• Sonuç bulunamadı

FİKRET MUAİLÂ'DA MEKTUP SEVGİSİ

Belgede Fikret Mualla: 1903-1967 (sayfa 46-59)

A Europa vivenciou, no século XVIII, um revolucionário movimento cultural, filosófico e estético chamado Iluminismo. Esse movimento permitiu uma evolução singular da cultura européia, inaugurando novas formas de representação na política, nas artes e em quase todos os aspectos. Essa renovação da liberdade e progresso como o desenvolvimento técnico e científico – fruto de uma nova concepção epistemológica –, aliada a uma nova dinâmica e formas do uso da razão, levou paulatinamente a uma transformação do imaginário e das práticas políticas, como o Absolutismo, Reformismo, e também a uma nova ordem de bem-estar público mas, primordialmente, tocou no gosto e na sensibilidade de homens e mulheres daquele momento.169

Na Espanha, esses novos valores da contemporaneidade estão expressos não só nas imagens artísticas, mas também na mais ousada reforma vivida por esta nação, aquela feita pela dinastia bourboniana. O testemunho da sua evolução no campo da política é a Reforma Bourbônica, que se configura numa mistura de elementos da Monarquia Absolutista e do Iluminismo, conjugando a tradição com a modernidade, que criou um modelo próprio de moderno, numa tentativa de tornar nova e dinamizar a economia espanhola e racionalizar a exploração colonial.

É o século XIX, mais particularmente a década de 70 que se busca entender aqui, nesta pesquisa. Esse homem já transformado pelo "bom uso da razão"170 tem correspondência com o período anterior e apresenta indícios dessa correlação. Com a dimensão pública da razão – liberdade para expressão e difusão de seu pensamento –, o homem deixou de ser guiado por outros que pensavam por ele e o conduziam. Tudo isso implicou desejo de mudanças e, consequentemente, crise de identidade e interrogações em relação àquele mundo já existente, nas fórmulas e formas já conhecidas.

169 Museu Nacional de Belas Artes. Séc. XVIII Espanha o sonho da razão. RJ: Instituto Arte Viva, 4

julho a 25 de agosto de 2002. (exposição)

170 Ao tratar o discurso de liberdade e direitos iguais que contrastava com as práticas cotidianas na

América hispânica, o filósofo Leopoldo Zéa explica que essa concepção de igualdade entre os homens, presente na Declaração Norte-americana, de 1776, e na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, aparentemente contraditória, tem antecedentes nos escritos filosóficos de René Descartes. Segundo Zéa, a filosofia cartesiana prega que "todos os homens são iguais pela razão ou bom senso", então o que os torna diferentes é o uso da razão. "Não basta ter engenho, o principal é aplicá-lo bem". Este é o sentido que o europeu dá aos direitos do homem americano, espaço espetacular das diferenças (a começar pela cor de pele, sangue, cultura, posições sociais, língua, aspecto físico, etc). ZÉA, Leopoldo. Os direitos humanos na América. In: COGGIOLA, Osvaldo (org.). A Revolução Francesa e seu

impacto na América Latina. SP: Nova Stella: Editora da Universidade de São Paulo; Brasília, DF,

Ensimesmar-se e questionar a ordem vigente só foi possível depois dessa revolução humana que o Iluminismo, como uma proposta estética e teoria filosófica, permitiu.

A Espanha oitocentista foi representativa deste movimento no que tange ao desejo de superação de tudo que era velho e opressivo. Entrou o século buscando um sentido para a nação através do questionamento do modelo e práticas políticas. Pode-se considerar que a operação salvamento feita pela dinastia dos Bourbons no século anterior primou por uma atitude absolutista, de centralização do poder, o que deu ao homem do século XIX - já transformado - motivos para contestação.171

