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Como já foi analisado, os suplementos literários se inserem na imprensa brasileira em um período de transição no qual convergem três fatores: uma mudança na sociedade brasileira, marcada pela industrialização e consolidação da economia capitalista, o que teve efeitos sobre o campo das artes, efetivando no país a indústria cultural. Outra mudança, agora no jornalismo, que incorporou os padrões norte-americanos de busca pela objetividade e profissionalização, tornando o debate literário incompatível com os jornais. Em terceiro lugar, uma mudança no campo da crítica, capitaneada por Afrânio Coutinho, na qual ela abandonava seu caráter impressionista e os rodapés dos jornais, migrando para o campo acadêmico, marcado pela especialização.

Assim, o fim dos suplementos ocorre no momento em que esse processo de mudanças se encerra, principalmente as mudanças no jornalismo. Ou seja, o Brasil se tornou um país urbano, de economia industrial, cuja sociedade consome bens da cultura de massa. Para atender a essa sociedade, o jornalismo adotou o caráter predominantemente informativo, focado nas notícias do dia-a-dia. E, no que diz respeito à cobertura cultural, o foco se volta a noticiar e vender os produtos culturais, ao invés de discutir sobre eles e sobre o campo artístico em que estão inseridos. Tendo, então, a crítica literária mudado seus padrões críticos, adotando novas metodologias, tornando-se uma disciplina acadêmica, com fundamentos científicos e incompatível com os jornais, sai da imprensa diária e se confina na academia.

Acerca das mudanças sofridas pela crítica e pelo jornalismo que propiciaram a saída da crítica do espaço dos jornais, Süssekind (2003) sustenta que, se nos anos 1940 e 1950 há um movimento interno da crítica de travar um conflito entre scholars e impressionistas com o objetivo de transferir a crítica para a cátedra universitária, nos anos 1960 e 1970 esse movimento vai acontecer dentro dos próprios jornais. É um movimento que Süssekind chama de "vingança do rodapé".

Tendo o jornalismo passado por uma série de mudanças e tendo a crítica, agora acadêmica, se tornado incompatível com o espaço noticioso, os próprios jornais e jornalistas passam a querer que a crítica se concentrasse na universidade. Isso devido ao tom demasiadamente acadêmico que a crítica tomou, incompatível com a linguagem jornalística.

Exemplar, neste caso, é a lenta domesticação (no sentido de fazer das secções de livros e dos suplementos simples páginas de "classificados" dos "últimos lançamentos" das grandes editoras locais) ou a supressão dos principais suplementos de jornal, veículos mistos, entre o colunismo e a revista literária, e que, em alguns momentos, cumpriram importante papel na difusão cultural no país. (...) Houve, portanto, um período de estreitamento de laços entre a crítica universitária e os suplementos, entre literatura de invenção e grande imprensa. Mas, no início dos anos 1970, assistiu-se a uma virada. Se nos anos 1940-1950 eram os críticos-professores que olhavam com desconfiança os rodapés, agora são os jornalistas que atribuem à produção acadêmica características de um oponente. (SÜSSEKIND, 2003, p. 30-31)

Isso se percebe no fim do SL de O Estado de S. Paulo, em 1974. Lorenzotti (2007) analisa que o principal fator que o levou ao fim foram as mudanças no jornalismo e no campo da cultura, já que naquele período o foco dos jornais volta-se para a cultura de massa, em detrimento da discussão artística. Também aponta o fato de, em 1966, Décio de Almeida Prado ter sido substituído por Nilo Scalzo na direção do SL. Nessa nova gestão, inicia-se um período em que o SL recebe influências da redação do jornal, cujo desejo era produzir algo de caráter mais jornalístico. Como afirma Lorenzotti, "O Suplemento Literário existiu na época histórica certa, no local certo e sob as diretrizes de criadores certos." (2007, p. 73). Outra questão, apontada por Santiago (1993), é o fato de os suplementos terem, progressivamente, se tornado especializados demais para os jornais, que procuravam ter uma cobertura cada vez mais ampla e generalista, além de terem se tornado cada vez mais "à parte" dos jornais.

Mas, por outro lado, o suplemento é um espaço especializado, e cada vez mais especializado ele se torna por ser "suplemento". Como tal, pode ser descartado sem prejuízo do todo. Menor é o número dos seus leitores e maior a variedade de suplementos (infantil, turístico, econômico, etc.). Portanto, antes de ser o lugar privilegiado da contemplação do espaço total circunscrito pela notícia, o suplemento literário passa a ser um divisor de águas dentro do jornal, do ponto de vista profissional. Existem os jornalistas, existem os colaboradores. Aqueles recebem salário mensal, estes são diletantes. Existem os leitores do jornal, existem os leitores do suplemento. Aqueles são multidão, estes são alguns amadores. (SANTIAGO, 1993, p. 15)

Este fator se percebe no fim do SDJB. Durante sua última fase, de caráter decadentista, como classifica Nunes (1989). o suplemento se encheu demasiadamente das ideias neoconcretas, o que tirou dele a capacidade de discutir outras formas artísticas, como a literatura, principal foco de todos os suplementos. Assim, em 1961, ele passou a ser publicado em formato tablóide, mudando seu caráter, como aconteceu com os outros suplementos.

Sendo assim, os jornais deixaram de ser o espaço da discussão literária, da crítica e, por consequência, o espaço de reflexão sobre as artes em geral. Por isso, os novos cadernos culturais voltam-se para a indústria cultural, como guias para quem deseja consumir os produtos culturais, além de assumirem a missão de fornecer entretenimento aos leitores. A crítica, então, se confina na cátedra universitária e nas revistas especializadas, feitas para um público restrito. O que se encontra nos jornais é o comentário de livros, breves resenhas com a finalidade de informar o consumidor sobre os lançamentos do mercado editorial, sem refletir sobre o fenômeno literário, função primeira da crítica literária.