A lógica da amostragem representativa é útil para muitas situações de pesquisa social, mas não se presta para situações de pesquisa na qual o objetivo é a construção de teorias (BAUER e AARTS, 2002). No caso desta tese, a mais adequada foi a denominada
“amostragem teórica” (STRAUSS e CORBIN, 2008; CHARMAZ, 2006; GOULDING,
2002), pois quando construímos teoria indutivamente a amostragem é direcionada pela própria teoria (GOULDING, 2002). Assim, pode-se definir amostragem teórica como
Coleta de dados conduzida por conceitos derivados da teoria evolutiva e baseada no
conceito de “fazer comparações”, cujo objetivo é procurar locais, pessoas ou fatos
que maximizem oportunidades de descobrir variações entre conceitos e de tornar densas as categorias em termos de suas propriedades e de suas dimensões (STRAUSS e CORBIN, 2008, p. 196).
A partir do conceito estabelecido pelos autores, as entrevistadas foram intencionalmente escolhidas: foram moradoras do Aglomerado da Serra - mais precisamente da Vila do Cafezal -, que, de alguma forma, tinham alguma característica que foi julgada pelo pesquisador como relevante para o estudo.
Porém, neste ponto, vale enfatizar os motivos pelo quais decidi entrevistar apenas moradoras do sexo feminino para compor o corpus da pesquisa. Em primeiro lugar, como a teoria substantiva deve ter muito bem definidos seus limites, a incorporação de elementos diversos, como as diferenças advindas da construção da percepção da realidade entre homens e mulheres, poderia tornar a construção da teoria bastante mais complexa. Em segundo lugar, desde a primeira fase do trabalho de campo notei a ocorrência muito grande de famílias sem a
figura do marido ou “pai de família”, arranjo no qual a mulher assume um papel fundamental
de provedora de recursos para os filhos. Mesmo naquelas residências onde havia a presença
do homem, notei o que Sarti (1996) realçou em seu trabalho sobre pobres urbanos: “o homem
é considerado o chefe da família e a mulher a chefe da casa” (p. 43). Assim, as mulheres
ocupam um papel de destaque tanto na construção de significados quanto na “vivência” do dia
a dia das experiências de consumo de aparelhos eletrônicos.
Outro ponto merecedor de destaque é o exposto por Gaskell (2002), quando alerta pra o fato de que, embora as experiências possam parecer únicas ao indivíduo, as representações de tais experiências não surgem das mentes individuais, mas são resultados de processos de construção social.
O QUADRO 13 sumariza as principais características das entrevistadas.
QUADRO 13 – Breve descrição das entrevistadas (continua)
NOME FICTÍCIO DESCRIÇÃO DO ENTREVISTADO
Aparecida É natural de Teófilo Otoni, norte de Minas. Mora em Belo Horizonte há mais de 30 anos, sempre na região do Aglomerado da Serra. Cursou apenas até a terceira série do ensino Fundamental. Tem 55 anos de idade. Sempre trabalhou como faxineira. Atualmente, mora sozinha em casa própria. Teve seus dois filhos falecidos recentemente. Seus rendimentos mensais são menores que um salário mínimo.
Beatriz Nasceu em Porto Alegre, RS. Mudou-se para a região do Aglomerado quando tinha dois anos de idade. Casada há pouco menos de dois anos, mora com o marido numa casa cedida pela sogra. Tem 31 anos e trabalha como monitora de educação infantil numa creche da região Sul de Belo Horizonte. Cursou o ensino médio completo. Tem rendimento mensal por volta de 500 reais.
Celina É natural de Belo Horizonte, mora no Cafezal há 17 anos. Tem 47 anos e trabalha como servente numa creche da Prefeitura de Belo Horizonte, mas também já trabalhou como cozinheira em restaurantes. Cursou apenas até o segundo ano do ensino fundamental. Mora com duas filhas numa casa própria. Ganha um salário mínimo por mês.
Diana Mora no Cafezal desde os 6 anos de idade. Tem 37 anos, é casada e tem um filho de 5 anos de idade. Trabalha como faxineira e ganha aproximadamente 800 reais por mês. É natural de Lagoa dos Passos (Norte de Minas) e tem ensino fundamental completo. Já trabalhou como balconista e auxiliar numa loja de perfumes, porém o maior tempo foi faxineira em casa de família. Tem casa própria na favela.
Eliane É natural de Belo Horizonte e mora na região do Aglomerado da Serra desde que nasceu. Já morou em diversos pontos do Aglomerado. Mora de aluguel com seu atual marido e seus oito filhos. Tem 39 anos. Cursou até o 5º ano do ensino fundamental. Sempre trabalhou como faxineira. Atualmente, é funcionária de uma empresa de serviços gerais e ganha por volta de 700 reais por mês.
