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5.2 Swap Çeşitleri

5.2.2 Döviz Takası

Já Elias concebe a moral de outra maneira. Para o sociólogo, o desenvolvimento dos modos de conduta prova que nenhuma ação humana é puramente natural, mas sim o resultado de um longo processo de “condicionamento” e de “adestramento” trilhado pela sociedade ocidental. O autor retrata na obra O processo civilizador (volumes 1 e 2) as dificuldades e os danos sofridos pelos homens com o advento da moralidade, salientando que ela não possui “um traço natural, nem legado da graça de Deus”, sendo conquistada através do controle e da transformação lenta e gradual de certas pulsões particulares. Na introdução do primeiro volume do livro, Elias aponta que o custo da civilização (da Kultur alemã) é a infelicidade, que se revela “no crescente recalcamento das pulsões cuja satisfação pode nos fazer felizes”, recebendo muitas críticas por conta dessa afirmação. (ELIAS, 2011, p. 10). Dessa forma, a aparente liberação de certos costumes142 no mundo contemporâneo implica uma responsabilidade e um autocontrole muito maior ao homem ocidental de hoje, e seria

142

Elias (2011, p. 11) usa o exemplo das roupas de banho, que, outrora, escondiam mais as partes do corpo, em contraste com os vestuários utilizados nos dias atuais, que expõem bastante o corpo humano. Logo, conforme sugere o autor, é preciso ter muito mais autocontrole hoje em dia do que antigamente para evitar certos constrangimentos em virtude de impulsos indesejados em locais onde o uso do traje de banho é socialmente permitido, como é o caso, por exemplo, das praias, nas quais homens e mulheres transitam livremente portando roupas de pouco comprimento.

justamente esse o custo maior da moralidade e, por consequência, do próprio processo civilizador.

Retomando a discussão sobre a “crueldade” e a “agressividade”, Elias compara os costumes da Idade Média com os da Idade Contemporânea e identifica grandes diferenças nos padrões de agressividade de cada período, o que denota que os seres humanos passaram por intensas mudanças em sua estrutura emocional ao longo do tempo. O sociólogo aponta que a estrutura emocional do homem funciona como um “sistema parcial” indissociável do “sistema total do organismo”. Portanto, “só podemos falar em ‘pulsão agressiva’ se permanecermos conscientes de que ela se refere a uma função pulsional particular dentro da totalidade de um organismo” (ELIAS, 2011, p. 182).

Um outro fator determinante para a comprovação de que o padrão de comportamento agressivo resulta de um longo processo de civilização é o fato do padrão de agressividade não apresentar uniformidade nas mais variadas nações do Ocidente. Entre o padrão de agressividade da sociedade ocidental contemporânea e o de outras sociedades em diferentes “estágios do controle de emoções” – tais como a sociedade medieval –, é evidente que “a agressividade mesmo das nações mais belicosas do mundo civilizado parece bem pequena” quando “comparada com a fúria dos guerreiros” medievais. (ELIAS, 2011, p. 183). Tal como as demais formas de prazer, a agressividade “foi transformada, ‘refinada’, ‘civilizada’”, sendo a “violência imediata e descontrolada” alvo de repreensão social, emergindo hoje “apenas em sonhos ou explosões isoladas que explicamos como patológicas.” (ELIAS, 2011, p. 183). Elias assinala que nos tempos modernos:

A crueldade e a alegria com a destruição e o tormento de outrem, tal como a prova de superioridade física, foram colocadas sob um controle social cada vez mais forte, amparado na organização estatal. Todas essas formas de prazer, limitadas por ameaças de desagrado, gradualmente vieram a se expressar apenas indiretamente, em uma forma “refinada”. E só em épocas de sublevação social ou quando o controle social é mais frouxo (como, por exemplo, em regiões coloniais) elas se manifestam mais direta e livremente, menos controladas pela vergonha e a repugnância. (ELIAS, 2011, p. 183).

