O desapaixonamento é a ausência do estado febril. O desapaixonamento o faz estável e firme no seu caminho.
Sri Sri Ravi Shankar A viagem na dimensão do ego, para mim, foi e está sendo a mais instigante e sofrível. Todos têm uma imagem de si mesmos, uma forma de mostrar-se ao mundo, de agir e reagir, e nem sempre estamos dispostos a reconhecer o lado sombra de nós mesmos. O trabalho e as vivências em grupo, na Arte de Viver, nos propiciam momentos de amizade, de
diálogo e de críticas autênticas. Um jogo de projeções que problematiza nossa identidade, às vezes tão fixa e estruturada. Neste jogo, me confrontei com o que pensava sobre mim mesmo e sobre o que os outros veem em mim. Passei, então, a observar cada ação, comportamento, desejo, gosto e aversão, cada pensamento, opinião, visão que eu manifestava. O exercício de questionar-me, iniciado na terapia, já há alguns anos, se renovou.
Estou compreendendo, nesse processo, que o ego é o que está no centro de mim. Quando falo eu, é o ego quem fala em mim. Eu gosto, eu quero, eu sou, eu fiz, eu estou, eu sei, eu não sei, eu não vou, eu penso. O ego é o centro de mim no estado de vigília, quando estou acordada em relação com o mundo e com as pessoas. O ego também quer estar sempre no centro. Nesse exercício de ser observado, questionado, investigado, nascem resistências de todo o tipo: não quero, não sei, não posso, não dá, não é importante. Sentimentos de medo, raiva, desconfiança, necessidade de fuga, tensões, dores no corpo e até dor de cabeça. O ego é aquela parte de mim que não quer ser questionada, que afirma, tem certeza, me traz segurança no mundo e me impulsiona para a vida. Necessário e indispensável, me mantém em conexão com o mundo exterior, dá direção à minha vida. No entanto, o ego também é quem me separa do mundo e das pessoas, quem criando esta máscara que se mostra me torna não natural, encobre as minhas fraquezas. Segundo o Vedanta e a filosofia hindu, o ego é o principal obstáculo à descoberta do Ser, tman.
É o ego quem constrói o apego às coisas do mundo. Apego (r ga), no contexto dos Vedas, é desejar ter, possuir, querer. Segundo Taimni (2006, p. 124) é uma “atração que se sente por qualquer pessoa ou objeto, quando qualquer espécie de prazer ou felicidade é derivada daquela pessoa ou objeto”. Constitui uma das principais fontes de avydi , ignorância da Realidade. Esta ignorância é a maior fonte do sofrimento humano ou kle as (TAIMNI, 2006). Em geral, aceitamos os nossos apegos como necessários, reais e constituintes da nossa vida. Na cultura hindu é vista como uma permanente busca pelo estado interior de nanda ou felicidade. Por termos perdido a fonte direta interna, passamos a buscá-la no mundo exterior, e qualquer coisa que ofereça uma sombra disso, uma felicidade ou prazer comum, torna-se querida para ela. E na minha vida, também, existem vários apegos: a minha família, o meu corpo, o meu carro, o meu filho, a minha filha, a minha casa, o meu marido, as minhas roupas, o meu computador etc. Coisas e pessoas são consideradas como nossas. As necessidades materiais e o mundo dos afetos parecem nos condicionar, levando-nos a identificarmo-nos com objetos e pessoas que passam a fazer parte de nós, da nossa identidade, da nossa consciência. Se as possuímos, sentimos prazer, satisfação, se não as possuímos sentimos dor e sofremos. O apego está na base da sociedade de consumo e na modalidade de viver voltado
para o ter, conforme nos é apresentado por Fromm (2000). Este autor aprofunda-se nos meandros do que ele denominou o caráter mercantil, uma postura alienada do homem que mira à aquisição egoísta e se nega ao dar, compartilhar qualquer coisa. “Ele experimenta a si mesmo e sempre cada vez mais como um sujeito vazio, que não consegue deixar de substituir o seu ser Ser ou o seu ser sujeito pela posse dos objetos” (p. 9). “Eu sou o que tenho” é o lema de quem substitui a experiência de si mesmo pelo apego aos objetos, valores materiais e não materiais (direitos, verdade, conhecimento, crenças, instrução, filhos, saúde, doença etc.)
