Eu preferia antes. (E12, Fem., 33 anos) Gosto. É o movimento, né. (E13, Masc., 64 anos)
As pessoas descreveram Itapuama fisicamente como um local rico em elementos da natureza, que está passando por mudanças. De forma geral, elas se mostraram a favor do crescimento de Itapuama, por mais que isso possa trazer consequências ao modo de vida tranquilo dos que ali residem. Portanto, trata-se de uma perspectiva complexa, visto que o desenvolvimento local mostrou-se negativo e positivo em alguns aspectos, ressaltando que
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não existe apenas um sentimento em relação ao fenômeno da mudança em Itapuama. As mudanças foram boas e ruins, dependendo de suas nuances e percepções pessoas.
Através das entrevistas, foram explicitadas percepções sobre: os componentes da paisagem e sua transformação; identificação dos problemas ambientais da região; atitudes e conhecimentos individuais em relação à Itapuama; além do desenvolvimento local associado às consequências ambientais. Também foi marcante o reconhecimento das mudanças acontecidas na paisagem social e física, pois as pessoas faziam questão de comentar como Itapuama era e como está, simplesmente remetendo ao passado como um modo de explicitar o momento presente, marcando as diferenças e contradições visualizadas.
Em algumas das entrevistas, a riqueza e a presença da natureza são citadas de modo a evidenciar o passado ter sido mais exuberante, e a mostrar que a natureza tem perdido espaço para as mudanças decorrentes do mercado imobiliário local, enfatizando os problemas associados a este fenômeno.
Se fosse anteriormente, aí era arretado! Num tinha quase casa nenhuma aqui, era mais verde, né? Hoje tem menos verde, tem mais casa, ta entendendo? (E01. Masc., 39 anos).
Primeira coisa agora foi que mudou, né? Tá mai melhor de trabalho, que era ruim de emprego. Melhor de emprego, melhor de transporte agora, que antes era rim demai. E por uma parte é rim que agora... violência também, né? Que antes num tinha violência, né? Agora tá teno. Carro matando gente aí, atropelando, sabe? Já morreu um amigo da gente, já. (E04, Masc., 33 anos)
… e a descida da praia que era tudo camin todo. Num era estrada, era camin. (E13, Masc., 64 anos)
Para um morador mais antigo, veio à lembrança de que não havia ruas em Itapuama, reforçando o que E13 afirmou acima, quando, em uma conversa informal, S.C. comentou:
Era só trilhazinha que dava pra um pé na frente do outro, meu fio! Num tinha pista, não. Era passando por cima de cobra, de tudo, até chegar na praia. (Diálogo informal S.C., Masc, 69 anos)
Esse tipo de entendimento acentua a percepção da transformação do espaço natural em edificado pelos moradores, corroborando Green (2005), segundo o qual, embora existam evidências de degradação socioambiental, em todo o mundo as iniciativas governamentais de regiões costeiras assumem a exploração dos recursos ambientais e naturais como modo de alavancar a especulação turística e assegurar a economia de muitas comunidades urbanas.
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Por sua vez, alguns moradores reconhecem nesse processo indícios de desenvolvimento, e nutrem expectativas com relação a um ‘progresso’ almejado:
... Chegando cada vez mais empreendimento pra Itapuama... um desenvolvimento muito grande tá chegando aí pra Itapuama, e obras e mais obras, viu? Tá chegando e daqui pra frente é que vai chegar. (E01. Masc., 39 anos)
Em relação ao empreendimento na praia do Paiva (Reserva do Paiva), é importante reconhecer que não existe como travar o crescimento das cidades, mas é necessário criar novos horizontes, baseados na sustentabilidade socioambiental, que funcionam a partir de diálogos enriquecedores, com posturas mais integradas de expansão das áreas urbanas. Portanto, que este crescimento aconteça de maneira mais dialógica, considerando interesses dos moradores locais, suas limitações, bem como a contrapartida dos empreendedores e a qualidade de vida do ambiente.
De acordo com conversas informais, os pescadores comentaram que o Porto de Suape influenciou negativamente o processo de pesca devido ao “fechamento” de uma zona estuarina que serve de berçário e fonte de nutrientes para diversas espécies marinhas, entre elas, algas, camarões, caranguejos, peixes, incluindo alguns tipos de tubarão, desta forma, eles dizem que gera um desequilíbrio no mar.
Outro fator relacionado ao porto foi citado pelos pescadores. A suspensão de substrato decorrente do uso de uma draga que aumenta a profundidade do mesmo, visto que este foi construído na foz de três rios, de onde sempre vem muito sedimento, provocando assoreamento da calha onde os navios atracam. A draga lança o substrato em alto mar, deixando as águas “sujas” (turvas), por isso “o xaréu não bate na rede”. Esse fenômeno mostra como acontece uma integração ambiental entre diferentes partes da costa pernambucana.
