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Curiosamente, a religião pode servir de repressora à voz que vem da interioridade humana. A religião, quando entendida de modo superficial – ou usada de maneira defensiva – transfere o sagrado para fora do sujeito. Para o céu, como se tivéssemos de olhar para cima para encontrar Deus. Um Deus que, em geral, é unilateralmente patriarcal, punitivo e repressor da espontaneidade, da sexualidade e da agressividade criativas que viabilizam a individuação. Sacraliza, assim, a religião defensiva, um sistema de regras e comportamentos que, pela lógica de crime e castigo, é interiorizado e idealizado. Os conteúdos da personalidade que não correspondem ao ideal religioso são, então, reprimidos50, recalcados51 e relegados à sombra. Tal Deus é equivalente ao superego52 freudiano. A totalidade do sujeito

torna-se fragmentada e sua força afirmativa recalcada converte-se em sintomas cujo significado é inconsciente. No dizer de Friedrich Nietzsche (1980), o homem se transforma em um animal doente53. Esse sistema enfraquece a árvore da vida como

uma praga, em vez de nutri-la.

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A repressão ocorre quando “afastamos determinada coisa do consciente, mantendo-a a distância” (FREUD, 1974, p. 169). O fundador da Psicanálise dizia que a repressão falha, quando não impede “que surjam sentimentos de desprazer ou ansiedade” (Id. Ibibem, p. 177).

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Recalque é o produto da repressão. O material recalcado é uma parte do inconsciente que foi excluída do campo da consciência, porque não condiz com o seu ego ideal. O recalque evita o sofrimento do ego (cf. Hanns, 2004).

52 Superego é o repressor do ego. Para a Psicanálise, é uma estrutura mental que se forma a partir da

dissolução do complexo de Édipo e que é ampliada através de introjeções que constroem o arcabouço das exigências sociais e culturais. “O superego retém o caráter do pai, enquanto que, quanto mais poderoso o complexo de Édipo e mais rapidamente sucumbir à repressão (sob a influência da autoridade, do ensino religioso, da educação escolar e da leitura), mais severa será posteriormente a dominação do superego sobre o ego, sob a forma de consciência ou, talvez, de um sentimento inconsciente de culpa” (FREUD, 1980, p. 49).

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Friedrich Nietzsche (1844-1900), filósofo alemão influenciado por Arthur Schopenhauer, foi um grande pensador do século XIX e crítico atroz da moral judaico-cristã. Entre outras obras, escreveu Assim Falou Zaratustra e Além do Bem e do Mal. No livro A Gaia Ciência, fala do homem como animal doente: “É precisamente enquanto animais domésticos que somos um espetáculo escandaloso e necessitamos da fantasia moral. O ‘homem interior’ na Europa não é suficientemente inquietante para poder se mostrar com sua ferocidade (para que ela o torne belo). O europeu se fantasia, então, com a moral por ter-se tornado um animal doente, enfermo, estropiado, que tem boas razões para ser ‘domado’, pois é um aleijão, alguma coisa imperfeita, fraca e cambaia. [...] O adorno moral ridiculariza o europeu – admitamo-lo! Para distingui-lo, dar-lhe importância, aparência, para torná-lo ‘divino’”. (NIETZSCHE, 1980, p. 353)

Apesar de ainda válida a afirmação de que o superego escraviza boa parte da população, também é verdade, na pós-modernidade, que o escravo tem um novo algoz: a ausência de superego. Ela fixou o homem pós-moderno na busca desenfreada de prazer e alienação. Ele está ainda mais distante de si mesmo do que na época em que se submetia, inconscientemente, ao superego. Uma boa parte da humanidade ainda segue os dois senhores, ora submetida a um, ora ao outro; ora fixada a um prazer, ora subjugada pela moral. A religião que elevou o ideal de ego para muito acima das condições humanas indiretamente acabou por rejeitar aqueles que não conseguiram alcançar essa meta. Eles abandonaram a vida religiosa ou ficaram fixados no que traz prazer imediato.

É trabalho da análise o resgate da seiva que mantém a árvore de pé. Assim, o convívio da Psicologia com a religião nem sempre é pacífico, pois a Psicologia aponta os aspectos defensivos da religião, que levam à estagnação da Consciência.

Em paralelo, a interpretação psicológica do fenômeno religioso também pode ser defensiva. A Psicologia, ao se respaldar na ciência biológica, muitas vezes reduz a delírios místicos e sem sentido conteúdos inconscientes de conotação religiosa. Transforma-os em patologia, ao confiná-los às representações da ciência. Assim, a própria Psicologia, defensivamente, pode colaborar para fortalecer o preconceito de que Deus não está no homem. Portanto, essa tensão entre a religião e a Psicologia é um fato, mas não uma conclusão, pois ambas têm mais em comum do que podem supor. Ambas brotam da mesma árvore da psique.

