• Sonuç bulunamadı

BÖLÜM 1: KAVRAMSAL ÇERÇEVE: ETİK VE ETİK EĞİTİMİ

1.2. Etik Eğitimi

1.2.6. Etik Eğitiminde Yaklaşımlar

Em certo ponto de sua investigação, a noção de recalque propõe a Freud o problema da definição do agente repressor. Principalmente o papel do Eu na primeira tópica 194

192

LACAN, ao longo de sua obra (por exemplo, no Seminário 8, p. 177), distingue nitidamente os conceitos de repetição e transferência, apesar de seus efeitos homólogos. Para esclarecer a diferenciação na situação transferencial, recorre à noção de “sintoma do analista”. O analisando, ao se identificar à situação analítica e, consequentemente, buscar ir sempre adiante rumo à verdade, já encarada com menos angústia ou mesmo com um sorriso nos lábios (como Lacan diz no Seminário 23, O Sinthoma, p. 77), sem medo de ser devorado pela sua própria verdade como Actéon por seus cães, torna-se ele próprio analista. Por isso toda análise, para Lacan, é uma análise didática. Se, no início do tratamento, o analista é o “sujeito suposto saber”, ao fim torna-se o “sujeito suposto saber por hipótese”. Isso evoca a relação do desprazer psíquico do Eu do paciente com o dogmatismo e com o preconceito em relação à verdade, já que a supõe unívoca, coisa que tende a se dissipar com a persistência na análise.

193

SA III, p. 229. OP, p. 145.

194

Freud propõe uma divisão entre sistemas psíquicos. De um lado, o consciente, que integra as funções de atenção dirigida, percepção e memória, e de outro o inconsciente, que reúne as representações reprimidas.

parece-lhe mal esclarecido, pois ele é simultaneamente uma instância que organiza de modo coerente os processos psíquicos, mas que apresenta ela mesma uma constituição que escapa à sua função reflexiva:

Desse Eu diremos que há uma consciência atada a ele, e mais, que é o Eu que controla os acessos à motilidade motora (Motilität), isto é, o escoamento (Abfuhr) em direção ao mundo externo das excitações (Reize) internamente acumuladas. O Eu seria, então, aquela instância psíquica que supervisiona todos os processos parciais que ocorrem na pessoa. É a instância que à noite vai dormir, embora, mesmo dormindo, ainda detenha o controle da censura onírica. É também desse Eu que procedem os recalques. Por meio deles, o Eu faz com que determinadas tendências psíquicas sejam excluídas, não só da consciência, mas também impedidas de se imporem ou agirem por outros meios. Ora, é exatamente com aquilo que o recalque pôs de lado que o Eu terá de se confrontar durante a análise. 195

Enfatize-se que não há nada de consciente nessas resistências, pois elas aparecem automaticamente, tendo a função de impedir o acesso ao conteúdo recalcado. Num certo momento da análise, as associações entre determinadas representações sofrem resistência e o pensamento simplesmente se desvia para regiões que não apresentem perigo à unidade do Eu consciente. O dimensionamento desse problema põe Freud diante de uma situação imprevista que questiona as concepções anteriores em seu fulcro: não é mais possível identificação plena entre “Eu” e “consciência”. O Eu se conduz em dado momento de modo semelhante ao recalcado, sendo, portanto, também parcialmente inconsciente.

Nesse ponto, a “consciência” e o “Eu” não são mais análogos e a antítese entre “consciente” (Bewuβte) e “inconsciente” (Unbewuβte) parece a Freud perder grande parte de sua importância e utilidade. A partir daí adota a oposição entre o “Eu coerente” (zusammenhängende Ich), perceptivo e racional, e o “Eu recalcado” (Verdrängte Ich), ligado às representações psíquicas inadmissíveis. Eles se apresentam aparentemente dissociados no curso da análise, mas apresentam relação de continuidade. A diferença que se coloca nessa mudança de abordagem do problema do Eu é que a partir dela é reforçado o caráter conhecido do recalcado, isto é, o recalque se estabelece como uma dissociação entre o Eu e certas representações. Estas já foram conscientes um dia, isto é, já foram percebidas no sentido próprio dessa palavra, e são impedidas de participar da vida psíquica coerente, permanecendo inconscientes. Freud pensa em uma ampla atividade inconsciente, maior do que o simples recalque. Tal atividade evidencia a parte inconsciente do funcionamento do Eu de onde partem as resistências:

195

Todo o recalcado é inconsciente, mas nem todo inconsciente é recalcado. Percebemos agora que uma parte do Eu ─ uma parte sabe lá Deus quão importante do Eu ─ cuja amplitude nos é impossível

fixar, pode ser inconsciente, e o é seguramente. Esse inconsciente do Eu não é latente no sentido em

que o pré-consciente o é. Se assim o fosse, o único meio de ativá-lo seria torná-lo consciente e, além disso, o próprio processo de torná-lo consciente não seria tão dificultoso. 196

Essa ativação psíquica inconsciente do Eu é constante e se dá de um modo diverso da percepção exterior ou interior, que estão sempre ligadas a representações verbais. O Eu nessa nova concepção é movido de modo inconsciente pela atuação de forças psíquicas desconhecidas e invencíveis, inacessíveis à consciência direta, porém intensamente atuantes.

