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1.2. GÖNÜLLÜLÜK

1.2.5. Gönüllülük Çeşitleri ve Gönüllülüğe Yeni Yaklaşımlar

Para a fundamentação teórica deste estudo, busquei contribuições da perspectiva da tradição humanista/organísmica da motivação (REEVE, 2006). Segundo Blasi (1976, apud REEVE, 2006, p. 65), o termo vem da palavra organismo, e se refere a uma entidade viva em estado de incessante troca ativa com o ambiente. Assim, as teorias organísmicas da motivação reconhecem que, como os ambientes mudam continuadamente, logo, os organismos precisam de flexibilização para ajustar-se a tais mudanças.

A natureza humana possui diferentes necessidades fundamentais para a vida: as necessidades fisiológicas, as necessidades psicológicas e as necessidades sociais (REEVE, 2006, p. 65). Neste estudo, trago discussões sobre as necessidades psicológicas enquanto questão primária do referencial teórico fundamentado na Teoria da Autodeterminação.

A Teoria da Autodeterminação (TAD) pressupõe que todos os indivíduos apresentam uma orientação geral, propensões inatas para o crescimento saudável e autorregulação para o envolvimento pessoal na busca de satisfazer três necessidades psicológicas básicas: a de autonomia, a de competência e a de pertencimento. Para a TAD essas necessidades refletem diretamente no bom desenvolvimento pessoal e no bem-estar dos indivíduos e estão relacionadas com condições ambientais que favorecem a satisfação das necessidades, pois, estas, quando satisfeitas, promovem o bem-estar psicológico (DECI; RYAN, 2008a, 2008b). Para alguns autores, há várias situações em que o indivíduo pode estar motivado. Uma pessoa pode estar motivada pelo simples fato de valorizar uma

determinada tarefa e/ou atividade, por uma meta de autossuperação no desempenho, por seus próprios interesses, por forças externas e, até mesmo, por receio de estar sendo avaliada externamente (RYAN; DECI, 2000a).

Por ser considerada como um fator importante na regulação do comportamento humano, a motivação tem sido tema de muitas discussões (DECI; RYAN, 2000). Na área da educação musical, a motivação é imprescindível ao ensino e à aprendizagem. Alguns autores afirmam que muitos aspectos cotidianos são de interesses extrínsecos, podendo ser relacionados a aspectos de prática musical, tais como aquecimentos e exercícios técnicos (cf. RIBEIRO; CERNEV, 2013). Outros autores apontam que explicações justificadas podem fornecer uma base racional satisfatória para que os alunos sintam realmente que vale a pena se esforçar para cumprir tais atividades musicais (RENWICK; REEVE, 2012).

Sobre a motivação do aluno, Guimarães e Boruchovitch (2004) afirmam que um aluno motivado se mostra envolvido e ativo no processo de aprendizagem, e Zenorini e Santos (2010) falam que um aluno desmotivado passa a se desinteressar pelas tarefas propostas, o que pode proporcionar uma queda de qualidade em sua aprendizagem.

As pesquisas que tratam sobre a Educação Musical e Motivação mostram que, em diferentes contextos, participar de atividades por interesse e por se sentir parte de um grupo, são fatores comuns entre os participantes de atividades musicais. Portanto, é de grande importância investigar a relação entre as atividades e os aspectos internos dos alunos, assim como também investigar as características do ambiente que possam motivar os estudantes, pois o contexto em que estes estão inseridos possui forte influência sobre a motivação para o aprender e o fazer musical.

Assim como em qualquer área do conhecimento, a motivação na educação musical também é fortemente influenciada por fatores internos e externos dos indivíduos. Portanto, percebe-se a importância de se aprofundar nessa temática pelo fato dela fornecer possíveis contribuições para os processos de ensino e aprendizagem em música. Como as pesquisas internacionais foram iniciadas há aproximadamente três décadas, os estudos sobre motivação na educação musical são hodiernos, porém, efetivos. Embora o desenvolvimento do campo de estudo da motivação musical tenha se iniciado na segunda metade dos anos 90, alguns pesquisadores revelaram que ainda não existe um grande número de trabalhos na área da Educação Musical no âmbito da Motivação (AUSTIN; RENWICK;

MCPHERSON, 2006; HENTSCHKE et al., 2009; 2010). Porém, há um crescente interesse pela temática da motivação nos últimos anos, o que resultou na realização de pesquisas nacionais e internacionais, que abordam a aprendizagem musical e a motivação (CERESER; HENTSCHKE, 2009).