Com efeito, algumas notícias apresentadas pelo Barra Pesada ajudam a ponderar sobre o fato da mídia atuar como um dos principais mecanismos de controle social nos dias atuais, no intuito de conter a expansão de atos considerados cruéis na sociedade ocidental. O caso relatado no dia 18 de setembro de 2012 revela o papel que a mídia exerce no controle de impulsos agressivos individuais. Com a manchete “Crueldade: morador de rua é espancado até a morte”, o apresentador Nonato Albuquerque noticia a trágica morte de José143, um

morador de rua “brutalmente assassinado” no bairro Varjota em Fortaleza. Segundo Nonato, a vítima havia sido “espancada com paus e pedras, e teve parte da cabeça esmagada”. Após essa introdução dramática, o conteúdo mórbido da notícia vai se intensificando com o passar da reportagem realizada pelo jornalista Jefferson Abreu, que insere novos elementos à narrativa.

Primeiramente, o repórter-narrador repassa a informação aos telespectadores de que o crime cometido se tratava de um linchamento, no qual a população do bairro, revoltada com a “onda de criminalidade” na região, resolveu fazer “justiça com as próprias mãos”, e acabou assassinando “a pauladas e a pedradas” o morador de rua que supostamente realizava pequenos furtos no local. Quando a equipe de reportagem chegou ao local do crime, a hipótese de linchamento foi rapidamente descartada e cedeu lugar à teoria de que, na verdade, aquele era um crime sem motivações aparentes, baseado exclusivamente na “frieza”, no “ódio” e na “crueldade” desmedida de seus agentes.

No desenrolar da reportagem, Jefferson Abreu vai reunindo informações e pistas, como em um filme policial, que comprovam o provável teor do crime: o corpo havia sido encontrado em um local isolado, havia poucas testemunhas no lugar, a informação de que a vítima havia roubado pessoas no bairro foi invalidada etc.; todos esses fatos, segundo Jefferson, inviabilizavam a hipótese de linchamento.

Em entrevista com o policial responsável por resguardar o perímetro onde o corpo da vítima se encontrava, o repórter estranha a ausência de “populares” no local do crime, discorrendo: “a gente percebe que são poucas pessoas que ficam aqui acompanhando a nossa equipe. É até incomum esse fato, porque normalmente em locais de crimes dessa natureza fica uma multidão, mas não é o que a gente observa aqui.” E, em seguida, ressalta que “a informação que nós temos é que realmente foi um crime muito bárbaro, um crime com requintes de crueldade. A cabeça da vítima foi esmagada em virtude das pedradas que foram dadas nesse rapaz, que até agora foi identificado apenas como José.” (Trecho da fala do repórter retirado da transcrição completa da edição do Programa gravada em 18 de setembro de 2012).

Ao se aproximar do local onde corpo estava, o repórter afirma que infelizmente a equipe de reportagem não poderia mostrar detalhadamente, por que as imagens eram muito fortes para serem exibidas no Programa, embora o cinegrafista Raniére Sales tenha aproveitado para mostrar algumas partes do corpo do defunto (seus membros inferiores e superiores) e os objetos utilizados pelo(s) assassino(s) durante o homicídio, que ainda apresentavam marcas do sangue da vítima. Já no final da matéria, o apresentador do Programa profere um discurso moralista, no qual argumenta que “não é do jornalismo julgar, não é?

Mas, ai dos que cometem esse tipo de crueldade”, e conclui aconselhando aqueles que se “desviaram da moral” a procurar “ler sobre a lei de causa e efeito.” (Trecho da fala do apresentador retirado da transcrição completa da edição do Programa gravada em 18 de setembro de 2012). Nessa mesma edição, Nonato encerra o Programa fazendo uma leitura geral sobre o problema da banalização da “barbárie” e da “crueldade” que, segundo ele, “assola o coração dos homens” contemporâneos, culpabilizando o governo por alimentar ainda mais a disseminação da impunidade no território brasileiro:

A banalização da crueldade é um forte ingrediente no prato da violência.