É nesse ponto do desenvolvimento conceitual da psicanálise que surge a necessidade de uma segunda e diversa tópica do psiquismo, que sugere chamar de Eu à consciência perceptiva e àquilo que é pré-consciente, designando o psíquico restante, que engloba o recalcado, mas não se reduz a ele, pelo nome de “Isso” (Es): “As forças que presumimos existir por trás das tensões causadas pelas necessidades do Isso são chamadas de instintos (Triebe)”. 197

O Eu continua nesse Isso, ou, dito de outro modo, é apenas uma parte superficial do Isso, como o disco germinal sobre o ovo. O indivíduo “é um Isso psíquico desconhecido e inconsciente sobre cuja superfície assenta-se o Eu”, 198 que se desenvolve secundariamente, como resultado da linguagem e, consequentemente, da cultura. Tal adaptação é um simples verniz. Ela parte da necessidade de afirmação e sobrevivência do organismo e do grupo de organismos no mundo exterior, mas no fundo apenas afirma o seu mecanismo básico. Na linguagem dos impulsos, esta é a relação primordial do ímpeto (Drang) em relação aos seus destinos e aos objetos representados: “O que a pulsão (Trieb) busca é a quiescência possibilitada pela descarga”. 199 Sua meta imediata consiste em cancelar o estímulo de órgão. 200

É apenas mediante essa característica fundamental que o impulso pode ser transformado, remodelando a sua situação original como força cega a partir de um trabalho de constituição de objetos e de inscrição do regime quantitativo no campo da representação, de maneira a se constituir um “circuito pulsional” que sobredetermina a

196

SA III, p. 287. OP III, p. 31-2. Tradução levemente adaptada.

197

ESB 23, p. 161.

198

SA III, p. 292. OP III, p. 37.

199

BIRMAN, J. Sujeito e estilo em psicanálise. In: As pulsões, p.47.

200

posteriori os caminhos dos Triebe. 201 É a partir das formas de mediação ligadas ao grupo social e à linguagem e, portanto, à regulação dos destinos do impulso pelo adiamento da satisfação, que se constituirá o sujeito. A oferta de possibilidades de satisfação introduz o regime das forças no campo propriamente sexual, o que resulta no funcionamento regulado pelo princípio de prazer.

O Eu dessa concepção freudiana possui relativa autonomia e esforça-se por transmitir ao isso a influência do mundo exterior. Ao mesmo tempo, reprime a incoerência, o irracional, visando tornar a atividade psíquica algo coerente e produtivo. Mas, ainda assim, paralelamente, quer obter a satisfação do impulso. Disso decorre a restrição do “princípio de prazer” (Lustprinzip) e o privilégio do “princípio de realidade” (Realitätsprinzip). 202

As armas utilizadas pelo Eu para fazer prevalecer a sua nova síntese apoiada na linguagem são, por um lado, a percepção e a razão reflexiva, 203 e, por outro, o recalcamento conexo às resistências inconscientes por definição, cujo trabalho é afastar do Eu coerente as representações indesejáveis e, apenas por isso, desprazerosas. Com isso, define-se um sujeito da consciência e um mundo exterior a ele, restando o mundo íntimo como enigma maior justamente pela restrição ao princípio de prazer que reduz o contato entre o Eu e o Isso.

O problema que essa topologia sugere possui pelo menos dois aspectos fundamentais: (1) O primeiro é uma clara divisão entre o princípio de funcionamento do “Eu” como instância ativa e inconsciente, e o seu modo de operar a partir de uma consideração coerente e racional do mundo exterior estabelecida na linguagem; (2) O segundo é a proposição de que o Eu consciente é subordinado ao Eu inconsciente ou Isso, dada a amplitude e a intensidade do domínio deste em relação àquele. Tal estado de coisas expõe a servidão da racionalidade à atividade inconsciente repetitiva e inatual na qual se enraíza. Por isso mesmo, o inconsciente vai muito além do simples acúmulo de conteúdos latentes que um dia já passaram pela percepção. Os conteúdos recalcados conectados à própria atividade originária do Isso produzem efeitos na consciência e são partes predominantes da atividade psíquica que tem como meta fundamental a satisfação como

experiência psíquica, o que implica em dizer que não é necessário que esta satisfação se

dê em objetos reais, sejam eles o próprio corpo ou o mundo.

