5. TEMEL TAKVİYESİ UYGULAMALARINDAN ÖRNEKLER
5.5 Fethi Ahmet Paşa Yalısı
A primeira expressão a ser estudada é
hV'êai
ybeäK.v.mi
que constituí a primeira grande dificuldade encontrada nos versos. A expressão aparece apenas duas vezes em toda bíblia hebraica, quais sejam em: 18,22 e 20,13.162Traduz-se, comumente, o substantivo comum masculino plural construto
ybeäK.v.mi
por deitar em relação ao ato sexual. No entanto, a tradução literária do termo é leito, cama, colchão ou até mesmo o ato de deitar-se podendo ser para descansar ou por motivo de doença.163 Quando o substantivo feminino comum singular absolutohV'êa
é adicionado, na seqüência, levanta-se a possibilidade de tradução do texto por deitar-se de uma mulher ou ter relações sexuais como uma mulher.164 É relevante mencionar que todos os dicionários consultados apresentam a tradução dessa expressão com algum tipo de conotação sexual.
Tem-se até aqui a tradução da expressão por deitar como uma mulher. Entretanto, o uso do plural
ybeäK.v.mi
se apresenta inexplicável na passagem, pois não se compreende o deitar como se fosse mulher no162 Jerome T. Walsh. “Leviticus 18:22 an 20:13: Who is Doing What to Whom?”. Em: Journal of
Biblical Literature. Nº120/2. 2001, p.201.
163 H.W.F. Gesenius. Gesenius’ Hebrew-Chaldee Lexicon to the Old Testament. 1984, p.517.
Também, Ludwig Koehler, Walter Baumgartner, e Johann Stamm. The Hebrew and Aramaic Lexicon
of the Old Testament. p.446.
164 O Dicionário Hebraico-Português & Aramaico-Português. 2001. Gesenius, H.W.F. Gesenius’
Hebrew-Chaldee Lexicon to the Old Testament. 1984, p.517. Também, Ludwig Koehler, Walter
Baumgartner, e Johann Stamm. The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament. p.446. Luis Alonso Schökel. Dicionário bíblico hebraico-português. 1997.
plural. Saul Olyan apresenta a proposta de que dois tipos de sexo estariam presentes no termo, possivelmente anal e vaginal, sem nenhuma conclusão definida. Ainda, a tradução encontrada para o termo é interpretativa, como mencionado acima, como se deita com mulher ou como uma mulher permanecendo a dúvida sobre a qual tipo de deitar está proibido no texto de 18,22 e 20,13.165
Para auxiliar na compreensão dos termos, usa-se o emprego da mesma palavra, agora no singular e em relação ao homem,
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deitar com um homem. Saul M. Olyan escreve:Essa mesma expressão aparece em Nm. 31,17-18 e 35, também em Jz. 21,11-12. Em Juízes 21,12, uma garota virgem é definida como alguém que “não conhece um homem pelo deitar-se de um homem”. O oposto, uma garota não virgem, mencionada no verso 11, é uma mulher que “conhece o deitar-se de um homem. A mesma expressão aparece em Nm. 31, texto que evidencia a distinção de uma mulher virgem e outra não virgem. A mulher não virgem é “qualquer mulher que conhece um homem em relação ao deitar-se de um homem”. A mulher virgem é qualquer mulher que “não conhece o deitar-se de um homem”. O idioma miškab zakar, literalmente, “o deitar-se com um homem”, deve significar especificamente penetração vaginal nesses contextos.166
No entanto, não se pode, tão facilmente, afirmar que as duas expressões sejam semelhantes ou tenham qualquer relação entre si. Mas, se a expressão deitar com um homem expressa apenas penetração vaginal em relacionamento homem-mulher, muito possível e interpretativamente, deitar como se fosse mulher signifique apenas penetração anal no intercurso sexual de dois homens. Ou seja, qualquer tipo de relação que em haja penetração física.
165 Saul M. Olyan. “‘And with a male you shall not lie the lying down of a woman’: On the meaning
and significance of Leviticus 18:22 and 20:13”. Em: Journal of the History of Sexuality. Nº5, 1994, p.183-184.
166 Saul M. Olyan. “‘And with a male you shall not lie the lying down of a woman’: On the meaning
and significance of Leviticus 18:22 and 20:13”. Em: Journal of the History of Sexuality. Nº5, 1994, p.184.
