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Os meios de comunicação de massa afetam profundamente a vida do homem contemporâneo. Seu surgimento e consolidação reorganizam por completo a dinâmica social mundial, trazendo novos costumes e novas formas de sociabilidade. Não há realidade em nossos dias que não seja atravessada pela comunicação, por isso sua análise é tão complexa. Inserida na lógica de mercado e do consumo, a comunicação estabelece um relação íntima com a política, a economia, a educação, a religião e a própria concepção de cultura, tendo um papel fundamental na formação e produção de sentidos e na construção dos imaginários de uma determinada sociedade.

A televisão, em particular, é um dos veículos de informação, entretenimento e publicidade mais influentes de uma parcela significativa da população brasileira. Por intermédio dela, as pessoas tomam conhecimento dos “principais” acontecimentos que ocorrem no mundo. Um fato ganha o estatuto de acontecimento quando é selecionado, dentre muitos outros, por jornalistas das instâncias de produção, que põem em cena aquilo que consideram relevante. Os profissionais de jornalismo estão sempre em busca de algo novo, espetacular, extraordinário e impactante. Logo, quanto menos previsível for o acontecimento, maior a chance dele se tornar notícia e, desse modo, integrar o discurso jornalístico.

A estreita ligação entre mídia e violência pode ser percebida em vários conteúdos veiculados pelos meios de comunicação. O cinema, por exemplo, está repleto de filmes de ação, suspense e terror que exploram cenas de desastres, mortes, suicídios, estupros, brigas, agressões, dentre outros atos de violência. Na televisão, isso não é diferente. De acordo com Bourdieu (1997c, p. 22), a imprensa sensacionalista televisiva sempre privilegiou as notícias de “variedades”, vendendo imagens emocionantes, chocantes, fatos “monstruosos” como notícia. A valorização editorial da violência é uma das marcas desse subgênero jornalístico televisivo, que aposta na espetacularização do chamado fait divers e na apresentação melodramática de histórias violentas.

O conjunto de produtos culturais difundidos pela televisão se apresenta, portanto, como um campo de pesquisa legitimado, sendo demasiadamente analisado pelos pesquisadores da Comunicação Social. Ainda que os estudos sobre meios de comunicação tenham se multiplicado nas últimas décadas, os cientistas sociais estão apenas começando a dirigir a atenção e a produzir métodos de trabalho sobre este campo. Nesse sentido, a realização de uma pesquisa sociológica a respeito do tema é de grande importância para a área da Sociologia, bem como para as Ciências Sociais em geral, na medida em que contribui com

as demais experiências de pesquisa que se debruçam sobre a mesma temática, colaborando para a criação e o aperfeiçoamento de métodos e perspectivas teorias específicas que auxiliem o pesquisador social no estudo do tema.

É o caso deste trabalho de dissertação, cujo objeto central é um programa policial televisivo, o Barra Pesada, veiculado de segunda à sexta pela emissora aberta TV Jangadeiro, o qual possui características próprias do universo discursivo audiovisual. Tomei como desafio teórico-metodológico compreender a lógica presente nas palavras, imagens, sons, planos- sequência, músicas etc., que são inerentes a este objeto, procurando realizar uma análise múltipla entre a forma e o conteúdo dessa coletânea de imagens, textos e efeitos sonoros das narrativas coletadas no decorrer da pesquisa de campo, visto que estes e outros aspectos são relevantes no que se refere à compreensão da dimensão estético-narrativa presente na maneira como a violência urbana é apresentada pelo registro televisivo.

Ao tomar as narrativas de um telejornal policial como objeto de análise, percebi que as imagens produzidas por esse subgênero jornalístico retratam fragmentos da história social fortalezense, expondo seus atores, hábitos, gestos, falas, modos de vida, rituais e performances, além de oferecer melhor entendimento em relação as expressões estéticas da violência urbana. Por conseguinte, procurei analisar tais narrativas de modo contextualizado, compreendendo que elas foram produzidas no âmbito de uma cultura específica, o que favoreceu um diálogo constante com as normas e os códigos pertencentes a essa cultura.

