2.3 ALANYAZIN TARAMASININ SONUCU
2.3.1 Esneklik
Se a carta é um olhar que se lança e se oferece ao outro, pode-se afirmar em relação a Murilo Rubião que seu desejo não era de se expor uma vez que escreve pouco de si e quando escreve é de maneira apenas informativa, passando de relance por assuntos pessoais. Suas cartas são modestas, discretas e curtas, assim como o eu nela representado.
Você, a esta hora, já deve ter recebido as fotos e alguma coisa sobre os meus livros. Obra pobre, pequena e inútil. Sou escritor de trabalhos inéditos: três novelas e dois livros de contos que, penso, jamais serão publicados. O que não importará em graves prejuízos para a literatura do meu país. Sem falsa modéstia (Belo Horizonte, 10 out. 1968).
Não se preocupe, minha querida amiga, com essas coisas pequenas e muito menos com a impossibilidade de publicar artigo sobre este modesto escritor. Modesto e apagado, porém com a coragem suficiente para defender o que ele admira e realiza (Belo Horizonte, 5 jul. 1969).
Murilo Rubião escreve para Ana Hatherly de uma posição que oscila entre o contista e o editor do Suplemento. Numa correspondência formal, enviada pela Comissão de Redação, datada de 22 de janeiro de 1969, cumprimentando a amiga como “Prezado confrade Ana Hatherly”, Murilo Rubião assina como Secretário do Suplemento
Literário. Nessa carta, de linguagem também bastante formal, a poeta é informada que
terceiro aniversário. E desejando organizar um número “realmente expressivo do atual momento da Literatura Brasileira, com a participação dos nomes de maior responsabilidade, a Comissão de Redação toma a iniciativa de solicitar a ilustre amiga um poema ou contos inéditos, ...” (p. 1) para o qual remunerarão a quantia de cinqüenta cruzeiros novos.
O curioso desta carta é que, a despeito da formalidade, ela traz, manuscrito a tinta azul um pequeno parágrafo em que se lê:
Ana Hatherly,
O número “Literatura Nova de Portugal” sofreu atraso e sairá na primeira semana de março. Tenho andado doente. Escreverei. Um abraço
Murilo
Esse parágrafo manuscrito revela despojamento, informalidade e amizade entre Murilo Rubião e Ana Hatherly. Outro aspecto curioso da carta é o fato que o objetivo do número especial de terceiro aniversário será mostrar a atual literatura brasileira, e a portuguesa Ana Hatherly é convidada a fazer parte dessa antologia.
Embora na correspondência de 25 de outubro de 1969 a cumprimente como “Ana Hatherly, minha paciente amiga” e na de 13 de outubro de 1974 se despeça com um “abraço afetuoso do seu amigo”, ele também tem um tom formal e escreve, às vezes, como o diretor do Suplemento que solicita trabalhos de portugueses para publicar. Contudo, em que pese essa formalidade, fala de si e de sua obra, portanto as posições de escritor e de editor estão presentes nas cartas. Como escritor apresenta-se “bastante modesto”, dono de uma “obra pobre, pequena e inútil” que lança livros e os envia a escritora para que os aprecie e os divulgue em Portugal. Entretanto, além de diretor do
Suplemento e um escritor modesto, ele também se apresenta como amigo e admirador.
Entre ele e a poeta há uma troca intensa de amabilidades. Ela se diz sua discípula, nomeia-o mestre e ele um admirador, como em 5 de julho de 1969, quando Murilo Rubião se despede com “Um abraço muito afetuoso do seu amigo e incondicional admirador” (p. 1).
Há que se perguntar o porquê desses modos de representação nas cartas. Seria uma característica do mineiro, a discrição e a timidez? Qual a necessidade de se mostrar
dessa forma? Uma posição de subalternidade? Um pedido humilde do olhar ameno e do aplauso do outro? Uma outra hipótese é o fato de ser uma correspondência entre um homem e uma mulher e, culturalmente, estas falam muito mais facilmente de seu lado pessoal que aqueles.
Nas cartas de Ana Hatherly para Murilo Rubião a escrita de si cumpre um papel preponderante, pois muito do eu é exposto, referido, comentado. Entretanto, nas de Murilo Rubião, há um eu mais contido. Algumas peculiaridades chamam atenção ao compararmos as correspondências. As de Murilo Rubião são datilografadas, algumas em papel timbrado do Minas Gerais, Suplemento Literário. São geralmente apenas uma folha com seis parágrafos, no máximo. Umas poucas têm algumas palavras ou trechos manuscritos, revelando uma releitura cuidadosa do que se datilografou e preenchendo partes que poderiam causar mal entendidos ou ficar ambíguas.
As cartas de Ana Hatherly são também datilografadas, somente os cartões são manuscritos, e aquelas giram em torno de duas páginas, passam também por revisão, pois há nelas alguns traços manuscritos para separar palavras ou rabiscos que corrigem letras mal traçadas, revelando o cuidado formal com as mesmas.
