A Educação a Distância no Brasil é atualmente regida pelo Decreto no. 5.622, de 19 de dezembro de 2005, que regulamenta o artigo 80 da Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), que em seu primeiro parágrafo determina a forma de organização e a quem compete credenciar a EaD: “§ 1º A educação a distância, organizada com abertura e regime especiais, será oferecida por instituições especificamente credenciadas pela União” (BRASIL, 1996).
No primeiro parágrafo do artigo 1o. do Decreto no. 5.622 essa forma de organização começa a ser concebida: “§ 1o
. A educação a distância organiza-se segundo metodologia, gestão e avaliação peculiares, para as quais deverá estar prevista a obrigatoriedade de momentos presenciais […]”. E complementando as exigências de credenciamento, é citado em parágrafo único do artigo 7 que: “Os atos do Poder Público, citados nos incisos I e II, deverão ser pautados pelos Referenciais de Qualidade para a Educação a Distância, definidos pelo Ministério da Educação, em colaboração com os sistemas de ensino” (BRASIL, 2005).
Além dessas regulamentações principais pode-se citar ainda a Portaria nº 301/1998, que estabelece os procedimentos para o credenciamento de instituições e a autorização de cursos a distância no nível de graduação; a Portaria nº 2.253/2001, que autoriza a oferta de disciplinas não presenciais em cursos de graduação regulares; e a Lei nº 11.273/2006, que possibilita o pagamento de bolsas para professores e tutores participantes de projetos experimentais do Ministério da Educação para a formação superior inicial e continuada, em particular de programas de Educação a Distância. Para Mill, Brito, Silva e Almeida (2010, p. 2):
O documento do Ministério da Educação Referenciais de qualidade para educação a distância destaca a importância do processo de gestão para o desenvolvimento de um bom sistema de educação a distância (Brasil, 2007). Entretanto, são escassos os estudos e os textos sobre gestão da educação a distância (EaD). Consideramos a gestão educacional um campo de extrema importância para se compreender o conjunto do processo de ensino-aprendizagem na educação básica ou superior e, também, na educação presencial ou a distância (MILL, BRITO, SILVA e ALMEIDA, 2010, p. 2).
Os Referenciais de Qualidade para a Educação a Distância tiveram uma primeira proposta em 2003, sendo a atual, de 2007, resultante de uma consulta pública submetida em agosto desse mesmo ano. Os Referencias de Qualidade complementam as legislações
pertinentes a EaD e também definem estruturas sistêmicas de gestão acadêmica, resumida no Quadro 6.
Tópicos da abordagem sistêmica da EaD
Subtópicos Concepção de Educação e Currículo
no processo de ensino e aprendizagem
O projeto político pedagógico deve apresentar claramente sua opção epistemológica de educação, de currículo, de ensino, de aprendizagem, de perfil do estudante que deseja formar.
Sistemas de Comunicação O princípio da interação e da interatividade é fundamental para o processo de comunicação e devem ser garantidos no uso de qualquer meio tecnológico a ser disponibilizado.
Material didático A produção de material impresso, vídeos, programas televisivos e radiofônicos, videoconferências, CD-Rom, páginas WEB, objetos de aprendizagem e outros, para uso a distância, atende a diferentes lógicas de concepção, produção, linguagem, estudo e controle de tempo.
Avaliação Avaliação da aprendizagem
Avaliação institucional Equipe multidisciplinar Docentes
Tutores (presencial e a distância)
Pessoal técnico-administrativo (coordenador do polo de apoio presencial)
Infraestrutura de apoio Coordenação acadêmico-operacional da IES
Polo de apoio presencial (biblioteca, laboratório de informática, secretaria, sala de tutoria e laboratório de ensino)
Gestão Acadêmico-administrativa Gestão da tutoria Sistema logística Sistema de avaliação Sistema de informação Cadastro de equipamentos Sistema de atos acadêmicos Registros de resultados Sistema docente Sustentabilidade financeira Investimento
Custeio Fonte: adaptado de MEC/Seed (2007, p. 8-31).
