Ao relatar como ocupa seu tempo livre diz: “na verdade não faço nada, mas não tenho tempo livre. Escola de manhã, chego em casa, almoço assistindo o jornal, aí durmo, quando acordo a única coisa que faço é arrumar meu quarto, porque a vó não gosta que eu lave a louça, ou, mexa nas coisas dela”. Conta que está sempre na internet nas redes sociais, mas reclama que no seu bairro a conexão é difícil, por isso fica conectado pelo celular. Sua relação com os estudos, sobre o quanto e como costuma estudar, é descrito por ele da seguinte maneira:
[...] gostar, eu não gosto... mas eu... a gente procura fazer do útil o agradável, né? [...] assisto vídeo aula em um site [descomplica.com.br30], procuro resolver questões sobre isso... sempre tô fazendo redação... O horário que estudo é de noite, porque quando chego em casa, como eu não trabalho, chego da escola eu vou dormir...aí eu acordo de noite ou de tardizinha... ligo a televisão, o notebook, ou vou ler...estudo até umas sete ou oito horas (noite)... Mas não tem horário certo. Tem dia que estudo mais, tem dia que estudo menos, tem dia que não estudo...
Naquele dia mesmo de nossa entrevista, conta que havia assistido uma palestra na escola que recomendava outro site (geekiegames.com.br), também de vídeo aulas, dando
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O Descomplica é um site de educação (pago, mas para quem é aluno de escola pública tem livre acesso) que te ajuda a se dar bem no ENEM e Vestibulares. Nossos alunos têm acesso livre à aulas pré-gravadas, aulas ao vivo, monitorias online e correção de redação de todas as matérias do ensino médio para que esteja cada vez mais preparado para garantir uma vaga na tão sonhada universidade. O fundador Marco Fisbhen trabalhou como professor de física por 15 anos e percebeu a grande demanda para tirar dúvidas dos alunos e nem sempre tinha tempo para falar com todos eles. Em 2010, Marco começou a gravar algumas aulas de física para entender o retorno que isso daria. Com a grande audiência, pensou em expandir a ideia e em março de 2011 lançou o site. Descomplica com vídeo aulas de todas as matérias (DESCOMPLICA, 2015).
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suporte aos estudos de preparação para o ENEM, assim como, também tinha adquirido umas apostilas preparatórias para o ENEM do Colégio Farias Brito que sua colega de sala Scarlet (do grupo da pesquisada) pegou com o primo dela que estuda lá.
Procuro entender sua afirmação de não gostar de estudar, porque sua resposta não corresponde a suas notas e sua postura de bom aluno que: escreve e fala bem, é participativo, relata uma rotina de estudos e fala disso com propriedade e cita materiais com intimidade. Então pergunto o que ele diz não gostar no estudo e ele responde:
É aquela pressão, entendeu?...não sei te explicar direito, mas eu penso assim, eu não gosto de estudar, mas se eu não estudar eu não vou ter um bom futuro, né?...não vou ser visto pela família como outros são, ainda mais eu na minha classe social, na minha opção sexual, ainda mais não sendo uma pessoa bem sucedida nos padrões deles, entendeu? Então, eu busco isso, ser bem sucedido... não pra impressionar eles, mas também a mim, porque eu sempre fui uma pessoa que gostei de comprar roupa, de ter boas coisas, de sair, de andar bonito...então, eu preciso daquele dinheiro, entendeu?
