Embasados na teoria social de Marx, trabalhamos a cultura e a arte partindo da categoria fundante do ser social: trabalho. Partimos desta perspectiva por entendermos que o trabalho é categoria central para a humanidade, que se relaciona com todas as esferas da vida.
Buscamos elucidar a trajetória histórica, social, política e cultural do movimento hip-hop no Brasil, desde seus primórdios nos EUA até a sua chegada em nosso país. Entendemos com isso as várias nuances e transformações deste movimento, composto em sua maioria por jovens, que acompanhou as transformações conjunturais mundiais, sem perder de vista as particularidades da cultura local em que se inseria.
Nesta trajetória expusemos o motivo pelo qual colocamos o hip-hop como um movimento politico-cultural, apontando que além de uma cultura é também um ato político. É cultural, pois o formato do hip-hop caracteriza a identidade de um grupo, que inclui cinco formas de artes diferentes, uma vestimenta, um modo de falar e uma postura que lhe são particulares. E é político pelo seu caráter histórico, pela conjuntura que nasce, pelo que defendem e pelos movimentos sociais e lutas que muitos dos participantes fazem parte. Ou seja, caracterizamo-lo como um movimento político-cultural, pois utiliza de expressões artísticas para se expressar, se organizar, lutar e ter visibilidade.
Trabalhamos os cinco elementos do hip-hop - break, rap, dj, grafite e conhecimento - como uma forma de arte. Estes, de alguma maneira, principalmente para os hip-hoppers podem e devem ser considerados arte, pois apesar de partirem de um cotidiano muitas vezes alienado e com pouca superação da realidade, o que eles nos mostram em seus trabalhos é realista. Para Lukács toda arte é sempre realista e é algo que não é alheio e nem estranho a realidade que eles vivem; também se mostra como uma forma possibilitadora do homem se afirmar sobre o mundo exterior. Nas entrevistas que analisamos, essa foi uma questão importante, visto que o sarau cultural se mostrou enquanto uma forma do homem se afirmar e ter voz.
Talvez pela sua imediaticidade, principalmente do rap, não possa ser considerada, partindo de uma perspectiva ontológica, uma forma de arte – em todos
os sentidos -, pois não supera a imediatez da realidade. Porém a forma dele se comunicar com as pessoas que fazem parte da realidade colocada, pode e possibilita aos ouvintes - sujeitos que fazem e vivem o que é colocado em suas letras - uma possiblidade de reflexão e de identificação de um grupo.
No Brasil pudemos ver a importância do hip-hop para os jovens da periferia, principalmente da cidade de São Paulo e como este foi sendo inspiração para outros movimentos o que permitiu desdobramentos desencadeando, por exemplo, na emersão dos saraus. Os anos 2000 foi uma época em que começou a haver uma mudança ideológica no movimento hip-hop e a ser incorporado pelos meios de comunicação de massa sendo focalizado em sua parte estética e comercial.
Há um reflexo também na sociabilidade da juventude que é diariamente bombardeada pelo capitalismo, pela sociedade de consumo. Por isso, a noção de política dentro do movimento se torna algo distante em alguns grupos.
As periferias, berço desse movimento, ganham cada vez mais visibilidade na mídia e na sociedade. A grande mídia explorou as zonas periféricas, porque vislumbrou uma forma de ganhar dinheiro e, através de suas telenovelas, filmes e séries se utilizam de grupos do hip-hop, de seus trejeitos, modos de se vestir, se portar e de falar de uma forma mercadológica. Ao mesmo tempo, disseminam em seus telejornais a periferia enquanto um lócus do perigo. Por conta dessa dicotomia, os rappers, grafiteiros, djs e b-boys, se mostram com um discurso menos politizado se comparado ao começo.
Atualmente, com a invasão das práticas neoliberais e a crise estrutural do capital, a cultura e a arte passaram a ser vistas como um negócio.
Como negócio, a alta cultura passou a seguir a lógica especulativa do capital financeiro. Ela deixou de ser um bem público e passou a ser um ativo financeiro à espera de valorização. Os bancos e os especuladores do mercado de capitais rapidamente converteram-se aos encantos da obra de arte, atraídos pelo seu valor de troca em permanente valorização e não pelo seu valor de uso. (FREDERICO, 2013, p. 247).
Ao mesmo tempo que encontramos uma perspectiva crítica e transformadora no hip-hop, encontramos também a arte pela arte, sem aprofundamento, reflexão e sem perspectiva transformadora.
Por conta desses fatos e da conjuntura sócio-histórica atual de retração do Estado, a periferia começou a criar novas possibilidades de viver a cultura e a arte e, neste caso, especificamente, a sua cultura.
Isto posto, os saraus culturais também entram na perspectiva de arte, pois se tornam uma forma do homem se conectar com o gênero humano. Neste espaço, as pessoas se reconhecem como autores do que produziram e podem ver na fala do outro a sua própria realidade. Esta questão apareceu nas entrevistas de forma clara. Além deste aspecto, os saraus vão contra a ideia da pós-modernidade já que por detrás dele há o interesse e um reconhecimento de classe, uma valorização da história, principalmente da história dos negros e não há uma naturalização da questão social.
Apesar disso, tanto os saraus quanto o hip-hop estão impregnados da cultura e dos ideais burgueses. Marx e Engels (2010) discorrem “A classe que tem à sua disposição os meios para produção material dispõe também dos meios para a produção espiritual e, por isso, as ideias dos que carecem dos meios necessários para a produção espiritual estão geralmente subordinadas à classe dominante.” (p. 113). Por isso, a classe que possui os meios de produção material acabam por impor a toda a sua sociedade as suas ideias de uma forma hegemônica. Isto se materializa nas falas, em alguns comportamentos e até mesmo na forma de apresentação do sarau em que realizamos a pesquisa.
Essa dicotomia do movimento ocorre, pois
(...) a processualidade histórica é contraditória e desigual, portanto, ao mesmo tempo em que cria as possibilidades efetivas para realização de tais valores coloca limites concretos ao seu desenvolvimento e efetivação. Do mesmo modo em que determinados valores que representam conquistas históricas da classe trabalhadora são apropriados ideologicamente pela classe dominante na sua universalidade formal, são também limitados em sua efetividade real. Estamos nos referindo à própria democracia, à cidadania, à justiça social que, embora representem conquistas históricas, sua ampliação e desenvolvimento encontram limites concretos postos pela sociabilidade burguesa. (BRITES, p. 57, 2013)
Ao longo deste trabalho pudemos perceber que o hip-hop, apesar de algumas críticas, é um movimento politizado que se insere nos saraus culturais em uma perspectiva de somar e de fazer daquele espaço seu. O hip-hop está presente e soma na discussão política através da poesia, da música, enfim, através da arte, caracterizando-se enquanto referência para os saraus culturais.