Quadro 6 – Referencias de qualidade para a educação a distância
Alonso (2010) destaca duas formas de interpretar o fomento da EaD no Brasil: Na análise, dois aspectos são enfatizados: o relacionado à lógica de expansão da educação superior que incide também sobre a modalidade a distância e, intrínseco a essa modalidade de ensino, a lógica estabelecida em sua organização, fundamentada independentemente das naturezas dos estabelecimentos de ensino superior, nos elementos a serem dispostos na concretização de seus sistemas. Por conta dessas lógicas complementares entre si, a oferta da educação a distância (EaD), tanto na esfera pública quanto na esfera privada, constitui modelo bastante similar nas instituições com ela implicadas, equalizando sua oferta e condicionando a qualidade dos cursos, denotando seu “lugar” no ensino superior (ALONSO, 2010, p. 1319). O sentido da administração no processo acadêmico não estaria tão evidenciado se não iniciasse pelo planejamento, uma constante na Educação, ou como explanam Todorov, Moreira e Martone (2009):
Uma das marcas fundamentais do processo educacional é a necessidade de um planejamento constante. Planejar práticas educacionais mais eficientes não significa somente escolher um material adequado para o curso que será ministrado, conhecer minimamente as características das pessoas que participarão do processo de aprendizagem, pesquisar e utilizar métodos efetivos de ensino que de fato propiciem condições para o aprendizado etc. Planejar significa também ter total clareza dos objetivos que se quer alcançar, ou seja, saber especificar claramente os comportamentos que gostaríamos de observar em nossos alunos ao final do processo, assim como fornecer as condições mais apropriadas para que esses comportamentos sejam de fato adquiridos (TODOROV; MOREIRA; MARTONE, 2009, p. 289).
Florenzano (2010), ao pesquisar sobre a influência do processo de avaliação de cursos superiores de graduação proposta pelo MEC/Inep, para um curso de Administração, concluiu a importância dessa avaliação para a gestão acadêmica do curso, inclusive impactando na própria gestão da instituição de ensino, principalmente na fase do planejamento educacional. Recentemente, inclusive, houve uma implementação dessa avaliação com a elaboração do primeiro instrumento que compatibiliza a autorização, reconhecimento e renovação de reconhecimento de cursos de tecnólogo, licenciatura e bacharelado, para as modalidades presencial e a distância. O instrumento está composto por três dimensões: organização didático-pedagógica, corpo docente e tutorial e infraestrutura, cada qual contendo 22, 20 e 21 indicadores, respectivamente. Da forma como é aplicado, e ainda levando em consideração as adaptações pelas quais as IES necessitam passar para serem avaliadas, o Instrumento de Avaliação de Cursos de Graduação Presencial e a Distância induz à gestão acadêmica dos cursos de graduação (MEC/INEP/DAES/SINAES, 2012). As dimensões e seus respectivos indicadores estão expostos no Quadro 7.
Dimensões Indicadores
Organização didático- pedagógico
Contexto educacional
Políticas institucionais no âmbito do curso Objetivos do curso
Perfil profissional do egresso Estrutura curricular
Conteúdos curriculares Metodologia
Estágio curricular supervisionado Atividades complementares Trabalho de conclusão de curso Apoio ao discente
Ações decorrentes dos processos de avaliação do curso Atividades de tutoria
Material didático institucional
Mecanismos de interação entre docentes, tutores e estudantes Número de vagas
Integração com as redes públicas de ensino
Integração com o sistema local e regional de saúde e o SUS Ensino na área de saúde
Atividades práticas de ensino
Corpo docente e tutorial Atuação do Núcleo Docente Estruturante – NDE Atuação do coordenador
Experiência do coordenador do curso em cursos a distância
Experiência profissional, de magistério superior e de gestão acadêmica do coordenador
Regime de trabalho do coordenador do curso Carga horaria de coordenação de curso Titulação do corpo docente do curso
Titulação do corpo docente do curso – percentual de doutores Regime de trabalho do corpo docente do curso
Experiência profissional do corpo docente
Experiência no exercício da docência na educação básica Experiência de magistério superior do corpo docente
Relação entre o número de docentes e o número de estudantes Funcionamento do colegiado de curso ou equivalente
Produção científica, cultural, artística ou tecnológica Titulação e formação do corpo de tutores do curso Experiência do corpo de tutores em educação a distância
Relação docentes e tutores – presenciais e a distância – por estudante Responsabilidade docente pela supervisão da assistência médica Núcleo de apoio pedagógico e experiência docente
Infraestrutura Gabinetes de trabalho para professores Tempo Integral TI
Espaço de trabalho para coordenação do curso e serviços acadêmicos Sala de professores
Salas de aula
Acesso dos alunos a equipamentos de informática Bibliografia básica
Bibliografia complementar Periódicos especializados
Laboratórios didáticos especializados: quantidade Laboratórios didáticos especializados: qualidade Laboratórios didáticos especializados: serviços
Sistema de controle de produção e distribuição de material didático (logística) Núcleo de Práticas Jurídicas: atividades básicas
Núcleo de Práticas Jurídicas: atividades de arbitragem, negociação e mediação Unidades hospitalares de ensino e complexo assistencial
Sistema de referencia e contrarreferencia Biotérios
Laboratórios de ensino Laboratórios de habilidades Protocolos de experimentos Comitê de ética em pesquisa Fonte: MEC/Inep/Daes/Sinaes, 2012, p. 3-25
Quadro 7 – Dimensões e indicadores do instrumento de avaliação de cursos de graduação presencial e a distância
Lordsleem, Rosendo, Costa e Silva (2008, p. 2), ao analisarem o curso de Administração a distância da Universidade Federal de Alagoas, destacam que “Deste modo, para trabalhar e desenvolver a EaD, é necessária uma gestão flexível e diversificada em decorrência do crescimento da demanda de educação e formação”. Para estes autores:
O gestor responsável por cada instituição universitária deve conhecer os conceitos de ensino e a missão da universidade; ter o entendimento dos diversos modelos de instituições, bem como conhecimento das teorias de aprendizagem e dos princípios de organização do ensino e da pesquisa; além de experiência em atividades docentes (LORDSLEEM, ROSENDO, COSTA E SILVA, 2008, p. 2).
