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No campo dos estudos dos movimentos sociais, o ciclo de protestos dos acontecimentos de 1968, é um divisor de águas, seja na Europa ou nos Estados Unidos. É um ponto de inflexão para as estruturas do pensamento político e filosófico. Expõe e fomenta embates entre correntes políticas das esquerdas, marcando limites entre o que se passará a chamar de velha e nova esquerda, seja isso dirigido a defesa ou crítica ao stalinismo soviético, às estruturas burocráticas dos partidos comunistas vinculados a esta linha, à burocratização das centrais sindicais, ao formalismo do pensamento e hierarquia no interior das instituições acadêmicas e políticas, ao comportamento e moral conservadora dos líderes e militantes políticos, ou de intelectuais do mundo das letras e das artes.
É um período que se estende por anos que antecedem e ultrapassam 1968. O que pode ser localizado entre o levante dos estudantes na universidade de Berkley7, por liberdade de expressão, em 1964, e o outono quente na Itália8, representado por uma coalisão autonomista que reunia operários e estudantes, atuando para lidar com a crise econômica recessiva e repressiva – a herança fascista que o arcabouço jurídico instituiu no país como um Estado de Exceção -, utilizando-se de luta de protestos de rua e ocupações de fábricas.
Maio de 1968 na França imprimiu traços ao acontecimento da época que são hoje reconhecidos como tendo permeado o conjunto das mobilizações que ocorreram em todo o mundo, entre 1967 e 1973. Ribeiro (2014a) em artigo sobre os protestos de junho de 2013 no Brasil, estabelece comparações com o que aconteceu na França, fazendo uma descrição político filosófica de 1968, que ajuda a pensar a natureza de certos movimentos de protestos que irrompem em certas circunstancias históricas, que chamo de ciclo de protestos pela magnitude e longevidade que adquirem, compreendendo o elemento disruptivo como parte, que coincide com o que ele situa como acontecimento-evento (événements).
Depois de quase meio século dos événements de mai –os acontecimentos de 1968 na França que aparecem hoje como o paradigma de movimentos sem uma causa aparente –, pode-se enumerar algumas de suas características mais
7 Sobre isso ver (SOUZA, 2009). 8 Sobre isso ver (TRONTI, 2012).
importantes. A verdade é que eles não são previstos, ou melhor, não podem ser previstos. Vêm sempre de surpresa. Uma causa política deve reunir apoio, algo que geralmente leva tempo. Movimentos sociais, se bem-sucedidos em suas causas, também podem ser vistos quando se fortalecem. Mudanças econômicas igualmente precisam de tempo. As principais palavras que vimos empregando aqui significam que processos podem ser percebidos na medida em que o tempo os desdobra. Mas eventos que acontecem segundo o modelo de 1968 não reúnem força no curso do tempo, eles ocorrem de repente. Aqui o tempo é o instante, o momento, o momentum [...]. Hoje quase tudo na vida política, social e econômica pode ser previsto, ao menos como possibilidade. Mas o modelo de 1968 significa que não havia existência anterior, nem mesmo como possibilidade... Significa não somente o fato genérico de que algo acontece, mas, antes, o fato de que algo muito especial ocorre, experiências comuns tornam-se nesses momentos como que consagradas por essa condição extraordinária [...] Significa algo único, sem ensaio e sem reprodução ou repetição [...] Mesmo experiências comuns tornam-se nesses momentos como que consagradas por essa condição extraordinária... Diríamos que muitos experimentam uma epifania. Sentem que outro mundo é possível [...]. Todos têm, portanto, a experiência de um conhecimento diferente, intuitivo, instantâneo; isto é epifania ou revelação. Leis municipais menores são transgredidas; isto é ação. Todos sabem; eles agem. E experimentam novas formas de sociabilidade; isto é comunhão [...]. É a revelação de possibilidades que existem em cada um de nós, em você. São bem democráticas e geralmente muito baratas, uma vez que rompem com as regras do consumo. Muitas coisas, para não dizer tudo, parecem estar à mão [...]. Será que as pessoas mudam realmente no decorrer desses eventos, que, mesmo durando algumas semanas, como costumam durar, nunca podem ser caracterizados como um processo? Porque nunca deixarão de ser momentos. As pessoas podem passar juntas um longo tempo: ainda assim, terão o sentimento de que algo muito especial, único, está acontecendo (RIBEIRO, 2014a, p. 97-103).
