A posição dos agentes, a que comumente se refere Bourdieu, apresenta-se dependente do volume e da estrutura do capital que detém, e dentre o conjunto desses capitais, para ele, o cultural e o econômico estabelecem os critérios mais significativos de distinção dos agentes.
Capitais Escopo Exemplos
Econômico
Recursos associados aos fatores de produção (terra, fábrica e trabalho) e aos ativos econômicos, como a renda e os bens materiais. Pode ser acumulado e reproduzido por meio de estratégias de investimento econômico e de outros mecanismos associados à obtenção ou à manutenção de relações sociais que podem possibilitar o estabelecimento de vínculos economicamente úteis.
Terra, trabalho, dinheiro, patrimônio, bens materiais
Cultural
Corresponde ao conjunto de conhecimentos, habilidades e qualificações intelectuais transmitidas pela família e pelas instituições escolares ao longo da vida do indivíduo. O capital cultural pode adquirir três formas: 1. o estado incorporado, como uma característica durável do corpo (a forma de falar); 2. o estado objetivo, como a posse de bens culturais; 3. o estado institucionalizado, decretado por instituições de ensino.
Valores familiares, obras de arte, títulos acadêmicos e os títulos nobiliários no contexto de sociedades
aristocráticas.
Social
O capital social corresponde à agregação de recursos atuais ou potenciais que têm estreita conexão com a rede de relações institucionalizadas de reconhecimento e de inter-reconhecimento entre indivíduos e grupos. Envolve a manutenção das relações sociais individuais e coletivas, acumulando-se pelo processo de socialização.
Rede de
relacionamentos e os recursos que podem ser acessados a partir dessas conexões.
Simbólico
Está relacionado à acumulação de prestígio, honra e de reconhecimento social por um indivíduo/grupo que preserva sob seu domínio os recursos considerados essenciais num determinado campo. A posse do capital simbólico não implica, necessariamente, domínio de uma propriedade “objetiva”, e sim de um recurso simbólico que foi legitimado pelos atores sociais num campo específico, podendo não ser relevante em outro espaço social. Deter e manter a posse sobre esses recursos simbólicos requer muito investimento, tempo e disposição pessoal para reafirmar as visões de mundo e sistemas classificatórios vigentes.
Síntese dos capitais econômicos e culturais que foram reconhecidos como legítimos em determinado campo social.
Além disso, para esse autor, a posição em relação ao volume de capital contrasta aqueles agentes mais fortemente dotados de capital, comparativamente àqueles mais fracamente dotados; ou seja, hierarquiza-os em “alta” e “baixa” escala social, tomando como referência a quantidade de capital acumulado.
Já em relação à estrutura do capital, é significativo apontar, também, a relevância atribuída pelo autor à constituição de seu volume total, na medida em que aqueles agentes, cujo capital econômico se sobrepõe ao cultural, tendem a se opor àqueles com propriedades contrárias. É essa forma de distinção que, segundo Bourdieu (2009; 2008), permite diferenciá-los, na dimensão social, em um mesmo espaço. Como resultado, o espaço social somente pode funcionar por meio dessa lógica de distinção, em que os agentes, tanto individuais quanto coletivos, interiorizam a vontade de criar identidades sociais próprias, que lhes permitam coexistir socialmente.
Bourdieu (1996; 2007; 2008b) também reforça a cultura como outro importante fator de distinção. Tal definição de cultura é considerada, no sentido sociológico, como um conjunto de valores e práticas adquiridas e compartilhadas por uma pluralidade de pessoas. Ademais, conforme observa Bonnewitz (2003: 95), a adoção do termo cultura será adotado, não raro, no plural – culturas – o que “remete à noção de pluralismo cultural. Assim, no seio de uma mesma cultura, podem existir grupos que não compartilham as práticas e as representações dominantes”. Todavia, segundo Bourdieu (2008), os membros das diferentes classes sociais se distinguem não tanto pelo grau segundo o qual reconhecem a cultura, mas pelo grau segundo o qual a conhecem.
Essa relação com a cultura é, na medida em que depende da posição do agente no espaço social, diferente de “classe” para “classe”. As classes dominantes, por exemplo, tendem a criar um poder distintivo que tem por função assegurar suas posições, por meio de uma estratégia de distinção - manutenção do status quo:
Do lado dos dominantes, todas as estratégias essencialmente defensivas, visam conservar a posição ocupada, portanto, perpetuar o status quo, ao manter e fazer durar os princípios que servem de fundamento à dominação. Quanto aos dominados, estes só terão possibilidades de se impor no mercado através de estratégias de subversão que não poderão prodigalizar, a prazo, os ganhos denegados a não ser com a condição de derrubarem a hierarquia do campo sem contrariarem os princípios que lhe servem de fundamento (BOURDIEU, 2008: 32).
Para melhor compreender essa lógica de manipulação e aplicação da distinção, é relevante retomar a questão do poder simbólico e, para tal, analisar outro importante conceito na sociologia de Bourdieu: a noção de dominação. Para se abordá-la, vale, ainda, retomar à analogia por ele adotada para explicar os campos sociais e, no interior dos mesmos, os jogos que se desenrolam e nos quais os jogadores se colocam em constante conflito com vistas a capitais que lhes permitam dominá-lo:
A classe dominante é o lugar de uma luta pela hierarquia dos princípios de hierarquização: as frações dominantes, cujo poder assenta no capital econômico, têm em vista impor a legitimidade da sua dominação quer por meio da própria produção simbólica, quer por intermédio dos ideólogos conservadores os quais verdadeiramente servem os interesses dos dominantes por acréscimo, ameaçando sempre desviar em seu proveito o poder de definição do mundo social que detêm por delegação; a fração dominada (letrados ou intelectuais e artistas, segundo a época) tende sempre a colocar o capital específico a que ela deve a sua posição, no topo da hierarquia dos princípios de hierarquização (BOURDIEU, 2010: 12).
Por meio de tal analogia, é possível apreender que os agentes dominantes devem criar e construir sua reputação, levando os dominados a acreditarem em seus méritos. É assim que emerge o poder simbólico, o qual permite que uma classe “dominante” estabeleça uma cultura
“dominante”:
A cultura dominante contribui para a integração real da classe dominante (assegurando uma comunicação imediata entre todos os seus membros e distinguindo- os das outras classes); para a integração fictícia da sociedade no seu conjunto, portanto, à desmobilização (falsa consciência) das classes dominadas; para a legitimação da ordem estabelecida por meio do estabelecimento das distinções (hierarquias) e para a legitimação dessas distinções (BOURDIEU, 2010: 10).
Em síntese, a cultura que une a classe dominante – intermediário de comunicação – é a mesma que a separa dos dominados – instrumento de distinção–, legitimando as distinções entre as culturas – designadas como subculturas – e definindo sua distância em relação àquela dominante.