EUROSAI 43. Yönetim Kurulu Toplantısı Helsinki’de Gerçekleştirildi
20. ECOSAI Yönetim Kurulu Toplantısı ve
Ao fazer esta contextualização discuto noções que permitem uma leitura do sistema- mundo, em um processo de globalização que assume determinadas características econômicas, políticas e culturais nesse período. Para isso apresento o contexto, com uma determinada periodização, referida aos protestos ocorridos nesses anos: maio de 1968; a queda do muro de Berlim; dos dias de ação de ação global ao Occupy Wall Strett; para chegar ao ciclo de junho de 2013, no Brasil. Nesse capítulo discuto apenas o contexto geral e o ciclo de 1968.
Entendo que 1968 foi um ponto de inflexão de ciclos históricos vistos em longa duração, com também foi o ponto de partida para novas teorias de ação coletiva que se distinguem das anteriores. Os movimentos sociais passam a ser vistos não mais como disfunções sociais e/ou referidos à relação capital-trabalho, surgem a partir desse evento leituras diferenciadas e presentes em correntes teóricas fortes. A ação passa a não ser vista apenas como reativa ao Estado ou na perspectiva de tomada de poder, ela incorpora um ideário que, no meu ponto de vista, se constitui como um ponto de referência para o ciclo de protesto mais recente. Este ideário dá ênfase a elementos de ação direta, democracia participativa e democracia direta, horizontalidade, autonomia, etc. Elementos culturais fortes da ação política dos movimentos que emergem em 1968, atravessam os ciclos subsequentes, chegam aos nossos dias, e permitem novas reflexões teóricas sobre os movimentos sociais.
No início da segunda década do século XXI observamos no mundo uma eclosão simultânea de movimentos sociais de protesto com reivindicações peculiares em cada região, mas com formas de luta muito semelhantes, fenómeno que há muito não ocorria em tal proporção. Movimentos de protesto tomam as ruas, atingindo países do norte da África,
derrubando ditaduras na Tunísia, no Egito, na Líbia e no Iêmen; são acompanhados por greves e ocupações na Grécia e na Espanha, e também, um pouco antes, por revoltas nos subúrbios da Inglaterra, na Europa; estendende-se para América com as mobilizações estudantis no Chile e a ocupação de Wall Street, nos EUA. Nesse acontecimento de ordem global, chama atenção a
sincronia cosmopolita febril e viral de uma sequência de rebeliões quase espontâneas surgidas na margem sul do Mediterrâneo e que logo se manifestaram na Espanha, com os Indignados da Puerta del Sol, em Portugal, com a Geração à Rasca, e na Grécia, com a ocupação da praça Syntagma. Em todos os países houve uma mesma forma de ação: ocupações de praças, uso de redes de comunicação alternativas e articulações políticas que recusavam o espaço institucional tradicional (CARNEIRO, 2012, p. 7-8).
Estas movimentações, em suas expressões locais, assumiram diferentes características. Na América Latina se expressou principalmente na reivindicação estudantil por educação pública e gratuita no Chile - que teve apoio de amplos setores, com greves sindicais que geraram uma crise nacional, debilitando estruturalmente o governo. Nos Estados Unidos direcionou-se para denuncia das corporações financeiras, iniciando com a ocupação de Wall Street, daí se espalhando para centenas de estados, conseguindo articular um dia de greve geral em Oakland, onde situa-se um dos mais importantes portos do país. No norte da África os protestos assumiram o caráter de revolução democrática, colocando fim a longas ditaduras.
O contexto internacional econômico em que eclodem tais manifestações, coincide a crise financeira de 2008, que se gera devido a medidas dos governos e traz graves consequências sociais, tais como, a carestia dos géneros alimentares e o aumento do desemprego. A força e a grandiosidade das revoltas, invocam comparações de longo alcance histórico, evocando desde semelhanças com o ano de 1968, quanto com as convulsões populares e operárias, as jornadas revolucionárias de 1948. Ou seja, esses eventos geram muitas indagações e expectativas políticas, que recorrem a diferentes categorias explicativas, algumas vinculadas a um vocabulário que se confunde com os anseios de transformação e ruptura da ação políticas dos agentes que as desencadeiam, como uma nova jornada popular, rebelião popular ou revolução. Esse debate e disputa de sentidos serão retomados quando da discussão de junho de 2013 no Brasil.
