O desenvolvimento pouco homogêneo na leitura da paisagem da Avenida Epitácio Pessoa caracterizaria certas peculiaridades que nos levou a dividí-la em trechos para melhor entender o seu processo de desenvolvimento. Mais tarde nos ocuparemos mais detalhadamente desse assunto. No momento resta-nos explicitar que essa etapa de consolidação (1985-2003) nada mais é que a confirmação desse processo de substituição dos volumes inicialmente construídos. Nesse momento exacerbam-se as alterações no uso do solo, quando se pode dividir essas ações de duas formas: as intervenções mais radicais com a compra dos lotes maiores – ou o remembramento de pequenos terrenos – dando lugar aos prédios de maior porte, normalmente ligados à especulação imobiliária; e as obras mais baratas, de um ou dois pavimentos para abrigar lojas ou escritórios.
Nesse sentido, pode-se perceber claramente que as ações da especulação imobiliária centraram-se no trecho litorâneo por alguns motivos até óbvios: a proximidade da orla marítima e o que restava do seu “clima de balneário tranqüilo”; a valorização dos terrenos como investimento garantido livre de riscos financeiros, além da facilidade de encontrar lotes maiores – e muitas vezes vazios – capazes de abrigar grandes edifícios. É claro que esse processo de verticalização aconteceu na orla como um todo, inicialmente em Tambaú e Manaíra, para logo em seguida se dirigir ao Bessa e Cabo Branco a partir dos anos 90. As figuras 89 e 90 na página seguinte testemunham a evolução desse processo. A comparação de 1968 para 2003 mostra o avanço da verticalização.
Figura 89- Vista do bairro de Tambaú e parte do Cabo Branco em 1968. Pode-se ver uma larga faixa entre as primeiras quadras paralelas à beira-mar e o vale do Rio Jaguaribe, com imensos vazios, inclusive nos lotes voltados para a Epitácio Pessoa. Isso favoreceria à verticalização e o adensamento da área. FOTO: Acervo Humberto Nóbrega.
Figura 90- Vista de Tambaú e Cabo Branco no entorno da Avenida Epitácio Pessoa em 2003. A construção de grandes edifícios residenciais, na maioria dos casos, consolidou a paisagem gerando uma leitura cada vez mais comum de ruas tipo corredor-desfiladeiro. FOTO: Marco Antônio Coutinho.
Sem qualquer alteração no desenho das quadras, a antiga estrutura urbana com o seu loteamento ortogonal e ruas de vinte metros de largura, passou a receber grandes construções com garagens subterrâneas. Essas operações de modelagem do terreno alinham-se ao nível da rua originando um piso artificial, livrando somente dois por cento da área do lote para fins de permeabilidade14. Desta
forma, a cobertura vegetal é a primeira a ser atingida. Onde havia espaço para árvores e solo exposto – encaminhando naturalmente as águas das chuvas – surge uma nova configuração de pequenos e modestos jardins cultivados em jardineiras impermeabilizadas e o encaminhamento da drenagem se dá através de simples tubulações – que muitas vezes não recebem manutenção adequada causando transtornos para a população.
Pela natureza dessas operações – de caráter especulativo do solo e de seu aproveitamento máximo sem maiores considerações do sítio existente – surgem fechamentos verticais sem a mínima visão de conjunto que começam a causar problemas de circulação para os ventos, gerando as famosas ilhas de calor. Afora isso, o ruído proveniente do movimento do tráfego passa a ser refletido pelas superfícies dos edifícios ampliando os níveis de poluição sonora. Uma análise mais detida sobre o fluxo de veículos e a pressão sonora produzida será tratada nos próximos capítulos.
Pela proximidade da orla marítima, as bordas do platô de Miramar, com generosa visão do litoral tem sido o trecho preferido da especulação imobiliária para a construção de grandes edifícios residenciais. A facilidade de conseguir lotes bem dimensionados, muitas vezes ainda vazios, tem ampliado para o bairro esse movimento de consolidação da verticalização da paisagem da avenida.
Aqui se faz necessário um breve comentário. No capítulo anterior foi mencionado o controle do gabarito das edificações na faixa inicial de 500 metros a partir da beira-mar definida pela Constituição Estadual em seu artigo nº 229/ 90. Realçou-se as questões de conforto ambiental, saúde pública e preservação mínima dos elementos morfológicos que conferem identidade à paisagem como principais argumentos para a manutenção desta legislação. Entretanto, após a faixa de controle do gabarito começam a se fixar – já há alguns anos – uma série de edifícios
14- Portaria baixada pela Secretaria do Desenvolvimento Urbano e do Meio Ambiente do Município de João Pessoa nº 4229/ 2001 que define os parâmetros que garantiriam os níveis de permeabilidade do solo.
onde o aproveitamento máximo e a taxa de ocupação regem a sua altura. Desta forma, começa a se formar um paredão nas bordas do platô de Miramar – como se pode observar na figura abaixo – e outros bairros que margeiam o vale do Rio Jaguaribe, merecendo estudos específicos para evitar futuros problemas ambientais.
Figura 91- O vale do Rio Jaguaribe tem funcionado como um hiato na paisagem da Avenida Epitácio Pessoa. Apesar de acumular toda sorte de lixo, e do processo de assoreamento que vem sofrendo, a força da sua vegetação termina por se impor em meio ao rápido processo de consolidação dessa nova paisagem. Gradativamente a linha do horizonte passa a receber mais e mais edifícios. FOTO: Marco Antônio Coutinho.
