Dentre 1.191 escravos arrolados na amostra pesquisada, 508 (42,7%) encontram-se unidos por algum vínculo de parentesco. Essa alta porcentagem de cativos inseridos em núcleos familiares sugere a existência de vínculos familiares estáveis entre os escravos. Todavia, a constatação da ocorrência de laços familiares entre os cativos, por si só, não é capaz de assegurar a existência de relações familiares sólidas ancoradas no tempo. Para além dessa constatação, é necessário seguirmos as famílias ao longo do tempo a fim de verificarmos quais as possibilidades de manutenção ou fragmentação desses laços. Nesse sentido, o estudo das partilhas dos inventários post-mortem permite acompanharmos o destino das famílias cativas quando da morte de seus senhores e, assim, investigarmos quais as esperanças e perspectivas que os escravos aparentados poderiam ter de permanecerem juntos. Afinal, o fim da vida de um senhor era o início de um período de incertezas para os escravos329.
José Flávio Motta e Agnaldo Valentim destacam as limitações metodológicas dos inventários post-mortem para o estudo da estabilidade familiar cativa. É possível que algumas separações ou mesmo permanências familiares após a partilha fossem apenas aparentes. Em algumas ocasiões os desfechos descritos pelo documento eram reajustados entre os herdeiros. Ainda que na partilha constasse a separação ou permanência de uma família escrava teríamos apenas um indício apontando para a ruptura efetiva. Isso não significa que todas as separações nos núcleos familiares cativos sugeridas em um processo de inventário são rupturas apenas aparentes, mas algumas realmente poderiam sê-lo330.
Havia ainda situações em que os escravos aparentados (supostamente separados na partilha) eram legados a herdeiros que coabitavam a mesma propriedade, como no caso de beneficiários menores. Nessas situações certamente os escravos não teriam a convivência cotidiana interrompida. Os herdeiros poderiam ainda morar
329
FLORENTINO; GÓES, 1997, p. 115.
330 MOTTA, José Flávio; VALENTIM, Agnaldo. A estabilidade das famílias em um plantel de escravos em Apiaí (SP). Afro-Ásia, n.27, p. 161-192, 2002.
próximos uns dos outros, embora não habitassem a mesma propriedade. O que significa dizer que no dia a dia os escravos poderiam continuar vivendo com suas famílias ou muito próximos a elas331.
Outra situação que dificulta inferir o destino dos escravos após a morte do senhor era quando o escravo pertencia a mais de um senhor. O valor do escravo era dividido entre os herdeiros (sabemos que se trata apenas de uma transação financeira). Mas os inventários não permitem saber, de fato, com quem ficou o escravo. O caso da escrava Isabel exemplifica essa situação. Em 1864 D. Joanna Maria da Conceição faleceu. Possuía sete escravos – dentre eles Isabel – a serem partilhados entre seus dez herdeiros. Após a partilha de seus bens metade da escrava Isabel coube à meação do viúvo inventariante e a outra coube a sua filha Maria Francisca de Jesus. Assim não foi possível saber com quem realmente ficou a dita cativa. Apesar dessas ressalvas, consideramos o estudo das partilhas um passo importante na tentativa de conhecer as possibilidades de estabilidade familiar entre os escravos. Passemos então a avaliação do impacto da morte dos senhores sobre os núcleos familiares cativos em Vitória na segunda metade do Dezenove.
No total foi possível identificar 131 grupos familiares, reunindo 508 escravos aparentados. Dentre estes núcleos familiares, 78 correspondem a famílias matrifocais e o restante (53) a nucleares. As primeiras referem-se às relações consensuais e às mães solteiras e viúvas e o segundo as uniões sancionadas pela norma eclesiástica. As informações obtidas desta análise apresentam-se agrupadas em três categorias: totalmente unida, parcialmente unida e totalmente separada, conforme se observa na Tabela 19 a seguir:
Tabela 19 - Estabilidade familiar cativa após a partilha – Vitória - 1850-1871
Tipos de
famílias Planteis
Famílias Totalmente
unida Parcialmente unida Totalmente separada informaçãoSem Total
Matrifocais 1-9 38,1% 19,0% 28,6% 14,3% 100,0% (21) 10-19 16,7% 16,7% 66,6% 0,0% 100,0% (6) + de 20 57,0% 17,6% 17,6% 7,8% 100,0% (52) Nucleares 1-9 37,5% 37,5% 0,0% 25,0% 100,0% (8) 10-19 0,0% 0,0% 0,0% 0,0% 0,0% (0) + de 20 84,5% 11,1% 4,4% 0,0% 100,0% (45) Total 60,3% 16,8% 16,0% 6,9% 100,0% (131)
Fonte: Inventários post-mortem (1850-1871).
