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GÖRME ENGELLİLERİN HAYALİNDEKİ ENGELSİZ ÜNİVERSİTE

O sujeito também precisa poder contar a sua própria história; pois o estado final de um processo de formação não é alcançado antes que o sujeito só lembre dos caminhos de identificações e alienações, nos quais ele se constituiu. Em um processo de formação, nós só aprendemos sobre o mundo aquilo que experimentamos ao mesmo tempo em nós mesmos como sujeitos que aprendem (HABERMAS, 2009, p. 283, grifo nosso).

Ao longo dessa pesquisa tentamos compreender a constituição de um possível campo científico na Arquivologia, principalmente a partir da contribuição da Ciência da Informação, acompanhando as principais discussões acerca desse pensamento, suas diretrizes e desenvolvimento, buscando entender a partir dos princípios e métodos da Arquivologia a sua possível (não) emancipação como saber autônomo, “a Arquivologia não conseguiu desenvolver, ao longo dos anos, um corpo de conhecimentos propriamente científico. O conhecimento produzido no âmbito da Arquivologia era marcadamente tecnicista” (ARAÚJO, 2011, p. 8).

Para um melhor entendimento desses fenômenos se tornou imprescindível a utilização das interpretações indiciárias e hermenêuticas, cujas reflexões fez-nos pensar que um dos principais problemas da Arquivologia se relaciona aos moldes tecnicistas e de respaldo positivista (funcional/pragmático) e hipercontrolado pelos interesses de uma sociedade altamente administrativa:

A teoria arquivística evoluiu através de amplas fases da história social e as refletiu: do positivismo europeu do século XIX ao “administrativismo” do New Deal americano e, mais recentemente, do macluhanismo centrado na mídia dos anos 1960 ao historicismo pós- moderno. Se reconhecida, essa natureza mutante da teoria arquivística será sua força, e não sua fraqueza (COOK, 1997, p. 26).

Percebemos o quanto se faz necessário trazer para o cenário acadêmico tal problematização, uma vez que a atividade do “saber-fazer” (razão prática) condenou, de forma muito negativa, a Arquivologia no transcurso do seu próprio processo histórico. Com isso, não é por acaso que os arquivos são os alvos diretos da razão instrumental, já que os aspectos de funcionalidade são bem demarcados nesses espaços, sendo o arquivista muito mais um artífice do que um partícipe, integrado, mas não incluído, mandado muito mais do que agente. Logo, podemos

notar a interação do “saber-se” instrumental da Arquivologia, a partir de um saber prático internalizado, caracterizado pelo procedimento operatório na realidade dos arquivos, e um saber prático global que circunscreve todo esse procedimento instrumental.

Figura 9: O “saber-se” instrumental na Arquivologia

Fonte: Construção do autor com a utilização do software Cmaptools.

Em razão disso, estamos convencidos, de acordo com a hipótese da pesquisa, de que a Arquivologia ainda necessita de sinais metodológicos mais claros, para assim poder se constituir como saber emancipado e estruturado enquanto tal.

Segundo Araújo (2011), devido à aproximação com a Ciência da Informação a Arquivologia teria alastrado seu “corpus científico”, produzindo assim, conhecimentos que vão além da dimensão historicista e tecnicista que se impregnou na Arquivologia no processo de historicização, “a Ciência da Informação ofereceu à Arquivologia possibilidade de construção de conhecimentos propriamente científicos, indo além da dimensão de produção de manuais de “como fazer” (ARAÚJO, 2011, p. 9). De todo modo, não concordamos com o autor, pois a Arquivologia, mesmo com

essa aproximação com a Ciência da Informação, ainda está ligada a um saber-fazer instrumental. Logo, a Arquivologia se contorna como uma área que requer mais discussões internas, tornando essencial que se distancie das querelas administrativas como finalidade imediata e última.

Nessas conjunturas, chegamos a apontar através dos indícios da pesquisa que para obter esse caráter de cientificidade a Arquivologia teria que definir os seus próprios métodos, entendendo que os arquivos não são apenas espaços a serviço das instituições que geram documentos, mas, o arquivo também deve ser representado e pensado como uma entidade de responsabilidade social através do componente “informação”.

As contribuições de Habermas foram cruciais para entendermos esses procedimentos operacionais e tecnicistas que transformaram os arquivos ao longo da história, justamente naquilo que se torna mais emblemático: lugar dos segredos e

não da memória. Segundo Medeiros (2008, p. 215), “Habermas acredita que as

dimensões históricas e utópicas da consciência caracterizaram o próprio espírito do tempo”.

Apontar a necessidade de uma metodologia e de um objeto é trazer a reflexão de que a Arquivologia tem que ser mais discutida pelos próprios arquivistas, tornando primordial uma restauração dos estilhaços que foram quebrados por diversas influências no relacionamento com os documentos no processo de organização dos arquivos.

