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- BÖLÜMLERE GÖRE RAPORLAMA

Belgede 2021 Faaliyet Raporu (sayfa 100-122)

Bahise Kurt

NOT 3 - BÖLÜMLERE GÖRE RAPORLAMA

Taciana (nome fictício) têm 20 anos (na época da entrevista) e nasceu em 21 de março de 1994, no município de Fortaleza – Ceará. Aos dois anos de idade mudou-se para a cidade da família de seu pai em Guaraciaba do Norte, na Serra da Ibiapaba, onde passou a

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infância e a adolescência morando lá com os pais, até que, aos dezoito anos voltou para Fortaleza com o apoio de seus tios paternos para trabalhar como doméstica.

6.7.6.2 Família admiração pelo pai, conflitos com a mãe ranços históricos de discriminação racial rodeiam sua relação familiar

Taciana é oficialmente filha única. Ela conta que há boatos de mais duas irmãs, que seu pai teria tido fora do casamento, mas que nunca foram comprovados. Seus pais se conheceram num velório e ali mesmo se cortejaram, e começaram a namorar. Casados há trinta anos, passaram-se dez anos casados, sem conseguir engravidar. Chegaram a pensar em adoção, quando enfim sua mãe engravidou dela. Teve problemas no parto pelo excesso de peso e problemas de pressão. Aos dois anos de idade, tiveram que ir embora de Fortaleza para a cidade natal de seu pai. Sua avó paterna adoeceu seriamente e precisava de cuidados. Sua mãe não era bem aceita pela família de seu pai por ser negra, mas sua avó (que segundo ela, era racista) considerava que, no critério de cuidados com limpeza, sua mãe faria um serviço melhor que as próprias filhas, no caso, as irmãs de seu pai. Trocando em miúdos, como nora negra sua mãe não era bem vinda, mas como serviçal a função lhe cabia bem.

Taciana descreve o pai o tempo todo como um homem lindo: “é um amor de pessoa, uma gentileza, calmo... mas bebe todo dia, é uma benção (tom de ironia)”. Ele tem hoje 59 anos. Nascido em Guaraciaba do Norte, veio para a capital trabalhar como pedreiro desde os catorze anos de idade, exercendo essa profissão até hoje. Conta que ele teve chance de chefiar os pedreiros numa firma com carteira assinada, mas não se sentia bem liderando outros. Assim, passou a trabalhar por conta própria, e só ganha no dia que trabalha, inclusive, hoje tem dificuldade de reunir a documentação para se aposentar. Conta que por isso ele vai tentar se aposentar como trabalhador rural.

Taciana conta ter comprado recentemente, com muito sacrifício, seu primeiro notebook. Embora tenha suas demandas pessoais, todo mês ela manda um dinheiro para os pais. No período invernoso o trabalho na construção civil diminui e ela precisa mandar uma ajuda maior.

Sua mãe tem hoje 49 anos. Nasceu na Paraipaba e tem mais 21 irmãos. Veio para Fortaleza aos doze anos trabalhar como babá, ainda menina cuidava de outras crianças. Em seguida se encaminhou como doméstica trabalhando em casa de família. Assim como foi o caso do pai de Taciana que ainda adolescente, aos catorze anos, iniciou a labuta nos canteiros de obra da capital. Ambos engrossaram os registros de uma antiga tradição de exploração do

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trabalho infantil, que embora tenhamos ainda hoje práticas clandestinas desse tipo, há um conjunto de leis, denominado Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)36, criado para proteger e amparar as crianças e adolescentes no país.

A jovem apresenta a mãe como uma mulher “agressiva, temperamental, explosiva”, que “fala demais e briga por qualquer coisa”. Conta que sua mãe não tem contato com a família de origem a mais de vinte anos, que não sabe mais nem onde fica sua cidade natal e que guarda mágoa por ter sido explorada no trabalho pela própria mãe (avó de Taciana) desde criança. Conta que sua mãe narra que, enquanto seus irmãos eram poupados, ela tinha que dar conta de todas as tarefas domésticas. A família jamais lhe procurou – nem os pais, nem os irmãos. É como se ela tivesse experimentado a orfandade pelo abandono, pois não se sente com família, evitando falar nos mesmos.

Taciana diz que seu avô materno e uma tia (irmã de sua mãe) eram brancos e de olhos verdes, e que sua avó materna era negra. Mas que só sua mãe, que era negra, tinha que trabalhar. Sinto que a narração da trajetória e descrição que Taciana faz de sua mãe, como uma pessoa mal humorada, seca, nada afetuosa e muito amarga, tem muito de uma história vivida no limite, ferida nos afetos, no respeito e na dignidade humana que experimentou ao longo dos anos.

Relata que sua mãe nunca estudou, “até tentou o EJA, mas não foi pra frente. Era à noite, eu era pequena, começava a chorar, não tinha com quem me deixar, acabou que ela nunca mais foi”, diz Taciana. A Educação de Jovens e Adultos (EJA) é ainda uma teia cheia de desafios. Da matrícula a conclusão das etapas escolares, essa modalidade precisa convencer pessoas com distorção de idade e série a se inserirem na cultura escolar tardiamente, já vivenciando e conciliando outras responsabilidades, que lhes rouba muito tempo e energia: como é caso dos que tem família e trabalho, sobretudo, para a mulher adulta do interior, envolta em uma cultura machista que ainda impera sobre o gênero feminino.

