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4. BIÇIMLENDIRICI DEĞERLENDIRME SÜRECINDE PAYDAŞLARLA ETKILEŞIM

4.1. Öğrenci

O artigo 1º da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB)72, tratando do conceito de educação para fins legais, explica que a “educação” é muito mais do que essa lei regula, consistindo em “processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais.” No entanto, a LDB só disciplina a educação escolar, desenvolvida, em instituições próprias, predominantemente, por meio do ensino, voltado ao mundo do trabalho e à prática social.

O termo “prática social” está associado à expressão abrangente, utilizada na Constituição Federal, “exercício da cidadania”. Na verdade, “prática social” parece ter um sentido mais amplo ainda, não se referindo somente ao trato com uma coletividade genérica, como a expressão anterior, mas inclui as relações sociais que o indivíduo desenvolve de maneira mais íntima, podendo remeter mesmo às relações domésticas e familiares.

Em conformidade com o disposto na Carta Maior, o artigo 2º da LDB define a educação como dever da família e do Estado. Além disso, o mesmo artigo discrimina as finalidades da educação, que são o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Em síntese, isso significa que a educação visa à formação de indivíduos independentes, ativos, produtivos e participantes socialmente.

72 Brasil. Lei 9.394 de 1996, Lei de Diretrizes e Bases da Educação, disponível em:

A LDB estabelece ainda que o dever do Estado com a educação escolar pública será efetivado, dentre outras medidas, mediante a garantia de padrões mínimos de qualidade de ensino, mantendo a relação necessária entre a quantidade de alunos e a quantidade de material escolar. Essa previsão é importante para inibir a desídia do administrador e combater falta de material escolar para a atividade pedagógica, visto que o § 4º, do artigo 5º da LDB, reiterando a previsão constitucional insculpida no artigo 208, analisado acima, prevê possibilidade de ser imputado, à autoridade negligente, crime de responsabilidade.

Quanto ao alcance do sistema educacional, merece destaque a pretensão, insculpida na LDB, de que a educação atinja todas as pessoas maiores de quatro anos de idade, uma vez que o Estado está obrigado a ofertar vagas, na rede pública, para essas crianças, também sob pena de crime de responsabilidade.

Em conformidade com os dispositivos constitucionais abordados anteriormente, o artigo 8º da LDB dispõe sobre a organização de regime de colaboração entre os sistemas da União, dos Estados e do Distrito Federal, cabendo à União a coordenação da política nacional de educação, articulando os diferentes níveis e sistemas e exercendo função normativa, redistributiva e supletiva em relação às demais instâncias educacionais. Não obstante, o estatuto em foco garante que os sistemas de ensino terão liberdade de organização.

O texto em análise, no artigo 9º, atribui à União a incumbência de elaborar e estabelecer, em colaboração com os demais entes, o Plano Nacional de Educação, e as competências e diretrizes para a educação básica, que nortearão os currículos e seus conteúdos mínimos, de modo a assegurar formação básica comum.

Esse é um aspecto curioso desse estudo, até aqui, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação se limitou a reproduzir disposições constitucionais, acrescentando muito pouco ao Diploma Maior. Esperava-se, pelo seu título, que ela já viesse discriminar essas diretrizes da educação, no entanto, é através de portarias e resoluções do Ministério da Educação (MEC) que o governo se propõe a estabelecer essas diretrizes. Apesar disso, os documentos emitidos pelo MEC se furtam de fixar objetivamente as diretrizes e os conteúdos mínimos, dispondo apenas de maneira genérica sobre o assunto e remetendo à LDB.

