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Hoca Ahmet Yesevi Türbesi Temel Takviyes

5. TEMEL TAKVİYESİ UYGULAMALARINDAN ÖRNEKLER

5.7 Hoca Ahmet Yesevi Türbesi Temel Takviyes

4. 1 Levítico 18,22 e 20,13 na moldura sócio-religiosa do “Código de Santidade”

Os dois versos apresentados, bem como seus dois capítulos 18 e 20, inclusive o capítulo 19, fazem parte de um bloco temático chamado “Código de Santidade” (Levítico 17-26). Toda a legislação e todo conceito formado a partir dos versos analisados aqui não podem ser desvinculados desse bloco temático. A “santidade” de toda essa legislação religiosa faz referência à proposital distinção em que a comunidade judaica deveria viver. A palavra qdš bem como a fórmula de santidade: santos sereis, pois santo eu sou, YHWH vosso deus (Levítico 19,2; 20,7 e 26) guiam o sentido sócio-religioso de todo “Código de Santidade”. Os versos lembram as ordenanças e orientações do texto sem misturas de práticas religiosas, sexuais, dietéticas e outras. A comunidade deveria se posicionar à parte dos demais grupos sociais do pós-exílio, como observado no capítulo anterior.

Estando os textos 18,22 e 20,13 no “Código de Santidade” não se pode fechar os olhos para duas realidades. A primeira faz referência ao conceito de separação da comunidade de outros grupos étnicos. Essa referência gera na compreensão do texto uma grande dificuldade, pois menciona todas as práticas que não deviam ser observadas, não por serem propriamente detestáveis a YHWH mas, por serem praticadas por demais povos. O que restaura a identidade de Judá no pós-exílio é a sua distinção de outros grupos rivais. Evidentemente essas práticas não eram, como dito acima, detestáveis a YHWH, foram apenas proibidas por serem, em primeiro lugar, práticas de outros povos.

Portanto, o conceito de mistura ou de impureza em relação aos outros está presente no texto. Não havendo mistura entre os povos, não havendo mistura religiosa de forma alguma, não havendo confusão entre YHWH e outros deuses “pagãos”, teria-se uma outra visão de proibição / possibilidade dentro do mesmo “Código de Santidade”. No entanto, há outros conceitos, apresentados neste trabalho, que não poderiam se misturar. Por exemplo, jamais poderia haver mistura das identidades e categorias masculina e feminina no relacionamento sexual. Ou seja, o homem não podia ser penetrado, como se faz com mulher, pois seria abominação. Thomas Hanks afirma, citando Tikva Frymer-Kensky, que o texto condena, em Levítico 18,22 e 20,13, a mistura de fluídos humanos, masculino e feminino.193

Neste mesmo sentido Saul Olyan vai além, ele escreve que o verso 22 do capítulo 18 está no bojo das demais proibições que apresentam os versos 19-23 do mesmo capítulo, pois apresentam a mesma idéia de proibição de fluídos corporais. Sêmen com sangue de menstruação (18,19); o sêmen de dois homens diferentes em uma mulher que comete adultério (18,20); sêmen humano e sêmen animal em uma mulher ou animal fêmea em casos de relação sexual (18,23); e sêmen humano com fezes humanas em (18,22 e 20,13). Assim, pergunta Saul Olyan se esses versos poderiam ser mais um caso de condenação de mistura de fluídos

193 Thomas Hanks. “Clobbering back with the Clobber texts: Taking the bible seriously – Are there

clobber texts in the bible?” Part II: Safer sex before condoms: Leviticus 18,22 e 20,13.

humanos com fezes humanas?194 Vê-se que o conceito de homossexualidade não está presente no texto.

Seja como for, para a maior parte dos autores do movimento gay a suposta condenação homossexual dos textos de Levítico não tem nada a dizer aos homossexuais modernos ou aos homens e mulheres que vivem relacionamentos homoafetivos, pois todo o problema de mistura ou impureza sexual seria dirimido com o uso de preservativos no momento do ato sexual anal entre dois homens. E ainda assim, mesmo sem o uso de preservativos, toda proibição seria nula se o contexto cultural em que vivem os que praticam sexo anal não observasse como abominação a mistura desses elementos. A antropóloga Mary Douglas escreve que: “a idéia de poluição apenas faz sentido em relação a estrutura total dos pensamentos de limites, margens e linhas internas com relação aos rituais de separação”.195 Ou seja, sem a existência desses rituais de separação, é inexistente também o confronto com a abominação em relação a “santidade”. Essa idéia de limites e margens de separação da comunidade, faz lembrar a idéia de Jacob Milgrom, ele escreve que: “apenas os homens que ainda vivem na terra são responsáveis pela observância das leis de Levítico. Ou seja, a proibição não é universal”.196