Tradicionalmente, nos aspectos família e vida doméstica, são dados ao gênero feminino mais encargos e se espera mais renúncia do que do gênero masculino. A dominação do homem sobre a mulher é exercida por meio de uma violência simbólica, em que a relação

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O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) foi instituído pela Lei 8.069 no dia 13 de julho de 1990, que regulamenta os direitos das crianças e dos adolescentes inspirada pelas diretrizes fornecidas pela Constituição Federal de 1988, internalizando uma série de normativas internacionais: Declaração dos Direitos da Criança, Regras mínimas das Nações Unidas para administração da Justiça da Infância e da Juventude e Diretrizes das Nações Unidas para prevenção da Delinquência Juvenil (BRASIL, 2002).

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de poder é compartilhada inconscientemente entre dominador e dominada, determinada pelos esquemas práticos do habitus, conforme Bourdieu explicita:

[…] O efeito da dominação simbólica (seja ela de etnia, de gênero, de

cultura, de língua etc.) se exerce não na lógica pura das consciências cognoscentes, mas através dos esquemas de percepção, de avaliação e de

ação que são constitutivos dos ‘habitus’ e que fundamentam, aquém das

decisões da consciência e dos controles da vontade, uma relação de conhecimento profundamente obscura a ela mesma. Assim a lógica paradoxal da dominação masculina e da submissão feminina, que se pode dizer ser, ao mesmo tempo e sem contradição, espontânea e extorquida, só pode ser compreendida se nos mantivermos atentos aos efeitos duradouros que a ordem social exerce sobre as mulheres (e os homens), ou seja, às disposições espontaneamente harmonizadas com esta ordem que as impõem. (BOURDIEU, 2002, p. 49-50).

Dessa maneira, é naturalizado que a mulher tem obrigações inerentes a sua “natureza feminina”. Na condição de mulher, deve se entregar mais a maternidade e ao matrimônio, assim como, as responsabilidades doméstica cotidianas, sob pena de ser “mal vista pela sociedade”, como uma mãe ausente, uma esposa negligente, como aquela não cumprir com as funções “próprias” desse gênero, tidos como “papéis sociais”. Assim, muitas mulheres adiam, tentam conciliar como podem, ou abdicam de suas demandas ou projetos pessoais, como pode ter sido o caso da desistência escolar da mãe de Taciana.

Os relatos de Taciana repetidas vezes dão destaque às questões étnicas pela cor da pele e dos olhos de seus familiares. Destaca que seu pai “é lindo, só tem o buchão

[barrigudo], mas ele é perfeito, têm os olhinhos bem verdes...”. Da mesma forma descreve seu avô e a tia materna: “eram bem branquinhos e sua minha, avó materna era uma nega”. Sutilmente, aparece um discurso de (des)valorização na descrição de determinados elementos físicos. Também chamou a atenção para a obesidade na família. Ela diz que toda a família acha normal ser assim, que ninguém se preocupa com saúde:

Na minha família é tudo com noventa e cento e tantos quilos. A gente diz que é uma família peso-pesado: meus tios, tias, [...] minha avô quando morreu precisou encomendar o caixão porque não cabia nesses normais [...]. Meu pai por apresentar problemas de pressão alta, colesterol, coração, diabetes, teve que diminuir o peso, mas todo mundo é assim que nem eu. Já é hereditário. Do jeito que é minha mãe eu também sou, só que minha mãe tem um corpinho mais definido, eu já não nasci com essa sorte.

Em nenhum momento menciono sobre suas características físicas, mas ela traz à tona, ao longo da conversa, vários comentários sobre a descrição física dos familiares e apreciações negativas nas entrelinhas sobre o próprio corpo. Também observei algumas de

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suas publicações na página de seu perfil público na rede social Facebook, em que ela se identifica e reproduz uma postagem de um perfil chamado “Eu sou redonda, sexy e bonita. #Sou mais eu”, no mesmo site de relacionamento, demonstrando a necessidade de se autoafirmar:

Eu não tenho barriguinha de tanquinho. Estou longe de ser considerada uma modelo, mas sou mais eu. Eu como muito, tenho curvas, tenho mais gordura do que deveria e tenho cicatrizes. Eu tenho uma historia, algumas pessoas me amam pelo que sou, alguns me odeiam pelo mesmo motivo. Amo ficar de pijama e sem maquiagem . Eu sou amável e louca. Eu não finjo ser alguém que não sou, você pode me amar ou não. Mas não vou mudar. Mas se você merecer, faço isso com todo prazer. Mas sua vida só vai pra frente quando você desapega das pessoas que te levarão para trás. Pessoas perfeitas, não brigam, não erram e principalmente não existem. Eu sou redonda, sexy e bonita. #Sou Mais Eu.

Taciana evidencia sua insatisfação com a ditadura da beleza que impõe um padrão estabelecido como ideal e que ela não se vê enquadrada. Sua insistência em responder com desagravo remete um incômodo que aparece em sua fala recorrente na entrevista e nas postagens na internet. Seus comentários deixam pressupor uma proteção e defesa por antecipação a qualquer possível ataque social, que discrimina os diferentes ou aqueles que fogem as regras e modelos dominantes impositivos.

Belgede 2021 Faaliyet Raporu (sayfa 100-122)