Face às características geomorfológicas, o litoral continental português foi dividido em oito células sedimentares, como se pode observar na Figura 2.6. Sempre que considerado pelos autores, algumas células sedimentares foram subdivididas em subcélulas (GTL, 2014).
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Figura 2.6 - Divisão do litoral português em oito células sedimentares face as suas características geomorfológicas (Fonte: GTL, 2014).
Nesta organização dominam a homogeneidade geomorfológica e os processos de fornecimento e distribuição sedimentar (caudal sólido, acreção/erosão costeira, deriva litoral). Segundo Brilha (2005), a geomorfologia presente em Portugal Continental é estruturada por três conjuntos principais, o Maciço Antigo, a Orla Mesocenozoica Ocidental e a Bacia Cenozoica do Tejo-Sado.
Relativamente à geomorfologia do Maciço Antigo, este compreende as rochas mais antigas que afloram em Portugal continental com idades superiores a 1 000 milhões de anos, apresentando na sua composição rochas metamórficas e rochas magmáticas (Brilha, 2005). As Orlas Mesocenezoicas apresentam rochas formadas nos últimos 245 milhões de anos e a bacia Cenozoica do Tejo-Sado apresenta aglomerados formados há 65 milhões de anos,
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predominando os sedimentos transportados e acumulados pelos rios durante esse intervalo (Brilha, 2005).
Segundo o GTL (2014), as células sedimentares apresentam as seguintes características geomorfológicas e os consequentes balanços sedimentares:
• Célula 1
Esta célula, que se estende desde a foz do rio Minho à Nazaré, foi dividida em 3 subcélulas: do Minho ao Douro (1a), do Douro ao cabo Mondego (1b) e do cabo Mondego à Nazaré (1c). As três subcélulas encontram-se sujeitas a um clima de agitação agreste dominantemente com a orientação de NNW-SSE a NNE – SSW, o que se traduz num elevado potencial de transporte sólido, cerca 1,1 x 106m3ano-1 a suldo rio Douro. A célula 1 distingue-se das restantes por ser
caracterizada pela presença de um litoral com uma costa rochosa baixa, apresentando numerosas praias de areias e cascalho, como se podem observar na Figura 2.7.
a) b) c)
Figura 2.7 - Exemplos de áreas do litoral da célula 1: a) A norte de Viana do Castelo; b) Paramos Barrinha de Esmoriz; c) A norte de Pedrogão (Fonte: SIARL, 2012).
As subcélulas sedimentares da célula 1 apresentam balanços sedimentares diferentes entre si, esta análise sedimentar pode ser entendida posteriormente:
i. Subcélula sedimentar 1a (Minho-Douro) – Esta subcélula é caracterizada por apresentar uma redução no seu fornecimento por via fluvial, traduzindo-se no recuo da sua linha de costa. Esta subcélula apresenta um balanço sedimentar de -1,0 x 105m3.ano-1.
ii. Subcélula sedimentar 1b (Douro- cabo do Mondego) – Devido ao défice presenciado na subcélula sedimentar 1a, este troço apresenta uma redução na entrada de sedimentos de 6 x 105m3.ano-1.
iii. Subcélula sedimentar 1c (Mondego – Nazaré) – Neste troço, os sedimentos são retidos pelo molhe norte da barra de Mondego, originando processos de défice de sedimentos da ordem os de 6 x 105m3.ano-1.
• Célula 2
Situa-se entre a Nazaré e Peniche, cujo litoral apresenta uma orientação NE-SW e é constituído, maioritariamente, por arribas, plataformas rochosas e praias lineares. Relativamente aos processos de fornecimento sedimentar, estes apresentam uma magnitude baixa, associados à erosão das arribas litorais e ao caudal fluvial (Penacho, 2013 & Lira et al.,
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2013 cit. in GTL, 2014). Na Figura 2.8 pode-se observar o tipo de litoral presenciado nesta célula.
a) b) c)
Figura 2.8 - Exemplos de arribas presentes na célula 2: a) Nazaré; b) Nazaré; c) Alfeizerão (Fonte: SIARL, 2012).
O fornecimento sedimentar nesta célula é cerca de 104m3.ano-1, com uma baixa influência
antropogénica (Lira et al., 2013 cit. in GTL, 2014).