Gondra (2008) aponta que os pescadores artesanais e suas interações com o meio ambiente não devem ser observadas apenas do ponto de vista do uso e apropriação dos recursos e do ambiente, mas no contexto das relações socioeconômicas locais. E esses processos socioeconômicos tem relação direta com um ambiente equilibrado para que a pesca seja de “sucesso”. Estas queixas com relação ao porto surgiram em 2005 (Gondra 2008) e foram feitas novamente ao longo da presente pesquisa.
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A autora ainda cita que as causas das mudanças em Itapuama são oriundas de um conjunto de fatores, entretanto, pode-se enfatizar o anseio por “uma vida mais próspera” do que a de pescador, como uma das principais causadoras dos problemas de continuidade e repasse do saber da arte da pesca, além do tipo de desenvolvimento local com poucos fundamentos da sustentabilidade, não havendo um compromisso pró-ecológico. Existe uma tendência de valorizar as ocupações e ofícios que gerem retorno para o sistema econômico hegemônico global, neste sentido, as práticas tradicionais, incluindo a pesca em Itapuama, são deixadas em segundo plano por parte dos gestores públicos (GONDRA, 2008).
Esse é o contexto de Itapuama, um local que ainda apresenta beleza cênica repleta de atributos naturais ao seu redor, com clima bucólico das jangadas dos pescadores no mar, praia ideal para aprender a arte do surf. Antes, um lugar tranquilo para se estar. Poderia citar uma outra sorte de aspectos positivos, mas infelizmente estes também serão influenciados pela construção de um empreendimento residencial para classe financeira alta na praia vizinha (Paiva), atraído para ali, com o mesmo apelo dos argumentos de riqueza cênica, tranquilidade, um bairro planejado e ecologicamente viável, mas questionável em relação ao seu entorno.
De acordo com o aparecimento de substantivos-chave (VELOSO, ELALI, 2006), palavras e expressões que apareceram nas falas dos moradores, foram registradas, a fim de facilitar a identificação de afinidades entre os entrevistados, além de suscitar uma concordância, no tocante às entrevistas. As expressões e palavras mais utilizadas para o reconhecimento da mudança sociofísica de Itapuama, de acordo com maior frequência de aparecimento estão no Quadro (1) e relacionadas às categorias propostas.
Quadro 1: Categorias de relevância e expressões correspondentes mais utilizadas
Categorias Subcategorias Palavras e expressões relevantes
CENTRADA NO AMBIENTE FÍSICO
Natural Praia, mata, “os pé de arvre”, oxigênio, coqueiral. Edificado Mercadinho do Abraão, escola, pedágio, forró do Marrudo, Trópicos, ruas, Posto de saúde, ponte. CENTRADA NO
AMBIENTE SOCIAL
História Festa da lavadeira, ¨tá diferente¨, mudança, trilhazinha, forró do Marrudo. Práticas Surf, pesca, camping, caminhadas, mergulho, “apreciar a natureza”, relaxar.
CENTRADA NA PESSOA
Pessoas mencionadas
Pais, irmãos, amigos, filhos, amigos, parentes em geral, Aílton, Marrudo, Abraão.
Modo como foram mencionadas
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As entrevistas revelaram que os impactos e as alterações que ocorrem em Itapuama, tanto em ambiente natural quanto construído, trouxeram melhoras relacionadas a estruturas e alguns serviços, como o calçamento das ruas e aumento no número de linhas e diversidade e aumento de transporte coletivo, mas os moradores sentem falta de equipamentos urbanos mais voltados a lazer, educação, serviços médicos e de saúde. Em termos de lazer, o calçadão da praia foi recentemente finalizado (08/2013) e já possui sistema de iluminação, o que beneficia os moradores para o seu uso. Outra melhora presente para os moradores de Itapuama, foi o aparecimento de serviços como acesso à internet (lan houses) e xerox, que não dependem diretamente do estado, mas cabeamentos puderam chegar mais facilmente para instalação desses serviços.
Uma das coisas que a gente não tinha era ônibus... Agora tem ônibus toda hora, todo instante, de meia em meia hora, vinte em vinte minutos ta tendo ônibus. E só isso aí são umas mudanças que... (E01, Masc., 37 anos)
A outra estuda no cabo porque num tem a sala dela aqui, mas ela pega o transporte e deixa ela aqui na frente de meu trabalho. (E08, Fem., 29 anos)
Foi a associação. Essa pista aqui inda foi da reunião da gente. Tu num desce aí no forró do marrudo? Eu chegava aqui, ói, vinha de pés de Gaibu. Vinha na tarde, que de primeiro aqui num tinha ônibus de onze horas, não, sabe? Nós só tinha o último, que saia de onze... (E13, Masc., 64 anos)
Apenas uma pessoa discordou do aspecto transporte coletivo melhor, mas reforçou a falta de aparelhos de fotocópias no local.
É um ônibus, dois, no máximo dois. Quando eu digo péssimo, eu digo que é isso. Pra quem tem carro, é bom, mas pra quem não tem... Falta muita coisa. Até agora, ele disse que ali na frente, tinha loja ali que tira xerox, mas até um dia desse, nem uma xerox a gente tinha pra tirar. (E06. Fem., 37 anos)