Eu sei que o senhor não vai concordar, mas no ano passado nós conversamos e chegamos à conclusão de que seria melhor ajuntarmos todos os alunos mais problemáticos numa sala só, assim poderíamos ter um controle melhor desses alunos (Coordenadora Pedagógica).
Eu não sei quem inventou essa história de Educação Inclusiva. Provavelmente é alguém que não lida com os alunos que a gente tem. A idéia de colocá los numa sala só é boa porque a gente i ia tentar segurar a onda. É melhor ter odos no- r t mesmo luga, do que ter grupinhos espalhados em outras 8ª s (Profº 3. o período).
Tem LA na 8ª A. Os alunos acabam idolatrando quem é LA.. É passaporte para a bandidagem. A 8ª A parece mais a Sucursal da Febem (risos). (Inspetora de alunos).
Queria depois que você conhecesse o Picadinho da 8ª A. Dizem que o apelido dele é Picadinho porque ele matou uma pessoa e esqua tejou ela em picadinho. Você acha que ele fez isso? Acho que prefiro acreditar que ele gosta de picadinhor mesmo. (Coordenadora Pedagógica)
Muitos lá dizem ‘Eu quero é ser bandido’ (Inspetora de alunos).
M! Você vai ganhar um prêmio hoje. Os alunos da 8ª A estão com o Satanás hoje (Inspetora de alunos).
Essa história da 8ª A não é bem assim São dois ou três alunos e a sala leva a fama (Profº 3. o período).
Eles são uns capetas, com espíritos obsessores (Prof. 3o período)
Para trabalhar com eles eu preciso levá-los à sala de leitura e fazer com que eles olhem para mim. Quando falo alguma coisa que interessa a eles como identidade grupal, cidadania, eles participam (Profª 3, o período)
Gente olha só o que os alunos estão fazendo com o Marcos. Escutem os palavrões. Coi ado!... (Inspetora de alunos), t .
Foi assim que com eçou a surgir a história da 8ª série A. Eu j á havia escutado depoim entos de alguns educadores sobre alunos ditos problem áticos, ou sej a, envolvidos com a “ bandidagem ” . A percepção de que todos esses alunos faziam part e da 8ª A com eçou a surgir na m inha segunda visit a à escola.
Em virtude de certos problem as que as 7ª s séries apresentaram em 2003 e pela presença dos tais alunos problem áticos, os professores e a Direção decidiram agregar a m aioria desses alunos em um a única sala para o ano seguinte: a futura 8ª série A.
Esta série passou a ser em blem ática por vários razões. De um lado, recebeu esse rótulo por parte dos educadores por causa de uns prot agonist as considerados m ais perigosos. Em contrapartida, os próprios alunos acabaram usufruindo esse rótulo, em decorrência do stat us que o estigm a lhes conferiu. A questão é que, por m elhor que tenha sido a intenção dos professores, tal procedim ento resultou em efeitos não- previstos. Os alunos são m uito perceptivos e acabam entendendo o lugar no qual são colocados.
Muitos professores do 3º período consideram esses alunos vítim as das circunstâncias nas quais vivem . Muitos apresentam considerável carência afetiva, e, quando possível, elegem um professor que os respeita, com o um a referência. Foi o caso do professor J, adm irado pelo aluno M, protagonista de atos de vandalism os e freqüentes am eaças aos dem ais alunos.
Segundo o entendim ento do grupo VI , se se consegue ter um a relação m ais próxim a com tais alunos, eles acabam respeit ando o professor. Porém , se são tratados com alt ivez e autoritarism o, eles “ acabam com você” ( depoim ento de S, professora do 3º período) .