Para uma leitura de 1968, enquanto um ciclo de protesto, particularmente no caso da Europa, pode-se identificar diferentes interpretações, ligadas ao debate de correntes políticas e filosóficas militantes atuantes naquele momento, ou a seus intérpretes na academia (MATOS,
1989, 2008; HORCASITAS, 2014; ZAPPA e SOTO, 2008). Os debates e interpretações
militantes se vincularam a uma perspectiva radical da esquerda marxista, a autonomia operária (autonomismo), ao situacionismo, ao anarquismo e à nova esquerda. A partir de relatos e interpretações militantes e analíticas sobre 1968, registro elementos sobre os repertórios aí utilizados, suas performances de confronto e ideários que permeiam os protestos, as formas de organização, a militância e algumas questões do debate provocado por este evento.
Os eventos de maio de 1968 se expressam em uma grande polissemia e extensão, ganham expressões peculiares aos países onde acontecem, tendo algumas que são partilhadas, pelos impulsos e contágios próprios aos horizontes históricos de possibilidade. Matos (1989) se pergunta, por que uma multidão, tão diversa segundo cada país, se torna explosiva simultaneamente? O maio parisiense, o mais conhecido, não foi um fenômeno isolado. O
mesmo movimento acontece em Varsóvia, Berkeley e Paris, todos mais ou menos violentos, mais ou menos organizados, mais ou menos reprimidos, mais ou menos libertários. Não há nenhum centro de direção clandestino orquestrando unificadamente a agitação. Há simultaneidade, mas não coordenação. Como em Paris, a rebelião estudantil inicia quase sempre com uma passeata que desfila pela universidade ou pelas ruas por razões estritamente universitárias e é reprimida pela polícia. Os enfrentamentos são mais ou menos violentos, sendo utilizados diferentes arsenais pelas forças repressivas, desde o cassetete até gás lacrimogêneo, tanques, bazucas, armas de fogo. O grau de violência varia conforme o país, a amplitude e profundidade da revolta.
Para Matos, a rebelião estudantil toma a forma de uma renovação cultural, e se inspira em pensadores antiautoritários como Marcuse, fazendo aflorar a possibilidade da liberação do desejo sem culpa, participando de "revolução sexual" influenciada pela retomada das obras de Reich. O marxismo ortodoxo é posto em questão em nome do freudomarxismo e do pensamento libertário. O ano de 1968 foi o marco da Grande Recusa: recusa dos partidos oficiais, do marxismo burocratizado, de recusa e exigência de transformação de valores. A revolta acontece
em sociedades "prósperas" e "democráticas” como uma recusa moral: a obscenidade não é mais
a mulher nua que exibe o púbis, mas o general que exibe a medalha ganha no Vietnã. A rebelião estudantil, despojada de uma base de classe no sentido tradicional, é simultaneamente política, moral e instintiva, heterodoxa: os instintos devem se erguer contra a crueldade, a brutalidade, a feiura. A revolta instintiva é uma revolta contra a sociedade produtivista e os simulacros de valores que ela engendra. É revolta contra a alienação do trabalho. É desejo de eliminação dos trabalhos embrutecedores, enervantes, pseudo-automatizados, imposto pelo progresso capitalista ao trabalhador (MATOS, 1989).
