Assim, esse contexto de edição é marcado por um tipo específico de caráter da produção e ação intelectual que caracterizou as primeiras décadas do séc. XX114 no Brasil. Desde o início do século XX, é possível mapear o comprometimento de certas camadas intelectuais brasileiras com determinadas ‘causas’ que diziam respeito, segundo eles, ao bem público e a melhoria da sociedade115. De fato, já nos primeiros anos do regime republicano brasileiro, é possível visualizar nas páginas do Almanaque Garnier o engajamento de determinadas camadas intelectuais preocupadas com a ‘constituição de uma unidade moral e social, imprescindível à construção de uma identidade coletiva, capaz de fazer do país uma nação’116
A questão nacional parece perpassar desde os campos artístico-literários às políticas públicas. E, em torno desta questão nacional, é possível demarcar diversas correntes intelectuais que tinham como tema central de suas reflexões a nação brasileira. A I Guerra Mundial significou uma ‘revisão nos padrões intelectuais brasileiros’ e ‘após sua eclosão, reacendeu-se a necessidade de pensar o Brasil do ponto de vista brasileiro. Essa transformação de padrões culturais teve como pano de fundo o confronto e a releitura da tradição, ou seja, a releitura da interpretação histórica’
. Neste sentido, tratava-se naqueles anos da constituição da nação fundamentada nas definições acerca da língua, geografia e história.
117
Neste esforço de re-interpretação da realidade brasileira, está em jogo a determinação das diretrizes que devem reger a intelectualidade brasileira no sentido de definir os saberes que melhor
.
114 Esta periodização poderia remontar a 1870, pois ‘a palavra de ordem da ‘geração modernista de 1870’ era condenar a sociedade ‘fossilizada’ e pregar as grandes reformas redentoras: ‘a abolição’, ‘a república’, ‘a democracia’. O engajamento se torna a condição ética do homem de letras. SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão –
Tensões sociais e criação cultural na Primeira República. São Paulo: Cia das Letras, 2003. 97
115 ‘A intelectualidade do período, que se auto-atribuía a capacidade de traçar os caminhos para o país, direcionar produtivamente os seus esforços e orientar a condução dos negócios públicos, não hesitou em proclamar a sua qualificação – supostamente legitimada pela posse de um saber específico que lhe permitia ver para além das aparências – e em colocá-la a serviço dos interesses nacionais’. LUCA, Tania Regina de. A Revista do Brasil: Um
diagnóstico para a (N)ação. São Paulo: Unesp, 1999. 298
116 DUTRA, Eliana Regina de Freitas. Rebeldes e literário da República: história e identidade nacional no
Almanaque Brasileiro Garnier (1903-1914). Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2005. 82.
se adequariam às necessidades coletivas. Assim, a Liga de Defesa Nacional, criada em 7 de setembro de 1916 por Olavo Bilac, Pedro Lessa e Miguel Calmon, ao perceber que o Brasil ‘padece e sofre da falta de crença e de esperança’ e que o que existe por aqui é ‘desânimo’, ‘falta de solidariedade’, ‘ausência de crença e aspirações comuns’, onde ‘governa o interesse de cada um, o arrivismo’, propõe:
manter a idéia de coesão e integridade nacional; defender o trabalho nacional; difundir a instrução militar nas diversas instituições; desenvolver o civismo, o culto do heroísmo, fundar associação dos escoteiros, linhas de tiro e batalhões patrióticos; avivar o estudo da história do Brasil e das tradições brasileiras; promover o ensino da língua pátria nas escolas estrangeiras existentes no país; propagar a educação popular e profissional; difundir nas escolas o amor à justiça e o culto do patriotismo; combater o analfabetismo118
Ao situar o Brasil como objeto de suas investigações, os pensadores ‘nacionalistas’ terão como princípio a consolidação de determinadas perspectivas que procuram ‘difundir um variado conjunto de idéias, noções e princípios, inicialmente, para mostrar a inexistência de povos irremediavelmente fracos’ e demonstrar a falsidade de determinadas afirmações pseudo-científicas, segundo as quais ‘a mestiçagem torna as raças incapazes’
.