Em segundo lugar, todo o “Código de Santidade” remete àquilo que seja propriamente religioso. A própria palavra que expressa aquilo que define a prática sexual anal, entre dois homens, como abominação, é uma palavra que claramente expressa algo detestável naquilo que seja religiosamente impuro. Theodore Jennings Jr. escreve que o termo está preocupado com o culto e suas práticas cultuais, essa palavra ajudaria a compreender a preocupação, com as práticas cultuais cananitas, pois envolvem em suas práticas questões sexuais. Não se sabe das práticas cultuais cananitas, mas sabe-se que sexo e culto canane u estavam associados.197 De qualquer maneira, também, abominação é uma palavra que faz

194 Saul M. Olyan. “‘And with a male you shall not lie the lying down of a woman:’ On the meaning

and significance of Leviticus 18:22 and 20:13”. Em: Journal of the History of Sexuality. Nº5. 1997, p.202.

195 Mary Douglas. “The abominations of Leviticus.” Em: Community, Identity, and Ideology. Social

Science Approaches to the Hebrew Bible. 1996, p.119.

196 Jacob Milgrom citado por Thomas Hanks em: “Clobbering back with the Clobber texts: Taking the

bible seriously – Are there clobber texts in the bible?” http://www.othersheep.com 20/02/2005.

197 Theodore W. Jennings Jr. Jacob’s Wound: Homoerotic Narrative in the Literature of Ancient

referência à confusão na ação da mistura de categorias previamente definidas, sejam elas religiosas ou não. Sendo assim, tem-se que a mesma apalavra aponta para a proibição da mistura dos gêneros masculino com feminino e nenhuma proibição que mencione a homossexualidade.

Com efeito, os dois versos de Levítico, presentes no “Código de Santidade”, anulam o conceito de homossexualidade e apresentam um conceito de distinção para aquilo que os separa de outras nações, para aquilo que faz misturar categorias de gêneros sexuais e para aquilo que pertence ao chamado círculo moral-religioso da comunidade judaica no pós-exílio. Em absolutamente nada mencionam os homens que praticam sexo anal com camisinhas ou sem, e muito menos as mulheres que não praticam penetração entre si, e que também não estão envolvidas nos círculos religiosos do “Código de Santidade”. Pode-se concluir com uma citação de Mary Douglas quando escreve que: “‘santidade’ requer que indivíduos se conformem com a classe à qual eles pertencem. ‘Santidade’ exige que classes de coisas diferentes não sejam confundidas”.198

O gráfico apresentado acima ilustra que todo conceito de homossexualidade lido em Levítico, deve também ser lido, em primeiro lugar, na perspectiva do “Código de Santidade” como estrutura fundamental para a leitura dos versos. Deve-se saber que o texto é silencioso quanto à idéia de homoafetividade e igualmente silencioso quanto à homossexualidade em categorias modernas. Logo, a idéia de proibição da relação unissexual não deve ultrapassar essas fronteiras impostas pelo próprio “Código de Santidade”.

À medida que os círculos vão diminuindo, os mesmos vão mostrando a dificuldade textual da proibição dos relacionamentos sexuais entre pessoas do mesmo sexo. Toda e qualquer proibição apenas pode ser lida dentro desses círculos.

4. 2 A preservação da família no “Código de Santidade”

198 Mary Douglas. “The abominations of Leviticus.” Em: Community, Identity, and Ideology. Social

Outra característica fundamental da comunidade judaica do pós-exílio é a necessidade de preservação dos princípios morais, legais e religiosos da família. Tendo em vista a reconstrução da sociedade e a necessidade de repovoação, a comunidade clamava pela preservação da mesma. É nesse contexto que aparecem os textos de Levítico.

