7. Tasavvufun Maddi Unsurları
5.3. Fazilet-i Zikir
Durante a história, a relação entre a Arquitetura, a técnica e a arte foi discutida em vários pontos de vistas, muitas vezes divergentes.
Em alguns momentos da história, a Arquitetura pareceu estar fortemente ligada ao conhecimento tecnológico construtivo de sua época (BENEVOLO, 2005; FRAMPTON, 2008). Em outros momentos, a Arquitetura pareceu fortemente ligada a um conhecimento sensível e artístico do arquiteto/indivíduo (COSTA, 1952; NORBERG-SCHULZ, 1968). Parece haver um persistente problema epistemológico sobre a forma que a Arquitetura é realizada. A Arquitetura é técnica ou arte? É um artefato utilitário para o indivíduo/usuário ou uma expressão cultural do indivíduo/arquiteto? Ou ambas as coisas?
O problema epistemológico surge do aparente dualismo entre arte e técnica. Dualismo que surge é fomentado e debatido em vários momentos da história. O conceito de arte do presente trabalho está relacionado a um conhecimento sensível, estético e metafísico. Já o conceito de técnica está relacionado a um conhecimento prático que nos permite realizar certas atividades.
Ao examinarmos a etimologia das palavras técnica e arte, percebemos que o dualismo
técnica x arte parece que nem sempre existiu, ou pelo menos, nem sempre existiu
claramente. A palavra técnica tem origem na palavra grega tekné, cuja tradução é arte. Portanto, tanto a técnica quanto a arte tem suas origens etimológicas comuns. O surgimento, na Grécia antiga, do conceito técnica (ou arte) buscou representar nossa
habilidade do fazer, articulada com as demais atividades da realidade cultural e social de uma época.
Apesar da etimologia das palavras técnica e arte apresentarem origem comum, os significados das palavras foram ganhando caminhos diversos ao longo da história. Já na Grécia antiga surgiram discussões sobre possíveis inconsistências e divergências sobre o significado do conceito tekné. A principal ideia que discute a questão na época é a teoria da inspiração de Platão.
Em seu trabalho Íon, Platão descreve o diálogo de Sócrates com o rapsodo Íon. Os rapsodos eram indivíduos que, na sociedade grega da época, declamavam poemas para um público, principalmente poemas épicos de Homero. Homero ocupava uma posição central na cultura dos gregos, sendo referência da concepção do conhecimento humano até então. As festividades em que estas declamações aconteciam mobilizavam toda a sociedade e o rapsodo tinha papel de destaque nas mesmas. O rapsodo não se limitava a declamar e encenar o poema, mas também interpretava e explicava os sentidos das palavras do poeta. Uma vez que a sociedade grega antiga era fortemente oral, as interpretações do rapsodo assumiam uma função de transmitir e fornecer as principais referências, parâmetros, costumes e procedimentos para a coletividade. E isto incluía também, a função de transmitir os procedimentos técnicos. Nos poemas podiam ser descritos, por exemplo, os procedimentos para pescar, para praticar a medicina ou mesmo para cavalgar com maestria:
“...y tú inclínate en el fuerte asiento hacia la izquierda y anima con imperiosas voces al corcel del otro lado aflojándole las rendas. El caballo izquierdo se aproxime tanto a la meta, que parezca que el cubo de la bien construida rueda haya de llegar al tronco, pero guárdate de chocar con la piedra...” (HOMERO, 2003, p. 635, XXIII,
334.)
No diálogo com Íon, Sócrates questiona o rapsodo sobre o motivo de ele ser o mais capaz de falar sobre Homero e não ter interesse e capacidade de falar sobre os demais poetas que tratam do mesmo tema, mas de outro modo. Íon conclui que não possui esta capacidade ampla porque possui uma inspiração divina, sabendo diferenciar os poemas inferiores, apesar de não os conhecerem. Platão também questiona, principalmente, o motivo que faz o rapsodo acreditar ser o mais hábil para falar e interpretar as artes de
ofícios descritas nos poemas. Íon conclui que, através desta inspiração divina era capaz de falar com excelência dos assuntos abordados nos poemas, inclusive os procedimentos técnicos. Este mito da inspiração poética é conhecido como teoria da inspiração de Platão. A teoria da inspiração estabelece uma cadeia articuladora entre a Musa, figura mitológica onividente e onisciente, inspiradora das artes e da ciência, e os sucessivos inspirados: o poeta, o rapsodo e a plateia. No diálogo, Íon defende que é sua ligação a cadeia inspiradora e não o conhecimento técnico que o faz o melhor louvador e comentador dos temas dos poemas de Homero. Defende ainda que é esta inspiração divina que faz Homero melhor descrever os mais diversos assuntos em seus poemas. Esta visão destaca uma visão de possessão, delírio e passividade no fazer artístico, e, segundo muitas das interpretações dos textos de Homero, é contrário ao apresentado pelo poeta, onde o indivíduo seja este um cantor, um médico ou um cocheiro, apesar da inspiração da Musa, tem plena consciência e conhecimento técnico do seu ofício. No diálogo, Sócrates argumenta nesta direção: o artista, ao praticar sua arte deve buscar dominar o conjunto da mesma, tanto o que nela há de excepcional, ou “superior”, quanto o que há de medíocre, ou “inferior”.