Nos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio (PCN), especificamente na parte relativa à Linguagem, Códigos e suas Tecnologias, o governo repassa às instituições de ensino a responsabilidade de determinar o conteúdo das disciplinas, sem sequer determinar

minimamente uma base comum, uma parte fixa73. Essa postura é reproduzida em relação às demais matérias:

Quando de suas escolhas curriculares, a disciplina Língua Portuguesa deve ser articulada com os pressupostos da área. Diferentemente de outras legislações, que estipulavam carga horária específica para a disciplina, o Parecer CNE e a LDB preconizam sua permanência de acordo não só com a proposta pedagógica da escola, mas também em razão das competências a serem objetivadas na área, isto é, a escola deve decidir a carga horária da disciplina com base nos objetivos da escola e da aprendizagem com tratamento interdisciplinar.

Os objetivos da Educação Básica, no art. 22 da LDB, já apontam a finalidade da disciplina, ou seja, "desenvolver o educando, assegurar-lhe formação indispensável para o exercício da cidadania e fornecer-lhe meios para progredir no trabalho e em estudos superiores." De que forma o ensino da disciplina pode visar a esse desenvolvimento? Essa é a primeira decisão a ser tomada na sua inclusão curricular.74

Apesar de parecer se esvaziar a capacidade do MEC de definir conteúdos mínimos para os currículos escolares, ele ainda dispõe de uma poderosa ferramenta para direcionar a construção dos programas disciplinares, o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). O inciso VI, do artigo 9º, da LDB, prevê processo nacional de avaliação do rendimento escolar no ensino fundamental, médio e superior, em colaboração com os sistemas de ensino, objetivando a definição de prioridades e a melhoria da qualidade do ensino.

O ENEM é, hoje, o principal meio de acesso ao ensino Público Superior. Se uma das principais metas do ensino médio é a preparação para o ingresso no nível superior, fica fácil perceber que, através do ENEM, o MEC pode, indiretamente, fixar os conteúdos mínimos a serem vistos nas instituições de ensino.

É certo que a LDB atribui aos estabelecimentos escolares, a tarefa de elaborar e executar sua proposta pedagógica75, com a participação de seus docentes, respeitadas as

73Esse debate será retomado ao tratar-se da inclusão de novos conteúdos.

74BRASIL. Ministério da Educação. PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS DO ENSINO MÉDIO.

Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/14_24.pdf> p.17. Acesso em: 30/10/2013. Aqui, o artigo 22 da LDB está incorretamente transcrito. “Art. 22. A educação básica tem por finalidades desenvolver o educando, assegurar-lhe a formação comum indispensável para o exercício da cidadania e fornecer-lhe meios para progredir no trabalho e em estudos posteriores.”

75Autonomia Pedagógica - Ideia relacionada à liberdade das unidades escolares em elaborar seu próprio projeto

pedagógico. Trata-se de um direito estabelecido pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), de 1996, que orienta para que esse projeto pedagógico articule os contextos nos quais o estabelecimento se situa com as diretrizes curriculares nacionais. Segundo a LDB: “Os sistemas de ensino assegurarão às unidades escolares públicas de educação básica que os integram progressivos graus de autonomia pedagógica e administrativa e de gestão financeira, observadas as normas gerais de direito financeiro público.”

A autonomia pedagógica situa-se num dos dois grandes eixos da LDB, relacionado à flexibilidade da educação escolar. Com isso, a proposta da LDB é a de que muitos aspectos cartoriais e burocráticos, engessadores da educação brasileira, deixassem de existir e os estabelecimentos escolares passassem a gozar de autonomia pedagógica e progressivos graus de autonomia financeira. (MENEZES, Ebenezer Takunode; SANTOS, Thais Helena dos."Autonomia pedagógica" (verbete). Dicionário Interativo da Educação Brasileira -

normas comuns e as do seu sistema de ensino. Não obstante, a proposta pedagógica não se confunde com o programa disciplinar ou com o currículo educacional. Embora as escolas sejam livres para elaborar a proposta pedagógica, elas precisam observar o disposto no artigo 26 da LDB, que determina que os currículos da educação infantil, fundamental e média “devem ter base nacional comum, a ser complementada, em cada sistema de ensino e em cada estabelecimento escolar, por uma parte diversificada, exigida pelas características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e dos educandos” 76. O próprio artigo 22, retro transcrito, menciona a finalidade de assegurar formação comum ao educando.