Volto a insistir na questão do prazer escolar e pergunto se ele não tem nenhuma disciplina que goste de estudar, e ele responde enfático: “não, eu tenho... é porque a gente fala assim, né... mas eu gosto muito de química, gosto de história, de português, adoro português... e geografia”. Informa que não costumam ter tarefa de casa com frequência, por isso procura fazer exercícios em casa, provas do ENEM dos anos anteriores, dar uma olhada nos livros didáticos, ou ver aulas complementares na internet sobre os conteúdos vistos na escola. Considera as Aulas de Cidadania ótimas, porque segundo ele, trata:
[...] dessas coisas sociais: de preconceito, homofobia, racismo, violência [...] aí a gente tem certo entendimento de algumas coisas. De manifestação [sociais], muita gente vê aquilo, mas não sabe o que é que tá reivindicando. Transporte urbano, muitas pessoas são conformadas com aquilo, mas tem que ver que a gente merece mais... Salário, segurança, saúde, enfim... Sobre a leitura, Lucas disse gostar muito de ler: “sou louco por livros”. Os gêneros que prefere são: ficção, aventura e romance. Não sabe precisar quantos livros já leu, mas diz que em casa deve ter uns trinta livros, que ganhou e comprou. Antes desses, lia em formato PDF pela internet no celular. Seus livros preferidos são em geral sagas, pela ordem de preferência elege dois dizendo: “eu amo Harry Potter (J. K. Rowling) e Percy Jackson & Olympians (Rick Riordan)”. Acabou de ler o romance As aventuras de Pi (Yann Martel). Cita ainda os títulos: Água para elefante (Sara Gruen), As crônicas de Nárnia (C. S. Lewis), Alice
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no país das maravilhas (Lewis Carrol), A última música (Nicholas Sparks) e The walking dead (Robert Kirkman).
Todos esses livros que ele citou são obras estrangeiras que foram transformadas em produções cinematográficas ou inspiradas em séries para televisão. Explica que os livros não retratam exatamente os personagens das séries para televisão ou das produções de cinema, mas mostram como os personagens chegaram a personalidade e comportamentos apresentados na trama: porque os personagens são assim e como chegaram a ser o que são.
Pergunto se ele tem alguma literatura brasileira e ele disse que tem uma lista de livros que pretende ler, como Os sertões de Euclides da Cunha, e ressalta: “é que são umas mil páginas [...] divido em três pontos: o homem, a terra e a batalha [...] mas que um dia pretendo ler”. Explica que não lê literatura brasileira dizendo: “é que nunca gostei muito de Jorge Amado... de poesia [...] acho muito complexo, e é uma coisa que não me atrai, não me chama atenção... então gosto de fantasia, de guerra, de coisas desse tipo...”
Lucas fala da leitura com muito prazer e intimidade. Seu hábito de leitura começou há uns dois anos. Não lembra exatamente qual seu primeiro livro lido, mas acha que foi Harry Potter, porque foi por qual mais se apaixonou e daí sentiu vontade de conhecer outras sagas. Mas fica evidente a influência da indústria cultural31 nas suas escolhas literárias. Assim como, é possível entrever que a lacuna que poderia ter sido preenchida ou diversificada com algumas obras da vasta literatura brasileira apropriada a sua faixa etária, foi ocupada pela literatura estrangeira na formação desse leitor.
Sua única experiência de estudo extraescolar foi num curso de Gestão Empresarial que começou antes de ir para São Paulo, mas não concluiu. Ainda fez alguns módulos, sua avó ainda pagou alguns meses para garantir a vaga, na esperança que o neto voltasse e concluísse, mas ao voltar, iniciou o módulo de Contabilidade, Estatística, quando percebeu que não se identificava com a área, desistindo definitivamente.
Quando pergunto se alguém se interessa por seus estudos ele responde que não. Segundo ele, ninguém se interessa e nunca conversa com sua família sobre seus estudos, e argumenta: “porque a minha avó é uma pessoa maravilhosa, só que é de mim não ter muito contato, uma conversa... [e contar]: ‘vó a aula foi boa, teve isso’...eu não faço isso”. Diz que é assim com a avó e com a mãe também, e conta: “eu detestava quando chegava do colégio e minha mãe tinha varridoo meu quarto, por exemplo”. Pergunto por que e ele diz:
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Theodoro W. Adorno, filósofo alemão da Escola de Frankfurt, é defensor da ideia de que a indústria cultural, própria do capitalismo, criou elementos se apropriando de uma cultura presenta na sociedade, através de meios de comunicação para domesticar seu público massificando ideias, gostos, enfim, a própria arte, e a cultura.