Ao lado desse impulso antiautoritário e libertário, as imagens que ficaram, de 1968, são de greves nas escolas, distribuição de panfletos, proclamações, assembleias, passeatas silenciosas ou turbulentas, ocupação de auditórios ou de salas de aula, queima de jornais, agrupamentos entusiastas nem sempre aptos a enfrentas os conflitos que surgem nas ruas, mas que não recuam diante da violência. Por exemplo, os EUA vivem em 1968 uma contestação estudantil que, por seus métodos, sua progressiva radicalização, suas origens, se aproxima da
França e também da Alemanha: recusa da guerra colonial — no caso dos EUA, a guerra do Vietnã — e organização da deserção e da desobediência civil, recusa da sociedade de consumo. Utopia. Basta lembrar, neste caso, o movimento hippie que não conta entre seus porta-vozes nenhuma personalidade política, mas sim poetas e escritores, como Ginsberg. A arte vem tomar o lugar da política: a juventude não conformista pratica a inversão dos habituais — o
floweppower, que lança flores contra a polícia armada. Uma citação do movimento hippie se faz notar na Sorbonne ocupada pelos estudantes, antes que os policiais a retomassem: militantes do "Comitê Revolucionário de Ação Cultural" distribuíram flores aos C. R. S. (Corps Républicain de Securité), antes de serem alvejados por granadas de gás lacrimogêneo. Neste gesto se inscreve a contestação absoluta do sentido da palavra "Poder"; ele reivindica uma outra cultura que não se confunde com os quadros violentos de autoridade e introduz um elemento estético na contestação (MATOS,1989, p. 43).
A narrativa de Matos introduz o debate sobre a renovação de repertórios e o que se discute sobre isso, razão pela qual apresento amplamente seu pensamento. De acordo com a autora, a resposta à atuação da polícia ou à ideação do poder se faz improvisadamente, afirmando-se a dimensão lúdica do movimento, seja nas ocupações de fábrica ou nas manifestações de rua, desfaz-se a seriedade militante, liberando-se fluxos polimorfos de energias criativas, antes enclausuradas na diversidade dos sujeitos sociais. É o momento em que a luta política coincide com um estado de alegria. Felicidade é sinônimo de luta, dilui-se a representação tradicional do militante, ensimesmado, endurecido pela revolução, essa atitude é substituída por uma imagem operária que quer afirmar o próprio direito à existência em toda sua vitalidade.
As formas de se comunicar com a população revelam essa nova faceta da ação militante. Multiplicam-se panfletos, faixas, estas são significativas do que é o movimento. Palavras miúdas, onduladas pelo vento, "parecem velas de uma nave que parte para descobrir mundos maravilhosos e desconhecidos" (MATOS, 1989, p. 21). Explode o canto, o riso, as corridas, os abraços, os beijos, o bater palmas, olhar-se, existe uma empatia recíproca, militante e rua se fundem em uma energia libidinal de novo tipo. Nestas manifestações se exprimiram antecipações da felicidade a ser concretizada imediatamente, "tudo, já", foi um dos lemas do movimento. Sublimação não-repressiva, cidadania ao princípio de prazer, afirma Matos.
Uma nova concepção da democracia e do direito se afirma. O direito não é mais aquilo que se institui à luz mortiça dos corredores dos parlamentos, mas se afirma na rua, a céu aberto, com exigência do cumprimento dos direitos e da instituição de novos direitos. Jovens operários e estudantes praticam a espontaneidade consciente e criadora. Não se considerou o sistema de partidos ou grupos de pressão, não se participou do sistema, nem se utilizou os seus métodos. O movimento não tem dirigentes, nem hierarquia, nem disciplina partidária, ele contesta os profissionais da contestação, viola as regras que as oposições dominam. Essa não foi uma luta pelo poder ou contra ele, nela afirmaram-se os direitos da subjetividade e da espontaneidade consciente, comenta a autora.
Citando exemplo desse exercício de poder exercido como democracia direta, Matos fala do que foram as assembleias, como uma de suas formas. Maio de 68 não descobriu a assembleia, mas ele foi a afirmação de um novo tipo de assembleia que rompe com o cerco paralisante de uma reprodutibilidade que petrifica a experiência. Ele afirmou com essa prática a difusão de um nível de comunicação que, através da irreprodutibilidade atrai para a participação direta segmentos sociais e indivíduos singulares, tradicionalmente exauridos pela televisão e pelos jornais. A assembleia é irreprodutível, ela cria sua aura, gera uma sedução que vem do fato de desconhecer hierarquias ocultas ou manifestas, não estabelece critérios que codifique quem fala e quem ouve, não distingue quem é organizado ou desorganizado, não ritualiza a prática tradicional de votar moções previamente redigidas por grupos. A assembleia se opôs ao congresso, forma tradicional e plasmada da política, conclui.