Para o presente é importante saber que a proibição dos versos de Levítico faz referência apenas à relação sexual anal entre dois homens. Saul Olyan apresenta essa possibilidade de interpretação, também apoiada por Jacob Milgrom, e ainda escreve que o idioma deitar com significa copular. Por essa razão é que o sexo anal é proibido em qualquer tipo de relação sexual entre dois homens.167 Veja que todo tipo de relação sexual entre homens, que não seja sexo anal, não é mencionado nem condenado no texto da bíblia hebraica, nem tão pouco em Levítico.
Sabe-se das diferentes formas de expressão unissexual. Não se pode falar de homoeroticidade e condená-la por supostamente crer que todos os homens vivam a prática do sexo anal. Portanto, é importante para a pesquisa distinguir entre as variadas formas de expressão sexual do corpo humano, seja masculino ou feminino. Mesmo porque o texto, repete-se, não menciona as práticas homoeróticas mais modernas, como masturbação, sexo oral, e até mesmo relações homoafetivas desprovidas de qualquer tipo de contato físico.
Ainda, a expressão deitar como se fosse mulher, usada em relação a deitar com um homem, faz menção à relação sexual vaginal. Saul Olyan sugere, nesse caso, que a punição seja endereçada a apenas uma pessoa na relação.168 Não se pode omitir que em 20,13 se apresenta algum tipo de condenação a ambas as partes na relação, no entanto essa mudança lingüística ocorre apenas na parte final do verso, pois seu início ainda faz referência à segunda pessoa no singular.
Jacob Milgrom escreve que o uso do plural é sempre encontrado no contexto de ilícita relação carnal (Gênesis 49,4; Levítico 18,22; 20,13), em contraste com o singular (Números 31,18), para relações lícitas.169 Assim sendo, o substantivo masculino plural construto dos textos de Levítico faria referência a relações sexuais ilícitas, punidas pela lei na comunidade judaica. Por
167 Saul M. Olyan. “‘And with a male you shall not lie the lying down of a woman’: On the meaning
and significance of Leviticus 18:22 and 20:13”. Em: Journal of the History of Sexuality. Nº5, 1994, p.186.
168 Saul M. Olyan. “‘And with a male you shall not lie the lying down of a woman’: On the meaning
and significance of Leviticus 18:22 and 20:13”. Em: Journal of the History of Sexuality. Nº5, 1994, p.186.
169 Jacob Milgrom. Leviticus 17-22. A new translation with introduction and commentary. 2000,
essa razão, todas as relações fora do contexto apresentado no próprio texto não seriam punidas ou condenadas, como apresentado acima.
Logo, mais uma vez se esclarece, conforme Jacob Milgrom escreve: “se o deitar como se fosse mulher proíbe relações ilícitas, pode-se sugerir que relações homoeróticas, ou melhor, sexo anal entre homens, é proibido em mesmo grau que em outras relações heterossexuais na lista dos versos acima, 19 e ss”. Continua Milgrom: “proibições sexuais estão diretamente relacionadas com a parentela, pois se a condenação de 20,13 está relacionada com a lista de relações que a precede, e está, então qualquer outra relação fora do controle pater-families não seria condenável nem tão pouco punível”.170
É importante observar outra possibilidade de abordagem do termo em estudo. Observe que a expressão deitar como mulher, faz referência à relação sexual de penetração, ou seja, anal entre dois homens e é condenada no texto. Assim, o tipo de relação sexual proibida é a anal, o objeto da condenação então é o penetrado. Pois, abominação apenas o é para o homem, substantivo masculino singular, que se deitar como se deita uma mulher.
Daniel Boyarin, escrevendo a respeito do conceito de sexualidade nas culturas clássicas, propõe que desejo e prazer foram inseparavelmente construídos com conceitos de poder e dominação que estruturavam toda a sociedade. Comportamento sexual permitido e proibido, ou considerado taboo, funcionava como questão de status social para o papel masculino.171 De fato, antes
de qualquer preocupação com o conceito de homossexualidade, era a sociedade preocupada com a posição social masculina na mesma.