201

BIRMAN, J. Sujeito e estilo em psicanálise. In: As pulsões, p. 48.

202

SA I, XXII, p.349.

203

A continuidade e a descontinuidade entre inconsciente e consciente se devem, por um lado, à força (Kraft) que une o psiquismo ao orgânico, e, por outro, ao fato de que as relações do inconsciente com o consciente acontecem de modo disfarçado ou distorcido. A linguagem do inconsciente 204 estabelece um campo psíquico estranho à consciência e, portanto, uma descontinuidade decorrente deste modo de organização psíquica.

As avaliações coerentes dependem de motivos conhecidos e por isso o intelecto é frequentemente um instrumento da demanda inconsciente dentro do Eu coerente, que assume tal demanda através de uma ação, atribuindo-lhe razões que guardem consistência com a estrutura defensiva do Eu. Tal defensividade expõe a tentativa de preservar a unidade imaginária à qual o Eu coerente corresponde e que o leva à rigidez e à defesa constante do campo constituído.

Um exemplo de até onde o conflito entre tendências dentro do Eu pode ir é proporcionado pelo estado de estar apaixonado, quer de uma maneira claramente sexual, quer sublimada (por exemplo, um forte interesse voltado à arte, à filosofia ou ao trabalho em geral). A paixão chega ao ponto de envolver um sacrifício da própria individualidade, mas exige, não obstante, todo um trabalho involuntário de justificativa da posição do apaixonado frente ao seu Eu coerente. Por outro lado, paralelamente, ativam-se as resistências, também inconscientes, que recalcam as representações ligadas a impulsos

parciais (Partialtriebe) inadmissíveis à consciência.

Essa consideração implica em outra forma de subdividir internamente o inconsciente, pois Freud pensa, por um lado, nos impulsos do Eu (Ichtriebe), ligados à conservação e funcionando com energia libidinal emprestada ao Isso, e nos impulsos do Isso (Sexualtriebe) propriamente ditos, alimentados pela “libido”. 205

Se até aquele momento, ao considerar-se o processo de recalque, somente se dispensou atenção ao que é recalcado, essas novas idéias tornaram possível, além disso, formar uma estimativa correta das forças recalcadoras também ativas e sexualizadas. Desse modo, o recalque é posto em ação pelos “impulsos de autopreservação”

204

O inconsciente faria então como o mágico que mostra uma coisa e faz outra. Note-se que isso pressupõe não apenas um “desejo inconsciente”, mas uma série de estratégias consecutivas, que iludem o “Eu coerente”. Isso implica na dificuldade de perceber os afetos, por certas razões: 1) devido ao recalque (Verdrängung) ou ao prazer que possa por em risco a segurança do Eu identificado às representações do corpo e da realidade, ou de um sofrimento inassimilável; 2) devido à característica pré-linguística, e antes formadora de linguagem, dos Triebe, que não apenas falam de modo distorcido, mas também tendem a agir rápido e tomar para si os objetos de satisfação, antes que o Eu coerente perceba as intenções inconscientes.

205

(Selbsterhaltungstriebe) que atuam no Eu, o que faz com que ele se relacione com os “impulsos libidinais” (Libidinöse Impulse/Triebe).

Mas, visto que os impulsos de autopreservação foram então reconhecidos como também sendo de natureza libidinal, ou seja, “libido narcísica” (narziβtische Libido), 206 o processo de recalque foi encarado como uma atividade que ocorre dentro da própria libido. A “libido narcísica” opõe-se à “libido objetal” (Objektlibido), o que equivale a dizer que o interesse da autopreservação defende-se contra as exigências do interesse objetal, e, portanto também contra as exigências da sexualidade no sentido mais direto também.

Ambos os grupos de impulsos são inconscientes, o que sugere a possibilidade de conflito psíquico entre instâncias psíquicas e também uma divisão interna, ou clivagem (Aufsplitterung), no próprio Eu. 207 Este é regulado pela oposição de tendências: admissíveis ou inadmissíveis, coerentes ou incoerentes, conscientes ou inconscientes.

Essa divisão ou clivagem é importante, pois reforça a prioridade do Isso em relação ao Eu e expõe a dificuldade teórica em separar o psiquismo inconsciente da fisiologia nos modelos sistemáticos freudianos.