Uma possibilidade de compreensão dos versos, favorável à proibição do relacionamento sexual anal entre dois homens, era pelo controle de natalidade decorrente da prática sexual anal masculina. Ou seja, o que a comunidade não precisava naquele momento era justamente da falta de herdeiros e de preferência homens guerreiros. O trabalho de Jacob Milgrom de estudo dos versos 22 e 13 de Levítico conclui que o autor de Levítico tinha uma grande preocupação com a estagnação de produção de filhos. Citado por Thomas Hanks, Jacob Milgrom escreve: “particularmente agora, que a preocupação não é a estagnação da natalidade, mas seu crescimento, é que os versos não poderiam ser aceitos em escala universal”.199

Outra possibilidade de leitura dos textos, que aponta para a defesa da família, é justamente a preservação da figura masculina. O homem que se deita com outro homem como se fosse mulher é rebaixado em sua condição social. Por isso, a figura do homem tinha de permanecer constantemente imaculada em sua glória masculina.

Saul Olyan faz essa leitura dos versos em seu trabalho: With a male you shall not lie the lying down of a woman, seguido por Jerome T. Walsh que escreve o mesmo.200 Ele, Olyan, escreve que ambos os versos se preocupam com o intercurso sexual entre dois homens e acrescenta dizendo que os

199 Thomas Hanks. “Clobbering back with the Clobber texts: Taking the bible seriously – Are there

clobber texts in the bible? Part II: Safer sex before condoms: Leviticus 18,22 e 20,13.” Em:

http://www.othersheep.com. 20/02/2005.

200 Jerome T. Walsh. “Leviticus 18,22 e 20,13: Who is doing what to whom?” Em: Journal of Biblical

Literature. 120/2. 2001, p.204. Saul Olyan. “‘And with a male you shall not lie the lying down of a

woman:’ On the meaning and significance of Leviticus 18:22 and 20:13”. Em: Journal of the History

dois versos, primeiramente, endereçam-se àquele que penetra seu companheiro e que apenas a forma final do verso 13 do capítulo 20 endereça-se a ambos os parceiros. Nisto reside a idéia da culpa cair sobre aquele que comprometa a masculinidade de outro homem, rebaixando-o à condição de receptor ou feminina. No final do seu artigo, Saul Olyan escreve que possivelmente o penetrador era culpado por não se conformar com sua masculinidade e intentar em uma sexualidade diferente, misturando as fronteiras, confundindo as ordens estabelecidas.201

Não se pode perder de vista a idéia de Theodore Jennings, que apresenta o sujeito condenado em 18,22 como sendo o receptivo e apenas em 20,13 ambos serem condenados. Apesar de dissonância na proposta de argumentação fica evidente, pelo menos, que ambos concordam em um aspecto, qual era: de todas as formas não se poderia confundir as ordens de gênero estabelecidas previamente entre homem e mulher. Portanto, é certo que o “pecado” no texto de Levítico era a mistura (confusão) de categorias e não a homossexualidade.

Outro sim, estava estabelecido pela comunidade o papel masculino e feminino na relação. Escreve Gwen Sayler, que: “um homem não poderia tomar o lugar da mulher na relação, em outras palavras, ele deveria ficar em cima e ela em baixo”.202 Portanto, algo ainda bastante comum em dias atuais.

Na leitura que se faz do texto, observando a preservação da família, não se poderia jamais permitir que a figura masculina nos círculos familiares fosse degradada à figura feminina. Não apenas lembrando as “misturas” de gêneros, algo horrendo, mas também sabendo da feminização do parceiro receptivo é que o sexo anal, para o texto, se torna algo condenativo. Se é abominação rebaixar o homem em seu status de poder masculino, fica indiferente a condenação em uma sociedade em que não existe esse tipo de status de poder. A idéia de força imposta pelo penetrador será abordada adiante.

201 Saul Olyan. “‘And with a male you shall not lie the lying down of a woman:’ On the meaning and

significance of Leviticus 18:22 and 20:13”. Em: Journal of the History of Sexuality. Nº5. 1997, p.204.

202 Gwen B. Sayler. “Beyond the biblical Impasse: Homosexuality through the lens of theological

Por fim, Jacob Milgrom escreve que a proibição é apenas válida se houver algum tipo de relação familiar entre os que se envolvem na prática sexual, assim como são proibidas as relações incestuosas nos capítulos que compõem o “Código de Santidade”.203 Veja que o maior problema está concentrado

de fato na subsistência das relações familiares. Mesmo porque as intrigas internas, fossem nos clãs ou nas famílias, criavam fissuras entre os mesmos e os prejudicava depois na procriação, na alimentação e nos negócios. Mais uma vez, se a preocupação do autor é com a preservação da família, em nada menciona o desejo homoerótico em sentido contemporâneo.