O posicionamento de Daniel Boyarin sobre o conceito de poder e dominação da estrutura social da época faz lembrar da possibilidade de interpretação do verso com a apresentação do termo imediatamente seguinte ao verso 22. O verso 23 do capítulo 18 chama de confusão (tebbel) a junção sexual entre
170 Jacob Milgrom. Leviticus 17-22. A new translation with introduction and commentary. 2000,
p.1569.
171 Daniel Boyarin. “Are there any Jews in ‘The history of sexuality’?” Em: Journal of the History of
homem / mulher e animal. O mesmo autor cita um trabalho antropológico de Mary Douglas para esclarecer que a mistura de categorias no Antigo Israel era considerada abominação ou confusão, por isso no capítulo 18 os dois versos aparecem juntos. Também, Deuteronômio 22,5 apresenta a proibição de uma mulher não usar o que pertence ao homem e nem o homem o que é de uma mulher, isso é abominação. Assim, o que está proibido no relacionamento sexual anal homem-homem é a mistura das categorias sexuais, o homem jamais deveria se submeter à categoria rebaixada feminizante, degradante,172 o que se verá a seguir. Poderia ser uma condenação à apenas o parceiro penetrado?
A composição literária traduzida por: deitar-se como uma mulher, é em primeiro lugar, interpretativa, ou seja, existe a necessidade de se buscar outro termo semelhante para compreender o atual, que aparece apenas duas vezes na bíblia hebraica. Depois, se realmente essa expressão for compreendida como composição literária que faça menção à relação sexual, o faz apenas em sentido sexual anal, entre dois homens, não mencionando qualquer outro tipo de relação sexual contemporânea. Ou ainda, qualquer tipo de relação sexual que envolva camisinha, por preservar ambos os parceiros do contato físico no caso de relação sexual anal. Mesmo porquê não havia no Israel Antigo qualquer palavra que descrevesse o relacionamento unissexual.
O que Thomas Hanks propõe, é a condenação ao penetrador, que violenta o penetrado e que o degrada à condição feminina. Ou seja, dois erros inconcebíveis para a comunidade que necessitava viver na preservação dos relacionamentos familiares. Assim, o que o termo oferece é que, sem violência não há condenação.173 No entanto, Theodore Jennings apresenta outra possibilidade de leitura quando escreve que o parceiro sexual penetrado é o culpado da punição do verso 22. Ele diz: “acredito no caráter do desejo erótico que a religião de Israel, pelo menos em algumas expressões, incita ou solicita. Este é precisamente o desejo do homem de ser eroticamente o objeto de outro homem. Em outras palavras, esse é o
172 Daniel Boyarin. “Are there any Jews in ‘The history of sexuality’?” Em: Journal of the History of
Sexuality. Vol. 5, Nº3. 1995, p.342.
173 Thomas Hanks. “Clobbering back with the Clobber texts: Taking the bible seriously – Are there
desejo do passivo pelo ativo”.174 Assim, o verso 22 pode ser endereçado ao homem que se deita como mulher e não o possuidor.
A mesma expressão deitar como se fosse mulher traduzida na versão Septuaginta está assim: koi,thn gunaiko,j. A expressão grega pode ser comum e literalmente traduzida por lugar de dormir, ou cama ou ainda cama de um casal ou como lugar de coabitação. No entanto, a tradução que mais se aproxima do termo é a própria proposta de Joseph Thayer apresentada a seguir: coito nupcial. Observa-se na expressão traduzida a ausência de qualquer idéia que seja condenativa ao ato. Mais uma vez o termo faz associação da ação presente no texto com sexo vaginal, não restando dúvidas que a idéia presente no termo de deitar como se fosse mulher também faz relação ao sexo de penetração, mas agora, anal.
De acordo com Joseph Thayer,175 koi,thn é a tradução própria da palavra deitar. Essa mesma palavra não aparece no Novo Testamento o que torna ainda mais difícil sua correta averiguação de sentido. Porém, parece não haver dúvidas de que o termo faça qualquer refe rência ao ato sexual em semelhança ao de mulher, ou seja, penetrativo. Existe ainda a possibilidade de koi,thn fazer referência ao ato sexual promíscuo, o que não é certo e não goza de bases literárias.