Para os objetivos desse trabalho, na caracterização geral do contexto global, reconheço algumas categorias explicativas da dinâmica social mundial, que facilitam situar os processos políticos em que se inserem os ciclos de protestos, mundiais e local. Neste intento, utilizo uma bibliografia complementar a da teoria de movimentos sociais, com um recorte que se prende a localizar algumas noções (sistema mundo, globalização, neoliberalismo) que se inserem, um
pouco na análise realizada, e um pouco mais, para tornar inteligível a descrição dos movimentos sociais e ciclos de protestos globais. Discuto ideias que identificam os agentes desses processos políticos, que os caracterizam, exigindo um diálogo de concordância ou discordância, no exercício de análise (WALLERSTEIN, 2002, 2007; THERBORN, 2013a, 2013b, 2014; HARVEY, 2006, 2014a, 2014b; SASSEN, 2010).
Início pela expressão globalização. Esta é uma noção difusa, também tratada como mundialização, tendo uma origem no tempo que extrapola o período desse estudo. No entanto, ela ganha novos significados com o fim da guerra-fria e a adoção de medidas liberais dos EUA e Inglaterra pós o choque do petróleo, em 1973.
Wallerstein (2005) falava em globalização antes da generalização de seu uso nos anos 1990. Ele já utilizava esta noção, não como algo novo, mas como algo que tinha sido um elemento básico para o sistema mundial moderno, já desde que começou no século XVI. Seu argumento era o de que devia-se sair dos compartimentos estanques de análise, segmentadas em disciplinas nas universidades, essa compartimentação tornava-se um obstáculo e não um auxílio na compreensão do mundo. Ele defende que a realidade social em que vivemos, e determina quais são nossas opções, não foi a dos vários Estados-nação de que somo cidadãos, senão algo muito maior, que se chama sistema-mundo. Afirma que o sistema mundo conta com muitas instituições, Estados e sistemas interestatais, empresas, classes, grupos por identidade - estas instituições criam uma matriz que permite ao sistema operar, mas ao mesmo tempo, estimula os conflitos, assim como esconde as contradições que estão presentes no sistema.
Deste ponto de vista o autor não só enfrenta o saber oficial daqueles quem detém o poder, mas também se enfrenta, em boa parte, com o conhecimento convencional produzido pelos cientistas sociais que não conseguem aceitar essas conexões sugeridas pela ideia de sistema-mundo. Destaca a importância de olhar em um modo novo, não só para a maneira como funciona o mundo em que vivemos, mas também, para as formas com que abordamos e pensamos sobre o mundo. Assumir uma perspectiva de analise com foco no sistema-mundo, é fazer-se participante de um protesto fundamental contra as maneiras que nos faziam pensar que conhecíamos o mundo. Nesse sentido, Wallerstein assume a posição, com a qual eu concordo, de que a emergência deste modo de análise é uma reflexão, uma expressão de um protesto concreto contra as desigualdades profundas do sistema mundial, que ocupam o centro político do nosso tempo.
O centro da sua análise do sistema mundo, por um lado, afirma a perspectiva epistemológica indicada acima, vinculada a uma atitude intelectual militante. Com essa postura
Wallerstein busca superar a compartimentação disciplinar acadêmica, dividida em política, economia, estrutura social, cultura. Tendo essa como ponto de partida, por outro lado, apresenta uma leitura do processo de formação do sistema-mundo ao longo da história moderna, apontando três pontos de inflexão desse percurso: foi ao longo do século XVI, que o sistema- mundo moderno veio à luz, como economia-mundo capitalista; a Revolução Francesa de 1789, como acontecimento mundial que deu lugar a dominação subsequente, durante dois séculos, de uma geopolítica cultural para esse sistema-mundo, cultura que foi dominado por um liberalismo centralizador; e por fim, a revolução mundial de 1968, que previu o encerramento da longa fase do sistema-mundo moderno em que nos encontramos e que previu a desagregação da geopolítica cultural liberal centralizadora, que mantinha o sistema-mundo unificado – utilizo adiante elementos destacados por ele sobre 1968, para descrever a dinâmica social e as correntes políticas desse anúncio da virada política e cultural ocorrida (WALLERSTEIN, 2004).
