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Não há registros evidentes que organizações cooperativas anteriores a de Rochedale tenham escrito algo que representasse objetivos ou normas a serem alcançadas, tal como se tem hoje com os princípios e valores do cooperativismo.

Bueno (1996, p. 528) descreve princípio como sendo “o momento que alguma coisa tem origem”. Para Ferreira (1999) princípio refere-se a uma condição de início ou estado. O termo não cabe de forma literal ao cooperativismo, mas ao conceito de cooperativa. As declarações escritas na época da fundação da Cooperativa de Rochedale tornaram-se conceitos fundamentais do cooperativismo e referência ao posicionamento de objetivos dos cooperados e seus valores.

Luiz Filho (1961 apud ABRANTES, 2004) refere-se ao plano dos pioneiros da Cooperativa de Rochedale como primordial para melhorar a condição social e humana, como saída da miséria e das mazelas sociais dos membros da sociedade. Os planos e objetivos dos fundadores do Armazém de Rochedale foram descritos como princípios norteadores do cooperativismo, conforme apresentado no Quadro 9.

Os princípios contemplam desde a forma de adesão à cooperativa e modo de gestão pelos sócios, como os sócios devem participar e o posicionamento da cooperativa em relação a sociedade até a preocupação com educação, conhecimento e informação, cooperaç~~ao entre cooperados e a atenção com a comunidade.

PRINCÍPIOS DO COOPERATIVISMO

PRINCÍPIO DEFINIÇÃO

1º ADESÃO VOLUNTÁRIA E LIVRE

As cooperativas são organizações voluntárias, abertas a todas as pessoas aptas a usar seus serviços e dispostas a aceitar as responsabilidades de sócio sem discriminação social, racial, política, religiosa ou de gênero.

DEMOCRÁTICO PELOS CONTROLE SÓCIOS

As cooperativas são organizações democráticas controladas por seus sócios os quais participam ativamente no estabelecimento de suas políticas e na tomada de decisões. Homens e mulheres, eleitos como representantes, são responsáveis para com os sócios. Nas cooperativas singulares, os sócios têm igualdade de votação (um sócio, um voto). As cooperativas de outros graus também são organizadas de maneira democrática.

ECONÔMICA DOS PARTICIPAÇÃO SÓCIOS

Os sócios contribuem de forma equitativa e controlam democraticamente o capital de suas cooperativas. Parte desse capital é propriedade comum das cooperativas. Usualmente os cooperados recebem juros limitados (se houver algum) sobre o capital, como condição de sociedade. Os sócios destinam as sobras aos seguintes propósitos: desenvolvimento da cooperativa, a formação de reservas, parte dessa podendo ser indivisíveis; retorno aos sócios na proporção de suas transações com as cooperativas e apoio a outras atividades que foram aprovadas pelos sócios.

INDEPENDÊNCIAAUTONOMIA E

As cooperativas são organizações autônomas para ajuda mútua controladas por seus membros. Entrando em acordo operacional com outras entidades, inclusive governamentais ou recebendo capital de origem externa, elas devem fazê-lo em termos que preservem o seu controle democrático pelos sócios e mantenham sua autonomia.

EDUCAÇÃO, TREINAMENTO E

INFORMAÇÃO

As cooperativas proporcionam educação e treinamento para os sócios, dirigentes eleitos, administradores e funcionários de modo a contribuir efetivamente para o seu desenvolvimento. Eles deverão informar o público em geral, particularmente os jovens e líderes formadores de opinião, sobre a natureza e os benefícios da cooperação.

6º COOPERAÇÃO ENTRE COOPERATIVAS As cooperativas atendem seus sócios mais efetivamente e fortalecem o movimento cooperativo trabalhando juntas através de estruturas locais, nacionais, regionais e internacionais.

7º PREOCUPAÇÃO COM A COMUNIDADE As cooperativas trabalham pelo desenvolvimento sustentável de suas comunidades, através de políticas aprovadas por seus membros. Quadro 9 – Princípios do Cooperativismo

Fonte: elaborado a partir de Pinho (1977), Benato (1997), Conceição (2003), Abrantes (2004) e OCB (2009).

Mesmo sendo princípios, algumas modificações e adaptações impostas pela modernidade foram inseridas no texto dos Princípios dos Pioneiros. As últimas alterações foram realizadas no XXXI Congresso da Aliança Cooperativa Internacional realizado em setembro de 1995 na cidade de Viena.

Além dos princípios normatizadores, inicialmente criados pelos Pioneiros de Rochedale e adaptados às diversidades culturais e as transformações sócio-econômicas, o cooperativismo também se fundamentou em valores, comumente chamados de virtudes.

As virtudes ou valores elaborados por Charles Gide (1886-1932) são em número de 12 e apresentam aspectos doutrinários. O autor das virtudes expressa três visões para o movimento cooperativista: visão financeira, visão econômica e visão social. Gide descreve os valores ou virtudes do cooperativismo como ferramenta para se viver melhor com socialização das dificuldades e dos problemas do grupo.

O Quadro 10 apresenta uma linha relacional entre as virtudes ou valores do cooperativismo, os aspectos característicos e sua área temática.

ÁREA TEMÁTICA ASPECTO VALOR OU VIRTUDE FINANCEIRA

EQUILÍBRIO

FINANCEIRO Pagar a dinheiro, evitando o endividamento e obtendo ganho. MAIOR GANHO Suprimir os parasitas, afastar os atravessadores na compra e venda de produtos e serviços.

ECONOMICA

SABER ECONOMIZAR Poupar sem sofrimento, atendendo prioritariamente as necessidades dos cooperativados, definindo políticas de investimentos das sobras.

FINANCIAMENTO Facilitar o acesso à propriedade. Pois é essencial unir esforços para conquistar os meios de produção. PREÇO JUSTO Estabelecer um preço justo, sendo o trabalho (remunerado) e os preços definidos sem intenção especuladora.

LUCRO REAL Eliminar o lucro capitalista, objetivando a produção como necessidade humana. EDUCAÇÃO Educar economicamente o povo, pois a educação é uma alternativa à pobreza.

SOCIAL

BEM VIVER Viver melhor, socializando as dificuldades e problemas do grupo.

COMBATE AO

ALCOLISMO Combater o alcoolismo, vivendo de maneira sadia. PARTICIPAÇÃO

INTEGRAL

Integrar as mulheres nas questões sociais, ressaltando a importância da participação feminina na tomada de decisões da cooperativa.

ENRIQUECIMENTO COLETIVO

Reconstituir uma propriedade coletiva para ter acesso à propriedade.

COMUNIDADE SOCIAL Abolir os conflitos, visto ser o cooperado dono e usuário da

cooperativa.

Quadro 10 – Correlação entre Valores do cooperativismo e aspectos característicos. Fonte: elaborado a partir de Conceição (2003), com adaptações.

Vê-se dessa forma que o desejo dos pioneiros do cooperativismo era a realização de aspirações individuais através de objetivos comuns e destacavam a necessidade da racionalidade, da igualdade e da solidariedade nas áreas financeira, econômica e social.

O conhecimento dos Princípios e Valores do cooperativismo confrontados com realidade econômica e social na atualidade tem incentivado muitas pessoas a formar cooperativas, embora, apenas o desejo não se traduza em excelência em gestão de organizações cooperativas. Para tal, é necessário, também, ter conhecimentos sobre o funcionamento de uma cooperativa desde sua constituição, instalação e, propriamente, o modelo de gestão.