3.1.1 Problematização e autonomia em Paulo Freire
Os novos referenciais em saúde preconizam práticas que promovam a autonomia dos indivíduos, de modo a sentirem-se coparticipantes nas ações relacionadas ao controle do seu bem-estar e qualidade de vida. Para que isso ocorra de maneira adequada, faz-se necessário que estes passem a se conscientizar do papel de sujeitos, libertando-se das amarras estabelecidas pelas relações de poder impostas entre os detentores do conhecimento e os demais indivíduos (BRASIL, 2002a).
Isso é possível quando as práticas possuem fundamentos que permitem a abertura de espaços de escuta e a problematização dos elementos presentes na realidade de cada indivíduo. Envolvido na questão está, também, o reconhecimento, pelos indivíduos, das suas necessidades por meio do ato de conscientização, ou seja, apreender da realidade aspectos e por eles cor-responsabilizar-se (FREIRE, 1980).
O ato da conscientização, segundo Freire (2008a), dá-se com base na problematização dos homens em suas relações com o mundo, ensejando posicionamentos baseados na ação e reflexão. A implementação dessa prática deve objetivar a libertação autêntica, ou seja, a humanização do homem em suas relações com o outro e com o mundo, fazendo-o trabalhar para incremento de maior qualidade de vida para si e a comunidade a que pertence (FREIRE, 2008b).
Para isso, os profissionais envolvidos nas práticas devem estar dispostos a saber ouvir os vários agentes sociais, desmontar a ingenuidade das relações estabelecidas e problematizar a realidade junto com os usuários, aprender a estar com o outro e com suas peculiaridades, estabelecendo relações de igualdade, envolver-se com o outro e tornar a crítica e a problematização uma constante no cotidiano das práticas.
São propostas, assim, novas tecnologias de cuidado sensíveis aos elementos presentes na comunidade, mobilizando-os à prática de ações que produzam impactos na realidade em que estes indivíduos estão inseridos. Nestas, os profissionais de saúde passam a ser desafiados para contribuir ativamente com os usuários de suas ações e serviços na luta por saúde, estando disponíveis para estar
com os usuários e ser capaz de, numa atitude de persistência diante das situações-
limites que são dadas pelo dia a dia. É incentivada, nesse sentido, a reflexão constante para a busca de práticas éticas e estéticas (FREIRE, 2007).
As ações fogem do método bancário de mero depósito de conhecimentos para um método embasado na problematização da realidade. O ato de problematizar, segundo Freire (2008a), diz respeito a sair da chamada curiosidade ingênua, isto é, da visualização superficial dos fatos, sem importar-se com as relações que estes estabelecem com o histórico, o social, o cultural, o humano, para a curiosidade epistemológica, dialógica, aberta, crítica, curiosa, indagadora e não apassivada. Com isso há o “empoderamento” desses indivíduos, na medida em que assumem a responsabilidade de sujeito que conhece e passam a possuir instrumental para gerar ações que podem intervir politicamente no mundo, pautados em referenciais humanísticos.
A valorização da autonomia e “empoderamento” da comunidade e de todos os agentes sociais envolvidos nas tramas de cuidado e atenção é uma das potencialidades das práticas, quando se permitem a escuta e o envolvimento destes nos serviços.
É preciso investir, então, em ações que capacitem à comunidade, de modo a intervir ativamente em sua realidade, de modo crítico, e capaz de correlacionar todos os aspectos de vida. Com isso há uma aproximação com um dos eixos trazidos pela Carta de Ottawa, que encaminha a Promoção da Saúde por meio da participação comunitária e do incremento das habilidades dos indivíduos (BRASIL, 2002a).
A conscientização é tida como compromisso histórico mediante a inserção crítica na história, assumindo o homem uma posição de sujeito capaz de transformar o mundo. Isso é dado pelo desenvolvimento crítico da tomada de consciência, ir além da ‘curiosidade ingênua’ isenta de criticidade, para uma fase crítica na qual a realidade se torna um objeto cognoscível e assume posição embasada por referenciais, procurando conhecer e tomar posse da realidade (MIRANDA; BARROSO, 2004).
