• Sonuç bulunamadı

Dentro do movimento geral de migração da crítica para o campo acadêmico, a crítica norte-americana também priorizou a busca por teorias que a tornasse válida. Porém, o que se observa nos Estado Unidos é a tendência de uma supervalorização das teorias, em detrimento da análise forcada na literatura. É o que sustenta Kermode (1993), em sua crítica feita a essa perspectiva tomada pela crítica especializada nos Estados Unidos.

De acordo com ele, são três os pontos principais que explicam os rumos que essa crítica tomava: uma excessiva valorização da teoria, em detrimento do foco na literatura; a negação aos cânones literários, posição a qual Kermode (1993) é contrário; a perda da capacidade de dialogar com o público não-especializado.

Ao desenvolver sua crítica aos rumos que a crítica norte-americana tomava, Kermode (1993) apresenta os posicionamentos de outros teóricos, mostrando como esses fatores estavam em evidência nos estudos literários. São eles: Jonathan Culler, estruturalista que faz crítica aos cânones literários; René Wellek, cujo pensamento de cunho marxista encara os cânones sob uma visão política; Paul de Man e Jacques Derrida, desconstrutivistas, que explicam como a perspectiva estruturalista se tornou insuficiente e, por isso, surgiu o chamado pós-estruturalismo.

Kermode (1993) analisa que a crescente busca por modelos teóricos que sustentassem a crítica literária fez com que os críticos voltassem sua atenção para os estudos acerca da própria crítica, do fazer crítico, em detrimento do estudo das obras literárias em si. Como o próprio coloca, "a utilidade primária da literatura, seja lá como for definida, é servir às necessidades da teoria" (1993, p. 14).

Porém, sua visão é de que a crítica não deve se voltar apenas à reflexão sobre ela mesma. Devem, sim, pensar as formas e os métodos de sua interpretação, mas não podem negligenciar a análise das obras literárias. Kermode (1993) chega a interpretar essa situação como uma hostilidade entre a teoria literária em desenvolvimento e a literatura. Essa foi uma

herança do New Criticism: o caráter científico dado à crítica conquistou as preferências dos pesquisadores, que cada vez menos optavam por análises subjetivas e filosóficas.

O que ocorria na época é que, com a concentração da crítica nas universidades e com seu foco voltado à formulação de teorias e metodologias, suas produções tornam-se cada vez mais herméticas, voltadas aos próprios críticos-acadêmicos, o que tirava dela a capacidade de se comunicar com um público mais amplo:

É claro que já vai longe o tempo em que o leitor médio podia ter a expectativa de seguir o discurso dos professores teóricos, e atravessamos uma situação bem marcada em que os teóricos literários ficariam realmente ofendidos se fosse sequer sugerido que eles têm qualquer relação óbvia com os leitores. Pretendem ser especialistas, com uma obrigação não maior para com os leitores comuns do que a dos físicos teóricos. E assim cada vez mais aparecem livros classificados como sendo de crítica literária, que poucas pessoas interessadas em literatura, mesmo os profissionais, podem ler. (KERMODE, 1993, p. 20)

Outra consequência desse movimento de valorização das teorias é a rejeição dessa nova crítica ao julgamento de valor literário, o que tem efeito direto na aceitação dos cânones literários por parte dos críticos. Kermode (1993) afirma que o fato de a crítica voltar-se para a análise da formação dos sentidos - estruturalista - é inevitável, dado o contexto intelectual da época. Porém, ela não deve rejeitar sua função de ressaltar os valores literários das obras analisadas.

Um dos teóricos explorados por Kermode (1993) que enfatiza essa rejeição aos cânones literários é Jonathan Culler. Segundo ele, a nova crítica literária deve contestar a autoridade dada à antiga crítica e suas análises que buscavam a normatização estética. Culler era um estruturalista, o que explica sua preferência à reflexão sobre os modos de interpretação da crítica e da construção dos sentidos.