A figura de Íon representa a ideia da arte como faculdade superior do individuo ligado diretamente ao divino. Esta ideia parece ter ganhado força no século XV, com o surgimento das academias de arte. As academias de arte são consequências das mudanças trazidas do período histórico conhecido por Renascimento. Apesar das dificuldades de definição das características do período (MELVE, 2006), o consenso nas pesquisas históricas é que o Renascimento representa um importante e decisivo momento de mudanças culturais, sociais, econômicas, políticas e religiosas na nossa civilização. As ideias clássicas da Antiguidade foram redescobertas e valorizadas. O pensamento escolástico medieval foi substituído por um pensamento humanista. Estas mudanças afetaram profundamente a vida intelectual da Europa, permitindo avanços em várias áreas do conhecimento como artes, filosofia e ciências. A ciência avançou nas explicações racionais sobre o mundo natural, fundamentadas em teorias físicas e matemáticas. Algumas discussões passam a reivindicar uma separação da arte e da técnica.
As teorias de arte surgidas no Renascimento definiram a arte como fruto de um trabalho reflexivo individual, conferindo superioridade ao seu autor. O artista passa a ser considerado e valorizado com um indivíduo com habilidades intelectuais superiores. Para
esta valorização, a arte é categorizada: os trabalhos frutos da habilidade intelectual definem uma arte superior; os trabalhos frutos de habilidades técnicas definem uma arte inferior.
As artes superiores são associadas aos sentidos humanos da visão, tato e audição, sentidos estes considerados superiores. A pintura, a escultura, o poema e a música são incluídos nas categorias de arte superior. Esta mudança e valorização do artista podem ser personificadas através de Michelangelo Buonarroti. Michelangelo nasceu na Itália e viveu de 1475 a 1564. Ele desenvolveu trabalhos de pintura, escultura, poesia e arquitetura. Era considerado o maior artista de sua época e tem importância fundamental na história e teoria da arte. Michelangelo reivindicou uma independência criativa. O prestígio de seu trabalho o fez ser considerado iluminado e tocado pelo divino.
Assim, o artista passou a ser visto como um gênio individual, isolado e independente do mundo cotidiano, incompreendido, a frente do seu tempo, livre das obrigações sociais e morais de sua época, preocupado apenas com a expressão de si mesmo. O artista é separado do artesão, do mestre de ofício, ou seja, a arte é, de certo modo, separada da técnica na visão moderna5
do artista.
A discussão teórica sobre a arte iniciada no Renascimento envolveu a Arquitetura. Até o Renascimento a Arquitetura era entendida principalmente como uma arte aplicada, voltada para o mundo cotidiano, que produzia objetos úteis ao homem: objetos para moradias, objetos para facilitar as relações sociais, objetos simbólicos com significados. O objeto arquitetônico era um artefato. O arquiteto era o indivíduo tanto artista quanto mestre de um ofício: o ofício da construção do objeto arquitetônico. No Renascimento foi defendida uma nova condição teórica e epistemológica para a Arquitetura, com o objetivo de reivindicar a posição de artista superior ao arquiteto, utilizando para isto do suposto dualismo arte x técnica.
Os novos meios surgidos com o desenvolvimento científico e com a nova condição cultural permitiram novas possibilidades na relação sujeito-objeto. Com isso, buscou-se o
5
O termo moderno é usado aqui relacionado a periodização da história, ou seja, a divisão de períodos históricos para fins didáticos. O termo moderno está relacionado com a era moderna da história, período que tem o Renascimento como um de seus eventos inaugurais.
reposicionamento da condição do arquiteto (sujeito) através da reivindicação do Arquitetura (objeto) como arte superior. Ao classificar o objeto, os renascentistas parecem propor uma essência para Arquitetura. Mas, ao discutimos o princípio e origem lógica de um objeto, devemos tratar dos aspectos do objeto em si mesmo, ou seja, dos aspectos objetivos. O que parece ter sido a motivação das teorias arquitetônicas renascentistas não foi o objeto arquitetônico em si mesmo, mas sim o sujeito que faz o objeto, levando a discussão para os aspetos psicológicos. Esta abordagem trouxe importantes consequências na relação sujeito-objeto influenciando o entendimento de como acontece a concepção arquitetônica. Uma das hipóteses deste trabalho é que o conhecimento construtivo faz parte da origem lógica ou natureza da concepção arquitetônica. O Renascimento parece romper com este raciocínio. Para analisarmos a questão, é importante compreendermos como o objeto arquitetônico foi pensado e percebido ao longo da história. Isto aconteceu através de tratados.