis durante a caminhada em ritmo auto-selecionado. Identificaram que as características da marcha temporal e espacial dos idosos frágeis diferiram substancialmente dos resultados no grupo de idosos pré-frágeis.
Uma associação significativa à condição de fragilidade foi observada com relação à posição dos membros inferiores (p=0,003), no presente estudo. O ângulo frontal do membro inferior (AFMI), que descreve o ângulo do valgismo fisiológico do joelho no plano frontal, apresentou a posição de varum excessivo (≥185 graus) no grupo dos frágeis. Um varum
excessivo é conhecido como “pernas cambaias” (≥180 graus) seguindo as referências
angulares de Palastanga et al. (2000) e Neumann (2006).
A deformidade em varum do joelho mostra uma força de reação articular aumentada no compartimento medial do joelho e comumente está associada a uma osteoartrite articular. No tocante às doenças tidas como diretamente associadas às quedas, no estudo de Guimarães e Farinatti (2005) a maior prevalência encontrada em 72 idosos com histórico de quedas foi de doenças osteomioarticulares. As doenças cardiovasculares e neurológicas predominaram entre aquelas indiretamente associadas às quedas.
Em um estudo de coorte prospectivo, Maki (1997) observou que idosos com medo de queda, diminuem o tempo de oscilação da marcha como estratégia para uma maior estabilidade, diminuem o impulso e a rotação pélvica, diminuem a extensão dos joelhos e quadris, alargam a base de suporte, diminuem o comprimento e a altura dos passos e reduzem a velocidade da marcha. Conforme Maki et al. (1991) a variabilidade no controle da marcha é um preditor independente de queda e pode ser uma medida útil para identificar indivíduos de alto risco e avaliação de intervenções preventivas.
Os idosos que apresentam medo ao assumirem a posição ortostática tendem a se agarrar e apoiar em objetos, como se o risco de queda fosse eminente. Um dos parâmetros clínicos para se identificar a instabilidade postural na postura em bipedestação é observar a presença da flexão dos joelhos e quadris que podem indicar medo de cair em idosos (MACEDO et al., 2005).
Dessa forma, duas medidas angulares representaram a posição do joelho, sendo uma para os movimentos de flexão e extensão no plano sagital (ângulo do joelho - AJ), e outra para a estabilização femoropatelar no plano transverso (ângulo’Q’ – A’Q’). No plano sagital, obteve-se a posição de genu flexum, ou seja, joelho fletido (<172 graus) estatisticamente associada à condição de fragilidade (p=0,007).
O’Brien et al. (1997) encontraram relação entre o alinhamento esquelético e o
equilíbrio de mulheres idosas que sofreram quedas e observaram existir uma maior alteração no ângulo do joelho nessa população em comparação às idosas que não haviam caído.
O complexo articular do joelho possui funções biomecânicas importantes que se expressam durante a marcha. Consiste nas articulações lateral, medial e patelofemoral e sua estabilidade se submete constantemente a grandes forças provenientes dos músculos e de agentes externos. Roie et al (2011) referem que a relação força-velocidade da musculatura extensora do joelho é um componente fundamental no aparecimento de dificuldades funcionais e uma indicação de risco para fragilidade física em mulheres idosas.
Fabrica et al. (2011), mediante análise cinemática tridimensional durante a marcha, observaram que a variabilidade do ângulo do joelho foi significativamente diferente entre indivíduos que sofreram quedas e os que não caíram. Toledo e Barela, (2010) identificaram desempenho sensóriomotor inferior no joelho e tornozelo dos idosos quando comparado aos dos jovens.
A estabilização articular do complexo do joelho no plano transverso foi medido pelo
ângulo ‘Q’ e não demonstrou associação à condição de fragilidade. Sabe-se que o ângulo ‘Q’,
ou ângulo quadricipital, varia com as mudanças na posição do pé, aumentando ou diminuindo à medida que o pé gira internamente ou externamente, respectivamente (LIVINGSTON; SPAULDING, 2002). No presente estudo, os idosos foram orientados a assumirem uma posição de maior conforto de pé, portanto não houve padronização da posição de pé, ereta, o que não nos permite tal discussão.
No presente estudo, a amostra de idosos avaliada foi predominantemente feminina e os ângulos femorotibial e femoropatelar demonstraram tendência ao varismo na posição
ortostática, muito embora exista uma controvérsia de que mulheres apresentam um maior ângulo quadriciptal (valgo) pelo alargamento da pelve (NEUMANN, 2006).
Belchior et al (2006) encontraram um maior ângulo quadriciptal em mulheres com disfunções femoropatelares. Grelsamer et al (2005) identificaram que homens e mulheres de altura semelhante demonstraram ângulos semelhantes e pessoas mais altas demonstraram
menor ângulo ‘Q’.
A forte associação funcional entre o quadril, joelho e tornozelo durante a marcha ou no movimento de ficar de pé a partir de uma posição sentada se reflete pelo fato de que a maioria dos músculos que cruza o joelho também cruza o quadril e o tornozelo (KAPANDJI, 2000). Segundo Kauffman (2001) as alterações de forma unilaterais nas articulações do quadril, joelho e tornozelo geram um maior impacto no desempenho funcional do idoso durante a marcha.
A curvatura postural é o movimento ântero-posterior do corpo ereto causado pelo movimento que ocorre principalmente nos tornozelos (LIPPERT, 2003). Neste estudo, a posição do tornozelo (AT) em dorsiflexão (<77 graus) mostrou estar associada à condição de fragilidade (p=0,017). O fechamento ou diminuição desse ângulo tende a projetar o corpo para frente (BRICOT, 2001).
Laufer et al (2006) afirmam que os adultos jovens respondem a ameaça para a estabilidade, aumentando a sua rigidez do tornozelo. Em comparação com adultos jovens, adultos idosos tendem a ter uma resposta exagerada postural às condições que são percebidos como uma ameaça à estabilidade. Chiara et al (2000) encontraram correlação entre as medidas de equilíbrio e a reduzida amplitude de movimento do tornozelo em idosas.
No estudo sobre a relação das variáveis associadas às quedas, Guimarães e Farinatti (2005) sugeriram uma relação inversa entre níveis reduzidos de mobilidade articular e incidência de quedas e evidenciaram diferenças significativas para os movimentos de flexão de quadril e extensão de tornozelo.
Pinho et al. (2005) analisaram o impacto da função muscular dos membros inferiores sobre as quedas em uma população de idosos e concluíram que em relação à função muscular do tornozelo, os idosos que já cairam apresentaram menor potencia média, menor trabalho e menor pico de torque proporcional ao peso corporal.
As oscilações posturais normais, durante o ortostatismo, produzem alterações do eixo corporal de pouca amplitude, inferior a 4 graus, de um pêndulo invertido cujo ponto fixo se encontra no tornozelo (GAGEY; WEBER, 2000). Quando o desequilíbrio surge, com o passar
dos anos, é possível ser observada uma projeção anterior do centro de gravidade, porém ela não deve ultrapassar a mais de dois dedos à frente dos maléolos laterais (BRICOT, 2001).