Sendo assim, considerava os cânones literários imposições da antiga crítica, como verdades absolutas pré-estabelecidas, e como reproduções de culturas já ultrapassadas. Também os considerava formas de imposição cultural, já que incluem autores homens e de etnia caucasiana. Para ele, a nova crítica deveria se empenhar em subvertê-los, incluindo a literatura produzida pelas minorias.

Kermode (1993) discorda de Culler a respeito dessa contrariedade aos cânones, afirmando que não são herméticos, mas sim estão abertos a novas perspectivas; não forram formados por uma categoria acadêmica, tendo levado em conta a popularidade das obras; além de serem responsáveis pela criação de tradições literárias. Em suma, o que se destaca da posição de Culler é a tentativa de subverter a autoridade literária imposta pela velha crítica.

Outro autor que tem as ideias exploradas por Kermode (1993) e que defende a nova crítica como transgressora dos valores da antiga é René Wellek. Este, evidencia em seus posicionamentos sua influência marxista, de forma a tomar a crítica como objeto de discussão de fins políticos. Para Wellek, a literatura na forma como era concebida pela velha crítica e, mais especificamente, o cânon literário, era uma criação das classes dominantes com o propósito de afirmar as estruturas sociais vigentes:

Sustenta-se que o cânon literário é uma ficção inventada para apoiar a ideologia do moderno estado capitalista, e que a literatura não pode ser tratada como um "distinto a delimitado objeto de conhecimento", seguindo- se disso que estudar literatura é estudar política, e que qualquer negação dessa necessidade é de má-fé. (KERMODE, 1993, p. 37)

Acerca das colocações de Wellek, Kermode (1993) chega a se questionar o que seria então a literatura, pois esta sempre esteve ligada aos conceitos de valor literário. Se estes são negados, não haveria mais literatura. Sua conclusão é de que o motivo pelo qual estudar-se-ia literatura são as teorias, o que justifica sua valorização excessiva.

De acordo com o autor, essa contradição na qual a tarefa de se conceituar a literatura se encontrava motivou alguns teóricos a pensarem novas perspectivas, que ficaram conhecidas como pós-estruturalismo. Kermode (1993) destaca Paul de Man e Jacques Derrida, ambos desconstrutivistas. O que se percebe é que tanto De Man quanto Derrida argumentam na tentativa de definir o que é literatura, problema apontado anteriormente, consequência do estruturalismo.

De Man analisa que o grande problema da crítica é exatamente a indefinição do que é literatura. Considera que qualquer tentativa de defini-la envolve escolhas filosóficas e ideológicas. Ainda assim, pensa ser a função da crítica ocupar-se das modalidades de sentido - posição que revelam influências da Linguística Saussuriana -, não se ocupar com o valor literário. O que marca o pensamento de De Man sobre a literatura é exatamente a incerteza de

um conceito definidor. Assim, chega a argumentar que não deveriam haver fronteiras entre o discurso literário e outros discursos:

Desde que o que se chama de literatura é marcado pela declarada figuratividade de sua linguagem, e desde que todo discurso é marcado pela figuratividade de sua linguagem, tudo é literatura. (KERMODE, 1993, p. 42)

Já Derrida é mais enfático ao afirmar que "não existe - ou mal existe alguma, sempre tão pouca - literatura". Isso porque toda tentativa de defini-la, de se usar o conceito "literatura" depende de um referencial. Porém, considera que a crítica deve abrir o texto literário a outros textos, que ele considera "sociais" - perspectiva exatamente oposta a do New Criticism.

Com essa análise dos rumos que a crítica norte-americana tomava, Kermode (1993) chega à conclusão de que, primeiramente, o debate sobre os cânones deixava de ser literário para se ocupar com preocupações políticas. Em segundo lugar, os críticos que se diziam subversores das estruturas de poder do campo literário reproduzem essas exatas estruturas no campo acadêmico.

Por isso, sua posição é a de que a crítica deve retomar sua capacidade de diálogo com o público não-especializado e que os críticos não podem deixar de se orientar em primeiro lugar por suas impressões.