QUADRO 13 – Breve descrição das entrevistadas (conclusão)
NOME FICTÍCIO DESCRIÇÃO DO ENTREVISTADO
Fátima É natural de Belo Horizonte e mora no cafezal desde que nasceu, há 24 anos. Tem ensino médio completo. Atualmente, está desempregada, mas já trabalhou como atendente em sorveteria. Solteira, atualmente mora com seus pais, ambos aposentados, e sua filha de 1 ano de idade. Sua casa está localizada em um dos melhores pontos do bairro e conta com vários eletrodomésticos.
Gisele Nasceu em Belo Horizonte e mora no Aglomerado há 10 anos. Parou seus estudos na 1ª série do ensino médio. Tem 23 anos. Já trabalhou como faxineira em casa de família e como atendente em padaria. Separada, mora na casa de seu ex-marido com dois filhos pequenos. Atualmente, está desempregada e depende da ajuda de seus pais que moram próximo. Pode ser considerada a entrevistada com a pior situação financeira.
Helena Nasceu em São Paulo, mas mudou-se para a região do Aglomerado da Serra há 27 anos. Cursou o ensino fundamental completo. Tem 35 anos. Trabalha como zeladora num prédio residencial, mas já atuou como ascensorista e faxineira. Separada, mora numa casa conjugada com sua mãe, juntamente com seus cinco filhos. Tem rendimento mensal de 900 reais.
Ilma Nascida em Belo Horizonte, sempre morou na região do Aglomerado da Serra. Tem 20 anos e está no meio do curso de graduação em pedagogia. Trabalha num escritório de serviços jurídicos e tem rendimento de 500 reais por mês. Já trabalhou em faculdades como auxiliar de secretaria e como operadora de computador. Mora com seus pais, seus dois irmãos e um primo em casa própria.
Jeane É natural de Belo Horizonte e tem 20 anos de idade. Tem ensino médio completo e atua como monitora do Núcleo de Cerâmica numa ONG localizada no bairro Serra. Já trabalhou em outras funções administrativas nessa ONG. Mora com os pais e um irmão numa casa própria. Tem rendimento bastante variável.
Luciana Nasceu em Belo Horizonte, onde morou em várias regiões. Tem 37 anos, é casada e atualmente é dona de casa, mas já trabalhou como operadora de caixa em supermercados. Terminou apenas o ensino fundamental. Mora com o marido, um filho de menos de um ano de idade e um enteado numa casa conjugada com sua sogra.
Marta Natural de Carmésia, mora na favela do Cafezal há 33 anos. Hoje, com 66 anos, está aposentada, mas trabalha como voluntária numa creche da Prefeitura de Belo Horizonte. Sempre trabalhou como servente ou serviços gerais. Tem apenas a segunda série do ensino fundamental. Mora em casa própria com seu marido e um casal de filhos.
Neusa Nasceu em Montes Claros há 60 anos. Mudou-se para Belo Horizonte para trabalhar em
“casa de família” como faxineira, há 34 anos. Já morou em outras regiões de Belo
Horizonte, mas fixou-se na favela do Cafezal há 32 anos. Sempre trabalhou com serviços gerais e faxina. Atualmente, é aposentada, mas atua como voluntária numa creche da Prefeitura de Belo Horizonte. Apesar de afirmar que frequentou a escola até a segunda série do ensino fundamental, não sabe escrever. Mora de aluguel com um filho, uma nora, a irmã da nora e o filho.
Fonte: Dados da pesquisa (2009)
A fim de obter uma visão um pouco diferenciada dos discursos dos moradores, optei por incluir em meu rol de entrevistados alguns profissionais que atuavam no bairro. Esse procedimento mostrou-se válido visto, que pude contrastar os dados que haviam sido coletados com a visão desses profissionais que conheciam há muitos anos o perfil dos moradores do Aglomerado, bem como ter a oportunidade de ter novos insights para a elaboração da teoria. O QUADRO 14 apresenta o perfil dos quatro profissionais que participaram dessa fase da pesquisa.
QUADRO 14 – Descrição dos entrevistados
NOME DESCRIÇÃO DO ENTREVISTADO
Soraia É proprietária, juntamente com seu pai, de uma loja de móveis em uma das ruas que dá acesso ao Aglomerado da Serra. Atua na região há mais de 20 anos. É graduada em ciências sociais, mas nunca exerceu a profissão. Mora no bairro Serra.
Marconi É proprietário há 18 anos de uma oficina de conserto de aparelhos eletrônicos no bairro Serra, mas já manteve oficinas em diferentes pontos do Aglomerado anteriormente. Tem curso técnico de eletrônica.
Miriam Coordena uma creche da Prefeitura de Belo Horizonte na região do Aglomerado da Serra. Tem experiência como voluntária em projetos sociais com foco em jovens mães do Aglomerado há quase 40 anos. É graduada em pedagogia.
Daniel Coordenou uma ONG na região do Aglomerado da Serra por três anos. É graduado em ciências sociais.
Fonte: Dados da pesquisa (2009)