Therborn (2013a) propõe uma forma de organização e descrição do fenômeno da globalização que se aproxima e diferencia da leitura realizada por Wallerstein, a qual considero como complementar. Ele trata da globalização num registro que enfatiza as ondas de globalização, propondo uma periodização histórica de construção dessa, ao longo do processo de formação das civilizações. Nisso ele se aproxima e diferencia-se das fases apontadas por Wallerstein quando discute o sistema-mundo, como é possível observar fazendo a comparação. Ao descrever os ciclos de ondas de globalização, Therborn faz uma delimitação na qual utiliza um critério que superpõe camadas de observação sobre as sociedades locais e suas inter- relações, assim como os fluxos e contra fluxos temporais e de deslocamentos culturais e territoriais, de forma nem sempre sincrônica ou na maioria das vezes diacrônicas.
Pouco importa nossa localização, quem foram nossos governantes no passado, quem somos, no que acreditamos, do que nos recordamos hoje — tudo isso sofreu o impacto de forças que ultrapassaram as barreiras territoriais, através das ondas históricas de globalização. Por onda histórica de globalização entende-se aqui a extensão, aceleração elou intensificação de importantes processos socais de alcance ou impacto pelo menos transcontinental — mas não necessariamente mundial. Além disso, essa extensão/aceleração/intensificação precisa estar delimitada no eixo temporal. Esses processos, práticas e crenças normalmente não surgem ou desaparecem abruptamente com as ondas de globalização — essas ondas crescem, avançam e se retraem, mas as aguas permanecem (THERBORN, 2013a, p.55-56).
Nessa perspectiva, para melhor compreender o mundo contemporâneo, afirma que deve- se distinguir pelo menos seis ondas da globalização: formação das religiões mundiais e delimitação das civilizações — dos séculos IV ao VIII d.C.; colonialismo europeu – dos século
XVI ao início do século XVII; guerra franco-britânica e a ascensão de uma superpotência europeia - dos séculos XVIII a início do IXX; imperialismo generalizado e separação entre mundo desenvolvido e subdesenvolvido – 1830 a 1918; política globalizada – 1919, 1941, 1447-1989; globalização autoconsciente e sua polissemia – 1990 adiante.
Nesse trabalho lanço mão da descrição que ele faz dos traços fundamentais da dinâmica
da globalização, em relação as duas últimas ondas, período que vai do fim da primeira guerra mundial até 1989 e período pós ano 1990 que atravessa a crise de 2008. Esses traços irão ajudar na exposição dos contextos dos protestos. Ele entende que a última onda de globalização ganha um significado mais especifico. Foi essa onda
[...] que deu à globalização seu nome, partindo de uma explosão conceitual da década de 1980. Esse foi o período em que a dimensão do tempo foi implodida na dimensão do espaço — quando uma nova possibilidade de futuro se transformou em um espaço estendido, "globalizado". Ele foi marcado pelo colapso da União Soviética, pela virada capitalista na China e pela sequência das derrotas, no final da década de 1970 e início da década de 1980, do movimento trabalhista na Europa Ocidental, dos revolucionários latino-americanos e do socialismo africano (THERBORN, 2013a, p. 75).
A globalização, é impactado pelo choque do petróleo de 1973, abrindo um novo ciclo de crise do capitalismo depois da segunda guerra mundial. Esse fato é seguido por alguns acontecimentos, que produzem profundas mudanças nas sociedades nacionais e no mundo. Representativo disso é a adoção de políticas neoliberais, contraposta a política keinesiana que acompanhou o pós-guerra. O keinesianismo se caracterizou, pelo que ficou conhecido, como políticas de bem-estar social, políticas essas garantidas pela intervenção do Estado na economia, para gerar equilíbrio entre arrecadação e gastos públicos, que equalizassem investimentos sociais, tendo em vista a redução de desigualdades sociais, e, a redução de conflitos trabalhistas e sociais. Esse modelo, que teve aplicações muito diferenciadas e com diferentes graus de real distribuição de renda, seja na Europa não comunista e na América do Norte, assim como, nas aplicações no contexto dos chamados países do terceiro mundo, à época, que viviam processos de lutas de descolonização, África, Ásia e parte do Oriente Médio, ou, dos governos populistas nacionalista e de ditaduras na América Latina.