No cenário internacional, posso citar algumas pesquisas no âmbito da motivação e educação musical (cf. AUSTIN, 1991; YOON, 1997; AUSTIN; VIPOEL, 1998; MCPHERSON; THOMPSON, 1998; O’NEILL, 1999a; MCPHERSON, MCCORMICK, 2000; MCPHERSON, 2009; AUSTIN; RENWICK; MCPHERSON, 2006). Estudos como esses buscam compreender quais motivos levam os alunos a se envolver, como também a persistir no estudo de música, além de discutir as influências em sua aprendizagem musical que estão diretamente ligadas aos fatores do contexto social dos envolvidos.

No Brasil, também é crescente o interesse em pesquisar a temática. Encontrei alguns pesquisadores que têm realizado estudos sobre educação musical e motivação nos últimos anos (cf. KOHLRAUSCH, 2015; ARAÚJO, 2015; GRINGS; 2015; FIGUEIREDO, 2014; RIBEIRO, 2013; CERNEV, 2013; CERESER; HENTSCHKE, 2013, CERNEV, 2011). Destaco ainda, a relevância de pesquisas que tanto estudam sobre a motivação do professor para ensinar (GUIMARÃES, 2003; CERNEV, 2011; CERESER, 2011), como também a motivação do aluno para aprender (BZUNECK, 2001; PINTRICH, 2003; GUIMARÃES; BZUNECK, 2007).

Tendo a motivação como um processo que se aplica à atividade humana por meios de fatores extrínsecos e intrínsecos, os estudos sobre processos motivacionais buscam compreender os princípios que se associam às práticas de ensino, assim como também à aprendizagem. Para as pesquisas sobre música, o estudo da motivação tem sido significativo, pois, para O’Neill & McPherson (2002), a motivação permite a compreensão de fatores que podem entender variações dos indivíduos sobre persistência ou não no estudo em atividades musicais, ou até mesmo tentar explicar o desenvolvimento de vontades em seguir ou não com esse estudo, explicitando o contexto de aprendizagem e repensando estratégias que podem ser utilizadas na tentativa de intervir nesse processo e nas práticas docentes.

No Brasil, as discussões sobre a temática ampliaram-se na segunda metade deste século. Destaca-se, nesse contexto, o Grupo de Pesquisa Formação e Atuação

de Profissionais em Música (FAPROM)3, o qual funciona na cidade de Porto Alegre,

no Rio Grande do Sul – RS e têm produzido pesquisas, principalmente, no campo da motivação para ensinar e aprender música. Fundado em 2006, o FAPROM é um dos grupos de pesquisa em educação musical do Programa de Pós-Graduação em Música da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Atualmente, possui muitos projetos concluídos e/ou em andamento com a temática da motivação no ensino e aprendizagem musical.

Considerando algumas pesquisas que vêm sendo desenvolvidas no Brasil, que têm como linha de estudo a motivação para aprender e ensinar música em diversos contextos, seja em ambientes presenciais e/ou virtuais, cito alguns trabalhos que foram desenvolvidos nessa temática a fim de exemplificar esses diferentes contextos de estudos e atuação com a temática.

Cernev (2011) investigou a motivação dos professores de música que atuam na escola de educação básica na região Sul do Brasil. A pesquisa buscou construir e testar um instrumento para medir a motivação dos professores de música no ambiente educacional, verificar o tipo de motivação (autônoma ou controlada) percebido pelos professores, analisar estatisticamente a motivação do professor em relação às variáveis do contexto e comparar as motivações dos professores em relação ao seu tempo de docência. Com uma abordagem quantitativa, a pesquisa utilizou o método

survey interseccional, em que foi elaborado um instrumento próprio de medida, a

Escala de Motivação do Professor de Música (EMPM).

O instrumento foi aplicado com 162 professores de música da escola básica, públicas e privadas, via internet, e todos questionários foram analisados por meio da estatística descritiva e inferencial com os testes de: coeficiente alpha de Cronbach, análise fatorial, coeficiente de correlação de Pearson, teste t, teste qui-quadrado e teste exato de Fischer. Os dados revelaram que: os professores apresentam percepção para a motivação autônoma para o ensino; em relação às variáveis do contexto, o tipo de instituição não incide sobre a percepção da motivação dos professores; e, ao longo dos anos, os professores de música apresentam um aumento da motivação. A pesquisa contribuiu para uma melhor compreensão e desenvolvimento de estratégias motivacionais que promovem um ambiente

3 As informações citadas sobre o grupo FAPROM tiveram por fonte principal a página eletrônica

educacional propício para estimular a motivação dos professores de música (CERNEV, 2011).