119
. Este ‘ponto de partida’ do pensamento nacionalista faz com que todo o trabalho intelectual que visa à modificação do social se paute pela ‘formação de uma consciência nacional’, não mais tomando por guia ‘paradigmas que consideravam noções deterministas de raça e meio’ a partir dos quais ‘vários pensadores mostravam-se céticos em relação ao grau de permeabilidade à civilização de uma região tropical, recém-saída da escravidão’120
(...) serve tanto à velha ordem agrária quanto à nova classe industrial; não é por acaso que algumas de suas orientações ao mesmo tempo defendem a ‘civilização agrária’ e combatem a dominação estrangeira nos diversos setores da vida econômica, especialmente no campo do comércio e da indústria, bem como outras se esforçam para que se realizem os ideais do liberalismo político e da democracia, e outras proclamem a importância de um regime autoritário e antidemocrático – cada qual a seu modo participa da coexistência de uma tábua de valores conflitivos,
.
Observando antes as potencialidades da pedagogia do que os determinismos científicos, os pensadores nacionalistas iniciam um novo debate acerca do que deva ser a ‘formação da consciência nacional’. E, nas primeiras décadas do séc. XX, diferentes formas de qualificar o Brasil serão já apresentadas, de forma que o nacionalismo:
118 NAGLE, Jorge. Educação e Sociedade na Primeira República. Rio de Janeiro: DP&A, 2001. 66 119 NAGLE, Jorge. Educação e Sociedade na Primeira República. Rio de Janeiro: DP&A, 2001. 66
característica do período121
Esta diversidade presente nas várias ‘ligas’
. 122
No grupo modernista de São Paulo, estes ‘diferentes retratos do Brasil (...) revelam o caráter heterogêneo do modernismo paulista, capaz de produzir as visões mais distintas sobre a nacionalidade
e ‘movimentos’ nacionalistas no Brasil do início do século XX já anuncia a pluralidade de visões, retratos e interpretações da realidade brasileira que continuará sendo produzida nas décadas seguintes. Se, por um lado, a questão
nacional, perpassa os olhares, por outro lado, os modos de ver e diagnosticar são múltiplos,
complexificando o caráter da produção intelectual neste período. Os modernismos são outros movimentos que irão problematizar as visões acerca do Brasil, produzindo diversas perspectivas sobre a questão nacional na arte e na sociedade em geral.
123
Para os primeiros, a figura do Curupira assume significado primordial ‘devido ao seu retorno às pegadas do passado, considerado esse a chave explicadora da nacionalidade’. Neste sentido, ‘o passado é concebido como uma espécie de Eldorado; o mito Tupi – associado à pureza, espontaneidade e originalidade – aparece, então, como um dos elementos fundadores da nacionalidade’. Nessa produção de uma interpretação do passado ressoaria ‘um etnocentrismo extremado, que leva o grupo a defender as fronteiras nacionais contra o que denominava as ‘invasões alienígenas’
. É segundo esta diferença que os diferentes grupos modernistas paulistas irão se agregar, explicitando suas incompatibilidades no decorrer e, principalmente, no final da década de 1920. Assim, desde o grupo Curupira, do verde-amarelismo, de Plínio Salgado, Menotti del Picchia, Candido Mota Filho e Cassiano Ricardo até à Antropofagia de Oswald de Andrade há uma fissura que não se resume a questões ‘puramente’ estéticas ou estilísticas, mas das relações que aquele presente deveria manter com o passado a fim de produzir uma identidade nacional ‘verdadeira’ ou uma prática artística original.
124
121 NAGLE, Jorge. Educação e Sociedade na Primeira República. Rio de Janeiro: DP&A, 2001. 81.
122 Podem ser elencados como movimentos essencialmente nacionalistas da Primeira República: A Liga de Defesa Nacional, já citada; A Liga Nacionalista de São Paulo, que se envolveu na revolta tenentista de 1924 - o Segundo 5 de Julho - e foi fechada. Foi um dos movimentos precursores do Partido Democrático Paulista, criado em 1926; a Propaganda Nativista, fundada em 1919 no Rio de Janeiro, em torno da revista Gil Blas, cujo diretor era Alcebíades Delamare, onde sobressaem o sentimento antiportuguês, a filiação ao catolicismo e uma atitude positiva com relação aos valores essencialmente brasileiros. Ver: NAGLE, Jorge. Educação e Sociedade na Primeira República. Rio de Janeiro: DP&A, 2001; OLIVEIRA, Lúcia Lippi. A Questão Nacional na Primeira República. São Paulo: Brasiliense, 1990.
123 VELLOSO, Mônica Pimenta. O modernismo e a questão nacional. In: DELGADO, Lucilia de Almeida Neves; FERREIRA, Jorge (ORG). O Brasil Republicano. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2066. 374
124 VELLOSO, Mônica Pimenta. O modernismo e a questão nacional. In: DELGADO, Lucilia de Almeida Neves; FERREIRA, Jorge (ORG). O Brasil Republicano. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2066. 375.
. Figura símbolo de uma utopia narcisista, o Curupira de pés-voltados para trás, protetor das florestas e avesso ao litoral, com o ‘corpo sem fendas, hirto e defensivo, invulnerável à penetração estrangeira, sisudo e compenetrado’, operaria como uma ‘vacina’ contra
a ‘sedução das ideologias exóticas’125
Já a Antropofagia configura-se como um caminho, um modo de se relacionar com o passado que ‘singulariza a nacionalidade brasileira’. Dessa forma, ‘propõe-se a apropriação da cultura européia pelo “canibalismo cultural”. Reedita-se a idéia do antropófago - herdada da cultura indígena -, que come a carne do inimigo no intuito de absorver suas qualidades’
.
126
. Assim, o conceito de antropofagia oswaldiano trazia consigo a ‘idéia da “devoração cultural” das técnicas e informações dos países desenvolvidos, para re-elaborá-las, com autonomia, convertendo-as em produto de exportação’127. Dessa forma, enquanto os primeiros buscam o verde-amarelismo, a Anta, o Curupira e aceitavam ‘todas as instituições conservadoras, pois é dentro delas’ que fariam ‘a inevitável renovação do Brasil, como o fez, através de quatro séculos, a alma de nossa gente, através de todas as expressões históricas’128
Somos pelo ensino leigo. Contra o catecismo nas escolas. Qualquer catecismo. Não é possível fazer o Brasil embarcar na canoa furada da Prima do Espiritual. Reagiremos pois contra toda e qualquer tentava nesse sentido. Viva Freud e nosso padrinho padre Cícero
; a antropofagia procura atualizar uma ‘prática primitiva’ metaforizada nas relações culturais entre povos. No fim da década de 1920, os impasses entre as ‘escolas’ ganham, cada vez mais, contornos políticos, no sentido da definição tanto daquilo que seria a ‘cultura brasileira’, quanto na forma de relação entre passado/futuro que deve engendrar as orientações para o futuro. O último número da Revista de Antropofagia, publicada em página do
Diário de São Paulo de 01/08/1929, trazia em seu editorial a evidência dessa oposição para além
das ‘questões estilísticas’ e já comprometida com alguns dos temas fundamentais que irão nortear os debates na década seguinte:
129
A figura de Mário de Andrade aponta para uma terceira relação entre presente/passado que busca a interpretação do ‘nacional’ segundo um princípio no qual se situa ‘o passado como lição para meditar não para reproduzir’. Submetia, conscientemente, o passado, o folclore, as tradições, aos interesses do presente, em busca da construção de ‘uma arte brasileira, entendendo-a como a condição de o Brasil poder apresentar-se e ser reconhecido como país civilizado. Ser moderno significava, então, comparecer no cenário internacional, mas adotando a mediação do nacional’
.
130
125 VASCONCELLOS, Gilberto. Ideologia curupira – análise do discurso integralista. São Paulo: Brasiliense, 1979. 20-21.
126 VELLOSO, Mônica Pimenta. O modernismo e a questão nacional. In: DELGADO, Lucilia de Almeida Neves; FERREIRA, Jorge (ORG). O Brasil Republicano. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2066. 377.
