1.4. BANKACILIK RİSK ÇEŞİTLERİ
2.1.3. Finansal Piyasaların Gelişimi ve Operasyonel Riskin Ortaya Çıkışı
Amílcar Lobo havia trabalhado como médico na enfermaria do Primeiro Batalhão de Polícia do Exército (BPE) entre 1970 e 1974, no auge da repressão política. 163 Passado esse
162 CONSESI, Alexandre. Entrevista de Alexandre Consesi a Juliana Dal Piva. [S.l: s.n.], 21 jan. 2016.
período, ele se tornou psicanalista e durante muitos anos atendeu seus pacientes em um escritório na Zona Sul do Rio de Janeiro sem que qualquer pessoa reconhecesse publicamente sua ligação com os militares. Essa identificação ocorreu em 1981, como consequência quase inevitável do processo de abertura política, e causou impacto na sociedade.
A anistia política concedida pelo regime militar, em 1979, trouxe de volta ao Brasil um número grande de exilados, além de propiciar que os presos políticos fossem pouco a pouco libertados das cadeias onde cumpriam pena. Após quase dez anos, Inês Etienne Romeu deixou o presídio Talavera Bruce, no Rio de Janeiro. Ex-dirigente da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), ela foi uma das últimas presas políticas do país. Ela havia sido condenada à prisão perpétua pelo envolvimento nos sequestros dos embaixadores alemão e suíço. A bancária mineira guardou, ao longo de quase uma década, duas informações que causaram forte abalo à ditadura quando foram tornadas públicas. Antes de ser oficialmente presa pela polícia em Belo Horizonte em 1971, Inês tinha vivido um calvário de torturas entre maio e agosto daquele ano, em uma casa da Região Serrana do Rio de Janeiro, usada como cárcere clandestino pelo Exército.
Julgada e condenada à prisão perpétua, Inês teve sua pena atenuada e deixou o presídio em 1979. Ainda dentro do Talavera Bruce, a guerrilheira pediu ajuda ao repórter Antonio Henrique Lago, da Folha de S. Paulo, para localizar a casa onde tinha sido encarcerada e torturada.164 Ela havia memorizado o número de telefone mencionado por seus algozes e, ainda no presídio, pediu a Lago que fosse em busca do responsável pela linha nas listas telefônicas
do estado. Quando o imóvel foi identificado, Inês denunciou a chamada “Casa da Morte”,165
em Petrópolis, desconhecida até então, e também tornou público o conteúdo do depoimento prestado à OAB – no qual disse ter ouvido de seus carcereiros detalhes sobre prisões, torturas e assassinatos de outros presos políticos. Entre eles, Rubens Paiva.166
Na mesma semana, em 1981, a ex-dirigente da VPR também encontrou o consultório do psicanalista Amílcar Lobo e o identificou como o médico que trabalhava para seus
torturadores e que a atendeu dentro da “Casa da Morte”. Em uma dupla alusão a seu trabalho e
Janeiro, p 98.
164 LAGO, Antonio; DAL PIVA, Juliana. Entrevista de Antonio Henrique Lago a Juliana Dal Piva. [S.l: s.n.], 19 jun. 2015.
165 ROMEU, Lucia. O cordeiro era o doutor Lobo. Istoé, São Paulo, 08/02/1981.
166No depoimento, Inês disse que: “segundo ainda o dr. Pepe, o ex-deputado Rubens Paiva teve o mesmo fim [executado], embora não fosse intenção do grupo matá-lo. Só queriam que ele confessasse, mas no decorrer das torturas Rubens Paiva morreu. A morte do ex-deputado foi considerada pelo Dr. Pepe “uma mancada”. Ver
Depoimento de Inês Etienne Romeu, disponível em
nome, Lobo usava o codinome de doutor Carneiro. A descoberta foi amplamente noticiada e outros presos políticos também denunciaram que foram atendidos por ele em meio a sessões de tortura dentro do DOI-CODI do Rio de Janeiro.