Cernev (2013), em uma outra investigação, discute a pesquisa-ação também no contexto da educação básica, dessa vez, investigando a motivação dos alunos na aprendizagem musical colaborativa, mediada pelo ciberespaço. Em suas discussões sobre a pesquisa-ação, destaca as potencialidades desse método para a aprendizagem musical colaborativa usando de tecnologias digitais em sala de aula e afirma que as aulas foram elaboradas por ela, pela professora de artes e pelos alunos, visando proporcionar a aprendizagem colaborativa nas aulas de música. A pesquisadora afirma que, independentemente de utilizar ferramentas tecnológicas, é essencial que um professor mediador promova a motivação dos alunos, a fim de proporcionar aos participantes um ambiente escolar colaborativo, pois os resultados virão em consequência das decisões tomadas pelos envolvidos durante a prática musical educativa. Assim, conclui afirmando que o envolvimento em atividades musicais, que visam colaboração, pode proporcionar resultados motivacionais, além de promover trocas de informações por meio de debates em sala de aula. O objetivo de seu estudo enseja desenvolver um ensino colaborativo e motivador para que os alunos engajem intrinsecamente nas aulas, visando entender, junto aos alunos, como se dão as estratégias de aprendizagem adotadas para o uso das tecnologias digitais e a motivação dos mesmos (CERNEV, 2013).

Ribeiro (2013) investigou os processos motivacionais de estudantes de licenciatura em música da UERN – Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, em interações online nas aulas de violão a distância. Ao realizar uma pesquisa-ação, o pesquisador também utilizou entrevistas semiestruturadas, observação participante e filmagens de videoconferências como ferramentas de coleta de dados, além de considerar os registros dos diálogos em fórum virtuais. O estudo teve por objetivo investigar os processos motivacionais dos alunos, analisar as percepções de satisfação das necessidades psicológicas básicas (autonomia, competência e pertencimento), verificar as manifestações dessas necessidades em interações síncronas e assíncronas, destacar ferramentas de interações online que auxiliem no processo educacional a distância, discutir as influências socioambientais sobre a motivação dos alunos participantes e identificar a qualidade motivacional dos estudantes para aprender violão em interações online.

O pesquisador conclui que os resultados de seu estudo apontaram que a principal motivação dos alunos não era a intrínseca e que a motivação foi considerada complexa e multifacetada, sendo sensível a determinadas situações. Ainda afirma que, em seus resultados, as interações síncronas e assíncronas, propostas no estudo, supriram as necessidades psicológicas básicas dos estudantes e possibilitaram uma alternativa viável e efetiva para aprendizagem e a formação dos alunos envolvidos (RIBEIRO, 2013).

Figueiredo (2015) pesquisou as escolas de música e o estilo motivacional de professores de instrumento. Em seu estudo, demonstrou os procedimentos adotados para conferir evidência de validade baseada no conteúdo de uma escala adaptada para o estudo do estilo motivacional do professor. Para a construção dessa ferramenta foram aplicados questionários online com 18 professores, que dão aula individual de instrumento aos alunos de uma escola livre e uma escola técnica, com diferentes tipos de formação, variando desde autodidatas a pós-graduados. Juntamente ao questionário online, foi enviado um email com explicações sobre o mesmo. Os professores responderam a escala em uma plataforma na internet, e, assim, foi possível testar a qualidade dessa plataforma online, aprimorar os questionários sobre dados pessoais, averiguar os processos de envio e respostas, além de testar a compreensão das vinhetas e escalas propostas no estudo. Como resultados das propriedades psicométricas da escala, o pesquisador constatou que não houve adequação ao modelo teórico, no entanto, foi possível sugerir uma nova interpretação dos constructos, que pudessem considerar a promoção da autonomia e o controle como fatores ortogonais. A pesquisa constatou que homens possuem maior tendência para o controle e que as questões trabalhistas também possuem relação com o estilo motivacional do professor de instrumento, pois os professores de escola pública tendem a ser mais controladores dos que os de escola privada (FIGUEIREDO, 2015).

Araújo (2015) realizou uma pesquisa de natureza descritiva, exploratória e correlacional, na qual estudou a qualidade motivacional dos licenciandos em música em quatro universidades públicas do Nordeste do Brasil. Para realizar a coleta de dados, aplicou um questionário de autorrelato, com base na Escala de Motivação Acadêmica (EMA), traduzida e validada por Guimarães e Bzuneck (2008), com 380 licenciandos em música. Essa escala permite verificar os tipos de motivação encontrados no continuum de autodeterminação. O pesquisador afirmou que o

instrumento apresentou evidências de validade satisfatórias, correlações fracas a moderadas e boa consistência interna.