Tais práticas encaminham para modos de libertação do homem das amarras de opressão com que vivenciam suas vidas e estabelecem suas relações com o outro e com o mundo. Desse modo, desde uma pedagogia da libertação, é dada a oportunidade de avançar e direcionar planos que tenham objetivos comuns aos trabalhadores de saúde, aos usuários, às famílias e à comunidade: o bem-estar e alcance de melhores condições de vida implicados nesta atividade.
3.1.2 O método de Paulo Freire: círculos de cultura
Contradizendo os tradicionais modelos de educação de caráter rígido, o método de Paulo Freire avança para estabelecer relações de aprendizagem em que o homem, em um ato de criação, é capaz de acionar atos criadores. Nesse método, o homem não é passivo, nem objeto, desenvolvendo a atividade e a vivacidade da invenção e reinvenção, características próprias da situação de procura (FREIRE, 1980).
Freire (2007) considera o método de círculo de cultura uma concepção do mundo com seus referenciais, uma pedagogia que extrapola os limites da alienação. Trata-se de abordagem inovadora, que fornece aos profissionais da saúde a oportunidade de proporcionar participação pela fala e ação aos sujeitos inseridos na sua prática. Para isso, os profissionais devem estar dispostos a viver com os sujeitos experiências abertas para que estes sejam criadores da sua aprendizagem. O direcionamento é dado no sentido da busca da conscientização e da conseqüente autonomia.
Os círculos de cultura de Paulo Freire são espaços abertos para que a cultura tenha a possibilidade de diálogo, descodificando a realidade do participante até que descubra nela aquilo que não lhe está explícito. Os diálogos estabelecidos nos círculos de cultura têm como objetivo o conhecimento no seu aspecto mais amplo, ou seja, desconstruir, intencionando revelar o sujeito, transformando o oculto em culto, “empoderando-o” social e politicamente (BOEHS et al, 2007).
Freire (2008a) entende o ato educativo como modo de intervenção no mundo por meio da apreensão da realidade, sendo, portanto político. Esta apreensão não sucede pela adaptação mas sobretudo para a transformação da realidade, para nela
intervir, recriando-a, ações que se estendem do simples espaço institucional para esferas que extrapolam estes limites, promovendo mudanças que se operam de modo ampliado.
Freire (1980) descreve a denominação círculo de cultura. O uso da palavra ‘círculo’ decorre do lugar em que todos se posicionam no encontro e nos significados que assumem. O círculo presume um espaço em que todos ensinam e aprendem. Nesse espaço, a fala possui liberdade de expressão, estabelecida por meio de diálogo aberto à escuta do outro e da situação de estar com o outro.
O círculo de cultura é composto pelo animador, aquele que coordenará o grupo de forma não diretiva, animando o trabalho orientado da equipe, e os demais componentes que participam ativamente em todos os momentos do diálogo, único método de estudo no círculo.
Com o método, Paulo Freire mostrou que a alfabetização não estava restrita à leitura das palavras, mas à decodificação do mundo por meio da problematização, de modo que o educando fosse o sujeito de seu desenvolvimento, com liberdade e autonomia (FREIRE, 1980).
Experiências em saúde mostram a aplicação do círculo de cultura como referencial metodológico no campo da Educação em Saúde (MONTEIRO, 2007). Os objetivos de problematização e incentivo da autonomia preconizam a valorização dos aspectos ligados às peculiaridades locais, priorizando as características dos sujeitos. Isso permite a aproximação da realidade para incentivá-lo a mover-se em direção à tomada de decisões enquanto feito sujeito autônomo.
Na aplicação do círculo de cultura em outros ambientes, se não o de alfabetização, as fases norteiam as ações, evidenciando o processo de desconstrução para a construção de possibilidades diante do conhecimento do universo vocabular, a utilização das palavras geradoras, a tematização, a problematização (desconstrução) e a reconstrução (conscientização e direcionamento para a autonomia). Cada passo contribui para o aprofundamento das questões, fazendo com que haja envolvimento com as problemáticas e trabalho conjunto para o alcance de maior bem-estar comunitário, refletindo assim na Promoção da Saúde em vários âmbitos, incluindo a mental.