Por ocasião deste curso de instrutores, tive uma forte experiência que me fez compreender tudo isso. Vivíamos um processo interativo guiado por Rajshree, em que todos deveriam receber e fazer críticas uns aos outros. Uma pessoa sentava-se na frente, enquanto as demais falavam palavras que caracterizassem as fraquezas ou defeitos dessa pessoa. No primeiro momento, fiquei apavorada, pensava insistentemente “não quero ir, estou com medo, o que vão dizer de mim?”. Naquele instante eu ainda não sabia, mas era o meu ego que estava gritando, querendo fugir. Por aproximadamente duas horas vivi esta angústia. Até que resolvi ir para “a cadeira dos réus”, como eu havia intitulado o lugar onde eu deveria sentar. Assim, “tremendo nas bases”, cheguei até lá, sentei-me, encarei os colegas do grupo. A enxurrada de críticas atingiu-me como uma bomba, a cada nova palavra, sentia-me desmoronando: rígida, orgulhosa, distante, supercrítica, dona da verdade, egoísta, fechada em si mesma. Inúmeras eram as críticas, a maioria das quais apaguei da minha consciência. Eu estava ali, chorando, escutando, em um esforço de aceitar, mas ao mesmo tempo rejeitando, debatendo-me entre a raiva, o medo e a vontade de que tudo acabasse imediatamente. Até que um dos colegas disse- me que eu não lutava pelo que eu queria. Ouvir isso, de uma pessoa que se parecia com o pai da minha filha, que até hoje não mora comigo, despertou em mim uma grande explosão emocional. Urrei, gritei, xinguei! Da minha boca saiam palavras que eu não pensava, eram palavras cheias de sentimentos, de emoções, de ódio, de raiva, muita agressividade guardada por anos emergiu ali naquele instante. Chorei, solucei ininterruptamente por longos minutos que pareciam infindáveis, pois a dor era insuportável. Todo o meu corpo era em revolta: braços, punhos e pernas se agitavam e se contorciam. Ao final, a minha respiração se tranquilizou, ficou mais profunda e me senti calma e em paz. Algo dentro de mim havia se transformando profundamente. Eu já não sentia tanta saudade da minha filha, surgiu uma aceitação, um distanciamento deste sentimento de querer estar junto dela. Confrontei-me com o maior apego que eu tinha e com o maior sofrimento que era produzido por este. Foi uma experiência incrível. Fui tocada no ego, o reconheci. Toda a dor que eu ainda sentia diluiu-se, me senti limpa nos sentimentos e muito livre. Creio que pelo menos uma parte das causas dos
meus sofrimentos foi eliminada nessa experiência. A partir de então, passei a considerar os apegos sob outra ótica. Aprendi que os apegos são apenas desejos, mas que realizá-los, possuir os objetos de desejos é apenas uma contingência da vida, não é a própria vida. Compreendi o sentido profundo do desapego (vair gya). O deixar ir os objetos de desejos é uma sabedoria, uma arte de viver que cessa os v tti mentais trazendo muita tranquilidade na mente e liberdade interior. Saraswati (2001, p. 106) denomina este estado como vairagyam “um estado sereno da mente caracterizado pela total objetividade em relação às coisas do mundo, os objetos dos sentidos”. O desapego, ou desapaixonamento, é consequência natural da discriminação entre o que é essencial e supérfluo para a própria felicidade e bem-estar. É o cessar da ilusão sobre a fonte da felicidade. A verdadeira felicidade não está nos objetos e pessoas. Estas são fonte de gratificações temporárias, mas não são duradouras. Percebi que o lugar de onde nascem estes apegos é apenas uma parte de mim, mas não é todo o meu ser. Relativizar o ego passou a ser um exercício no meu dia a dia. Nem sempre é fácil, mas procuro encontrar formas de fazê-lo, e tenho encontrado algumas atitudes importantes: escutar mais e falar menos, aceitar a adversidade, aceitar pessoas, situações e lugares como são, agir no momento adequado e com consciência, observar sem julgamentos, praticar a renúncia aos apegos e aos desejos, dar opinião sem imposição, reconhecer que a minha opinião não é a verdade, ser ridícula sem medo, não dar tanta importância à aparência física, aceitar os meus defeitos.