4. 3 A violência sexual como “abominação”

Uma possibilidade de leitura bastante aceita nos círculos de interpretação do movimento gay é a idéia que Levítico 18,22 e 20,13 carregam a proibição da violência sexual entre dois homens. Esse tipo de leitura tem como maior articulador Thomas Hanks. Também, ganha maior força de argumentação quando lida juntamente com algumas das pressuposições que foram apresentadas acima, por exemplo: 1) Os versos fazem parte de um contexto de proteção familiar, quando a violência abusiva é crime, ou abominação. 2) A degradação masculina como conseqüência das situações apresentadas pelos versos. 3) Por fim, a possibilidade de leitura de textos em relação com o texto de Sodoma, violência sexual dos moradores aos visitantes, e os versos de Levítico também como violência sexual de um homem a outro homem.

Ainda, a palavra abominação como maior indicadora da relação que o termo faz com níveis cultuais, apresenta uma outra possibilidade de leitura de violência sexual dos textos de Levítico. Com a ordenação de separação das práticas religiosas dos povos vizinhos, os judaitas condenavam nos textos, o que não entendiam corresponder com a vontade de YHWH. Assim, pode-se supor que nos lugares cananitas ou mesmo nos templos em Judá se praticava violência sexual.

203 Jacob Milgrom. Leviticus 17-22. A new translation with introduction and commentary. The Anchor

Thomas Hanks, defensor da idéia da violência sexual, escreve: “era degradante, humilhante e opressivo para um homem se submeter à penetração anal. Para alguém se voluntariar à penetração anal o mesmo deveria transformar a si mesmo em lixo”.204 Ora se a prática era tão humilhante assim a evidência de sua existência nos

templos vizinhos a Judá comprovam certo uso de força em sua prática.

Também, a tradução da palavra

hV'êai

ybeäK.v.mi

sugere algum tipo de violência sexual. Como se deita como mulher indica a clara diferença dos gêneros sexuais a permanecerem distintos. Submeter um homem à condição feminina, como já exposto acima, era sem dúvida um tipo de violência, muitas vezes, possivelmente, não optada pelo penetrado. Quando o texto condena apenas o penetrador no capítulo 18 pode-se sugerir ação violenta da parte de pelo menos um dos parceiros, o que tira qualquer possibilidade de leitura unissexual homoerótica ou mesmo homoafetiva dos textos de Levítico 18,22 e 20,13. Esse é o posicionamento de Thomas Hanks quando defende a idéia da violência sexual em Levítico.

O mesmo autor ainda escreve:

Recentes investigações mostram que as proibições de Levítico 18,22 e 20,13 referem-se à penetração anal masculina desprotegida, citando Saul Olyan e Daniel Boyarin. No Antigo Oriente Médio penetrar um homem sexualmente “como se fosse mulher” era uma forma comum de violentamente humilhar prisioneiros de guerra e estrangeiros. Entretanto, essa prática pode ter se tornado comum entre prostitutos que serviam em cultos pagãos. Provavelmente a palavra tô´ebâ em cada um dos versos de Levítico aponte para o sexo “desprotegido” e ao ato sexual abusivo no contexto de veneração de ídolos.205

204 Thomas Hanks. “Clobbering back with the Clobber texts: Taking the bible seriously – Are there

clobber texts in the bible?” Part II: Safer sex before condoms: Leviticus 18,22 e 20,13.

http://www.othersheep.com 20/02/2005.

205 Thomas Hanks. “Violence to the bible or inspired by the bible?” http://www.othersheep.com

Sendo assim, qualquer prática sexual anal entre dois homens que seja violenta e abusiva é condenada pelos dois versos de Levítico. Todavia, apesar de haver grande discussão na matéria da violência, repete-se: Levítico 18,22 e 20,13 podem ou não falar de violência sexual, mas claramente não falam de relacionamento unissexual.