Murilo Rubião é bastante contido em suas correspondências e chega mesmo em carta de 10 de outubro de 1968 a pedir desculpas pelo estilo telegráfico, pois devido a problemas de saúde que vinha enfrentando passou a semana em repouso, portanto, não pôde escrever antes. Também em carta de 26 de fevereiro de 1968, pede desculpas por demorar a responder às cartas da poeta, por seu silêncio. Pede-lhe que não o tome como desapreço, pois a cada dia que passa mais a admira e revela que tem prazer em escrever- lhe. Agradece a antologia que ela lhe enviou e escreve que, “sem querer fazer lisonja, confesso que os dois contos que mais admirei foram o seu e “O Cágado”, de Almada- Negreiros” (p. 1). Muito pouco da vida pessoal dele é colocado nas cartas, o leitor atual fica sabendo apenas que ele enfrentou problemas renais, que tinha em vista uma cirurgia e que sofreu por problemas amorosos pelo término do noivado, pois ele menciona em carta de 25 de janeiro de 1969 que “Também o coração (o outro) andou fora do lugar. E um amor primaveril não é nada bom para um homem da minha idade que, voluntariamente, aos quarenta anos, preferiu eleger como norma de vida, a solidão” (p. 1). Murilo Rubião fora noivo uma professora universitária de Histologia.
Talvez em outras correspondências Murilo Rubião tenha se exposto mais e revelado mais detalhes de sua vida pessoal. Contudo, tive acesso somente às seis cartas doadas pela escritora que se encontram no Acervo de Escritores Mineiros.
A viagem de Ana Hatherly ao Brasil foi bastante anunciada nas correspondências de ambos. Na mesma carta de 26 de fevereiro de 1968, Murilo Rubião pergunta se ela virá na primavera, entre parênteses escreve “(abril)”. E em resposta, em 6 de maço de 1968, Ana Hatherly informa-lhe que virá ao Brasil, como bolsista da Fundação Calouste Gulbenkian de Lisboa e convidada pela Universidade de Brasília para ministrar um curso sobre literatura portuguesa contemporânea. Reservará alguns dias para ficar em Belo Horizonte e “conhecer algumas pessoas, você, por exemplo”.
Já no ano anterior, em setembro de 1967, de Ouro Preto, Murilo Rubião em dois parágrafos diz que ainda não podia escrever-lhe mas receava que ela chegasse a Belo Horizonte e ele não tivesse “mandado umas linhas. Para dizer da minha admiração”. Promete escrever e adianta que já está de braços abertos, bem abertos, reforça, para recebê-la nas portas de sua cidade. E brinca “Sem a chave tradicional, coisa prosaica, sem sentido”. E em resposta, em 24 de outubro de 1967, Ana Hatherly escreve estar encantada com Murilo Rubião e com suas obras e declara-se ansiosa para ter com o contista grandes “conversas fantásticas” (referência à sua narrativa), pois a sua vinda ao Brasil estaria dependendo apenas de formalidades legais uma vez que “Já me tarda essa viagem, sinto que me faz falta”.
Entretanto, por ironia, Murilo Rubião e Ana Hatherly tiveram alguns contratempos e o encontro demorou um pouco a acontecer. Ele escreve: “Também lamentei o nosso desencontro: Belo Horizonte, Ouro Preto. O último em Brasília, que lá cheguei no dia seguinte da sua partida”. (Belo Horizonte, 10 out. 1968, p. 1) Como se vê, ele sempre viajou para os lugares que Ana Hatherly visitou no Brasil, entretanto, não conseguia estar com ela. Felizmente, em casa de Laís Corrêa de Araújo e Affonso Ávila houve um encontro dos intelectuais do Suplemento com Ana Hatherly, nesse, Murilo Rubião esteve presente como comprova a foto publicada no Suplemento (ARAÚJO, mar. 1969, p. 4).
Um assunto que é bastante abordado tanto nas cartas de Murilo Rubião quanto nas de Laís Corrêa de Araújo a Ana Hatherly é o suplemento especial dedicado à literatura nova portuguesa. Além do fato de que os números 131 e 132 terem causado problemas em Portugal, aqui no Brasil, quando de sua confecção, houve o desaparecimento de todas as fotos e desenhos dedicados aos prosadores portugueses, conforme atesta carta de 25 de janeiro de 1969, de Murilo Rubião.
Além disso, o contista demonstrou sua indignação com os comentários que houve em Portugal acerca do destaque que recebeu a poeta no número do Suplemento dedicado à literatura nova portuguesa.
Coisa de cidade pequena e não de grande metrópole. Se nele demos maior destaque aos trabalhos de Ana Hatherly não foi, absolutamente, por amizade e sim porque consideramos você um dos ficcionistas e poetas mais importantes da vanguarda portuguesa. Com relação a omissões, não nos cabe culpa alguma. Os trabalhos foram selecionados por Arnaldo Saraiva- a maior parte- e Melo e Castro. A minha parte (e de Laís Corrêa de Araújo) foi pequena, dada o meu restrito conhecimento da literatura moderna de Portugal (Belo Horizonte, 5 jul. 1969).