A exposição pública do envolvimento de Lobo com a repressão política motivou um processo ético no Conselho Federal de Medicina. À época, ele confirmou sua atuação no Batalhão da Polícia do Exército (BPE) embora negasse auxílio nos interrogatórios sob tortura e nada falou sobre o que sabia da morte de Rubens Paiva ou de outros desaparecidos. E foi esse personagem que reapareceu de modo decisivo para o caso Rubens Paiva por meio da edição nº 939 da revista semanal Veja, datada de 03 de setembro de 1986, mas que chegou às bancas no fim de semana de 30 e 31 de agosto.
Depois de anos vivendo em um ostracismo no interior do Rio de Janeiro, o médico resolveu romper o silêncio e admitir que atendeu Rubens Paiva na carceragem do DOI-CODI fluminense em péssimas condições de vida. A decisão de Amílcar Lobo em contar o que sabia sobre o tempo em que trabalhou no quartel da rua Barão de Mesquita ocorreu de modo inesperado. Já era o fim do expediente da sexta-feira 29 de agosto, quando a repórter Martha Baptista atendeu o telefone na redação da sucursal carioca da revista Veja:
Toda sexta feira alguém era escalado para ficar até o momento que alguém, um ‘Deus’ lá de São Paulo [sede da revista], falasse assim “olha, você pode ir para casa, você está dispensada. E havia histórias, assim, as lendas, de plantão horrorosas. Eu tinha uma grande amiga na Veja, a Lúcia Rito. E a Lúcia era assim uma pessoa muito esperta, veterana, e ela contava de um plantão que ela simplesmente pegou um incêndio no Museu de Arte Moderna, que foi um horror, né? Então todo mundo morria de medo. Tocou o telefone, quem que vai atender, quem que vai atender? Eu fui e atendi o telefone e era o Amílcar Lobo.167
A jornalista, especializada na cobertura da área de televisão, estava terminando o que
era chamado como “plantão de fechamento”, momento no qual a publicação semanal está em
processo de finalização, mas todos os repórteres ficam atentos para possíveis inclusões de notícias urgentes ou atualizações nas reportagens da edição. Logo no primeiro contato, Martha diz que percebeu a ansiedade e o nervosismo da pessoa do outro lado da linha, que resistia, a princípio, até em se identificar:
Ele ligou com uma conversinha muito assim: “Ah, eu queria falar uma coisa, mas eu não sei se eu quero. Talvez semana que vem, eu tô querendo agendar.” Mais ou menos essa era a conversa dele. Eu falei: “Tá, qual é que é o seu nome? Quem é o senhor?” Ele falou: “Amílcar Lobo”. Aí foi a minha sorte de ser bem informada. Na hora eu me lembrei de uma matéria que tinha saído na
Veja ligando ele e a Inês Etienne Romeu. Falei: “Ah, você é o Lobo, aquele.”
Aí eu acho que não só ele se sentiu reconhecido como ele se sentiu amparado. E a conversa foi evoluindo. 168
Segundo Martha Baptista, o médico não disse logo de início que pretendia fazer uma confissão sobre o momento em que viu Rubens Paiva. Em meio a um clima de hesitação, ele dizia que tinha intenção de fazer revelações sobre o DOI-CODI, mas preferia marcar uma conversa para a semana seguinte. No diálogo travado com um desconhecido, coube à Martha a perspicácia de manter a conversa acalmando e estimulando a fonte a não desistir:
Eu só sei que a nossa conversa por telefone demorou e não me lembro se eu pedi para ele um tempo, se ele ficou esperando, ou se eu peguei o telefone dele porque eu fiquei insistindo com ele, “mas vem cá, porque você vai deixar, uma coisa que tá te angustiando tanto...”Eu fiz meio o papel de psicanalista de “porque você vai deixar para, sei lá, para semana que vem? Vamos conversar logo.” Quer dizer, eu senti que eu tinha que segurar ele. Eu não pensei que a matéria sairia imediatamente, mas eu senti que eu não podia deixar, que ele estava muito em dúvida, estava muito hesitante e que se eu não conversasse com ele naquele momento, eu acho que foi bem isso, eu iria perdê-lo. Ele podia mudar de ideia. E aí, depois, agora recentemente, eu vi entrevistas da mulher dele dizendo que ela sempre foi contra ele vir a público para falar isso. Mas isso já é uma outra história. Eu conversei, conversei, conversei com ele e disse: “Fala onde o senhor tá.”169