Para apreender e interpretar as visões de mundo dos sujeitos envolvidos nas notícias a respeito da violência urbana, descrevi e examinei as apresentações de cenas de acontecimentos violentos que aconteceram na cidade de Fortaleza e sua Região Metropolitana, promovidas pelo Barra Pesada. A exibição de episódios violentos pelo Programa proporciona ao público uma experiência audiovisual carregada de sentidos e códigos sobre a violência urbana em si, contribuindo para naturalizar certas representações sociais. Assim, o olhar midiático, resultado de uma longa construção social e cultural, capta aquilo que julga importante e lhe confere significado.

Vários interesses estão em jogo no contexto das histórias contadas pelos jornalistas do Noticiário, salientando o poder que a mídia possui no mundo contemporâneo. Procurei levar em consideração nesse trabalho os aspectos relativos à posição de poder do programa Barra Pesada no que se refere a possibilidade de enunciar e publicizar sua perspectiva sobre determinados eventos.

A condição de “macrotestemunha” da vida cotidiana coloca a mídia no centro de praticamente toda experiência humana, agindo como construtora privilegiada de

“representações sociais e, mas especificamente, de representações sobre o crime, a violência e sobre aquelas pessoas envolvidas em suas práticas e em sua coibição.” (RONDELLI, 2000, p. 150). As representações sociais consistem em certas manifestações de significados culturalmente (re)produzidos pelos atores sociais através de relatos, imagens e narrativas de seu cotidiano. Dessa maneira, os discursos verbais, imagéticos e sonoros que compõem a notícia televisiva são elementos que, quando analisados em conjunto, permitem-nos pensar, articular sentidos que, separadamente, não seriam possíveis.

Os códigos culturais operacionalizados pelo Barra Pesada não foram necessariamente criados por ele, sendo retirados da sociedade na qual está inserido, visto que o mesmo integra um contexto social específico. Contudo, é importante destacar que a propriedade interativa do Programa proporciona um retorno dessas representações para a sociedade, possibilitando um consumo ressignificado das mesmas.

Por constituir uma parte da realidade social contemporânea, o jornalismo policial não pode ser definido como algo pronto e acabado, cuja função é apenas fortalecer a ordem social e estabelecer relações sociais, nem tampouco ser compreendido somente pelo seu aspecto técnico e estético. É preciso entendê-lo como uma visão de mundo privilegiada que procura dar sentido às práticas sociais e ações humanas, sobretudo, práticas e ações violentas, imprimindo sua perspectiva em relação às narrativas relatadas. Nesses termos, os componentes estéticos-narrativos, tais como a iluminação, a cor e o enquadramento, tornam- se elementos simbólicos e as notícias, artefatos culturais extremamente férteis para o estudo sociológico.

O estudo da linguagem audiovisual (palavra, imagem e som) em movimento permitiu uma melhor compreensão acerca das formas de organização social da sociedade fortalezense e do universo de valores que orientam padrões de comportamento de seus atores sociais, revelando dados fundamentais sobre essa sociedade e sobre o seu modo de pensar e conceber a violência urbana. Sendo assim, o Barra Pesada, enquanto produto cultural, constituiu um canal de acesso privilegiado para o objetivo ao qual essa dissertação se propõe: compreender a forma como a mídia apresenta os acontecimentos violentos ocorridos na capital cearense, transformando-os em notícias. Ao dramatizar situações do cotidiano e dar- lhes sentido, as narrativas televisivas descortinam a vida social e seus contextos de significação, deixando transparecer as regularidades e as contradições presentes nas ações sociais examinadas.

Analisando o estilo narrativo das notícias veiculadas pelo Barra Pesada, notei que os jornalistas policiais justificam o exagero dramático do Programa como sendo útil para fazer

a sociedade fortalezense se pensar e, sobretudo, para fazer com que as “autoridades” se sensibilizem e tomem alguma atitude em relação aos problemas sociais enfrentados cotidianamente pela população local. O curioso é que eles parecem defender uma certa pedagogia do “choque”, como se, ao exibir matérias grotescas e emotivas, e mostrar com detalhes o sofrimento alheio, o Noticiário, de alguma forma, estivesse colaborando com a manutenção da ordem social, da moral e dos “bons costumes”, reafirmando valores e condenando certos comportamentos que desobedecem um suposto código de convívio social saudável. Com efeito, o Telejornal funciona como um instrumento de intervenção efetiva na realidade social.