Esta virada de época gera um uso da expressão globalização com certas características, marcadas por certos acontecimentos, compondo uma noção composta de globalização
neoliberal, que é útil neste trabalho. Com o fim da guerra-fria5, fala-se, da dominação dos Estados Unidos da América, seja pelo controle de suas corporações financeiras e dos organismos financeiros multilaterais, seja pelas suas intervenções militares em defesa de interesses econômicos, ou pela hegemonia política-cultural, como uma nova forma de império. Harvey (2005) aborda essas noções fazendo um diálogo que articula as lógicas territorial e do capital – partindo de outros interesses e pressupostos, essa também será uma expressão utilizada por Negri e Hardt (2016), que se terá ocasião para apresentar nesse trabalho. Harvey procura explicar a dimensão que ganha a dominação, em um primeiro momento após a guerra-fria quase que unipolar, e na difusão e construção de uma hegemonia neoliberal.
Trata-se de um imperialismo capitalista, diz ele, que funciona como uma fusão contraditória entre uma política de Estado e uma política de um império. Entendido aqui, o imperialismo, como projeto distintivamente político da parte de atores cujo poder se baseia no domínio de um território e numa capacidade de mobilizar os recursos naturais e humanos desse território para fins políticos, econômicos e militares. Esta forma de atuação vai além das estratégias de políticas diplomáticas e militares usadas por um Estado, ou por algum conjunto de Estados que conformam um bloco de poder, que buscam afirmar seus interesses e realizar suas metas em um território expandido no mundo.
A política de Estado, é entendida diferente e complementarmente, como processos moleculares de acumulação do capital no espaço e no tempo, em que o imperialismo é exercido como um processo político-econômico difuso no espaço e no tempo no qual o domínio e o uso do capital assumem a primazia. Nesta forma o fluxo do poder econômico atravessa e percorre um espaço contínuo, na direção de entidades territoriais ou em afastamento delas mediante as práticas cotidianas da produção, da troca, do comércio, dos fluxos de capitais, das transferências monetárias, da migração do trabalho, da transferência de tecnologia, da especulação com moedas, dos fluxos de informação, dos impulsos culturais (HARVEY, 2005, p. 31-32).
A adoção de políticas neoliberais foi liderada pela Inglaterra na Europa e, na América do Norte, pelos Estados Unidos, na América Latina, sobre influência desses dois países, o Chile também adotou, pós ano 1973, quando se instalou uma ditadura militar nesse país. A partir
5 A era pós-1945 ficou conhecida como Guerra Fria, já que as disputas só aconteceram no que então se consideravam áreas marginais, sempre envolvendo representantes de um lado ou do outro. O ponto central era Berlim, naquele momento dividida em duas partes. A Guerra Fria teve suas batalhas locais, e elas foram sangrentas — sobretudo no Vietnã e na Coreia, mas também na África e na América Central. Ela chegou ao fim graças à renúncia, por parte da União Soviética, de ambições globais, em 1989, e à sua implosão e desaparecimento ulteriores, em 1991 (THEBORN, 2013a).
dessas experiências, apoiadas por instituições financeiras internacionais a exemplo do Fundo Monetário Internacional - FMI, Organização Mundial do Comércio – OMC e Banco Mundial - BM, entre outras - criadas inicialmente para gerir a reconstrução das infraestruturas dos países saídos da guerra, mas que passaram a atuar impulsionadas agora pelas forças do capital financeiro internacional e suas corporações transnacionais -, lideradas pelos Estados Unidos, passam a ter uma políticas intervencionistas nas economias nacionais, promovendo os conhecidos ajustes estruturais, que desregulamentavam direitos sociais e trabalhistas, abriam as economias ao livre comércio, impulsionavam privatizações das empresas estatais, controlavam os Bancos Centrais e as políticas de juros baseado nos interesses dos investimentos privados, entre outros. O que gera um processo de endividamento dos países para com as instituições financeiras privadas e quebra da sua soberania nacional.