Percebemos que a “construção” de uma teoria e de uma metodologia mais contextualizada poderá trazer “saídas” para as incertezas epistemológicas em que a Arquivologia se insere hoje, e para que isso aconteça de fato deve ocorrer mais aproximação entre os arquivistas, através da pesquisa e dos questionamentos que são bases essenciais em qualquer área do conhecimento. Medeiros (2008, p. 218- 219) vem tecer um pouco sobre o exposto quando aponta: “quando os agentes da interação tornam-se competentes, do ponto de vista comunicativo, a mobilização de suas capacidades linguísticas nem sempre se deve ao potencial da racionalidade embutida nos discursos formais, instituídos sobre o pensar e o agir”.

Nesse sentido, a Arquivologia sofreu a influência de várias correntes como o positivismo, o pragmatismo, o funcionalismo que, de certa maneira, chegam à

realidade do arquivo de forma muito acentuada, impregnada ainda hoje na realidade da Arquivologia internacional e nacional. Assim, é preciso que os arquivistas venham discutir tais características, rompendo com as influências reducionistas que só fazem ainda mais conferir o caráter tecnicista e funcional à Arquivologia.

É possível compreender que os procedimentos da razão técnica sobre os arquivos, através dos princípios e fundamentos arquivísticos, condicionaram a Arquivologia a uma ideologia do controle, ficando difícil de visualizá-la como uma ciência independente e autônoma. Para Medeiros (2008, p. 220), “não há como a emancipação desenvolver-se em um contexto dependente de um modo de pensar e agir impregnado de racionalidades técnico-instrumentais”.

Em decorrência disso, as formas adotadas de organização documental nos arquivos abarcam procedimentos técnicos, legitimados por princípios tidos como base teórica da Arquivologia, como da proveniência e o da ordem interna ou original, exemplos da técnica instrumentalizadora na Arquivologia. A ciência procura entendimento e compreensão acerca dos fenômenos, primando por sinais de uma reconstrução dos objetos investigativos.

Com isso, um ponto importante que percebemos ao longo da construção desse trabalho é que há uma carência ainda na literatura, pois poucos autores adentram nesse universo de cientificidade, e no caso do Brasil ainda é mais grave, pois quase não há registro. Em razão disso, é oportuno fazer tais discussões, buscando parâmetros como forma de esclarecer que há uma necessidade de pesquisas na Arquivologia, possibilitando assim que vá mais além da ação operatória, adentrando na premissa do conhecer.

Em vista disso, a Arquivologia foi atrofiada aos modelos da “razão prática” no processo de organização de documentos. Nosso intuito, portanto, foi dimensionar a carência epistemológica da Arquivologia em torno de uma cientificidade, apontando seus limiares e destacando, principalmente, os aparatos tecnicistas inscritos em suas bases.

Mesmo que a formação em Arquivologia no Brasil ainda mantenha suas referências na pós-custodialidade, esta ainda não oferecerá o status de cientificidade à área, haja vista que o modelo canadense (pós-custodial) se interessa pelos aparatos da “tecnologia” e do novo na ligação com a pós-modernidade.

Porém, é de se pensar que o mecanismo desses “pós” esbarra nas necessidades e na falta de um objeto visível e bem formulado.

A Arquivologia vai avançando ao longo do tempo, no sentido de novos meios, novos suportes, no entanto, as práticas descritivas ainda são as mesmas. Torna-se primordial na Arquivologia não pensar apenas nessas custodialidades e suas ramificações, “tradicionais” e “pós-tradicionais”, é necessário entender a dinâmica metodológica da própria área, a definição de seu objeto, o fortalecimento do conhecimento (epistemologia) e seus interesses intrínsecos, e assim pensarmos em uma metodologia de pesquisa em Arquivologia que supere essa ação da funcional do agir instrumental em seus procedimentos e adquirir uma intelecção mais voltada para o conhecimento axiomático.

A rigor, nesse cenário que se torna desafiador na e para a Arquivologia, discutir seu status de cientificidade é provocar que esta deve ir além de normas, princípios e fundamentos. Devemos pensar na criação de metodologias e objetos epistemológicos mais coesos para a arquivística. É pertinente para que isso aconteça ir além do rol de dependência e sujeição. Então, o “enforcamento” da Arquivologia enquanto ciência caracteriza por esses traços burocráticos e institucionalizadores impregnados pela “razão prática” e tecnicista ancorados pelo pragmatismo e funcionalismo do Estado.

Ademais, a chama da esperança deve sempre estar acessa para que possamos contribuir ainda mais para o avanço da Arquivologia brasileira. Então, que sejamos propagadores e divulgadores de um futuro para a Arquivologia, que depende de cada um de nós. Por conseguinte, sejamos anunciadores de uma Arquivologia aos moldes como necessitamos, que “sirva” à administração e a sociedade, ao privado e ao público, e ao contexto acadêmico e que, sobretudo, possa (re)configurar sua própria autoimagem e se consolidar cada vez mais epistemologicamente e indagar-se a si mesma.

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