Na mesma linha de reflexão sobre 1968, ressalto a seguir o depoimento de um participante do evento, exemplificando esta experiência, e que culmina com sua análise a respeito. Badiou, francês, quando jovem em 1968, participava de um agrupamento maoísta,
hoje um filosofo radical, faz uma descrição, do que ele denomina de quatro maios de 1968, que são distintos. É um evento em que se entrelaçaram, de forma combinada, quatro processos
bastante heterogêneos, permeado na sua grandiosidade, por muita complexidade. Para Badiou (2012a), um primeiro maio de 1968, foi a revolta da juventude universitária e secundarista. O mais conhecido, transmitido por imagens fortes que registraram o momento: manifestações em massa, barricadas, confrontos com a polícia, violência da repressão e do entusiasmo, um fenômeno mundial. Nessa época, a juventude universitária e secundarista representava uma minoria da juventude propriamente dita, distinta da massa da juventude popular. Em meio a essa juventude pode-se sinalizar para duas novidades, uma delas, a força extraordinária da ideologia e dos símbolos, do vocabulário marxista, da ideia de revolução; a outra, a aceitação da violência, defensiva e antirrepressiva, mas violência. É o que dá a essa revolta sua cor particular. Tudo isso compõe um primeiro Maio de 1968.
O segundo maio de 1968, foi a maior greve geral de toda a história francesa. Essa foi uma greve clássica. Estruturada para abranger as grandes fábricas, estimulada pelos sindicatos e pela Confederação Geral do Trabalho (CGT). Por sua extensão, essa greve, situa-se historicamente num lugar diferente da revolta da juventude. Fez parte de um contexto que era mais classicamente de esquerda. No entanto, ela foi caracterizada por elementos de radicalidade inovadores: o desencadeamento da greve foi movido por fora do controle da burocracia sindical, foram grupos de jovens operários que iniciaram o movimento, depois os sindicatos se
integraram ao movimento para controlá-lo. E aqui pode observar-se que nesse maio operário, tem um elemento de revolta, que é também interno à juventude.
Nesse segundo maio, os jovens operários praticaram as chamadas “greves selvagens”,
para distingui-las das grandes jornadas sindicais tradicionais, que já começaram em 1967. Encontra-se aqui um vínculo temporal e histórico entre movimento da juventude estudantil e movimento operário, que é singular. Em sua radicalidade, esses jovens operários fizeram o uso sistemático das ocupações de fábrica – que encontra na memória o exemplo herdado das grandes greves de 1936 ou 1947, período da unidade popular, sendo em 1968, muito mais
generalizadas. “Quase todas as fábricas foram ocupadas e cobertas de bandeiras vermelhas. Só
vendo para saber o que foi o país quando todas as fábricas se cobriram de bandeiras vermelhas.
Quem viu não consegue esquecer”, relembra Badiou (2012a, p. s/p.).
Essa prática de confrontação mais aguerrida, do segundo maio, promoveu ações conflituosas mais tensas e violentas, em que se assistiu durante esse ano e seguintes, uma prática de sequestro do patronato e confrontos periféricos com altos funcionários e polícia, denotando também, nesse segundo maio, uma certa aceitação da violência, conforme afirma Badiou. Dada toda essa efervescência política social, desencadeou-se uma ação de controle do movimento operário. Entre a vontade dirigente da CGT e as práticas de insubordinação operária, houveram conflitos internos no movimento de greve, conflitos que levaram a rejeição dos termos de negociação mediado pela CGT, pelos operários da Renault-Billancourt, fábricas onde a luta estava mais radicalizada. A rebeldia ainda se insurgia contra as tentativas de resolver a greve geral via uma negociação clássica.
Para Badiou, existe ainda, um terceiro maio de 1968, o maio libertário. Aquele que incidiu nas questões da mudança dos costumes, nas relações amorosas, na liberdade individual, que levou a organização do movimento feminista, a emancipação e afirmação dos direitos dos homossexuais. Este maio afetou a área cultural com a ideia de um novo teatro, uma nova forma de discurso público, um novo estilo de ação coletiva, com a promoção de festas temáticas fora dos horários e espaços tradicionais, os festivais, a improvisação e o jeito de fazer cinema. Esse componente cultural performático faz parte do tom geral do evento. Exemplo disso é a força gráfica dos cartazes de Maio de 1968, criados pela oficina da Escola de Belas Artes.