Nos Vedas essa disponibilidade para relativizar o ego, ou melhor, “ausência do sentimento do ego” é denominado anahankara, estar livre da identificação do eu individualizado. Ahankara é a palavra sânscrita que indica o conceito de individualidade, de eu, quando se coloca o prefixo Na, nega este sentido de eu. Não significa uma destruição total do eu individualizado, como alguns pensam, mas é um estado interno de minimização do ego e de suas características (apego, narcisismo, orgulho), necessário para o autoconhecimento, para conhecer a verdade do Ser (SARASWATI, 2001, p. 112). A presença do ego é o resultado da completa ignorância do Ser. Essa é uma concepção completamente oposta à visão da psicologia ocidental que “enfatiza a necessidade de haver um ego forte, definido em termos do controle dos impulsos, autoestima e competência no funcionamento mundano” (WELWOOD, 2003, p. 53). Não é minha intenção discutir os diversos conceitos do ego no campo da psicologia ou da psicanálise, pois foge ao escopo desta meditação autobiográfica. Limito-me a reconhecer a utilidade da dimensão do ego como uma dimensão mental transitória que tem a sua utilidade no mundo considerado real, mas que, como diz Welwood (2003), é uma mera imitação da nossa verdadeira natureza, um jeito de tentar ser. Para o
Yoga, e para o Vedanta, o caminho para a auto-realização prescinde de um ego forte, e nos orienta para um estado de não-ego ou desidentificação da total fixação no ego.
A minha jornada na Arte de Viver tem me permitido entender que estar em ahankara, ou na centralidade do ego, é um estágio de nosso percurso na vida, e não um princípio organizador da consciência, definitivo e indispensável. Nas práticas de Sudarshan Kriya® e de meditação ultrapasso a sensação de eu consistente e permanente, desta sensação de um eu central, e experiencio outra dimensão da existência. Um espaço interno de plenitude, equilíbrio, harmonia, espaços vazios que se situam entre as sensações, pensamentos, percepções. Nesse estado de consciência diferenciado o ego se retrai, perde sua centralidade. É um estado de paz.
Sri Sri Ravi Shankar (2004) diz que o ego é como um sonho. Um sonho existe até que cesse de existir. O ego é uma artificialidade necessária, é ser não-natural. Forma-se por volta dos dois ou três anos de idade, e antes disso você está num estado de amor total, inocente e repleto de felicidade. O ego então funciona como uma cobertura, o que o conhecimento e as práticas fazem “é despi-lo dessa casca e fazer com que você seja novamente uma criança; natural, simples e inocente. Quando você é natural, simples e inocente, não existe ego” (SRI SRI RAVI SANKAR, 2004b, p. 44).
O ego não é uma substância, mas sim uma não-substância como a escuridão. A escuridão é apenas falta luz. Não há coisa alguma que possa ser chamada de ego e que tenha substância. Você pode dizer que é apenas falta de maturidade ou falta de conhecimento genuíno. E como o ego pode ser vencido? Através da auto- observação, de um melhor conhecimento de si mesmo e através de um mergulho profundo de si próprio pela meditação (SRI SRI RAVI SHANKAR, 2004b, p.44).