Entende-se que a possibilidade de haver violência na leitura dos textos 18,22 e 20,13, não necessariamente passa pela idéia de força física, apesar dessa leitura ser possível. O que chama a atenção para a leitura violenta dos versos é a possibilidade de afronta à condição gloriosa masculina e a degradação dessa condição ser ofensiva nos círculos religiosos judaicos. Assim, a mistura dos gêneros, por si só, seria ofensiva à família, à sociedade.

4. 4 A relação unissexual não é proibida

Com a parte final do título anterior pode-se dizer que Levítico 18,22 e 20,13 não mencionam, em absolutamente nada, relacionamentos homoeróticos modernos ou homoafetivos. Pois sabe-se que a proibição, em primeiro lugar, sugere apenas sexo anal, em situações específicas, e não se preocupa com qualquer tipo de relacionamento homoafetivo. Ou seja, não se proíbe masturbação mútua, não se proíbe o sentimento homossexual sem contatos sexuais, não se proíbe sexo oral. Assim, fala-se contra a violência sexual, fala-se contra o abuso sexual, contra a mistura das categorias sexuais bem como sociais, contra a assimilação de práticas semelhantes aos povos vizinhos, contra a destruição da família, mas nada se fala contra o relacionamento unissexual masculino ou feminino.

Uma prova de apoio à argumentação de Jacob Milgrom sobre a proibição ser ou não em escala universal é a total ausência de qualquer menção do relacionamento homossexual de mulheres. Ou seja, não mencionando o outro tipo de relacionamento unissexual declaradamente possível, não se menciona

também a proibição do conceito de homossexualidade em maior escala. O texto proíbe algo que não é, evidentemente, homossexualidade.206

O que fora citado no início por Thomas Hanks faz-se relevante. Levítico sabia nada sobre gays modernos, não sabia nada sobre relacionamentos que mostrassem afetividade e amor que pudessem envolver masturbação mútua, carícias unissexuais, sexo oral e ainda sexo anal com camisinha. A forma como ele termina faz lembrar de algo interessante, a violência aferida a pessoas homossexuais agora é direcionada ao texto, por aquelas pessoas que não levam em consideração o contexto imediato de Levítico. Usar ambos os versos para condenar homossexuais hoje é violentá-los forçando-os a apresentar respostas simples a questões complexas de dias atuais.207

Todavia, um autor que se posiciona em oposição à argumentação de Thomas Hanks e outros biblistas é Robert Gagnon, autor de The Bible and Homossexual Practice: Texts and Hermeneutics. Robert Gagnon apresenta como ponto central argumentativo a idéia de complementariedade dos gêneros no evento da criação em Gênesis. Evidentemente que não apenas Gagnon compartilha do tipo de pensamento que sugere haver sido criados homem e mulher, um para o outro. Pensamento que tem marcado os círculos religiosos cristãos contra a divulgação da liberdade homoafetiva. Os textos estudados no presente (Levítico 18,22 e 20,13) não mencionam essa perspectiva complementativa, porém Robert Gagnon os cita por isso se torna interessante observar a argumentação de Thomas Hanks contra o posicionamento de Robert Gangon.

Em primeiro lugar é importante notar, escreve Thomas Hanks, que até mesmo Robert Gagnon aceita a proposta de Saul Olyan, quando este último escreve que os textos de Levítico mencionam apenas sexo anal entre dois homens. Proposta também aceita por Marti Nissinem, Jacob Milgrom e Daniel Boyarin. Depois uma grande dificuldade encontrada no trabalho de Robert Gagnon é

206 Entre outros, Thomas Hanks é um autor que menciona esse tipo de argumentação. “Violence to the

bible or inspired by the bible?” http://www.othersheep.com 20/02/2005.

207 Thomas Hanks. “Violence to the bible or inspired by the bible?” http://www.othersheep.com

sua incansável menção à ho mossexualidade em relação aos textos. Como se os textos também citassem o relacionamento homossexual feminino.208

Como mencionado acima, a maior crítica de Robert Gagnon aos textos que supostamente proíbem o relacionamento homoerótico é a argumentação da discomplementariedade que apresentam os textos de Levítico, algo que fere a ordem da criação. Robert Gagnon escreve: “o que os homens quiseram fazer em Sodoma fora justamente romper com o mandato da complementariedade dos dois sexos”. Em relação aos textos de Levítico, Robert Gagnon escreve: “a proibição é a confirmação da vontade de Deus contra a junção homem-homem, que