Para Sathler (2003), “A tarefa do gestor educacional e universitário é muitas vezes solitária, sendo que encarna para alguns a ‘maldade’ humana e o retrato da mercantilização de algo originalmente puro, a Educação”.
Para Rumble (2003), a gestão nos sistemas de Educação a Distância tem optado por um modelo autônomo de regulamentação própria e de característica empresarial, advindo da experiência de grandes universidades a distância como a Open University inglesa e a Universidad Nacional de Educación a Distancia espanhola. Para o autor, a gestão distingue-se pelos seguintes elementos essenciais: Planejamento, organização e controle de Novas Tecnologias da Informação e Comunicação; Concepção e organização de processos administrativos; Planejamento e execução de sistemas de avaliação; Controle sobre os problemas nos sistemas de apoio ao estudante; e Organização de recursos humanos, financeiros, contábeis, transporte, etc. Dessa forma, o sistema de gestão poderá ser caracterizado como Autônomo ou Especializado (instituições especializadas em educação a distância), Misto ou Integrado (instituições de educação presencial que ministram educação a distância na forma de núcleos de EaD) e em Rede ou Consórcio (parcerias entre IES que ministram EaD e empresas que oferecem cursos s distância).
Outra classificação para a Educação a distância é a proposta por Aretio (2002), onde cada uma das cinco modalidades irá requerer formas distintas de gestão pedagógica: Educação on-line ou virtual (com suporte das NTIC, envolvendo atividades síncronas e assíncronas, bem como momentos presenciais e a distância); Educação a Distância Semipresencial (distintos momentos presenciais e a distância, bem caracterizados por encontros presenciais e atividades em ambientes virtuais de aprendizagem); Educação a Distância Total (totalmente a distância sem encontros presenciais); E-learning (realizado totalmente via Internet); e Blended learning (sistema bimodal, semipresencial, mesclando atividades presencias e a distância).
É sempre bom salientar como perceptível e verdadeira a constatação de Kenski (2005, p. 72):
Na realidade, o processo educacional é predominantemente uma relação semipresencial. Impossível pensar que todas as atividades educativas previstas ocorram exclusivamente no espaço da escola, na sala de aula, diante de um
professor. Os exercícios e atividades realizadas individualmente ou em grupos como tarefas domiciliares já expõem o caráter semipresencial das atividades de aprendizagem. Há que se considerar, também, que a formação educacional realizada em projetos a distância não dispensa integralmente atividades presenciais, realizadas eventualmente, para atendimentos, realização de aulas práticas ou avaliações (KENSKI, 2005, p. 72).
De acordo com Hora (1994), não existem teorias de gestão acadêmica e por conta disso são utilizadas teorias de gestão dos processos produtivos fabris capitalistas. Decorre disso que ambas as organizações são semelhantes mesmo tendo objetivos distintos, e de forma idêntica as organizações educacionais necessitam praticar a eficiência e a eficácia. Assim, foram adequadamente adaptados os preceitos da Administração por Objetivos de Peter Drucker, expoente da Teoria Neoclássica de Administração, à Gestão Acadêmica Educacional, na forma de planejar disciplinas/aulas, elaborar currículos, montar e administrar cursos por departamentos e coordenações, tão bem caracterizada pela forma de Gestão da Educação Superior presente na Reforma da Educação de 1969.
García Aretio (2002) defende que a educação a distância se fundamenta em "um diálogo didático mediado entre o professor (instituição) e o estudante que, localizado em espaço diferente daquele, aprende de forma independente, cooperativa, colaborativa, entre pares".