• Célula 3
Esta célula situa-se entre Peniche e o cabo Raso, na qual apresenta numerosas praias arenosas e encaixadas, embora com geometria muito diferenciada. Estas desenvolvem-se geralmente em arribas, retomando uma orientação geral N-S. “As praias mais largas e curtas, frequentemente limitadas por um pequeno campo dunar, desenvolvem-se na dependência das fozes das linhas de água, enquanto as praias estreitas, lineares, por vezes com extensão quilométrica, associam-se à existência de promontórios naturais que propiciam retenção sedimentar limitada” (GTL, 2014). Na Figura 2.9 observa-se o exemplo de praias encaixadas e arribas nesta célula.
a) b) c)
Figura 2.9– Exemplos de praias encaixadas na célula 3: a) Silveira; b) Ericeira; c) São Pedro da Cadeira (Fonte: SIARL, 2012).
• Célula 4
Esta célula encontra-se situada entre o Cabo Raso e o Cabo Espichel, sendo que nos seus extremos desenvolve-se em arriba e na zona intermédia desenvolve-se em praias, como é o caso nas praias à frente da arriba fóssil da Caparica.
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a) b) c)
Figura 2.10 - Exemplos de arribas e praias encaixadas na célula 4: a) Colares; b) Fonte da Telha; c) Cabo Espichel (Fonte: SIARL, 2012).
Há autores que referem que esta célula poderia encontrar-se em equilibro não fora as extrações de sedimentos do passado no banco do Bugio (GTL, 2014).
• Célula 5
Situada entre o cabo Espichel e Sines, a célula 5 apresenta uma orientação E-W, encontrando- se abrigada da agitação dominante na costa ocidental portuguesa. A costa entre a foz do rio Sado (Troia) e Sines corresponde a um litoral arenoso, contínuo e com uma configuração arqueada, como evidenciado na Figura 2.11, sendo o principal fator para a sua situação de equilíbrio
a) b) c)
Figura 2.11– Exemplos de um litoral arenoso e contínuo: a) Troia; b) Pinheiro da Cruz; c) Santiago do Cacém (Fonte: SIARL, 2012).
O fornecimento sedimentar decorrido nesta célula, embora pouco significativo, é efetuado quase na totalidade pela erosão das arribas da costa da Galé, uma vez que o rio Sado e a costa ocidente do mesmo apresentam uma contribuição muito reduzida no balanço sedimentar do troço.
• Célula 6
A célula 6, entre Sines e o cabo São Vicente, apresenta um litoral dominado por arribas altas com uma direção geral N-S, apresentando, principalmente na sua composição, rochas paleozoicas e mesozoicas (Figura 2.12).
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a) b) c)
Figura 2.12 - Exemplos de um litoral com dominância de arribas altas: a) São Teotónio; b) Vila Nova de Mil Fontes; c) Carrapateira (Fonte: SIARL, 2012).
O fornecimento sedimentar desta célula é efetuado principalmente pela erosão das formações detríticas, onde os principais sumidouros são os sistemas dunares que se desenvolvem na foz das principais linhas de água, tais como Bordeira, Odeceixe e Vila Nova de Mil Fontes.
• Célula 7
O litoral da célula 7, situada entre o cabo de São Vicente e os Olhos de Água, apresenta essencialmente uma morfologia variada, marcada pelas suas arribas talhadas, maioritariamente por rochas mesozoicas e cenozoicas, como observa-se na Figura 2.13. Esta célula sedimentar apresenta um reduzido fornecimento, dado que este é efetuado principalmente pelas arribas que a constituem.
a) b) c)
Figura 2.13– Exemplos de arribas talhadas na célula 7: a) Lagos; b) Faro; c) Tavira (Fonte: SIARL, 2012).
• Célula 8
A célula 8 encontra-se situada entre os Olhos de Água e a foz do rio Guadiana, correspondendo a um litoral de acumulação, na qual é delimitado por praias encaixadas em arribas a barlamar, fortemente marcadas pela presença de formações cenozoicas e a sotamar pelas ilhas barreira da Ria Formosa e as extensas praias e sistemas dunares que se estendem até à foz do Guadiana.
a) b) c)
Figura 2.14– Exemplos das paisagens do litoral presente na célula 8: a) Albufeira; b) Cama da Cavaca; c) Alvor (Fonte: SIARL, 2012).
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Esta célula sedimentar sofre erosão principalmente entre Forte Novo e Garrão (a nascente de Quarteira), apresentando uma taxa de recuo médio de 0,20-0,80 m/ano devido às construções de estruturas portuárias, esporões e enrocamentos realizadas em Vilamoura e Quarteira. A célula sedimentar encontra-se em equilíbrio dinâmico devido à alimentação artificial de sedimentos, suficiente para saturar a deriva litoral.