É possível observar, conforme aumenta a distância da orla, que o ritmo dessas mudanças diminui ao longo da avenida. A verticalização fica restrita a uns poucos prédios, notadamente destinados ao uso comercial e de serviços. Há o predomínio das edificações de pequeno porte entremeadas por outras de tamanho médio, que se utilizam da estrutura fundiária anterior. Trata-se da outra face desse processo de substituição do uso residencial, onde a manutenção das proporções das primeiras construções – simplesmente reformadas para abrigar novo uso – muitas vezes permite uma visualização mais homogênea da paisagem. Esse trecho da avenida – a partir do cruzamento com a Avenida Rui Carneiro até as imediações do Clube Cabo Branco – apresenta farta vegetação em suas calçadas, no canteiro central, nos jardins e nos quintais das propriedades. I sso somente se torna possível pela manutenção do parcelamento do solo, e devido ao pequeno vulto das reformas nas antigas residências.
Figuras 92 e 93- Residências construídas no decorrer das décadas de 1950 e 1960 que guardam parte das suas características originais, mas mantêm a ambiência inicial do bairro. FOTOS: Marco Antônio Coutinho.
Figuras 94 e 95- As reformas seguem diversas estratégias: na esquerda uma antiga habitação ganha uma “máscara” para esconder suas antigas e reveladoras linhas arquitetônicas em favor do novo uso. À direita os recursos são mais restritos e a obra torna-se mais epidérmica. FOTOS: Marco Antônio Coutinho.
Recentemente pôde-se perceber um rápido movimento de alteração na fisionomia da paisagem do trecho compreendido entre as Avenidas Rui Carneiro e Piauí. Uma concentração de lojas de móveis e acessórios ligados ao universo da moradia. O crescimento do mercado imobiliário residencial – tanto na orla marítima da capital como na vizinha Cabedelo – fez aquecer esse setor especializado do comércio que resolveu se alojar preferencialmente em antigas residências da Avenida Epitácio Pessoa. O trecho em questão, apresentando lotes pequenos, vem se prestando muito bem para operações de compra e de aluguel dos antigos imóveis e a subseqüente reforma. A presença de um crescente setor financeiro e de serviços nesta parte intermediária do percurso da avenida vem a reforçar ainda mais o latente processo mais radicalizado de consolidação da paisagem.
Figuras 96 e 97- A Florense, além das alterações de planta, procurou se utilizar de estruturas presas à fachada. A movelaria da foto à direita é uma construção recente onde o proprietário busca tirar proveito das linhas arquitetônicas para alavancar as suas vendas. FOTOS: Marco Antônio Coutinho.
Entre a Praça da I ndependência e a Avenida Rui Carneiro até 2001, a avenida mantinha na sua terceira faixa de rolamento quatro entradas para os bairros reguladas por semáforos. Esse tipo de arranjo – que pode ser visto na figura 98 – diminuía sobremaneira a velocidade da via, especialmente na treceira faixa onde tradicionalmente a velocidade é maior, além de causar congestionamentos e acidentes. Os estudos da STTrans levaram ao fechamento de todos esses acessos criando percursos de contorno nas quadras adjacentes de forma a conduzir o fluxo dos veículos para os cruzamentos tradicionais controlados por semáforo. O efeito imediato de aumento da velocidade média na avenida foi uma das principais alterações com claro rebatimento no cotidiano dos usuários. Foi implantada também uma onda verde de 50 Km/ h fora dos horários de pico. Por se tratar do principal corredor viário da cidade, as soluções adotadas têm um claro rebatimento na evolução da paisagem procurando dinamizar as relações ali desenvolvidas.
Figuras 98 e 99- Com a intervenção da STTrans as entradas à esquerda em plena avenida foram substituídas por contornos nas quadras adjacentes. FOTOS: Marco Antônio Coutinho.
Da Avenida Amazonas até a Praça da I ndependência, a paisagem mantém a horizontalidade característica da fase anterior de mutação. Somente quatro edifícios empresariais foram construídos nesse período. O trecho tem algumas peculiaridades relacionadas à época do loteamento das antigas fazendas e sítios, guardando uma série de quadras e lotes de grandes dimensões. Muitos dos quais, com acesso pelas ruas de trás. Provavelmente a presença de pequenos lotes com antigas e simples residências, tenha motivado as primeiras substituições de uso. O baixo valor das propriedades e a proximidade do Centro também corroboraram para agilizar esse processo muitas vezes envolvendo pequenos orçamentos.
Figura 100- Vista da avenida a partir da Avenida Amazonas . FOTO: Marco Antônio Coutinho.
As características sócio-econômicas de um lugar são determinantes para o seu ritmo de desenvolvimento, isto é óbvio. No caso da Avenida Epitácio Pessoa e da cidade de João Pessoa, a pequena alocação dos recursos da iniciativa privada vem se concentrando na orla marítima – local de pouco ou nenhum risco para as vendas – e preferencialmente na produção de unidades habitacionais verticalizadas. Desta forma, as transformações na paisagem se dão de forma mais lenta, uma vez que as próprias limitações de absorção do mercado imobiliário terminam por determinar esse ritmo.