Até 1833, com Fernando VII, a Espanha ainda tinha um representante legítimo da tradição dinástica reformista. Após a sua morte, com as regências e reinados legítimos, o Estado espanhol esteve envolvido em uma gama de lutas políticas e guerras civis engendradas por moderados, liberais, progressistas, União Liberal, carlistas172 e, mais para o final do século – última década –, apareceram novas forças ancoradas na preocupação social (socialismo, internacionalismo, anarquismo). A partir da década de 1830, a nação ficou marcada pela presença de expoentes dos diversos partidos políticos nos ministérios.173

171 Em função da debilidade militar, econômica e da fragilidade política, o Estado espanhol colocou em

prática - com os Bourbons no poder a partir do início do século XVIII - um projeto de salvamento da estrutura econômica e do estado, adotando tradições e atitudes do absolutismo mercantilista francês. A Reforma Bourbônica mesclou elementos do Iluminismo e do antigo regime, através de uma versão seletiva do primeiro. A reforma consistiu em medidas internas no campo e no comércio, através de uma nova formulação do pacto nacional a partir de estímulos para a produção, continuidade da centralização do poder, maior independência da monarquia em relação à Igreja e fortalecimento dos laços coloniais com a América. No entanto, as reformas se mostraram insuficientes e tardias. Houve resistência da alta e baixa nobreza, do clero e campesinato espanhol, além da elite criolla americana. KAPLAN, Marcos.

Formação do Estado Nacional na América Latina. Tradução: Lygia Maria Baeta Neves. Rio de

Janeiro: Eldorado, 1974. pp. 83-88. Considera-se que as conseqüências dessa intenção de renovação são bastante perceptíveis no século XIX.

172 Carlistas eram aqueles que queriam que o infante D. Carlos, irmão de Fernando VII, assumisse o trono

espanhol. O infante não pertencia à dinastia bourbônica. De acordo com Pierre Vilar, durante o período da regência de D. Maria Cristina - que fora pronunciada em 1833 e regeu até 1840 – ocorriam guerras carlistas por várias regiões da Espanha, inclusive sendo coroado rei pelos seus partidários. Havia três focos carlistas na Espanha: Navarra, País Vasco e Alta Cataluña. VILAR, Pierre. Historia de España. Op. cit. p. 89.

173 Os partidos moderado e progressista foram sendo gestados após a morte de Fernando VII, e brotaram

do liberalismo. Os moderados tendiam a dar seguridade ao trono e conferir-lhe prerrogativas e solidez. Estavam dispostos a parar as desamortizações dos bens eclesiásticos e conciliar com a Igreja. Os

progressistas tendiam à diminuição dos atributos do monarca e descentralização do poder a partir de

Juntas Revolucionárias de Províncias. A Unión Liberal surgiu como um terceiro partido, formada por ampla base heterogênea. Criticava a imobilidade conservadora e a demagogia progressista. Era formada por progressistas de direita, puritanos e sobretudo pelo exército. A partir de 1868, ainda aparecem os

democráticos como uma derivação do progressismo, já que os moderados e progressistas acabaram sendo

extintos como partidos. Os republicanos figuravam como oposição a qualquer forma de monarquia. MERCADER RIBA, Juan. El siglo XIX: historia de la cultura española. Op. cit. pp. 76-78.

D. Maria Cristina, a esposa de D. Fernando VII, após a morte do marido assumiu o poder como regente - esperando a maioridade de sua filha Isabel, futura rainha. Governou por 7 anos. Sua regência transcorreu marcada por conflitos entre carlistas (absolutistas), liberais progressistas e moderados. Em 1837, o surgimento de uma Constituição mais conciliadora, da mesma forma, não impediu os conflitos citados acima. Em 1841, iniciou-se a regência de um progressista, o General Espartero, sempre lembrado pela quantidade de guerras e bombardeios durante o período em que esteve à frente, no poder.174 Somente em 1843 Isabel conseguiu assumir o trono, antecipando sua maioridade aos 13 anos, em função da grande participação de moderados na corte.175 A promulgação da Constituição de 1845, extremamente reacionária, negou o princípio de soberania nacional à população. Esta constituição deu caráter à vida política espanhola até a Revolução de 1868. A partir de 1854, iniciou-se um biênio progressista (com o General Espartero no ministério), mas sua gestão foi vacilante e desacertada, o que levou, em 1857, por apenas um ano, os moderados novamente ao poder. Em 1858, uma nova organização política denominada União Liberal176, tendo à frente o general O'Donnell, deu o tom à política.177 O seu ministério foi marcado, a princípio, pelo crescimento econômico, investimentos estrangeiros, continuação das desamortizações dos bens eclesiásticos, construção de ferrovias, ou seja, pelo progresso. Caiu em 1863, com a prosperidade fraquejando e em meio a revoltas sociais. A partir de então, a Rainha Isabel não conseguiu mais o domínio nacional e esteve sob constante ameaça até ser destronada em 1868.178