Os discursos moralistas suscitados nos casos relatados e comentados pelos repórteres, e, em particular, pelo apresentador do Programa carregam consigo a marca de um processo social punitivo operacionalizado pela mídia, que, segundo eles, fundamenta a divulgação desmedida de imagens de vítimas e suspeitos de crimes em detrimento de uma moralidade socialmente almejada. A modalidade discursiva e o arranjo cênico adotados pelo Telejornal acionam o campo moral de um modo diferente dos demais subgêneros telejornalísticos, que, comumente, costumam percorrer caminhos éticos mais consensuais.

Nas notícias sobre homicídios, analisadas no quarto capítulo dessa dissertação, percebi que o Noticiário põe em movimento questões morais suscitadas por ele, delimitando o que é certo e errado, averiguando o que deveria ter sido feito para evitar esse tipo de crime e o que deve ser feito para prevenir que tais atos de violência aconteçam novamente, criando novas maneiras de ver, sentir, perceber e (re)agir quanto ao fenômeno da violência urbana. Destarte, o modo pelo qual a instância de produção pesquisada constrói o sentido do acontecimento violento é pautado na crença de que sua interpretação acerca desses episódios retrata “a mais pura verdade dos fatos”.

Com a intenção de ensinar ao público valores sobre o que é bom e ruim para a sociedade, o Barra Pesada estabelece formas de reconhecimento social da identidade dos sujeitos envolvidos nas narrativas relatadas por ele, distinguindo, por exemplo, a vítima do acusado. Normalmente, todas as características boas da vítima são acentuadas, enquanto que os acusados são descritos como os maus exemplos de conduta, que se desviaram de uma “vida digna”. Todavia, a vítima é, muitas vezes, reconhecida pelo Programa como a única causadora de seu próprio “destino infeliz”, já que escolheu seguir o caminho da criminalidade e das drogas, pervertendo os valores sociais considerados pelo Telejornal como elementos fundamentais para a vida em sociedade.

Conforme mencionado anteriormente, esta pesquisa ensejou compreender a maneira como o assunto da(s) violência(s) na cidade de Fortaleza e em sua Região Metropolitana é abordado pelo Barra Pesada. Nele, é possível verificar um excesso da tematização sobre a violência urbana, que se esgota na mera descrição das fatalidades, sem oferecer aos espectadores uma reflexão minuciosa de suas causas e consequências mais amplas. Os conflitos urbanos aparecem, assim, dissociados de suas motivações histórico- sociais, ganhando destaque na mídia somente por sua carga emocional. Em consequência, o telejornal estudado realiza uma análise descontextualizada dos conflitos sociais, refletindo isoladamente a respeito de casos que, na verdade, deveriam ser entendidos como partes de processos históricos e sociais mais gerais.

Pautado na ideia de um Estado ausente e ineficiente, o Barra Pesada se vende como um serviço de utilidade pública, prometendo mostrar ao público o espetáculo da “vida como ela é” e de “como ela não deve ser”, ao oferecer soluções para uma boa convivência social. Nesse caso, “a televisão vira show de justiça, combinando cobertura policial e serviços de defesa ao consumidor” (BENTES, 1994, p. 47), disponibilizando aos telespectadores a possibilidade de uma “justiça vicária, praticada de acordo com leis simplificadas e rituais desburocratizados” (RONDELLI, 1994, p. 102), que visa substituir, quando necessário, o papel exercido pelas agências de segurança pública e justiça. Desse modo, “a desordem do mundo passa a ser mediada pela ordem do telejornal.” (BECKER, 2005, p. 55).

Diante disso, acredito que as reflexões demonstradas nesse texto dissertativo apontam uma série de pontos essenciais para um entendimento mais profundo do papel desempenhado pela mídia na construção social do fenômeno da violência urbana e de seus sentidos. É preciso destacar que se pretende prosseguir esse exercício intelectual para abordar outras questões pertinentes à análise das narrativas apresentadas pelo Barra Pesada, além das que já foram identificadas neste trabalho, deixando espaço para outros inúmeros questionamentos e inferências que poderão se mostrar fundamentais para a compreensão da lógica midiática estudada.