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Outra palavra também requer atenção especial:
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(tô´ebâ). Essa palavra é traduzida por abominação, coisa horrenda. A mesma idéia é apresentada por Gesenius, H.W.F., quando escreve sobre algo que
174 Theodore Jennings Jr. Jacob’s Wound: Homoerotic Narrative in the Literature of Ancient Israel.
2005, p.211.
descreve o ilícito ou impuro pelo decreto religioso.176 Royce Buehler escreve que existe mais na palavra do que apenas algo horrendo. O termo carrega uma vívida sugestão de práticas religiosas detestáveis, como idolatria e rituais de orgias. Também, tem o sentido daquilo que seja extremamente perigoso, algo ou alguma prática que devesse permanecer o mais distante possível.177
Escreve Saul Olyan que a palavra não é clara, e não necessariamente significa a mesma coisa em todo seu círculo de apresentação. Ela aparece mais em textos de sabedoria, como Provérbios (21 vezes), também em Deuteronômio (17 vezes) e Ezequiel (43 vezes). A tradução convencional indica para o que é apenas horrendo do que fora estabelecido pela entidade espiritual e não para o sentido daquilo que viola o que é convencionado pela sociedade.178 Portanto, observa-se até aqui, que a palavra
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é de característica, ou de princípio religioso. Quando algo ou qualquer prática é proibida por ser abominação, prevê-se algo em nível aparentemente religioso.Observe que fora de Levítico a expressão aparece por diversas vezes: apenas em Ezequiel ela aparece 43 vezes e em 35 aparições ela faz referência a idolatria ou ofensas rituais. Está também presente no culto a outras divindades (Deuteronômio 7,25), assim como sacrifício de crianças a deuses pagãos (Deuteronômio 12,31), bem como a prática de bruxaria, necromancia e adivinhações (Deuteronômio 18,9-12). Também, o termo é bastante usado em condenações sexuais, veja: adultério (Ezequiel 18,6), incesto (Ezequiel 22,10-11) relações com mulher durante o período menstrual (Ezequiel 18,6 e 22,10).
O termo, que é propriamente religioso, é aqui escrito por John Boswell, citado por Robert A. J. Gagnon:
176 Ludwig Koehler, Walter Baumgartner, e Johann Stamm. The Hebrew and Aramaic Lexicon of the
Old Testament. Também o faz o dicionário Hebraico-Português & Aramaico-Português. 2001,
acrescentando: “algo detestável”. Gesenius, H.W.F. Gesenius’ Hebrew-Chaldee Lexicon to the Old
Testament. 1984.
177 Royce Buelher. “A defense Theory: An analysis of the six critical texts used to condemn
homosexuality”. www.whosoever.com.
178 Saul M. Olyan. “‘And with a male you shall not lie the lying down of a woman’: On the meaning
and significance of Leviticus 18:22 and 20:13”. Em: Journal of the History of Sexuality. Nº5, 1994, p.180.
A palavra hebraica tô´ebâ, não necessariamente significa algo mal, como roubo, mas algo que seja ritualmente impuro para os judeus, como comer carne de porco e ter relações com mulheres menstruadas. A palavra é usada no Antigo Testamento para designar pecados judaicos que envolvem contaminação ética e idolátrica. Assim, a condenação levítica contra comportamento homossexual seria muito mais de impureza cerimonial do que propriamente obra má.179
Se assim o for, o conceito de homossexualidade e sua proibição ou aceitação está demasiadamente próximo do contexto de religião, culto e templo. Jacob Milgrom escreve que o termo tem muito mais sentido religioso-moral do que jurídico-legal, seguido por Rudolf Kilian, e serve para caracterizar o indesejado e o inaceitável.180 Começam a ficar evidentes as restrições para as possíveis proibições sexuais de Levítico 18,22 e 20,13.
Se se observa que a abominação está diretamente ligada ao sentido religioso da palavra, então pode-se compreender que o que aflige a lei da comunidade judaica do pós-exílio não é a prática do desejo sexual em si, seja ela homossexual ou não, mas sim as práticas realizadas em semelhança às práticas sexuais dos povos vizinhos. Como afirma Royce Buehler: “a preocupação central aqui não é em relação aquilo que os israelitas podem fazer por vontade própria, mas sim o que podem fazer imitando culturas adjacentes”.181
Começa-se a compreender o contexto no qual se apresenta a proibição da relação sexual anal entre homens. Pois, se
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proíbe aquilo que seja impuro em qualquer ritual apresentado à divindade, possivelmente divindades estrangeiras, torna-se evidente o sentido da proibição em relação a orientação de todo o “Código de Santidade” pela separação da comunidade179 Robert A. J. Gagnon. The bible and homosexual practice. Texts and hermeneutics. 2001, p. 117. 180 Jacob Milgrom. Leviticus 17-22. A new translation with introduction and commentary. 2000,
p.1570.