Entre 1873 e 74, a Espanha viveu um efêmero período republicano – tentativa frustrada –, de acordo com a historiografia espanhola. Em dezembro, figuras

174 VILAR, Pierre. Historia de España. Op. cit. pp. 80-81.

175 A Rainha Isabel iniciou seu governo com um ministério moderado, que dominou a política espanhola

por 10 anos. Este período ficou marcado pelas práticas políticas autoritárias, como a dissolução da Milícia Nacional (força armada liberal) e submissão da imprensa a uma severa censura. Tentou fazer algumas concessões à Igreja, na tentativa de reparar os prejuízos causados pelos seus antecedentes liberais e destruiu a autonomia do ensino, vinculando novamente as escolas ao Estado. Os moderados ficaram no poder até 1854.

176 A Unión Liberal era uma junção da esquerda moderada e progressistas. AGUALDO BLEYE, Pedro.

Manual de historia de España. Madrid: Espasa calpe, 1958. Tomo III.

177AGUALDO BLEYE, Pedro. Manual de historia de Espanã. Op. cit. De acordo com Pierre Vilar, de

1856 até 1868, estiveram no poder Narváez – representante dos moderados – e depois O’Donnell, representante de políticos de centro-esquerda (União Liberal). A partir de então foram nascendo partidos democráticos: republicanos, com Castelar e Salmerón e Federal, com Pi y Margall. A república foi proclamada em 11 de fevereiro de 1873, com tendência federalista, tendo como primeiro presidente Figueras e depoisPi y Margall. De 1875 até 1917 vivenciou-se o período de restauração. VILAR, Pierre.

Historia de España. Op. cit. pp. 82-83.

178 KIERNAN, Victor Gordon. La revolucion de 1854 en Espanã. Madrid: Aguilar S.A de Ediciones,

políticas liberal-conservadoras tomaram o poder e colocaram militares para ministérios importantes. Posteriormente, proclamaram Alfonso XII (filho da Rainha Isabel) como rei da Espanha. Inaugurou-se uma etapa de generais no poder – os caudilhos militares, como denomina Miguel Cuadrado –, sempre presentes em período de crise e "caos" político. O Estado liberal foi reestruturado, assim como a sociedade civil também. A Constituição de 1869, emanada do sufrágio popular, sofreu uma revisão, para dar lugar a outra com características mais conservadoras. A esquerda liberal não pôde participar da feitura desta última. 179

A história política da Espanha se apresenta como uma trama de intrigas e desajustes, a princípio. O dezenove não significou uma época estéril, pelo contrário, mostrou um contínuo enriquecimento material, progresso, e principalmente, uma transformação fundamental na mentalidade popular; em relação aos costumes, a instauração de novas formas de vida coletiva, ou seja, uma rica vida social e política. Para a Europa, a Espanha parecia um espaço atrasado; mas por outro ângulo, é possível verificar um momento de extrema vitalidade, mesmo com a perda de impérios, guerras civis e desacertos políticos.180