Especificando a base nacional comum a que se refere o artigo 26, o § 1º determina que os currículos devem abranger, obrigatoriamente, o estudo da língua portuguesa e da matemática, o conhecimento do mundo físico e natural e da realidade social e política, especialmente do Brasil. O § 7º, aprofundando o assunto, estipula que os currículos do ensino fundamental e médio devem incluir os princípios da proteção e defesa civil e a educação ambiental de forma integrada aos conteúdos obrigatórios.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação, em diversos momentos, confere ênfase à formação cidadã, e remete a um conteúdo inegavelmente jurídico, exemplo mais preciso disso é o parágrafo 5º, do artigo 32, que determina que o currículo do ensino fundamental incluirá, obrigatoriamente, conteúdo que trate dos direitos das crianças e dos adolescentes, observada a produção e distribuição de material didático adequado.

O direito deve estar intimamente ligado à educação, fazer parte do processo ensino/aprendizagem da educação básica e, mormente, no ensino médio.77

Confirmando o explanado, no inciso I, do artigo 27, o diploma em enfoque fixa entre as diretrizes da educação básica “a difusão de valores fundamentais ao interesse social, aos direitos e deveres dos cidadãos, de respeito ao bem comum e à ordem democrática”.

Alguns dos dispositivos acima foram incluídos recentemente e são inovações que visam uma formação mais voltada aos valores éticos e à postura social dos indivíduos, no entanto, não há regulamento ou portaria para detalhar seu conteúdo, o que torna inócua a positivação. Ademais, como visto, nas oportunidades em que o MEC deveria se pronunciar

EducaBrasil. São Paulo: Midiamix Editora, 2002, http://www.educabrasil.com.br/eb/dic/dicionario.asp?id=168, visitado em 11/11/2013.)

76 O termo “clientela” foi substituído por “educandos”, a partir da Lei nº 12.796, de 2013, a fim de evitar

conotação comercial ao sistema educacional.

77 RIBEIRO, Welves Konder Almeida. Eficácia dos mandamentos constitucionais para a formação da

cidadania. Disponível em: <http://www.webartigos.com/artigos/eficacia-dos-mandamentos-constitucionais-para- a-formacao-da-cidadania/104443/> Acesso em: 25 mai. 2013

sobre a fixação de carga horária e conteúdos mínimos para determinadas matérias ele passa a atribuição para as escolas.

O mais próximo que o MEC passou de uma definição concreta do conteúdo a ser lecionado para satisfação dos objetivos e diretrizes mencionados foi essa:

De tal modo, pretende-se discutir alguns pontos do conceito de Estado: a soberania, sua estrutura de funcionamento, os sistemas de poder, as formas de governo no mundo atual, as características dos diferentes regimes políticos. E, por fim, algumas questões relevantes no contexto social brasileiro, tais como as relações entre o público e o privado e a dinâmica entre centralização e descentralização do poder. Em termos históricos, cabe também realizar uma reflexão sobre a relação entre Estado e sociedade, identificando as diversas formas de exercício da democracia, a questão da legalidade e da legitimidade do poder, os direitos dos cidadãos e suas diferentes formas de participação política. Cabe ressaltar a importância dos movimentos sociais no processo de construção da cidadania, em função do seu papel, cada vez mais expressivo, de interlocução com o poder público, desde o movimento operário até os chamados “novos movimentos sociais” (ecológico, pacifista, feminista etc).78

Além das referências à organização e às relações políticas, envolvidas nos conceitos de Estado e de cidadania, presentes neste documento, cabe ainda desenvolver algumas noções de Direito, tais como o entendimento das leis, códigos, processos jurídicos e acordos internacionais, como regras concebidas para regular o convívio entre os indivíduos e os Estados, assegurando direitos e deveres individuais e coletivos. O desenvolvimento de competências de leitura e interpretação de documentos legais, a compreensão de conceitos neles expressos e a contextualização da produção jurídica constitui um dado importante para o exercício da cidadania plena.79

Essas disposições, porém, são vagas demais, e, na prática, não estão sendo observadas. Ver-se-ão, a seguir, algumas propostas tendentes a solucionar as questões apontadas e alguns empecilhos de suas implementações.