Sequestrava-se antes muito mais por motivos político-ideológicos ou para obter resgates em dinheiro. Vemos agora resgates de sequestros passionais. Sequestra-se para tentar reatar uma relação interrompida, para dar um susto na pessoa que tenha sido a causa da ruptura do relacionamento. Isso é sugerido toda hora nas novelas que exploram o tema. Uma outra facilidade é a disposição da grande massa de criminosos, assassinos de aluguel, para atender essas mentes doentias e egoístas. (...) O grande mensalão incentivou outros a níveis estaduais e municipais que permeiam inclusive a campanha eleitoral. É que a vulgarização e a impunidade do mal dão

aos criminosos a sensação e a volúpia de que o crime compensa, quando, na verdade, isso não acontece. (Trecho da fala do apresentador retirado da transcrição

completa da edição do Programa gravada em 18 de setembro de 2012, grifo nosso).

O controle social promovido pela mídia também pode ser verificado na matéria veiculada pelo Barra Pesada em 05 de março de 2013, na qual a equipe de jornalismo do Programa realiza a cobertura do caso de um idoso que fora assassinado no bairro Parque Dois Irmãos, em Fortaleza. Logo na introdução da notícia, o apresentador do Telejornal exprime sua opinião em um discurso inicial chocante e dramático: “A gente tá vivendo numa era de brutalidade. Teve um crime macabro, o corpo de um homem foi encontrado com a cabeça decepada, com o braço esquartejado e, como se não bastasse, o assassino ou os assassinos deixaram uma faca cravada na face da vítima.” (Trecho da fala do apresentador retirado da transcrição completa da edição do Programa gravada em 05 de março de 2013).

Quando a reportagem propriamente dita começa, o repórter Paulo Campelo esclarece que, por se tratar de uma cena muito forte, a equipe de reportagem iria manter certa distância, ao passo que ele iria descrever detalhadamente a imagem encontrada no local do crime. Ademais, Paulo aproveita para debater possíveis conjecturas a respeito do que poderia ter motivado “um crime dessa natureza”. Enquanto isso, na tela, sob a legenda “Mistério: corpo é decapitado e faca é cravada na face”, é exibida a imagem desfocada do corpo da vítima, que deixa transparecer a dimensão da violência infligida ao morto, através dos contornos de sua silhueta.

Após a chegada da Perícia Forense, o repórter narra os procedimentos realizados pelo perito criminal, detalhando inclusive o instante em que uma das armas usadas no crime

(uma faca) foi retirada do rosto da vítima e em que o corpo foi colocado numa posição contrária, o que possibilitou a descoberta de uma carteira que, para a infelicidade da polícia, não continha os documentos de identificação do morto.

Por fim, o corpo foi conduzido através de uma urna mortuária por membros da perícia até a Unidade Móvel da Perícia Forense, popularmente conhecida como “Rabecão”. Ao entrevistar o perito criminal encarregado do caso, Paulo Campelo esboça novamente sua indignação em relação a forma como a vítima foi assassinada, indagando o “nível do sentimento de raiva e de ira” que “levaria uma pessoa a cometer um crime dessa proporção”. O entrevistado responde com amargor: “E a gente vê até que ponto chega a violência do ser humano, não é? Uma coisa que até nos choca.” (Trecho da fala do perito criminal retirado da transcrição completa da edição do Programa gravada em 05 de março de 2013).

De volta ao estúdio de gravação, o apresentador do Programa dá continuidade a discussão sobre o problema da “crueldade”, deixando um aviso, de cunho profético e religioso, aos executores de crimes considerados “bárbaros”:

A gente diz assim: “Deus nos livre dos que são capazes de cometer um crime desses aí.” Que, nesse momento, provavelmente devem estar tranquilos, calmos, acompanhando o programa, como se nada tive acontecido. Deus tenha piedade da alma dessa vítima. Mas ai daqueles que realmente promovem um absurdo desse, porque, olha a natureza vai reclamar um dia. Dois anos, dez anos, cem anos, trezentos anos... Mas tudo que fizermos aqui, se for algo de bom, teremos a retribuição. Se for algo do mal, seremos também penalizados, porque o mal a própria natureza se encarrega de abafar. (Trecho da fala do apresentador retirado da transcrição completa da edição do Programa gravada em 05 de março de 2013).

4.6.3 A crueldade e a estética do grotesco na televisão: notas sobre a satisfação visual do