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1. ETİK VE ETİKLE İLGİLİ KAVRAMLAR

1.7 Etik Kuramlar

No extrato (1), a realização do desacordo ocorre após uma apreciação positiva do participante M sobre a mudança feita no cartão [“mudamos bem perfeito”] e uma imposição, expressa por elemento não linguístico [<apontando>], do ponto onde ele queria que fosse impresso o nome do órgão. O desacordo começa com o participante I, (turno 7), e se estende em uma sequência de recusas.

O desacordo de I é estruturado com o uso do modo declarativo no extremo polar negativo não, seguido do adjunto conjuntivo adversativo, mas, introduzindo

comando, com repetição do enunciado que indica o lugar para figurar o nome do órgão. A participante T se alinha ao posicionamento de I, estruturando seu desacordo com o adversativo “mas”, seguido de processo material no modo imperativo, ratificado com a repetição do comando, no turno 12. No turno 9, o participante M concorda com T, estruturando seu acordo com repetição do enunciado anterior, seguida do adversativo mas, introduzindo outra sugestão, sendo novamente recusada pelos participantes no turno 10, com o adjunto de extremo polar negativo “não”.

Podemos observar que o acordo de M para com T é expresso com a repetição de parte do enunciado anterior. Esse tipo de acordo, segundo Pomerantz (1987), engendra sequência de desacordo, e uma possibilidade de resposta é a reafirmação da avaliação anterior, isto é, do desacordo feito de forma mais intensa. De fato, isso ocorre no turno 10 e continua nos turnos seqüenciais.

No turno 16, M discorda do posicionamento dos participantes e faz nova imposição, seguida de justificativa, que é uma contingência da projetabilidade de objeção dos participantes quanto à determinação do local para a impressão do CRECI. A contingência é, segundo Ford (2004), a possibilidade de algo acontecer na fala e é dependente das exigências de atividades colaborativas em momentos específicos da interação. Uma das formas de sua manifestação é a projetabilidade, isto é, a habilidade, no momento, de o falante estender a fala para fornecer, por antecipação, aspectos possíveis e até prováveis da fala ainda a vir. O resultado da contingência é expresso pelas vozes extravocalizadas por M, em seu papel de animador: (a) a voz de alguém não especificado, turno 14, [“É não estavam querendo colocar o CRECI”]; (b) a voz de um dos participantes [“Era coisa do J., embaixo do nome”]; e (c) a da firma impressora, turno 16 [“...o cara vai lá e”]. As vozes são recursos que constituem a justificativa de M, para impor sua vontade.

O participante Mt aprecia negativamente o cartão, a respeito do que julga ser excesso de informação. O desacordo é expresso pelo modo declarativo, com adjunto adversativo “mas” e o conjuntivo “que”, reforçado pela repetição do processo relacional estar, pelo uso do epíteto atitudinal “poluído” e do adjunto de comentário

francamente” (turno 17). Como alternativa, o participante R faz uma sugestão (turno

18) que, embora modalizada [“eu acho”], intensifica-a com ao usar o epíteto atitudinal “horrível” para a apreciação da expressão ‘consultor imobiliário’, impressa no cartão (turno 20).

A participante T se alinha à sugestão de R (turno 19) e desafia a interrogativa de M (turno 21) com força ilocucionária de pedido de confirmação, por meio de uma pergunta retórica que traduz, em termos verbais, o que M apresenta em linguagem não verbal: <mostrando boneco novo>, isto é, repete a sugestão. Ao desafio, é acrescido por R um comentário metadiscursivo avaliativo retrospectivo, no nível textual [“por que é óbvio”], atraindo a atenção dos participantes para a relação que

deseja estabelecer entre o objetivo do enunciado e a vontade de M em escrever a expressão ‘corretor imobiliário’, no cartão. Ao fazer essa escolha, R incita o humor irônico ao apontar uma informação óbvia e, portanto, desnecessária no cartão, provocando o riso dos participantes.

Ao estudar a função do humor em contextos institucionais e em ambiente de trabalho, Holmes (2000) diz que o humor em interações de relações desiguais pode facilitar ou "licenciar" intenções comunicativas interpessoais negativas. Segundo a autora, o humor pode ser usado pelos subordinados como um instrumento discursivo de crítica ou insulto, funcionando para facilitar o desafio às necessidades positiva e negativa de face do interlocutor. Assim usado, ele fornece ao subordinado uma forma aceitável para o desafio ao status quo, questionando a validade ou rigor das afirmações de um superior, ou vestindo um ataque insultuoso à face positiva deste, com uma pretensa brincadeira. Neste caso, o humor constitui-se em uma estratégia legitimadora nas tentativas de subverter o discurso repressivo e coercitivo dos superiores.

O humor na interação, diz Drew (1987), pode ser entendido como uma forma de controle social de menor transgressão conversacional, levando os participantes a se engajarem na ação. É uma forma de comportamento coletivo de reação em concordância.

De fato, a análise cumulativa das escolhas linguísticas do participante R, ao longo da reunião revela tanto a presença de um humor mordaz e de confronto a Mt quanto certa negatividade em relação à filosofia de trabalho da empresa. São várias as ocorrências dessa escolha por parte de R, outras, inclusive mais confrontacionais que a utilizada como exemplo. Talvez essas escolhas devam-se ao fato de ele ser irmão de um dos donos da imobiliária e, como tal, sentir-se no direito de licenciar desafios à estrutura de poder que opera na empresa.

O extrato analisado evidencia sequência de desacordo explícito e complexo realizado por parte dos corretores para com o diretor. A complexidade se configura

pelos recursos léxico-gramaticais que estruturam o desacordo: uso de intensificadores como repetição do enunciado ou de parte dele, de imperativo e de expressão de humor, técnicas que intensificam o desacordo, permitindo classificá-lo como agravado.

A discordância sobre esse tópico estende-se até o turno 94 e é ratificada pelos participantes, que se alinham formando alianças na recusa à imposição do novo layout do cartão e na insistência da ratificação de seus valores sociais sobre um objeto que é instrumento de apresentação profissional. Interpretamos, portanto, que a função subjacente à materialização desse desacordo é a legitimação da identidade profissional.

Na sequência da interação, M informa os resultados dos anúncios publicados durante o mês e apresenta a proposta de fazer um anúncio ‘colcha’,37 em parceria

com uma instituição financeira para projetar a imagem da empresa. Os corretores discordam, por meio de uma sequência de comparações avaliativas entre a imobiliária onde trabalham e as concorrentes: