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Belgede Evrak Tarihi ve Sayısı: (sayfa 13-21)

Cheguei à escola por volt a do m eio dia, horário com binado, e percebi algo diferente em relação ao aspecto da escola. Havia m encionado anteriorm ente m inha surpresa, porque a escola estava bem cuidada; descobri, depois, que ela havia sido pintada recentem ente e estava ainda em reform a. Ao olhar a escola novam ente, notei que a fachada principal estava pichada e os m uros externos, riscados com giz de cera. Perguntei- m e se não havia negligenciado a observação, anteriorm ente.

Ao entrar na escola, há um pequeno portão, seguido de um curto lance de escadas que leva à porta principal. Trata- se de um portão de ferro que é m antido trancado. Quando aberto, encontra- se um guichê ao lado esquerdo e à sua frente um outro portão de ferro com grades, trancado eletronicam ente. A abertura desse portão se dá por um controle interno que se encontra próxim o à sala da Diretoria.

Com o esse segundo portão estava trancado, tive que m e dirigir à Secretaria para que o abrissem . Observei um a conversa de um a senhora com um a funcionária, que posteriorm ente descobri ser um a das inspetoras de alunos. A conversa versava sobre um dos alunos, possivelm ente parente daquela senhora. A inspetora falava num tom alto e com certa irritação e a senhora, de aparência hum ilde, falava algum as coisas num tom m uito baixo, não perm itindo que eu entendesse a sua parte no diálogo. A inspetora entregou- lhe um bilhete, dizendo: Eu m esm a peguei o João lá fora, ele anda trazendo m uitos problem as. A senhora pede para a m ãe dele vir à escola, aqui está o bilhete....eu j á falei, não é a prim eira vez que isso acontece.... se não vier ninguém , eu vou ligar para o Conselho Tutelar.

Quando essa senhora se retirou, ela se dirigiu a algum as crianças que tam bém est avam próxim as ao guichê num t om m ais cordial: “ E vocês, o que vocês querem ?” Com o ela não reparou na m inha presença, m e dirigi a ela procurando pelo Diretor. Respondeu- m e que ele não estava e quis saber qual era o assunto. Expliquei que era psicólogo e que j á havia conversado com ele sobre um a pesquisa que ia realizar na escola. Ela riu e disse: Ah.... psicólogo? ( riu) ....o que você vai t er de t rabalho aqui! Você não vai sair daqui hoj e! Eu vou t e am arrar aqui na escola ( riu). Abriu o portão e m e dirigi à sala da Direção da escola.

O Diretor não estava m esm o. Procurei a Coordenadora Pedagógica que m e inform ou que o prim eiro grupo se iniciaria às 13 horas. Pergunt ei se poderia dar um a volt a pela escola at é o horário da reunião, a que respondeu afirm ativam ente, que eu ficasse à vont ade.

Cam inhei até a quadra e vi que um professor estava dando aula para as crianças daquele período ( 11 às 15 horas, 1ª à 5ª série) . Observei que as paredes externas do

prédio tam bém estavam rabiscadas com giz de cera. As j anelas da escola, todas elas, tinham grades e um a tela de aram e para evitar que os vidros fossem quebrados.

Fui até a Secretaria m e apresentar para as funcionárias. Descobri que a funcionária que m e at endera na entrada era inspetora de aluno ( I A) e sua colega auxiliar adm inist rat ivo ( AA) . As duas foram m uit o sim pát icas e I A ret om ou a brincadeira de que “ iria m e trancafiar na escola” . Perguntei o porquê e ela com eçou a falar sobre os problem as da escola.

I A: O problem a desses alunos não é a pobreza financeira. É a pobreza m oral. Eles não têm valores que eles possam se espelhar. Para você ter um a idéia, essas crianças vêm de um a fa m ília desest rut urada. Tem um aluno cham ado Marcos que o pai est á preso porque era t raficant e. A m ãe se aj unt ou com um out ro cara que tam bém é traficante e está preso. O aluno não vem de terça feira porque a m ãe tem que levantar cedo para visitar os m aridos e não tem com o trazer as crianças. Quando a gente pede para a m ãe vir aqui, quando vem , ela xinga a gente, agride. Essas crianças acabam ficando com a avó.

AA: eu sou contra nós term os um a postura paternalista, m as às vezes a gente vê cada situação. Tem alunos que vêm para a escola porque não têm o que com er em casa. Muitos vivem em situações precárias. Vivem na m arginalidade m esm o. São pais

bê ba dos e m ã e s qu e a ba n don a m os filh os. Eu falo para a I A que às v ezes ela é

boazinha dem ais, m as às vezes é difícil.

I A: eu procuro ser dura com eles e eles m e respeitam . Dura no sentido de m ostrar para eles que eles têm valor, que têm que respeitar o colega. Teve um dia um aluno que disse pra m im que ele não queria m uit a coisa na vida, m as um brinquedo. Eu não agüentei. Saí e fui com prar um brinquedo para ele. Eles são m uit o carent es. Querem cham ar a nossa atenção. Mesm o quando sou dura com eles, depois eu choro.

AA: isso é verdade. Eles acabam não tendo valores para se espelharem . Eles m entem . Teve um rapaz, ele está com 13 anos, irm ão é seqüest rador e está preso, que veio aqui na escola t odo m achucado. Machucado m esm o...com hem at om as. Eu perguntei a ele o que tinha acontecido e ele falou que estava andando na rua na noite anterior e alguns policiais bateram nele. Eu falei para m im m esm o “ isso não pode ficar assim ” .

I A: Eu m esm a fui cham á- lo na sala de aula.

AA: Eu pedi para que ele m e contasse. Depois que contou o episódio dos policiais, ele encostou no m eu colo e com eçou a chorar. Nós acionam os o Conselho Tutelar e averiguou- se depois que era m entira. Ele havia arrum ado briga com outros alunos de outra escola.

I A: o que você acha de um rapaz que estupra um a m enina de 4 anos? É ele. AA: logo depois que o Conselho Tutelar assum iu a situação, surgiu essa questão do estupro que a m ãe m esm a confirm ou, m as não quis denunciar na polícia.

I A: O conselho Tutelar acabou transferindo ele de escola e tam bém porque a m ãe teve que se m udar, pois a vizinhança queria pegar o rapaz.

Conversei com elas por m ais quinze m inutos e elas continuaram a falar sobre outros alunos. Quando achava que estavam falando de um determ inado aluno e de um a det erm inada fam ília, percebia que j á era um out ro relat o. Foi um a série de situações que m e deixaram perplexo diante da realidade em que vivem estas fam ílias: alunos que não tinham o que com er, m ãe que abandonara o filho, pais presidiários ou bandidos, agressões entre alunos, carência afetiva, desestrutura fam iliar, falt a de cuidado dos pais, etc.

O que ficou claro para m im é que elas procuravam m elhorar, segundo suas palavras, a “ auto- estim a” do aluno, com conversas do tipo “ você tem qualidades” , “ você é inteligente” , “ você não gostaria que fizesse com você o que você faz com os out ros” , procurando sensibilizá- los para que t ivessem um a postura m oral, desde tratar bem o colega até com o com er e lim par o prato de form a correta. Por outro lado, diante das desigualdades em que essas fam ílias vivem , a I nspetora de alunos e a Auxiliar Adm inist rat ivo afirm am que o problem a é m uit o m ais grave por não t erem eles apoio da fam ília. Muit os, segundo elas, “ largam os filhos” . Por isso a Auxiliar Adm inistrativo é contra a postura paternalista; m as, em contrapartida, vê que diante de tanta carência, “ às vezes você não tem outra saída a não ser aj udar esses alunos nas suas necessidades m ais básicas, com o com ida e afeto” . Enfatizaram , principalm ente a I nspetora de alunos, a falta de apoio externo sobre com o agir com aqueles alunos em tais situações.

Foi int eressant e not ar que, ao lado do retrato da violência que apresentavam , tam bém sugeriam form as de lidar com ela, m uitas vezes pela via afetiva, m as atentas ao perigo de, com isso, adotar um a atitude paternalista. Pareceu- m e que, diante daquelas situações, tais atitudes eram sustentadas m ais por valores pessoais.

Belgede Evrak Tarihi ve Sayısı: (sayfa 13-21)

Benzer Belgeler