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20. Finansal araçlardan kaynaklanan risklerin niteliği ve düzeyi
Coincidências à parte, continuemos o percurso... prosseguindo a incursão pelas narrativas dos trabalhadores, com introdução de mais um ator social.
O senhor Francisco Farias veio de Ipu. Sua fala apresenta os motivos do deslocamento:
É proquê eu... a gente num faz o que quer. A natureza é quem domina nosso caminho de vida, a vida da gente é uma estrada cê tem que acompanhar todas as voltas né? Eu vivia lá bem né? Eu tinha comércio, tinha agricultura até grande né? Mais houve um pobrema lá dum casamento que... tinha gente que chiava e eu aqui arrastei a minina pra cá e me casei foi aqui e aqui eu fiquei. Duma vez mermo nunca mais voltei, até que ela já morreu né?214
Em circunstância diversa da narrativa do senhor Aloísio, o senhor Francisco Farias migrou de Ipu para Fortaleza, no final dos anos 50 por questão familiar. No
213 Idem, Ibidem.
momento, estava em jogo o casamento, porque tinha "gente que chiava" ,ou seja, discordava da união com a "minina" que ele "arrastou" pra cá. A saída de Ipu provocara alterações significativas em sua vida.
O contato com o espaço diverge da percepção anterior do senhor Aloísio:
A cidade aqui? Era muito diferente do que cê vê hoje né? Isso aqui tudo
era pé no chão, isso aqui tudo era areia né? Ali a praça do Ferreira num tinha praça né? era umas coisinha véia, o maior comércio que tinha ali era o abrigo central naquela epóca né? Fortaleza hoje
ninguém... quem conheceu ela como eu conheci num sabe nem avaliar o tanto que ela aumentou né? Por exemplo lá donde eu moro num tinha
nem calçamento era areia né? Era umas varedas ali no Álvara Weine né? Calçamentozim que andava umas caminhoneta véia que era do, do
Pacheco né? Aí a coisa foi se avoluindo hoje o Floresta é, é um bairro da Aldeota né? Todo na... no asfalto né? Transporte em cima do outro. O trem nessa época num era máquina a óleo era maria fumaça tocada a fogo né? Hoje tá muito diferente Fortaleza, Fortaleza hoje do tempo que eu conheci ela, ela tem noventa por cento de melhoria né? Noventa por cento.215 (grifo nosso)
Habitando na periferia da cidade, no bairro Floresta, o Senhor Francisco Farias deparava com a precariedade do lugar que "num tinha calçamento" e as
ruas constituíam umas "veredas"216. Os locais mais freqüentados do centro da
cidade, como Praça do Ferreira e Abrigo central, aparecem como pouco expressivos para o depoente.
É verdade que, mesmo estando em jogo a relação afetiva, com atritos familiares, a opção pela cidade de Fortaleza alimentara expectativas no depoente.
215 Entrevista com o senhor Francisco Farias, 24 fev. 2004, feira do Rodolfo Teófilo.
216 Sobre o crescimento populacional de Fortaleza, as sucessivas migrações e seus
desdobramentos para esta capital, Ribeiro nos ajuda a esclarecer as condições da periferia no período de chegada de nosso depoente, ou seja o início da década de 50: "Fortaleza experimentou um intenso crescimento populacional no intervalo de 1940 a 1950 (49,9%) e quase dobrou no período de 1950 a 1960, atingindo o percentual de 90,5%.Este crescimento desordenado, resultado de sucessivas migrações campo-cidade provocadas pelos seguidos anos de seca durante a década, gerou grandes distorções, tanto do ponto de vista de distribuição espacial, como das funções desempenhadas pelos poderes públicos e do nível de vida da população, e colocando em cheque os equipamentos urbanos postos à sua disposição. A expansão desordenada e acelerada da cidade deu início à formação de uma periferia constituída de vários núcleos populares, na sua grande maioria em péssimas condições de habitação" RIBEIRO, Francisco Moreira. De cidade a Metrópole (1945-1992). In: SOUZA, Simone et al. Fortaleza a
Gestão da Cidade: uma história político-administrativa. Fortaleza: Fundação Cultural de Fortaleza,
1995.
Na entrevista, ao referir-se à mudança para Fortaleza, apenas em poucos momentos o desejo de mudar de vida insinua-se. Isto se dá quando se refere às suas condições de vida no sertão: "vivi lá bem", "Eu tinha comércio, tinha agricultura até grande né?". Na capital, as condições se apresentaram bastante diversas, daí o estranhamento ao se deparar com a nova situação, materializada na casa e no bairro: "eu comprei uma casinha lá no Aváro Weyne, um casebrizim
véi e deste casebrizim véi eu comecei vê a feira livre"217.
