Bahise Kurt
31 ARALIK 2021 TARİHİNDE SONA EREN HESAP DÖNEMİNE AİT KONSOLİDE FİNANSAL TABLOLARA İLİŞKİN AÇIKLAYICI NOTLAR
Por várias vezes ela fala da dificuldade de se relacionar com sua mãe. Ao contrário da forma afetuosa de que fala do pai: “bebe todo dia, mas ele é perfeito”. Sempre que pode manda presentes para ele, e quando vai ao interior ela disse levar uma “bolsa gigante com: roupa, perfume e sapato”. Mas diz: “E pergunte o quê que eu levo pra minha mãe”. Pergunto: “O quê?”. Responde: “Nada”. E dá uma risada.
Pergunto por que, e ela relata: “porque ela não gosta de nada. A gente não se dá muito bem, tudo dela é muito certinho. Não posso deixar uma toalha no banheiro, não posso bagunçar meu quarto, não pode nada [...] ela é muito rigorosa”. Sua mãe tem ciúme dela com sua tia, irmã de seu pai, pois a filha se relaciona bem com a tia. Taciana diz que percebe o ciúme da mãe, embora a genitora não assuma. Sua patroa e suas colegas de trabalho lhe orientam a tratar melhor a mãe e ela disse ter se esforçado. Agora já leva uns doces de presente para tentar agradá-la. Mas disse que não é a mesma coisa quando como manda
173
presentes para o pai, pois diz que “ele fica feliz, tudo ele gosta”. Mas disse não ser fácil agradar a mãe. E descreve o jeito e a aparência física de sua mãe, dizendo que:
[...] a mulher não usa sabonete, nem perfume, não gosta de shampoo [...] o cabelo dela é cortado que nem homem, curtinho [...]. Todas essas coisas que era pra eu levar pra minha mãe, eu levo pra minha tia, porque ela sim gosta. [...] Aí não levo nada [para mãe]. Ela não tem nem as orelhas furadas [...]. A mulher não gosta de uma calcinha bonita, só usa umas calçolas horrorosas. Roupa, sei que não acerto e dou o dinheiro pra ela comprar. Ela compra aquelas roupas parecendo uma velha, uma mulher que não tem nem cinquenta anos [...]. E ela é bonita, uma negona bonita, mas ela não é cuidadosa, zelosa, não pinta as unhas, não tira a sobrancelha [...]. Nunca gostou de festa, de se arrumar. E o pai quando era mais novo saía sozinho e ela ficava em casa. Ela veio saber como usar um absorvente quando eu menstruei e ensinei pra ela. Nesse quesito ela não gosta de nada [...]. Só é muito limpa demais. As panelas dela são tão areadas (brilhantes) que a gente se vê. Minha casa parece um ovo, mas é toda limpinha, arrumadinha [...].
Sua mãe nunca trabalhou fora de casa depois de casada. É dona de casa e analfabeta. Não lê nada, mal assina o nome e não lembra exatamente o nome próprio, já que é conhecida por um codinome. Às vezes, Taciana assina pela mãe. Conta que sua mãe tinha muita raiva quando morava em Fortaleza porque não sabia pegar ônibus. Que no início quando precisava levar a filha ao médico, pedia alguém para leva-la, mas nem sempre tinha gente disponível, por isso acabou aprendendo “a se virar na marra”, conta a jovem. Isso aborrecia muito sua mãe e diz: “é como se ela não enxergasse nada”. Por isso, sua mãe preferiu morar no interior, porque era mais fácil conhecer o meio de convívio.
6.7.6.4 Trajetória escolar com consecutivas interrupções
Taciana ingressou na escola aos três anos. Como sua mãe não conseguia lhe ajudar com as tarefas de casa, contratou uma professora particular para alfabetizar a filha. Fez da Pré-escola ao Ensino Fundamental no Colégio Dom Pedro. No Ensino Médio frequentou a Escola Marina Maria Soares. Todas são escolas públicas em Guaraciaba do Norte. Ainda chegou a iniciar o 3º Ano lá, mas interrompeu os estudos para vir trabalhar na capital.
Ficou dois anos sem estudar, 2012 e 2013. Em 2014, sua patroa incentivou seu retorno escolar, quando volta a cursar o Ensino Médio na Escola Paróquia da Paz. Segundo informa, até quase o final do Ensino Fundamental teve boas notas, mas na transição para o Ensino Médio se desinteressou um pouco e chegou há repetir um ano. Começou a trabalhar por um ano e meio num comércio local e se desanimou com a escola. Reclama que era
174
cansativo, porque além do trabalho ser puxado, pois tinha que matar frango e atender ao público, tinha que conciliar com o outro turno de escola. Na época também fazia um curso básico de informática no terceiro turno. Por isso, chegou a gazear as aulas com uma amiga, mas sua mãe soube por fofoca e coibiu as repetições de infrequência escolar.
Suas disciplinas preferidas são: Biologia, Química e não gosta de Matemática e Física. Como ela diz: “gosto de coisas que envolvem o corpo e a humanidade”. Acha que as aulas de cidadania servem para refletir “sobre o que tá acontecendo ao nosso redor, pra ficar atualizado. Muita gente não tem tempo pra assistir jornal. Eu não tenho tempo. Então a gente se informava, fazia debate... Era bom!”. Já prestou o vestibular para o curso de Enfermagem na Faculdade Ateneu (particular). Mas não terá condição de cursar, pois a mensalidade é mais que seu o salário. Sobre o ENEM, argumenta de imediato:
São muitas questões!!! Para mim não vai servir muito esse ano, por isso nem deu pra tentar direito. Foi um período que a gente tava de mudança (com a patroa para um novo domicílio). Aí não tive tempo de estudar, nem de prestar muita atenção. Eu fiz por fazer, se passar: muito bem, muito obrigada... Se não... Só ano que vem. Mas é importante pra conseguir uma vaga na faculdade pública ou particular pra gente poder fazer faculdade.
Taciana disse gostar de estudar, mas geralmente não estuda em casa, nem tem tempo. Mas segundo ela, presta atenção nas aulas e aprende rápido. Disse que a Feira Cultural da Escola foi organizada por ela, uma colega e a Professora de Biologia. E mesmo os colegas escolhendo as meninas bonitas como líderes de sala, ela é que organiza tudo. De novo deixa escapar um problema de autoestima, enaltecendo a beleza dos outros e, subliminarmente, menosprezando sua aparência.
Sua relação atual com a leitura é de que tem livros, mas não costuma ler muito. Não se lembra de nenhum título ou autor de livros já lidos. Passa muito tempo na internet, e costuma ouvir música, ver televisão e interagir nas redes sociais ao mesmo tempo.
No entanto, seu contato com o universo literário foi uma experiência na infância muito interessante. Relata que, quando criança todo domingo ia à missa com a mãe, e depois passavam na loja de R$1,99, e sua mãe comprava livrinhos de conto, como: Branca de Neve e os sete anões, Chapeuzinho Vermelho, Cinderela, A Bela e a Fera, para que a filha lesse para ela. Pergunto se a mãe ouvia. Ela disse: “Atentamente. [...] pra estimular minha leitura e pra ela escutar as histórias”. Pergunto se essa não era uma forma de sua mãe demonstrar amor. Ela sorriu e disse: “Meio torto, mas é”.
175
Taciana ressente-se da mãe não ser afável. Tive a impressão que sua mãe foi ao longo da vida alvo de muitos infortúnios, decorrentes de discriminações sociais relacionadas à cor da pele, a condição de gênero, a classe social e, quem sabe, outras coisas que não foram relatadas, assim como milhares de brasileiros, o que não diminui a gravidade. Ela foi vítima de: uma forma de trabalho escravo, pela ausência de regularização do trabalho doméstico que executou por anos e não teve direito a nada; da exploração do trabalho infantil aos doze anos; do racismo que sofreu abertamente por parte da família do marido, e da própria família de origem; e, do analfabetismo que lhe colocou na condição de cegueira social, gerando constrangimento e dependência alheia, como a própria filha lembra: “é como se ela não enxergasse nada, nem o próprio nome ela reconhece”. Sempre indicada para os afazeres domésticos, sua existência sempre esteve associada a tais funções. O que me parece, é que sua hostilidade no trato familiar e social tem raízes que começa na infância, e vai embrutecendo com o tempo como forma de proteção.
Sobre quem se interessa pelos seus estudos, Taciana conta que seu pai passa o dia no trabalho, e quando chega sempre está bêbado, então quase não conversam. Sua mãe às vezes pergunta, mas não aprofunda muito o assunto. Considerando a ausência de escolaridade da mãe, não é difícil compreender sua tímida participação no acompanhamento consecutivo de seus estudos. Implicitamente, a filha parece entender e aponta a atual patroa como a maior incentivadora dos seus estudos. Conta que ela deu todo apoio para que retornasse à escola, para que procurasse a documentação escolar e fizesse a matrícula. A patroa providenciou a compra do material e incentiva diariamente os estudos de Taciana. Na Feira Cultural da Escola tinha que falar sobre o pacifista Gandhi e sua patroa lhe auxiliou na pesquisa toda.
Como os demais colegas, Taciana diz que a escola representa “um estímulo pra poder ter uma vida melhor, pra conseguir emprego, ‘ser alguém na vida’, pra ajudar os pais”. E diz: “[...] pra mim é bom a escola porque ocupa a mente pra não pensar besteira, e anda, conhece outras pessoas, e passeia...”. Conta que antes de voltar aos estudos ficava em casa [no trabalho] só deitada, dormindo. Então, ela analisa: “O quê que eu ia aproveitar da vida? Nada!” Por isso, o retorno à escola lhe trouxe outro sentido à vida cotidiana.