Alguns protagonistas da 8ª A desenvolveram um a relação m ais próxim a com a Coordenadora Pedagógica e com as inspet oras. Segundo a Coordenadora Pedagógica, m uitas vezes eles precisam que alguém converse com eles, oriente, fale que eles são bons. Esta atitude dividiu a opinião dos professores do 3º período, com o j á m encionam os, por legitim ar algum as práticas dentro da escola, com o por exem plo, a negociação do tipo “ não j oga bom ba na escola que a gente pega leve com você” . O que acaba acontecendo, segundo alguns professores, é que os alunos m ais indisciplinados e problem át icos se sentem “ donos” da escola.
Essa visão não é hom ogênea, pois alguns consideram que esse estigm a está super dim ensionado. Os problem as da escola não se resum em à 8a serie A, m esm o
porque é a m inoria dos alunos desta classe que é m ais violenta.
Ent ret ant o, est a agregação não im pediu que os professores desenvolvessem est rat égias criat ivas para lidar com eles. Muit os procuraram diversificar o m ét odo de ensino, introduzindo tem as m ais am plos, com o cidadania, identidade grupal e sexualidade, para despertar o interesse dos alunos. A m úsica tam bém foi introduzida por professores de Ciências com o form a de incentivar a participação em sala de aula.
5 .8 . Met áforas ut ilizadas
Todas as nossas com preensões podem ser vistas com o m et afóricas se as rast rearm os à suas origens [ ....] As palavras tam bém com põem as nossas form as de vida ( Gergen, 1999, p.65) .
Metáforas Temática
Você tem prova? (fala de um aluno para a professora). Policial / judiciária
Os pais e as mães estão muito mais armados contra. Policial
...E a gen e se sen e assim meio sozinha...Não há ninguém que nos ajude. Nos t t testemunhe. A testemunha é importante. ... Se você está sozinho, você vai provar de que jeito?...Hoje é o professor que tem que provar sua inocência. Os docentes são os considerados culpados.
Policial / judiciária
Então é o professor que está lá para ser bombardeado. Não háinvestigação. Já
se começa atacando. Policial / guerra
Eu vou perder o domínio da sala por causa de dois, três elementos? Policial
Me senti umapalhaça Circo
Já acabaram com o Carandiru. Penitenciária
Eles são do Pavilhão 9 Penitenciária
Eles vivem em guetos. Penitenciária
A comida que a gente está ofertando para ele não é muito boa. Alimento
Já são quase sete horas. Tá na hora de fechar o cadeião Penitenciária
Na festa junina eles quiseram fazer uma quadrilha, mas a polícia chegou e
desmanchou tudo (risos) Policial
Essa escola parece um presídio. Olha as grades espalhadas pela escola Penitenciária
Eles são uns capetas, com espíritos obsessores. Demoníaco
para os pais, nós sempre somos culpados. Judiciária
As m etáforas presentes no cotidiano, segundo os autores Lakoff & Johnson, não são m eras palavras ( 2002) . A essência da m etáfora é com preender e experienciar um a coisa em t erm os de out ra. Quando ut ilizadas, nos dão um a idéia de com o a nossa experiência é organizada. As m et áforas indicam o “ t om ” das vivências, do convívio e do am biente.
Nos exem plos acim a, podem os perceber com o as experiências são organizadas a partir dessas m etáforas. Notem que as m etáforas “ t est em unhas” , “ culpados” , “ provar” , rem et em à idéia de t ribunal. “ Cadeião” , “ quadrilha” , “ Pavilhão 9” j á falam sobre a idéia de presídio e crim inalidade.
É com preensível, um a vez que o tem a da violência desperta tais associações. Ainda assim , é im portante considerá- las com o um a form a de m ostrar com o as pessoas traduzem as suas experiências no cotidiano, o que nos faz pensar o quanto é difícil trabalhar em um am biente com essas conotações. As m etáforas, além de indicarem o clim a sobre o qual alguns sentidos são construídos, tam bém nos possibilitam entendê- las com o est rat égia para lidar com sit uações difíceis do cotidiano, com o se fosse preciso m udar de posição para poder ver a m esm a situação a partir de um a ótica m enos opressiva. Um a pitada de hum or nos posiciona em um lugar m enos opressor.