181 Royce Buelher. “A defense Theory: An analysis of the six critical texts used to condemn
judaica em relação aos demais povos, pois deveriam se apresentar como qdš santos, colocados à parte, sem misturas.
Thomas Hanks faz relação com a palavra abominação que aparece em Ezequiel, e com a idéia de sodomia que aparece em textos do Novo Testamento, para melhor compreender a palavra que aparece em Levítico. Seu argumento principal é o de que os dois textos são de época comum, assim ler Ezequiel em contato com a abominação da relação sexual anal entre dois homens de Levítico, é o mesmo que ler os textos de abominação de Ezequiel que dizem respeito a opressão e arrogância e os relacionar com a abominação sexual de Levítico como opressão de violência sexual. Para melhor explicar seu ponto de argumentação, Thomas Hanks apresenta a dificuldade de interpretação do conceito de Sodoma, ele escreve que todas as referências a Sodoma na bíblia hebraica são referências ao julgamento divino e no Novo Testamento a situação é semelhante, o autor deixa claro que o pecado de Sodoma é o pecado da violência sexual dos homens da cidade contra os dois visitantes.
Além de qdš, pode-se, também usar
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para enfatizar ao povo e a comunidade sua obrigação de separação em relação aos povos vizinhos, mesmo se não houvesse, nos povos vizinhos, práticas religiosas e sexuais que envolvessem algum tipo de violência sexual.Ainda que não houvesse esse tipo de prática, de abuso sexual, na sociedade judaica, a própria penetração anal já constituía um ato de degradação do indivíduo masculino no círculo pater-families. Ou seja, qualquer homem que se submetesse a esse tipo de prática, o mesmo se submetia à voluntária degradação da glória masculina, à humilhação e à opressão. Por esta e outras razões, Thomas Hanks defende a proibição da opressão sexual, da violência sexual nos textos de Levítico. Argumento amplamente aceito que toma lugar de destaque no presente estudo.182
182 Thomas Hanks. “Clobbering back with the Clobber texts: Taking the bible seriously – Are there
No entanto, pode-se ler o sentido de abominação em relação ao conceito de não-mistura ao que é religioso. Assim, Theodore Jennings escreve que abominação pode também ser compreendida no sentido de abominação da mistura de categorias estabelecidas pelo papel sexual atribuído ao homem e à mulher. Quando um homem se deita como se fosse mulher ele confunde essa categoria causando confusão e estabelecendo a abominação para YHWH. Por essa razão que o mesmo autor acredita ser a proibição de Levítico 18,22 dirigida ao companheiro penetrado na relação. O estudo de Levítico 20,13 vai mostrar que ambos são condenados, evidentemente atestando um toque redacional na composição textual, mas também indicando para o crime do abuso sexual do penetrador: “A proibição é direcionada ao homem que deseja ser penetrado por outro homem, e somente então o homem ativo na relação se torna culpado por colaborar nesse desejo”.183 No entanto, o mesmo autor, páginas anteriores, escreve que o que a bíblia proíbe é simplesmente o uso do sexo para fazer violência à outra pessoa.
Assim, a violência existe e está relacionada com o ritual religioso e a degradação masculina. A homossexualidade abominável para a comunidade judaica tem sentido quando é colocada diante de um ato religiosamente horrendo diante do povo e de seu Deus. Como, por exemplo, o abuso sexual, mas também, de alguma forma com a mistura das categorias sexuais no papel masculino e feminino.
3. 4. 2 Levítico 20,13
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183 Theodore Jennings Jr. Jacob’s Wound: Homoerotic Narrative in the Literature of Ancient Israel.
Levítico 20,13 é, em sua essência, repetição de 18,22. A tradução apresentada para o verso é essa que segue: e homem que deitar com homem ‘como se deita com mulher’ abominação fazem, os dois devem morrer, são mortos com seu sangue sobre eles.
As expressões que montam o verso em sua parte principal são as mesmas já observadas no item anterior, que são