78 BRASIL. Ministério da Educação. PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS DO ENSINO MÉDIO.

Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/cienciah.pdf> p.41. Acesso em: 30/10/2013.

4 OBSTÁCULOS E PROPOSTAS

Da análise jurídico-filosófica feita no primeiro capítulo, reconhece-se a conscientização ético-jurídica do indivíduo como requisito razoável para lhe impor os preceitos de uma norma. No segundo capítulo, foi visto que o acesso à justiça e à educação são direitos fundamentais amparados no ordenamento brasileiro, e o direito a uma formação jurídica elementar decorre da conjugação dos dois primeiros.

Porém, Bobbio explica que a questão dos direitos fundamentais, atualmente, não é filosófica, mas jurídica, e num sentido mais amplo, a questão é política.

Não se trata de saber quais e quantos são esses direitos, qual é sua natureza e seu fundamento, se são direitos naturais ou históricos, absolutos ou relativos, mas sim qual é o modo mais seguro para garanti-los, para impedir que, apesar das solenes declarações, eles sejam continuamente violados.80

Ou seja, não bastam declarações solenes para assegurar a eficácia de tais direitos, são necessárias prestações materiais do Estado. Sem essa atuação governamental, esses direitos não saem do papel.81 “Não são direitos contra o Estado, mas sim direitos através do Estado”82. Essa dependência de atuação estatal remeteu esses direitos, por algum tempo, à categoria de normas programáticas, visto que não havia garantias instrumentais para sua efetivação83.

Com a garantia constitucional de aplicabilidade imediata84, os direitos fundamentais de segunda, terceira e quarta dimensões, deixaram de depender apenas da vontade do legislador para a sua materialização. O Estado estaria, agora, vinculado às normas antes denominadas de programáticas, e deve empregar os meios e os recursos necessários para a satisfação desses direitos, através de políticas públicas bem definidas85.

80BOBBIO, Norberto: A era dos direitos. RJ: Ed. Campus, 1992, p. 30.

81CARDOSO, Roberta Teles. O Direito à Educação, a Qualidade do Ensino Jurídico e o Acesso à Justiça.

Dissertação de Mestrado. Fortaleza. UFC. 2007. p. 31-32.

82 KRELL, Andréas J. Direitos sociais e controle judicial no Brasil e na Alemanha: os des(caminhos) de um

Direito Constitucional "comparado”. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris Editor, 2002. p. 19. Apud CARDOSO, Roberta Teles. O Direito à Educação, a Qualidade do Ensino Jurídico e o Acesso à Justiça. Dissertação de Mestrado. Fortaleza. UFC. 2007. p. 31-32.

83BONAVIDES, Paulo. Curso de direito constitucional. 13. Ed. São Paulo: Malheiros, 2003b. p. 564

84GUERRA, Marcelo Lima. Direitos fundamentais e a proteção do credor na execução civil. São Paulo: Revista

dos Tribunais, 2003. p. 83.

85CARDOSO, Roberta Teles. O Direito à Educação, a Qualidade do Ensino Jurídico e o Acesso à Justiça.

A realidade vivenciada demonstra que só a formulação de leis não basta para que os cidadãos gozem de seus direitos, havendo, portanto, uma distinção entre a declaração do direito e o meio de desfrutá-lo.86

Do exposto, convêm sugerir, nesse capítulo, soluções (ou ao menos paliativos) para transpor os principais obstáculos que se põem à aplicação prática das disposições legais tendentes a incluir a educação jurídica básica no ensino médio.