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Porque nunca gostei. Sempre gostei de ser mais reservado, entendeu? [...] eu que arrumo minhas coisas, eu que dobro as minhas roupas, não gosto que ninguém faça isso por mim... [se ela varrer o quarto] significa que ela mexeu nas minhas coisas, e eu nunca fui de compartilhar muito essas coisas, entendeu? [...] a vó só conhece os meus amigos que anda lá em casa, que são poucos... Nos estudos, raramente a vó vem uma reunião...mas não porque ela não tenha tempo ou porque não queira, mas porque eu que não falo... No meu ponto de vista, acho desnecessário, assim ela vir...porque eu não sou um mau aluno, tenho notas razoáveis. Então acho que não precisa. Até porque ela não tá muito ligada pra isso, porque ela sabe como eu sou. Então só mostro minhas notas no final do ano, no boletim. Mas também não que ela não se interesse, mas porque eu não gosto.
Para ele, a escola representa, pragmaticamente, “ter um futuro bem sucedido... mais é pro meu ego, entendeu?”, diz. E acrescenta: “quero ter um estudo, me formar, fazer odontologia e quero mostrar pra minha família que eu posso, que sou capaz... [pensa] mas do que pra ela, pra mim!”. Marcado por estigmas que ele mesmo cita (pobreza, homossexualidade) procura superar e tem a necessidade de provar sua competência e sua capacidade, sobretudo, via prosperidade escolar e profissional. Acaba demonstrando ter dificuldade de hoje ser aceito por alguns membros do seio familiar, afetando sua própria aceitação.
Considera está se preparando para o ingresso no ensino superior mesmo assumindo que não estuda muito, apenas dá uma “estudadinha, uma olhadinha em casa...porque tem gente que se prepara muito pra isso, passa horas e horas estudando, mas eu não consigo...dou sou uma revisada, faço redação, respondo questionário... mas não excessivamente, entendeu?”.
Diz que o ENEM representa: “o pontapé inicial para minha vida bem sucedida”. No ano anterior, em 2013, ainda no 2º (ano EM) fez a prova por experiência para ver como era. Mas só foi no primeiro dos dois dias de prova, não chegando nem a olhar a nota “só para ter uma noção de como é sentar na sala, esperar aquele tempo todo”. Está se preparando para esse ano, e explica: “primeiro o ENEM que espero me dar bem pra fazer universidade pública, senão, em segundo plano quero tentar o PROUNI32, pra tentar faculdade com uma bolsa [integral ou 50%], mas terceira opção tá o FIES. Pública ou particular eu vou fazer”.
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PROUNI - O Programa Universidade para Todos é do Ministério da Educação, criado pelo Governo Federal em 2004, que concede bolsas de estudo integrais e parciais (50%) em instituições privadas de ensino superior, em cursos de graduação e sequenciais de formação específica, a estudantes brasileiros, sem diploma de nível superior. Podem se inscrever no Prouni 1º/2015, os candidatos que não possuam diploma de curso superior que tenham participado do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2014 e tenham obtido no mínimo 450 pontos na média das notas do Exame. É preciso, ainda, que tenham obtido nota acima de zero na redação. Para concorrer às bolsas integrais o
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Confessa que gostaria de estar trabalhando para ter independência financeira. Mas Lucas e sua avó decidiram junto adiar sua entrada no mundo trabalho, por acreditarem que isso poderia atrapalhar e fazer “desandar os estudos”, porque não teria o mesmo tempo para estudar e que essa responsabilidade a mais iria lhe cansar. E reitera: “até porque, atualmente, não tô precisando desse dinheiro, porque raramente saio... a vó me dá tudo, então...”.
Os momentos de lazer, raramente são em família. Cita um amigo de quem é muito próximo, que há três anos mora na sua rua, trabalha num salão de beleza como cabelereiro e diz ter aprendido muita coisa com ele, como: “coisas de família que ele também passou, problemas muito parecidos com o meu... A vó gosta muito dele, nós temos o mesmo nome, e a vó diz que queria que todos os filhos dela fossem que nem ele”. Costumam ir a praia e ao cinema com outros amigos. Também frequenta com os amigos a Igreja Evangélica CCNE (Comunidade Cristã Nova Esperança) no Bairro Montese, e explica que “é uma igreja... entre aspas ‘gay’, não sei como posso te explicar, muita gente se assusta [...] mas é uma igreja que acolhe a diversidade humana”.