O espaço urbano trouxe-lhe desafios múltiplos. Na lida e superação desses desafios, fez-se trabalhador por conta própria:
Bom, eu quando cheguei aqui, no meu interior eu tinha duas... duas profissões e aliás três: era a agricultura, comércio de budega e nas horas vagas trabaiava nisso aqui. Na tisoura né? tinha um salãozim na casa que eu tinha a budega tinha uma reserva assim num salãozin que quando tava disocupado chegava um freguês eu dispachava né? Mas aqui mesmo eu num... num.. eu num usei outra exercício só mesmo a... o cabelo né? Só barbearia. Nunca usei, nunca quis comércio aqui e... sempre era difícil pa gente arrumar um ponto pa comerciar... meu sirviço toda vida aqui em Fortaleza só foi isso, cortar cabelo. Até hoje.218
Na cidade, antigos saberes deram origem a novas formas de sobrevivência. Assim, o trabalho na "tisoura" atuou decisivamente na sua inserção na feira livre.
Interpelado sobre a aprendizagem do ofício, ou seja, de barbeiro, diz: "Era meu pai que trabalhava no negócio e eu aprendi né? Por ele, por causo dele né? Pegava nos ferro dele aí me acostumei". O ofício de barbeiro está inscrito no universo de relações de compartilha de saberes. No sertão, o depoente tinha situação de autonomia, pois, em sua casa, funcionava "budega" e um "salãozim" em que, nos momentos em que estava "disocupado", atendia aos fregueses.
Para falar das primeiras experiências de trabalho em Fortaleza, recorre a expressões do tipo: "num me dava bem", "eu trabaiava pros outros" como podemos observar:
217 Entrevista com o Senhor Francisco Farias, 24 mar. 2004, feira do Rodolfo Teófilo. 218 Idem, Ibidem.
Eu cumeçei num salão ali na Guilherme Rocha. Guilherme Rocha não. È... Guilherme Rocha. Na João Moreira! mais num me dava bem né? Eu
trabaiava pros outros, quando era de tarde repartia aquele dinheiro aí
eu... vi a feira livre que era ali na Praça da Estação, essa feira livre dia de sabádo e Domingo que é essa que nóis tamo lá na... na Gentilândia, era na Praça da estação ali naquela praça central. E eu nessa época tava morando num quartim ali de lado e vi a feira livre e vi os caras trabalhando. Aí eu saí do salão e me coloquei na feira livre. Aí eu num quis mais sair num quis mais salão. Quê eu no salão eu trabaiava pros
outros e aqui eu num trabaio pra ninguém. Trabaio pra mim.219 (grifo
nosso)
Pela narrativa, percebe-se a resistência ao ritmo do novo trabalho e à relações estranhas ao seu antigo modo de vida, pois o depoente possuía um ofício e o exercia com autonomia. Sua fala também informa as circunstâncias que o levaram à feira-livre, cujo espaço parece ter aproximado o depoente da possibilidade de exercer o ofício com relativa autonomia, numa dimensão do trabalho realizado para si:
Tô cum dentro dos cinqüenta ano que eu trabaio aqui na feira livre meu exercício só tem sido isso, barbearia. Até hoje. Eu injeitei até salão preu
trabaiar mais eu num quis porque cê trabaia num salão é trabaiar pros outros né? Pagar alugué e cadeira e num sei mais quê... trabaia
pruma ficha e eu achei mior aqui que eu trabaio só pra mim né? 220 (grifo
nosso)
O senhor Farias atua como barbeiro até os nossos dias, ofício incomum na feira-livre, um espaço que normalmente voltado para a venda de produtos. Como esse espaço foi conquistado?
A partir da observação da feira-livre e de outros barbeiros que lá trabalhavam na época, o senhor Farias aproximou-se daquele universo:
Devido eu ter visto ele trabalhando lá, achei que pudia ter um barbeiro na feira né? Talvez se num tivesse ele... talvez que eu num tivesse nem continuado porque ele num ía nem perguntar se pudia trabalhar né? Na feira né? Quer dizer que eu entrei por intermédio dele né? Porque vi ele trabaiando aí eu fui lá onde ele tava peguemo a conversar... você sabe
219 Idem, Ibidem. 220 Idem, Ibidem.
que barbeiro um cum outro pega a cunversar se intende né? Aí eu fiquei mais ele. Aí cumeçou até hoje.221
Não obstante, ao adentrar na feira livre, seria mais um sujeito a acrescentar pluralidade ao universo do trabalho informal.