Um expressivo contingente de famílias cativas conseguiu passar incólume pelo momento da partilha dos bens dos seus senhores, embora algumas delas tenham sido total ou parcialmente separadas. De modo geral, as famílias que permaneceram totalmente unidas perfizeram um total de 60,3%, as parcialmente unidas somaram 16,8% e as totalmente separadas 16,0%. As famílias matrifocais presentes nas médias escravarias (entre 10 e 19 cativos) foram as responsáveis pelos menores índices de permanência familiar, atingindo um total de 16,7%. É possível supor que a pequena amostragem analisada (apenas seis casos) contribuiu para a distorção dos índices.
Nas escravarias menores (entre 1 e 9 cativos) observam-se índices significativos de permanência familiar, tanto entre os núcleos familiares nucleares quanto os matrifocais, perfazendo, respectivamente, 37,5% e 38,1%. Por outro lado, nesta faixa de tamanho de plantel, nas famílias matrifocais a porcentagem das totalmente separadas atingiu o índice de 28,6%, ao passo que nas nucleares não se encontrou nenhum caso. As famílias nucleares apresentaram maiores índices das parcialmente unidas em torno de 37,5% em comparação com as matrifocais 19,0%. Para os
cativos inseridos em pequenas escravarias as possibilidades de estabilidade familiar eram maiores quando estes integravam famílias nucleares.
O maior índice de permanência familiar após a partilha encontra-se entre as famílias nucleares presentes nos plantéis com mais de vinte cativos, índice que alcançou 84,5%. Nas famílias matrifocais inseridas nesta faixa de tamanho de plantel a permanência familiar também atingiu índices significativos: em torno de 57,0%. Ainda nesta faixa de tamanho de escravaria encontram-se índices maiores de separação familiar nos núcleos familiares matrifocais (17,6%) em comparação com as famílias cativas nucleares (4,4%). Uma vez mais, esses dados indicam que as famílias cativas legitimadas pela norma eclesiástica tinham maiores chances de permanência familiar após a partilha, sobretudo quando se encontravam inseridas em escravarias maiores (com mais de vinte cativos).
Os dados levantados nessa pesquisa confirmam os argumentos de historiadores como Manolo Florentino e José Roberto Góes para os quais nos pequenos plantéis (com até nove cativos) a estabilidade familiar cativa era menor. Entre os anos de 1790 e 1830 no agro fluminense nas pequenas escravarias o percentual de famílias que permaneceram unidas variou entre 55,5% para os plantéis com até quatro cativos e 78,5% para os plantéis entre cinco e nove cativos332.
Heloísa Teixeira também encontrou cenário semelhante ao estudar a região de Mariana/MG, no período compreendido entre 1850 e 1888. De acordo com as informações obtidas em sua pesquisa, mais da metade (51,2%) das famílias cativas conseguiram permanecer unidas após a divisão da herança senhorial, ao passo que apenas 7,9% foram totalmente separadas. As maiores possibilidades de estabilidade familiar cativa também se encontravam nas famílias nucleares inseridas nos plantéis contendo entre seis e dez escravos. Nestas condições os índices de permanência familiar atingiram o patamar de 69,6%. A legitimação do matrimônio possibilitava maior proteção aos escravos aparentados333.
332 FLORENTINO; GÓES, 1997, p. 238. 333 TEIXEIRA, 2001, p. 133.
Na segunda metade do século XIX em Vitória o momento da partilha dos bens dos senhores não significou necessariamente o esfacelamento do universo familiar cativo. Um número razoável de famílias conseguiu contornar esse obstáculo e continuou unida. Ao que parece antes da Lei de 28 de setembro de 1871 proibir a separação de casais e de pais e filhos menores de 12 anos (em qualquer caso de alienação ou transmissão de escravos) a prática entre os senhores de Vitória já era a de preservar os núcleos familiares nas partilhas, sobretudo os casais legalmente constituídos e as mães com seus filhos menores. Cristiany Rocha já havia chamado a atenção para a prática verificada entre os senhores de escravos de Campinas/SP de manterem os núcleos familiares cativos após a partilha. Desse modo, a Lei de 28 de setembro de 1871 somente veio a formalizar uma prática já recorrente entre os senhores campineiros334.
A análise quantitativa permitiu esboçarmos os padrões gerais de manutenção e dispersão dos laços familiares cativos após a partilha dos bens dos senhores em Vitória na segunda metade do século XIX. No intuito de apreendermos detalhes que escapam ao olhar quantitativo, mas que enriquem a compreensão do objeto de estudo, dedicamo-nos nas próximas páginas ao exame mais detalhado de algumas partilhas de herança senhorial. Privilegiamos a análise daquelas em que foi possível – por meio do método de cruzamento de fontes, incluindo os inventários, os testamentos e os registros paroquiais – observar a família cativa ao longo do tempo. O cruzamento de informações de documentos diversificados reveste-se de importância na medida em que possibilita a ampliação do conjunto das relações familiares entre os cativos.