Para Juan Petit, o período que se iniciou em 1808 (tomada da Espanha por Napoleão Bonaparte), assim como a descolonização da América, deu início a um movimento interno de aquisição de consciência nacional, levando a Espanha à maturidade e à era moderna.181 Miguel Martínez Cuadrado, partindo também desse pressuposto, entende que o problema histórico da Espanha remonta a um período de 90 anos, ou seja, até 1898, iniciado após as libertações das colônias americanas. Argumenta que a longa dominação colonial causou erosão na estrutura espanhola no que diz respeito ao seu devir nacional, ao seu encontro com a nação, e impediu a organização de um modelo político mais eficaz, além do desequilíbrio regional interno.182 Ou seja, o século XIX foi o espaço de uma reestruturação política, social e cultural da Espanha.

A marca política no transcorrer desse século XIX são os conflitos. A Revolução de 1868, também sinal das diferenças políticas, do desassossego desses

179 MARTÍNEZ CUADRADO, Miguel. La burguesía conservadora (1874-1931). Op. cit. pp. 7-25. 180 MERCADER RIBA, Juan. El siglo XIX: historia de la cultura española Op. cit., p. 66. De acordo com

Vilar, grande crescimento demográfico espanhol ocorreu entre os anos de 1808 até 1915: de 11 milhões em 1808 para 15,5 milhões em 1857, 18,5 em 1900 e 24 milhões em 1935. VILAR, Pierre. Historia de

España. Op. cit. pp. 82-83.

181 In: MERCADER RIBA, Juan. El siglo XIX: historia de la cultura española. Op. cit.

indivíduos, configurou-se num apelo à soberania nacional, a um governo que representasse as forças vivas do país, a regeneração social e política.183 Conforme apresentado no capítulo anterior, nesse momento, que foi iniciado com a Revolução de 1868, surgiram vários decretos e ordens para acabar com todo tipo de censura. Eclodiu um período de liberdade de expressão e imprensa livre, da literatura e dos meios de divulgação de pensamentos críticos e educação, como expressão da presença ativa dos burgueses na sociedade.

As transformações na Espanha, após a morte de D. Fernando VII, não ficaram somente no âmbito político. A partir desse quadro em que figuravam maiores liberdades, multiplicaram-se os meios para publicação e veiculação de idéias e valores através da imprensa, e a possibilidade de expressar as opiniões acabou por influenciar a cultura, de uma forma geral. Mesmo as posteriores proibições que a imprensa sofreu e também o caráter restritivo não chegaram a ser tão nefastos a ponto de afastarem tudo que era novo desse também “novo” homem. Diferentes correntes de pensamento (políticas, filosóficas, artísticas) contrastavam com aquela extremamente rígida do período fernandino. O século XIX, de acordo com Fernando Díaz-Plaja, foi o período em que se iniciaram as liberdades políticas. O surgimento dos cafés e a disseminação dos periódicos constituíram-se em espaços nos quais as pessoas podiam expressar suas opiniões, verbalmente e em conversas cotidianas. La política estaba en todas las mentes

porque estaba en todas las calles en forma de revoluciones y motines.184

Esse século foi também aquele no qual apareceu o movimento denominado hispanismo. Tal ideário, como bandeira ideológica, configurou-se em concepção de mundo e princípio de ação. Centrou a atenção nas experiências comuns entre Espanha e suas ex-colônias com o intuito de fortalecer a idéia de uma “tutela espiritual”, autoridade moral e cultural, no lugar da preponderância política, econômica e militar outrora exercida. Sendo assim, o movimento hispanista pode ser entendido se consideradas as peculiaridades históricas desta nação - política, econômica e cultural - no decorrer do movimentado e turbulento século XIX espanhol.

183 AGUALDO BLEYE, Pedro. Manual de historia de España. Op. cit. 184 DÍAZ-PLAJA, Fernando. La vida española en el siglo XIX. Op. cit. p. 122.

2.2 O século XIX e o estabelecimento de um “regime espiritual

Belgede Fikret Mualla: 1903-1967 (sayfa 46-59)

Benzer Belgeler