127 CAMPOS, Augusto de. Poesia, antipoesia, antropofagia. São Paulo: Cortez & Moraes, 1978. 124.
128 Manifesto do Verdeamarelismo publicado no Correio Paulistano em 17 de maio de 1929. Cf.: CAMPOS, Augusto de. Poesia, antipoesia, antropofagia. São Paulo: Cortez & Moraes, 1978. 116-117.
129 Cf.: CAMPOS, Augusto de. Poesia, antipoesia, antropofagia. São Paulo: Cortez & Moraes, 1978. 119. 130 VELLOSO, Mônica Pimenta. O modernismo e a questão nacional. In: DELGADO, Lucilia de Almeida Neves; FERREIRA, Jorge (ORG). O Brasil Republicano. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2066. 379
Havia, ainda, em Mário de Andrade, o desejo de combater os regionalismos que marcariam a nacionalidade brasileira, buscava uma apreensão conjunta da nacionalidade, ou, ‘uma visão integrada da nacionalidade’131
Regionalismos estes que aparecerão avaliados positivamente em outro modernismo brasileiro: o de Recife. Este movimento é tido por alguns autores como a ‘tendência regionalista e tradicionalista do modernismo brasileiro’
.
132
. Sob a liderança de Gilberto Freyre, o movimento modernista do Recife valorizava e cultivava o ‘gosto de conservar velhos rituais alimentares e requintes do trato, pelo esforço da restauração das árvores regionais, da arte popular, da arquitetura, dos costumes133‘. Criticava o modernismo do sudeste que ‘arrastou os ricos e esnobes e fez o que se esperava que fizesse: barulho. (...) Havia nos teóricos do modernismo do Rio e São Paulo uma camada do mundanismo parisiense. Derrubavam-se ídolos de pedra-mármore para fixar outros ídolos, outras fórmulas, outros preconceitos’134
desse movimento se seguem não só o ‘romance social’, mas também o luso-tropicalismo formulado por Gilberto Freyre. A valorização da capacidade do português aos trópicos, criando uma sociedade particular, um novo tipo de civilização, surge como forma de recuperação positiva do passado. É a ordem patriarcal, apoiada num certo tipo de miscigenação, que define a matriz básica da organização social do Brasil
.
Assim, os modernistas de Pernambuco relacionavam-se com o passado de uma maneira específica que caracterizava a sua visão da nacionalidade brasileira. E é
135
Ao observar a questão nacional nas primeiras décadas do séc. XX no Brasil, verifica-se, primeiro, a centralidade de tal tema que é retomado por diversos intelectuais das mais variadas correntes, ligas, movimentos e regiões e, segundo, que, enquanto tema de reflexão, análise e fundamentação de práticas e valores, o nacional já é, desde o princípio, recortado, plural, diverso e, portanto, descontínuo, crítico e conflituoso. Retomando aquele contexto de edição mencionado acima, percebe-se que a ‘pedagogia da nacionalidade’ procurada pela Coleção Brasiliana era um tema recorrente já naquele início de século e, mais, era uma questão problemática que dividia opiniões acerca do que era o Brasil e o que deveria ser o brasileiro. Militar-civil, poeta-soldado, antropófago/verde-amarelo, autoritário-democrático, sudeste-nordeste, integral-fragmentário, jacobino-cosmopolita, litoral-interior, enfim, o debate sobre o ser brasileiro e sobre os reais
.
131 VELLOSO, Mônica Pimenta. O modernismo e a questão nacional. In: DELGADO, Lucilia de Almeida Neves; FERREIRA, Jorge (ORG). O Brasil Republicano. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2066. 380.
132 NAGLE, Jorge. Educação e Sociedade na Primeira República. Rio de Janeiro: DP&A, 2001. 109 133 NAGLE, Jorge. Educação e Sociedade na Primeira República. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.110.
134 REGO, José Lins. APUD: NAGLE, Jorge. Educação e Sociedade na Primeira República. Rio de Janeiro: DP&A, 2001. 110.
interesses, valores e diretrizes que deveriam nortear a intelectualidade brasileira longe de ser consensual delimitava posições e lugares do saber intelectual.