A religião institucionalizada, com frequência, reforça fixações54 infantis, à

medida que reproduz o vínculo da criança com o casal parental que, sob influência dos arquétipos, é divinizado por possuir a força do numinum. O deslocamento do casal parental numinoso para a instituição, também numinosa, reforça a idealização das virtudes fixas (apregoadas pela Igreja) e enrijece a personalidade empenhada na construção de um ego ideal religioso. Tal idealização pode dificultar a emancipação da Consciência. Por outro lado, a Igreja substitui a família biológica e encaminha o indivíduo para a comunidade. Passa a existir uma nova irmandade, constituída pelo Espírito. A Igreja, assim, pode ajudar a romper os laços simbióticos com a família de origem. Paradoxalmente, a Igreja pode tanto reforçar quanto romper as relações incestuosas.

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Na teoria psicanalítica, fixação é um conceito que indica que a libido permaneceu fixada num estágio específico do desenvolvimento da Consciência, impedindo o sujeito de atingir outro estágio.

As religiões em geral nos mantém em pé de igualdade nas relações humanas. Confortam-nos e alertam-nos, ao nos garantir que somos iguais perante Deus. Essa é também uma verdade psicológica, já que o inconsciente coletivo é a base psíquica de todo ser humano, não importando sua etnia ou seu credo. Na linguagem psicológica, a religião busca o retorno da conexão do ego com o Self; na linguagem religiosa, o que se busca é a conversão. A análise não suplanta a importância psicológica e espiritual da religião. Completam-se, a Psicologia e a religião, no casamento da alma com o Espírito.

A religião oferece o ágape, o amor espiritual. O amor que transcende as diferenças. Convida a alma ao desapego do amor erótico e a penetrar regiões ainda mais sublimes. Molda a nossa metafísica. A própria vida, com o tempo, se incumbe de nos explicar o que é o céu, o purgatório e o inferno na interioridade. São verdades e dogmas velados que apenas a maturidade descortina.

Na análise, assim como na religião, a relação consciente-inconsciente se faz religiosamente. O analista deve ser um sacerdote do Self. Ao menos, deve esforçar- se para tanto. Seu objetivo é instigar a curiosidade de seu analisando para sua vida psíquica. O analista deve estimulá-lo a observar e a se interessar pelos seus símbolos, associando-os à sua vida. A análise deve despertar o diálogo das partes que, até então, não se comunicavam. Gradativamente, a Consciência percebe os benefícios desse casamento que se inicia. O ego dissociado de seus símbolos e da comunicação com o Self é, metaforicamente, o próprio Satã.

O Novo Testamento nos mostra essa sombra entre os discípulos de Jesus. Aproximava-se o dia da sua morte sacrificial na cruz e os apóstolos estavam profundamente ansiosos e angustiados. Submetido ao seu egocentrismo natural, Pedro vacilou algumas vezes frente ao perigo que corria. Ele procurava esquivar-se da morte. Jesus chega a chamá-lo de Satanás, pois ele, identificado com a lógica da Consciência do ego, não percebia a necessidade do sacrifício do Messias. Pedro, assim, simboliza o ego alienado, distante do Mistério. O mesmo Mestre que escolhera Pedro para pedra fundamental da Igreja, repreende-o:

Mas Jesus, voltando-se, disse a Pedro: ‘Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço, porque não cogitas das coisas de Deus’”. (Mateus 16, 23).

Em diversos momentos do mito cristão, Pedro e os demais apóstolos são simbolicamente citados como uma Consciência dissociada, porém bem intencionada, a caminho do Self. Jesus, centro do mito cristão, encarna não somente o desígnio messiânico, que é a morte na cruz, mas também a Consciência que se predispõe ao sacrifício durante o processo de individuação.

Religião e psicoterapia se completam, se estranham e se inspiram mutuamente. Se a religião não abraçar a Psicologia, correrá o risco de morrer de uma doença autoimune, pois a religião volta-se contra si própria. Ora moralista demais, ora politizada demais, a religião distancia-se do homem secular, cada vez mais tomado por outros deuses. Ocupada e perdida em suas pelejas, que não ultrapassam os muros de seu castelo, a Igreja tende a deixar o homem totalmente só. Distante da grande tarefa de transformar Deus na interioridade do ser humano, tornar-se a Igreja autista.