Badiou ressalta que os três maios de 1968 não se confundem, mas tem fortes intersecções. As vezes se conflitam, a exemplo dos embates entre o esquerdismo e a esquerda clássica, ou entre o esquerdismo político – em especial o trotskismo e o maoísmo - e o esquerdismo cultural, em geral anarquista. Essas três expressões de maio, podem ser
representadas por grandes lugares simbólicos. Para os estudantes universitários, foi a Sorbonne ocupada; para os operários, foram as grandes fábricas de automóveis; para o Maio libertário, foi a ocupação do teatro Odeon. Concluindo, maio de 1968 foi intenso e ocorreu numa multiplicidade de contradições. Quem viveu e transmitiu esse maio francês, o faz a partir de uma visão particular, com uma narrativa peculiar, destacando dimensões que lhe identificam na participação desse evento ou momento histórico. Mas, para Badiou, o quarto maio de 1968, é o que vai marcar o futuro de uma geração. É o menos inteligível, porque se manifestou ao longo do tempo, foi o que se seguiu ao mês de maio em anos políticos intensos, que ele chama “anos
vermelhos”, um espirito de época que domina a sequência que vai de 1968 a 1978, depois é
reprimido e absorvido pela cena política convencional. Nesse maio estendido dois aspectos chamam atenção, uma delas, a convicção de que, a partir dos anos 1960, assistimos ao fim de uma velha concepção de política, outra, a busca nas décadas de 1970-1980, por outra concepção da política, ou de respostas à pergunta: O que é política? Que é ao mesmo tempo, teórica, difícil, mas acompanhada de muitas experimentações imediatas nas quais as pessoas se engajavam com entusiasmo.
A reflexão sobre os quarenta anos de 1968, apresentada por Badiou, traz algumas indagações político filosóficas, que vão para além do relato, sobre o significado histórico para esquerda, daquilo que este ciclo representou como virada de época. Par ele a concepção dominante, partilhada por todo tipo de militante, de um certo campo revolucionário, nesse espectro de 1968, era de que existe um agente histórico, agente da transformação social da emancipação humana, chamado de classe operária, proletariado ou povo. Isto mudou, foi mudado. Mas, naquela época, a política de emancipação não era apenas uma ideia, uma vontade, ela estava contida, programada, na realidade histórica e social. Esse agente objetivo deveria ser transformado em força subjetiva, e essa como entidade social tornar-se um ator subjetivo. O agente precisaria ser representado por uma organização, o partido, partido da classe operária ou partido popular. Ou seja, essa concepção clássica, em 1968, era amplamente compartilhada por todos os atores e, sobretudo, por sua linguagem. Lideranças das instituições dominantes ou os contestadores, comunistas ortodoxos ou esquerdistas, seja os maoístas ou os trotskistas, utilizavam a linguagem da luta de classes, do partido, da direção proletária das lutas, das organizações de massa e do partido.
Mas a verdade secreta, e pouco a pouco revelada, é que essa linguagem comum, simbolizada pela bandeira vermelha, está morrendo. Maio de 1968 apresenta uma ambiguidade fundamental entre uma linguagem unanimemente compartilhada e o começo do fim do uso dessa linguagem. Entre o que começa
e o que termina, existe uma espécie de indistinção provisória, que dá a intensidade misteriosa de Maio de 1968 (BADIOU, 2012a, s/p.).
Nesse tempo e espaço, se procurava o que podia existir além do muro do revolucionarismo clássico. Mas, procurava-se de maneira cega, porque se utilizava a mesma linguagem da concepção dominante, a concepção da qual se quer desfazer-se. Nas suas reflexões, Badiou busca exemplificar elementos que estavam contidos no ideário da época em sua radicalidade de contestação, proposição e experimentação política de uma geração de revolucionários, dos vários maios de 1968, indo além da pujança do movimento, a indeterminação da história como aprendizado, dizendo sobre o desfecho das eleições que seguiram-se ao evento.
Maio de 1968, e, mais ainda, os anos seguintes, questionaram profundamente a legitimidade das organizações históricas da esquerda, dos sindicatos, dos partidos, dos líderes conhecidos. Mesmo nas fábricas, houve contestação da disciplina, da forma usual das greves, da hierarquia do trabalho, da autoridade