Contemporâneo a construção dessa hegemonia neoliberal nos países do Ocidente, têm- se essa mesma crise da economia mundial incidindo no Leste Europeu, ao que se segue o fim da guerra fria, a desestruturação do socialismo real com a queda do muro de Berlim e a quebra da União Soviética, em fins dos anos 1980 e início dos anos 1990. Na América Latina nesse mesmo período tivemos o progressivo fim das ditaduras militares e populismos, instalada a fase de redemocratização dos Estados na Região. E ainda, processos de distensão militar, com derrota das guerrilhas socialistas, na América Central.
Neste contexto, Harvey (2008) define muito bem neoliberalismo. É uma teoria que se dirige para uma explicação das práticas político-econômicas, que propõe que o bem-estar humano pode ser melhor em se liberando as liberdades e capacidades empreendedoras individuais, constituída uma sólida estrutura institucional de garantias de direitos a propriedade privada, livres mercados e livre comércio. A função do Estado seria construir essas condições e preservá-las, em uma estrutura institucional apropriada aos objetivos citados.
O Estado tem de garantir, por exemplo, a qualidade e a integridade do dinheiro. Deve também estabelecer as estruturas e funções militares, de defesa, da polícia e legais requeridas para garantir direitos de propriedade individuais e para assegurar, se necessário pela força, o funcionamento apropriado dos mercados. Além disso, se não existirem mercados (em áreas como a terra, a água, a instrução, o cuidado de saúde, a segurança social ou a poluição ambiental), estes devem ser criados, se necessário pela ação do Estado. Mas o Estado não deve aventurar-se para além dessas tarefas. As intervenções do Estado nos mercados (uma vez criados) devem ser mantidas num nível mínimo, porque, de acordo com a teoria, o Estado possivelmente não possui informações suficientes para entender devidamente os sinais do mercado (preços) e porque poderosos grupos de interesse vão inevitavelmente distorcer e viciar as intervenções do Estado (particularmente nas democracias) em seu próprio benefício (HARVEY, 2008, p. 12).
Como salienta Harvey, a proposta neoliberal desde os seus primeiros experimentos, tem influenciado todos os campos da vida social, desde a educação, através das universidades, nos meios de comunicação, em conselhos de administrações de instituições financeiras, em instituições-chave do Estado, a exemplo dos bancos centrais. Tem forte influência, senão controle, da lógica de funcionamento das instituições internacionais como o FMI, o Banco Mundial e a OMC, que regulam as finanças e o comércio globais. Nesse crescente, o neoliberalismo foi hegemonizando as modalidades de discurso, afetando amplamente o modo de pensar, incorporando-se às maneiras cotidianas de muitas pessoas interpretarem, viverem e compreenderem o mundo.
Assumo esta perspectiva de Harvey, em especial a sua afirmação de que a “destruição
criativa” do capital gerido por essa lógica, afetou não somente antigos poderes e estruturas
institucionais, abalando até as formas tradicionais de soberania do Estado, mas também das divisões do trabalho, das relações sociais, da promoção do bem-estar social, das combinações de tecnologias, dos modos de vida e de pensamento, das atividades reprodutivas, das formas de ligação à terra e dos hábitos do coração. Ele induz a um pensamento que julga a troca de mercado um valor, uma ética capaz de orientar toda ação humana, tornando-se, por assim dizer, uma crença.
Milton Santos, um intelectual militante e pesquisador reconhecido internacionalmente, formula uma sentença em torno da explicação dessa lógica neoliberal, que, para mim, expressa fortemente a crítica econômica e ética que um grupo de acadêmicos e intelectuais assumiram no debate ocorrido por volta de meados dos anos 2000, interagindo com o movimento da