Depois de um diálogo de mais de 30 minutos, Martha convenceu Lobo a recebê-la em seu apartamento na Tijuca, próximo ao DOI-CODI. Nesse momento, ele já tinha adiantado que o assunto era a prisão de Rubens Paiva. O próximo passo foi avisar à chefia da revista no Rio de Janeiro sobre o contato de última hora e da importância da ligação. Em poucos minutos, a direção da publicação em São Paulo também estava ciente da situação e fez orientações à Martha para conduzir a entrevista, que ocorria sem nenhuma pesquisa prévia devido ao inesperado contato:
O José Carlos de Andrade [chefe da sucursal] ligou imediatamente para São Paulo. E aí, não sei quem atendeu ele, mas de repente ele estava falando com o Élio Gaspari. Aí eu me lembro que ele falou assim: “olha, o Élio Gaspari falou que isso é muito bom, é quentíssimo, para você ir para lá”. Depois, o próprio Élio falou comigo no telefone. E, assim, eles me orientaram para eu, em nenhum momento, confrontá-lo ou coisa parecida, deixar ele falar. Tentar tirar o máximo dele, mas sem ficar espremendo, e aí também eu acho que entra um mérito meu. Porque eu nunca fui aquela repórter que chega e, sabe? “Ah, falaí!” Eu faço aquele estilo mais de ganhar confiança da pessoa. De ir com calma. É o meu jeito. Não é assim maquiavélico, mas é a minha forma de lidar com as coisas. Então eu acho que eu fui assim, a pessoa certa na hora certa. Eles disseram: “olha você vai lá, fica o tempo que quiser porque a revista vai esperar você voltar. Vai com fotógrafo, mas não pressiona se ele não quiser
168 BAPTISTA, Martha. Entrevista de Martha Baptista a Juliana Dal Piva. [S.l: s.n.], 11 ago. 2015. 169 Idem.
foto.” Tudo com o maior cuidado, faz o jogo dele... Aí eu fui morrendo de medo porque eu já estava perdida. Meu Deus! Socorro! Porque, assim, o que eles [chefia] me falaram “esse cara é um horror. Mas ele está querendo dar
uma de bonzinho, faz de conta que você está acreditando nele”170
A conversa no apartamento de Amílcar Lobo durou pouco mais de uma hora. Além de Martha, testemunharam ao momento o fotógrafo da revista e a mulher do médico, Maria Helena de Souza. Martha disse que tentou ao máximo seguir as orientações da chefia e dar espaço para que Lobo contasse a sua versão da história:
Eu acho que eu pedi para gravar, ele não se opôs, e eu gravei a conversa. E aí, foi assim, foi punk. Quer dizer, eu vi aquela pessoa contando exatamente como está na matéria, porque isso foi uma decisão depois quando eu voltei para redação, né? Que aí a orientação foi “você escreve do jeito que ele te falou, não se preocupa em editar, escrever bonito, nada”. Então eu ouvi. Ouvi, ouvi, ouvi. Lógico que eu fiquei assim, chocada, assustada, mas sabe, bem, serena. E assim, tentei, na medida do possível, tirar o máximo dele.171
A revista chegou às bancas naquele fim semana com o relato inédito do que teriam sido, na versão de Lobo, as últimas horas de vida de Rubens Paiva (Ver Anexo 5). As informações
foram “repercutidas” por outras publicações como O Globo, Tribuna da Imprensa, Jornal do Brasil e Última Hora. As datas registradas nos ofícios que, enfim, permitiram a abertura das investigações mostram como as declarações de Amílcar Lobo se tornaram um gatilho para o início desses trabalhos.
O pedido do procurador-geral para abertura do inquérito foi despachado no dia 15 de agosto, mas o procedimento só foi aberto no dia 01 de setembro, a segunda-feira após a publicação da reportagem de Veja. A manchete do Jornal do Brasil nesse mesmo dia, por
exemplo, foi “Brossard manda apurar morte de Rubens Paiva”. A repórter Martha Baptista,
porém, não seguiu na cobertura do caso, que se estendeu até o seu arquivamento em 1987.