Os dados foram analisados por meio da estatística descritiva e inferencial, por intermédio de alguns procedimentos: frequências, médias, desvio padrão, análise fatorial, análise de consistência interna por meio do alpha de Cronbach, análise de correlação de Pearson e análise de variância. Os dados da análise apontaram as maiores médias na avaliação das formas de motivação mais autodeterminadas e as médias mais baixas na avaliação da desmotivação e das formas menos autônomas de motivação. Assim, o estudo revelou que grande parte dos alunos tem forte intenção em terminar o curso, porém, os alunos que já passaram pelo estágio em que estão no curso porque não tiveram outra opção, os que têm a intenção de atuar em outra área, apresentaram menor motivação autônoma e maior desmotivação.

O pesquisador afirma que o licenciando em música, representado neste estudo, apresenta boa qualidade motivacional, no entanto, há uma tendência em diminuir a motivação autônoma com o passar do tempo, devido às pressões inerentes ao curso superior. A pesquisa promove uma reflexão sobre os cursos de licenciatura em música, defendendo que estes devem criar estratégias para manter o comportamento autodeterminado nos alunos e fortalecer a motivação autônoma dos mesmos, buscando fazer com que eles percebessem a importância, o valor e o significado no curso no qual estão inseridos (ARAÚJO, 2015).

Kohlrausch (2015) pesquisou a motivação de coristas para participar da atividade coral de extensão universitária na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Como metodologia, a pesquisa teve uma abordagem qualitativa e a coleta de dados foi feita por meio de entrevistas semiestruturadas, realizadas com 4 coristas ativos e 5 ex-coristas de um dos grupos corais de extensão universitária. Os dados da pesquisa, analisados sob a perspectiva da Teoria da Autodeterminação, revelaram que os coristas nem sempre buscam a atividade por motivos intrínsecos, e que o contexto coral, algumas vezes, pode frustrar alguma das necessidades psicológicas básicas, o que pode influenciar a motivação para continuar na atividade. O estudo impulsiona uma reflexão sobre questões motivacionais entre regentes e educadores musicais que trabalham com coro em qualquer contexto (KOHLRAUSCH, 2015).

Grings (2015), em sua tese, pesquisou os valores pessoais e as aspirações futuras, entendidas como metas de atuação profissional de licenciados em música no

Brasil, para atuar na área da Educação Musical. A pesquisa teve uma abordagem quantitativa com a utilização do método survey, baseado na internet. O design metodológico da pesquisa foi testado com um estudo piloto, para validação do instrumento de coleta de dados, desenvolvido para essa investigação. Segundo a pesquisadora, a coleta se deu por meio de uma amostra com 339 licenciados em música e os dados foram submetidos a análises estatísticas, descritivas e inferenciais, as quais mostraram que os constructos avaliados possuem um alto valor de confiabilidade, sendo Alpha de Cronbach total igual a 0,88. Os resultados do estudo apontaram que os valores atuais para atuar na área de educação musical são intrínsecos e representados pelo constructo comunidade, e que as aspirações futuras são representadas por cinco constructos, intrínsecos e extrínsecos, que são: comunidade, afiliação, autoaceitação, sucesso financeiro e popularidade (GRINGS, 2015).

Guimarães e Boruchovitch (2004) afirmam que um aluno motivado demonstra envolvimento no processo de aprendizagem, e Zenorini e Santos (2010) falam que um aluno desmotivado passa a se desinteressar pelas tarefas propostas, o que pode proporcionar uma queda de qualidade em sua aprendizagem. Portanto, em qualquer ambiente educacional que envolva aprendizagem musical, compreender o processo motivacional é de grande importância, principalmente quando se trata de diferentes contextos, pois, conhecer os fatores que podem motivar os alunos, poderá proporcionar altos níveis de aprendizagem. Os resultados obtidos nas pesquisas apresentadas nesse estudo, que tratam sobre motivação na Educação Musical em diversos contextos, colaboram para o aprimoramento pedagógico dos professores de música, além de proporcionar reflexões que possam melhorar a motivação dos alunos para aprender música.

É importante ressaltar que as pesquisas, que tratam sobre motivação e música, mostram que participar de atividades por interesse e por sentir-se parte de um grupo, são fatores comuns entre os participantes de atividades musicais. Mesmo sendo realizadas em diferentes contextos, foi possível perceber a importância de investigar a relação entre as atividades e os aspectos internos de alunos, professores e participantes de grupos musicais, assim como também investigar as características do ambiente que possam motivar os mesmos, pois o contexto em que estão inseridos possui forte influência sobre a motivação para o ensinar, o aprender e o fazer musical.